EU - Você chegou a Luanda com que idade?
ANGOLANO COMUM (AC) – Com 12 anos. Eu era muito criança. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Éramos só dois irmãos. Agora somos muitos. Somos sete.
EU – E começou a trabalhar com quantos anos?
AC – Comecei a trabalhar com 15 anos numa empresa de construção militar, que faz pontes.
EU – E com 18 anos foi para a tropa?
AC – Sim. Todo mundo que trabalhava nessa empresa ia para a tropa quando completava 18 anos. Fiz treinamento militar aqui na Barra do Kwanza. Três meses. Aprendi a atirar, rastejar, primeiros socorros, acampamento na selva, no rio. Muita coisa.
EU – E depois daqui foi pra onde?
AC – A primeira área foi no Kunene, em 1988. Eu tinha 19 anos quando participei do primeiro combate. Dei tiro, mas não levei nenhum. Colegas levaram tiro, ficaram feridos, outros morreram.
EU – Vocês atacaram ou foram atacados?
AC – Foi em defesa. Fomos atacados. Estávamos na selva. Naquela altura, quem estava no Kunene eram os sul-africanos. Vieram pela Namíbia, com aviação.
EU – Quanto tempo durou esse primeiro combate?
AC – Foi à noite. Estávamos acampados. Começou às 4h da manhã e só terminou às 6h.
EU – Quantos soldados havia na sua tropa?
AC – Dois mil, quinhentos e tal. Não faço idéia de quantos morreram no ataque aéreo, mas morreram muitos. Fomos nos esconder. Já tinham informação de que estávamos lá. Eu estava dormindo naquela altura. Ouvi barulho, gritaria e acordamos. Muitos fugiram. Foi uma surpresa. Pra mim foi a primeira vez. Foi um susto mesmo muito grande.
EU – Teve vontade de ir embora?
AC – Sim, eu chorava. Foi difícil.
EU – E eram todos muito jovens?
AC – Éramos todos jovens. Mas logo depois fomos nos acostumando, depois de algumas semanas.
EU – E qual foi o seu primeiro combate?
AC – Foi um ataque que fizemos. Sabíamos onde estávamos e fomos atrás deles. Era a Unita. Mas não conseguimos. Fomos corridos porque a Unita estava com carros de combate Búfalo e tivemos de recuar.
EU – E você já atirou em alguém? Já matou alguém?
AC – Já dei tiros, mas não sei se matei. É difícil saber. De onde atiram contra você, você também atira lá. Se páram de atirar é porque ou você atingiu alguém ou ele fugiu. A guerra é muito cruel.
EU – E você saiu da tropa em que ano?
AC – Em 1995. A guerra ainda estava. Depois ficou mais forte. Porque depois a guerra já foi na cidade. Veio para a cidade.
EU – E você chegou a combater em Luanda?
AC – Em 1992 eu já não estava na tropa. Pediram aos mais antigos que voltassem, mas eu não voltei. Muitos morreram. Eu saí em 1995 porque sofri um acidente de carro.
EU – E o governo pagou alguma indenização?
AC – Nada. Agora é que está a pagar. Mas não está muito fácil. Tem que abrir um processo, informar onde trabalhou, quem foi seu chefe, quem foi seu comandante, onde ficaste, onde foste preparado, abrir um processo, procurar no fichário. Até encontrar os seus dados...naquela fase da guerra era muito pessoal. Normalmente quem se apresentava na tropa eles ainda tinham os dados, mas quem era pego nas províncias, pelo caminho onde passavam, não tinham dados.
EU – As tropas iam pelas províncias e recrutavam os jovens que encontravam pelo caminho?
AC – Às vezes parávamos aqui, dormíamos aqui e às 4h da madrugada íamos lá na cidade recolher todos os jovens.
EU – Batiam na porta das casas?
AC – Batiam nas portas. E levavam todos os jovens.
EU – Devia ser um desespero. Todo mundo chorando...
AC – Todo mundo a chorar. Os pais a chorar.
EU – E tinha que ir.
AC – Tinha que ir.
EU – E se alguém se recusasse? Ia preso?
AC - Eles matavam mesmo naquela altura.
EU – Matavam?
AC – Matavam quem não queria ir. Se não quer ir, mata. Diziam que era da Unita. E ninguém
queria ir para a tropa porque ia morrer. Mas quem não estava com as tropas do governo estava contra o govenro.
EU – E aí você teve o acidente de carro?
AC – Um colega dirigia e fomos atacados. Naquela de fugir, entramos num buraco. Mas só nos ferimos. Ninguém morreu.
EU – E qual a sua expectativa em relação às eleições?
AC – A guerra é impossível. É impossível voltar à guerra. Ninguém mais quer isso. Agora, confusão pode haver.
EU – Que tipo de confusão? As pessoas têm medo do que pode acontecer?
AC – Sim, as pessoas têm medo do que pode acontecer porque já aconteceu em 1992. As pessoas votaram com aquele prazer enorme, a guerra acabou, acabou. Vamos votar para escolher quem vai governar, escolhemos. No fim, muitas pessoas morreram, o próprio público que votou. De 1992 até 2000 morreu mais gente do que na guerra passada. Porque era guerra na cidade. As pessoas tiveram que fugir, abandonar as províncias todas e tiveram de vir morar aqui em Luanda. Naquela época, de Viana até Catete já não se podia ir porque era mato. Se ia lá, alguém te apanhava. Era a Unita ou a tropa do governo. Quer dizer, a Unita passa ali e mata o povo. A tropa do governo passa ali e mata o povo porque, se estava no mato, era gente da Unita. Não tinha para onde ir. Então a população teve de vir para Luanda. Por isso é que Luanda inchou muito. Não havia guerra. Depois houve combate aqui, mas durou só dois dias. Mataram o pessoal da Unita e o resto conseguiu fugir.
EU – Como mataram o Savimbi?
AC – O Savimbi...é uma história um bocadinho difícil contar como ele foi morto. Ele era bastante perseguido, bastante perseguido. Ia para o Zaire, para o Congo. Ia para onde conseguia ir. Zâmbia, Zimbábue. Para o Congo já não ia porque o presidente do Congo é amigo do presidente angolano.
EU – Os soldados do Congo também iam atrás do Savimbi.
AC – Sim, havia soldado de todo lado à procura do Savimbi. Vinha soldado do Congo para cá. Vinha soldado da Zâmbia pra cá à procura do Savimbi. E muita troca de informação. Depois os tropas dele também já viviam mal, passavam fome. Não tinham roupa, não tinham armamento, começaram a desertar.
EU – Houve traição...
AC – Alguém traiu sim. Foi morto aqui em Angola, em Luena. É próximo da Zâmbia. Fronteira com a Zâmbia. Acharam o local onde ele estava e mataram.
EU – Na mata?
AC – Sim, na mata. Estava em guerra. E ele foi traído porque ele tinha uma bota diferente de todos. Aquela bota ninguém tinha, só ele que tinha. Essa parte de trás fica pra frente. É virada. Quando ele pisa aqui, a bota indica que ele foi para o lado contrário.
EU – A sola da bota deixava a pegada no sentido contrário ao do passo?
AC – Sim. Ninguém sabia. O único general dele que sabia, que desertou da Unita, veio aqui em Luanda e deu essa informação ao governo. Quando viam uma tropa indo para um lado e a pegada de só uma pessoa indo para o outro lado, sabiam que o Savimbi estava naquela tropa. Foi assim que conseguiram apanhá-lo.
EU – E quando mataram o Savimbi? Trouxeram o corpo para Luanda?
AC – Não, o corpo ficou em Luena. A televisão mostrou a imagem dele morto, os sítios por onde entraram os tiros. Queriam trazer o corpo aqui em Luanda, mas o povo de Luena não deixou. O povo de Luena foi um povo que sofreu muito nesta guerra. O Savimbi martirizou muito aquela província. Então o povo quis queimar o corpo.
EU – O Savimbi era originário de qual província?
AC – Do Kuíto. Mas a província onde ele nasceu foi onde ele martirizou, onde matou mais gente.
EU – Maltratou o povo da própria província.
AC – Da própria província.
EU – E ele falava vários idiomas.
AC – Falava português, inglês, francês. Temos muitas línguas nacionais. Ele falava todas.
EU – Ele era carismático? Conseguia mobilizar as massas?
AC – Ele até não conseguia mobilizar as massas. Levava as massas à força. E o que ele fazia? Ele levava as pessoas à força. Punha num sítio. E cada um deles era guarda do outro. Se um fugisse, ele matava o que não tomou conta. Ele fazia isso. Quer dizer, se você quisesse fugir, não podia me dizer, porque se me dissesse, eu tinha de contar pra ele. Foi assim que ele conseguiu. Ele espalhou a desconfiança entre todo mundo. Ninguém confiava em ninguém. Foi assim que ele conseguiu fazer essa guerra esse tempo todo. Ele mandava um general dele combater numa determinada província. Tem de ocupar aquela província porque é ponto estratégico dele. Tem de combater e ocupar mesmo. Se combateres e não conseguires ocupar, então ele te manda chamar. Manda te chamar para te matar porque você não conseguiu. E se você fugir ele prende a sua família. E mata a família mesmo. Prende a mulher, prende os filhos. Mata mesmo.
Se voltar a guerra, sei lá como esse povo vai ficar. O povo até agora está assustado.
Egypt: Life Imprisonment for Mubarak
48 minutos atrás

2 comentários:
Relato impressionante,retrato vivo da África que teima em se manter nesse atraso econômico e cultural,fruto perene da dominação colonial pelo Ocidente...e as armas que alimentaram a guerra,de onde vieram
Parabéns...JB
são essas conversas que nos mostram a nossa distância da realidade angolana. Todos os relatos do mundo não chegam para entendermos
a relação que eles têm com a violência, a morte e a guerra.
Coisas que nenhum Banco Mundial, ONG ou Governo podem numerizar, raciocinar e digitalizar.
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