sábado, 12 de julho de 2008

CONFIANÇA, CHEFE, CONFIANÇA

Compramos um carro RAV 4 Toyota ano 1997. Depois de várias ligações a lojas e contatos informais em Luanda, fui a Benfica, município vizinho a Luanda. O local de venda é um terreno cercado, de chão batido, do tamanho de um campo de futebol. Ali ficam uns 500 carros parados com os vendedores à espera dos compradores. Vc chega e pergunta o preço. Eles dizem: "US$ 19 mil. A negociar". E aí você "negoceia".

Pagamos US$ 17,5 mil. Cash. Tivemos de deixar US$ 100 como prova de "compromisso". "Confiança, chefe!", dizia-me Michel, o vendedor. Em Angola ainda são poucas as pessoas que aceitam transferência para a conta corrente. Aliás, quase ninguém tem conta em banco. O processo de bancarização está no começo.

Tivemos de ir ao banco na hora do almoço para sacar o dinheiro. Dois bolos enormes de notas de US$ 100. Coloquei naqueles cintos de dinheiro colados à cintura que usamos em viagem ao exterior, por baixo da calça. Deixamos o motorista na porta com o carro ligado.

Michel disse que ia levar o carro ao meio-dia. Não apareceu. Depois, prometeu aparecer às 14h. Não apareceu. Chegou às 17h. E, claro, com várias coisas faltando: o rádio não funciona, não levou uma tal chave secreta do estepe. E adivinhe? O carro chegou sem os dois espelhos retrovisores. O vendedor disse que foram roubados na frente da conservatória (como eles chamam os cartórios aqui) enquanto ele foi registrar o documento de transferência do veículo. Sabe o que ele fez? Tirou os espelhos do carro do colega que foi junto para levá-lo de volta e colocou no nosso.

Bom. Aí descobrimos que faltava a cópia da carteira de identidade do dono do veículo. Como íamos colocar US$ 17,5 mil na mão do Michel sem saber se ele apareceria no dia seguinte para levar a tal cópia?

Depois de muita conversa, e de ouvir o Michel repetir o tempo todo “confiança, chefe, confiança (imagine um sotaque angolano)", resolvemos que só pagaríamos a metade. O resto do dinheiro apenas no dia seguinte, quando ele resolvesse as pendências.

Michel aceitou na hora. Chegou a dizer: "Pode dar só US$ 500. Confiança, chefe, confiança (sotaque angolano)".

Colocamos o carro pra dentro do prédio para eu poder entregar US$ 8,5 mil ao Michel. Entreguei o dinheiro e pedi para ele conferir. No meio do maço de notas de US$ 100 que havíamos ACABADO de sacar do banco, Michel descobre uma nota falsa...

Veredito do Michel sobre a nota de US$ 100 falsa (imagine sempre um sotaque angolano, senão não funciona): "Às vezes são mesmo os funcionários. Colocam nota falsa no meio do bolo quando alguém vai sacar quantidade."

Bom, estamos com o carro. Mas ainda precisamos mandar soldar travas metálicas nos retrovisores, faróis e faroletes para impedir que sejam roubados. Essas peças são os maiores objetos do desejo dos meliantes angolanos.

Também descobri que os dois amortecedores da frente estão detonados. Teremos de trocá-los. Pelo que já levantei de preços informalmente, US$ 350 pelos amortecedores mais uns US$ 200 de mão-de-obra.

Confiança, chefe, confiança!

1 comentários:

Ademar disse...

Quando eu estive em Angola, roubaram os espelhos dos meus retrovisores... Pra não ficar sem espelhos naquele trânsito caótico, usei a criatividade: http://www.ademar.org/fotos/angola/img_0729.html

Abraço!