terça-feira, 29 de julho de 2008

COZINHAS ITATIAIA

Sim, elas também estão presentes em Angola. Quem achava que só o feliz ganhador do Baú da Felicidade (com o carnê em dia, é claro) poderia levar para casa um lindo armário de cozinha Itatiaia de três portas e ter o prêmio entregue ao som da inconfundível voz do Lombardi está enganado. Em Angola quem ganha não é a carta, mas sim quem tem muitos kwanzas no bolso. Pois os armários podem ser encontrados nas lojas de fino gosto de Luanda.

Vamos aos fatos. Ou melhor. Voltemos um pouco no tempo. É assim: nossa mudança ainda está no porto de Luanda. Precisamos de um armário para colocar os mantimentos enquanto a situação não se normaliza.

Primeiro fui ao Superáfrica, uma espécie de TOK STOK. Entro na loja e não vejo nenhum armário de cozinha. Descubro uma vendedora lá no fundo. Pergunto pelos armários de cozinha.

EU – Vocês vendem armários de cozinha?

VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não percebo.

EU – Vocês vendem armários de cozinha?

VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não.

EU – Não tem?

VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não.

EU (dando meia volta para ir embora) – Obrigado.

VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Armários de cozinha...? Espera...lá no fundo, naquela parede preta-e-branca. Depois vira à direta e vai até o fundo. Depois, à esquerda.

Faço o trajeto. Parede preta-e-branca, direita até o fundo, esquerda.

Incrível: uma seção inteira de armários de cozinha.

Espero a vendedora terminar de atender um cliente.

EU – Quanto é o armário?

VENDEDORA – US$ 670 o metro linear.

Aí tem golpe. Metro linear? Ela poderia ter dito apenas US$ 670 o metro, mas disse US$ 670 o metro linear para eu achar que é um metro maior, tipo um metro e meio, mais caro.

EU (fazendo cara de carpinteiro entendido em metros lineares) – E este outro?

VENDEDORA – US$ 740 o metro linear.

EU (cara de marceneiro formado pelo Senai) – Só tem dessa cor?

VENDEDORA – Não, temos outras.

EU – Tem para pronta-entrega?

VENDEDORA – Sim. Alguém vai tirar as medidas e instalamos em um ou dois dias.

EU – Qual o horário de funcionamento no sábado?

VENDEDORA – Das 8h30 às 13h.

EU – Depois eu volto com a minha mulher. Obrigado.

Sorridente, a vendedora faz que vai me acompanhar até a saída quando encontra outra funcionária da loja, que lhe entrega um corte de tecido bem verde para fazer uma roupa.

VENDEDORA (com um olhar na minha direção de quem busca cumplicidade) – Ai, com esse verde vou parecer capim. Assim os bodes vão querer me comer...

EU (em fuga estratégica daquele pedaço de relva ambulante e saliente) - Não me parece de todo ruim...

Fujo da loja. Do lado de fora, sou cercado por vendedores com catálogos dos mesmos móveis vendidos no Superáfrica quando tento entrar no carro.

VENDEDOR (quase esfregando o catálogo em mim) – Chefe, chefe, olha, por favor, olha, mesmos móveis, mais barato.

Entro no carro e fecho a porta. Lá de dentro ainda ouço o vendedor a me chamar “chefe, chefe, chefe, mesmos móveis, mais barato..”

Achamos esse metro linear muito caro, mas pela falta de opção já cogitávamos pagar US$ 1.340 (50.250 kwanzas) por dois metros lineares.

Dois dias depois, no sábado, voltando de Luanda Sul, passamos em frente a uma loja de móveis de cozinha. Demos meia-volta e entramos.

O paraíso dos armários de cozinha. Linha Itatiaia completa. Começo a ouvir a voz do Lombardi.

Nas cozinhas-modelo para seduzir as donas-de-casa, armários de várias cores. Meu amor, sempre decidida, escolhe logo um branco, para combinar com os que trouxemos e ainda repousam num contêiner no porto de Luanda.

O armário é metálico e tem três portas. No total, 1,10m de comprimento. A gloriosa Itatiaia fala o nosso idioma. Nada de metro linear. Compramos dois. Total: 2,20m e US$ 600. Uma pechincha. E ainda entregam e montam...

Como não tínhamos dinheiro suficiente (e lá não aceitam cartão de crédito nem de débito), tive de voltar na segunda. Fiz a compra. A entrega ficou para o dia seguinte pela manhã.

TERÇA-FEIRA - Passo a manhã em casa, ouvidos atentos (não temos campainha no portão) ao som de um caminhão a estacionar na rua. São 13h20 e o caminhão chega. Os entregadores deixam duas embalagens plásticas com os armários desmontados na cozinha.

EU – Vocês não vão montar?

ENTREGADOR – Não, o montador vem daqui a pouco. Está a terminar um serviço em outro lugar e já chega.

EU – Mas vem mesmo?

ENTREGADOR – Sim, ele vem. Já está a chegar.

17h. Ligo para a vendedora Vanda, que me atendeu na loja.

EU – Vanda, os montadores ainda não chegaram.

VANDA – Mas nós nunca montamos os armários no mesmo dia.

EU – Mas o entregador disse que o montador já estava vindo.

VANDA – Não percebo.

EU – Mas o entregador disse que o montador já ESTAVA A VIR...

VANDA – Ah, pois, não, nós nunca montamos os armários no mesmo dia. Mas amanhã vou falar para eles se arrancarem daqui logo cedo. Até às 10h eles chegam.

QUARTA-FEIRA – 9h. Jamil, o montador, me liga da loja.

JAMIL – Senhor A.?

EU – Sim.

JAMIL – É o montador do armário. Gostaria de saber se posso ir montar o armário e se o senhor poderia me passar o endereço.

EU – Sim, por favor, venha...sim, posso dar o endereço.

Dou o endereço. Quer dizer, explico onde moro. Ninguém aqui se guia pelos endereços. Quando quer explicar um local a alguém, você tem de usar pontos de referências do tipo: sabe a rua da igreja Sagrada Família? Pois vá em direção à rua da Assembléia. Vai passar o prédio do Livro (um prédio grande em forma de livro aberto), depois o prédio da Unitel. É nessa rua.

Jamil e um ajudante chegam às 13h. Se perderam. Foram lá para o largo da Maianga. É perto daqui, mas não é aqui.

EU – Mas eu não te expliquei onde era?

JAMIL – Não foi comigo que o senhor falou. Me explicaram errado.

Jamil abre a embalagem do primeiro armário e começa a montá-lo. Abre a embalagem do segundo armário e...estão faltando TODOS os parafusos.

Ligo para a loja. O dono é brasileiro. Pede desculpas, pede para ver se não falta mais nada e pede para falar com Jamil.

JAMIL – Chefe, não vieram os parafusos. Alguém abriu a embalagem e tirou os parafusos.

CHEFE DO JAMIL (só ouço ruído de voz abafada)

JAMIL – É aquele armário que estava mesmo no canto, tiraram as peças e não meteram outras no lugar.

CHEFE DO JAMIL (só ouço ruído de voz abafada)

JAMIL – Sim, só falta isso, chefe. OK.

Jamil e o colega vão embora e prometem voltar no dia seguinte pela manhã.

QUINTA-FEIRA – 9h – Estou à espera de Jamil com um armário desmontado na cozinha e outro ainda na embalagem. 10h50 chega o Jamil. Termina de montar o primeiro armário. Observo algo estranho.

EU – Jamil, o segundo armário também não tinha de ter essa canaleta para sustentar a segunda porta?

JAMIL (mudo, começa a revirar a embalagem do segundo armário)

Incrível. Está faltando a canaleta para sustentar a segunda porta do armário.

Enquanto ligo para o brasileiro dono da loja, Jamil fica pálido.

JAMIL (antecipando a bronca que levaria) – E ontem o chefe me pediu para ver se não faltava mais nada...

Falo com o dono da loja e passo para o Jamil.

JAMIL – Chefe, já está toda a estrutura montada. Falta mesmo é a canaleta, chefe. Esse era aquele armário que estava separado, chefe. Tiraram as peças e não meteram outras no lugar, chefe.

Jamil silencia. Do outro lado, alguém mais entra na linha.

JAMIL – Cubano? Cubano, é a canaleta do armário. Tás a ver? A canaleta, cubano. A canaleta. Separa a canaleta.

Jamil desliga.

EU – E agora?

JAMIL – Vou lá buscar, chefe. Estou de volta às 12h.

EU – Mas são 11h10. Você não vai ir e voltar de Luanda Sul até as 12h.

JAMIL – Xii, é mesmo. Mas eu volto, eu volto.

Os armários serão instalados em cima da pia da cozinha. Temo que a furadeira arrebente algum cano.

Quando Jamil faz as marcações na parede com a chave de fenda, ouvimos um som oco. Será que tem um cano?

JAMIL – É possível, chefe. Mas são só três furos que vou fazer na parede, chefe.

EU – Eu sei, mas basta um cano no caminho para termos um desastre.

Jamil começa a furar. A furadeira geme. Jamil faz o primeiro furo. Faz o segundo furo. Faz o terceiro furo. Nenhum cano furado. Jamil olha para mim e diz:

JAMIL – Graças a Deus, chefe!

Antes de Jamil sair para buscar a canaleta, peço para ele usar a furadeira da loja e instalar um porta-toalhas no banheiro do quarto. Jamil sobe e diz que a broca é muito grossa. Vai trazer uma mais fina quando voltar.

Nada de Jamil voltar. Saio para o almoço. Quando volto ele já está à espera. Armário da cozinha montado. Vamos furar a parede.

Ele pega o suporte dos parafusos e marca com caneta bic o local onde deve fazer os furos. Coloca o suporte no outro lado.

EU – Jamil, os furos do suporte são iguais desse lado?

JAMIL – Sim, chefe. São iguais.

Jamil marca e começa a furar. A broca entorta.

JAMIL – Minha broca...

Empresto o martelo e vamos para a parte da frente da casa. Ele bate, a broca volta ao estado original e retomamos o trabalho. Jamil faz os furos no primeiro suporte, coloca as buchas na parede e prende o suporte. Faz os furos para o segundo suporte. Quando vai afixar o suporte, pára e dá dois socos na própria cabeça.

EU – Que foi, Jamil?

JAMIL – Os furos. Esse suporte é diferente.

EU – E eu ainda te perguntei...

Resultado: Jamil acaba tendo de fazer quatro furos onde deveria ter feito apenas dois.

Finalmente colocamos o suporte para toalhas. Descemos.

EU – Jamil, quanto você vai me cobrar pelo serviço.

JAMIL (olhinhos angolanos brilhando e sorriso aberto) – O chefe diz o preço...

Como não tenho idéia do preço dessas coisas, tinha colocado uma nota de 500 kwanzas (US$ 6,6) num bolso e uma de 1.000 kwanzas (US$ 13,3) no outro bolso. Nunca coloque muito dinheiro junto. Se virem que você tem mais, vão cobrar mais.

EU – Pensei em 500 kwanzas.

JAMIL – 500 kwanzas?? Não, é muito pouco.

EU – Quanto é que você estava pensando em cobrar?

JAMIL – Dá-me 1.000 kwanzas.

EU – 1.000 kwanzas? O motorista trabalha o dia inteiro e não ganha isso.

JAMIL – Mas tenho que pagar o táxi (candonga).

EU – Mas você veio aqui pela empresa, que é quem está pagando o táxi.

JAMIL – Mas eu tive de voltar aqui, chefe. Fiquei a esperar o chefe voltar do almoço.

EU – Voltou porque você não trouxe todos os equipamentos.

JAMIL – Então me dá o que o chefe quiser...

EU – Toma, 500 kwanzas.

JAMIL (pegando a nota de 500 kwanzas, sorriso no rosto) – Está bem, mas da próxima vez te vou a fugir.

Jamil quis dizer que, se alguma vez eu tentar contratá-lo para outro serviço, ele não vai aceitar.

Quatro dias, 500 kwanzas e um Jamil insatisfeito depois, temos os armários Itatiaia de US$ 600 na cozinha e o porta-toalhas instalado no banheiro do quarto.

3 comentários:

AP disse...

Grande aventura!!!!! Só mesmo aqui... Quem não tem uma destas para contar?

achebe disse...

eu esto a poco tempo em luanda e procuro cozinha...por favor pode me dar o indereço(ou seja, direcao) da tal loja onde compro a sua cozinha...muito obrigada

Anônimo disse...

Podes me da o endereco dessa loja onde compro os itatiais????? Por favor , meu imail cris_acessoriasp@hotmail.com