Furtar um espelho retrovisor é coisa simples. Mete-se uma chave de fenda ou algum objeto pontiagudo entre o espelho e a estrutura que o sustenta e pronto. Ele sai com grande facilidade. Em questão de segundos. Encontrar os espelhos no lugar quando deixamos o carro estacionado é uma loteria às avessas.
O furto de retrovisores, pois, criou dois mercados bastante lucrativos.
Mercado 1: o comércio de espelhos retrovisores furtados. Como nas ruas de Luanda compra-se praticamente de tudo, lá também estão os retrovisores. Jovens circulam entre os carros engarrafados oferecendo diversos modelos de espelhos.
Já ouvi relatos de que os seguranças (perdão, o SENHOR PROTEÇÃO) de casas e prédios fazem parte do esquema. Quando alguém não quer pagar uma gasosa para eles ficarem de olho nos carros, indicam aos miúdos (como chamam os garotos) quais devem ser furtados. E ouvi mais: não é raro o motorista comprar o próprio retrovisor furtado.
Mercado 2: barras metálicas protetoras.
É assim: em determinados bairros da cidade encontramos pessoas que instalam duas pequenas barras metálicas nos retrovisores, de forma a impedir que sejam retirados pelos gatunos.
Na semana passada foi minha vez de aderir ao serviço. Não quero virar estatística na mão dos gatunos.
Esse pessoal (em geral adolescentes) que instala as barras protetoras circula pela cidade inteira, mas não é tão simples identificá-los. Às vezes estamos com o carro estacionado e eles surgem do nada. Colocam a peça metálica em frente ao retrovisor para mostrar como vai ficar e emendam um discurso de que vão levar os espelhos se não fizermos a instalação. Noutras vezes precisamos da ajuda de uma pessoa da terra para nos apontar quem são eles no meio da multidão de vendedores. Há quem diga que são eles mesmos que furtam os espelhos, mas não posso acreditar numa coisa dessas...
O preço. Sim, o preço do serviço. Os motoristas me diziam que, na cidade de Luanda, cobram muito caro. Cartel mesmo: não se consegue gripar ou meter os ferros (expressão que eles usam para o ato de instalar as barras metálicas) nos retrovisores por menos de 3 mil kwanzas (US$ 40 ou R$ 68).
E meter os ferros é, aparentemente, simples. Não leva mais de cinco minutos. É assim: com uma furadeira manual, movida à manivela, eles fazem duas perfurações (uma em cima e outra embaixo) na peça plástica onde ficam os retrovisores. Tiram do bolso as barras metálicas (que já vêm com um furo), encaixam o rebite (arrebite?? Sei lá) e pronto. Estamos salvos.
Com o preço de 3 mil kwanzas em mente, não poderia pagar mais. Um dia estava dirigindo e vi um sujeito colocando as barras metálicas num carro estacionado na rua. Buzinei e ele se aproximou, mas o sinal abriu e só consegui pegar o número do terminal (como eles chamam os telemóveis, ou móveis ou os nossos celulares) dele. Dadinho era o nome da figura.
Eu já estava me sentindo o tal. Dirigindo meu RAV-4 ano 1997 pelas ruas de Luanda e negociando com os caras em pleno trânsito como se fosse um local, totalmente confundido com os angolanos.
Quando liguei mais tarde para saber o preço, Dadinho queria me cobrar 12 mil kwanzas (US$ 160 ou R$ 272) para colocar as barras nos retrovisores e nos faróis (sim, também levam os faróis – que depois são vendidos nas ruas). Agradeci e pedi ajuda ao motorista.
Lá fomos ao Golfe, um bairro popular na periferia de Luanda que na época colonial era habitado por funcionários públicos portugueses. Algumas casas ainda mantêm a arquitetura daquele período. Hoje são ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, gente demais, candongas demais e poeira demais.
Depois de meia hora avançando rumo a uma Angola profunda, encontramos dois garotos que metem os ferros. O motorista buzina e encosta. Abaixo o vidro da janela e eles se aproximam.

Numa falha de reportagem imperdoável, só perguntei o nome de um dos miúdos: Jaime (à esquerda).
Seu Mendes, o motorista, assume a operação. E travam o seguinte diálogo:
JAIME – Paizinho...
SEU MENDES – Quanto é pá?
JAIME (tendo de dar um preço para um são-tomense que dirigia para um branco – FATOR ESTRANGEIRO= 500 KWANZAS) – Dois mil e quinhentos.
SEU MENDES – É quê, pá? Meti os ferros por 1.000 kwanzas na semana passada.
Seu Mendes começa a acelerar o carro para ir em busca de outras ofertas. Nisso, o outro miúdo, provavelmente o sócio de Jaime (os dois aparentam cerca de 16 anos), interfere:
MIÚDO SEM NOME – Papá, espera.
SEU MENDES – Fala mais, fala mais (expressão que Seu Mendes usa o tempo todo para pedir um preço mais baixo nas barganhas que também adora fazer pela cidade).
JAIME – 1.500 kwanzas.
EU – 1.000 kwanzas. Só dou 1.000 kwanzas (US$ 13 ou R$ 22,6).
Fechamos o negócio e os miúdos começam a operação. Quando estão para terminar no retrovisor do lado do motorista, aparece um terceiro adolescente a dizer que eles não sabem trabalhar direito. O miúdo sem nome reage.
MIÚDO SEM NOME – Sai daqui. Te parto a cabeça (eles adoram usar essa expressão. Mas não funciona se não imaginarem o sotaque angolano).
Nisso o carro é cercado por vendedores ambulantes. Um deles vem com uma lata de spray preto na mão. Quer lançar um jato nos rebites (arrebites?) para a cabeça do parafuso ficar da mesma cor do plástico do retrovisor.
MIÚDO DO SPRAY – Vai ficar buníítu (acho que o sotaque angolano é mais ou menos assim. E se não conseguirem imaginar o sotaque angolano também não funciona).
Seu Mendes despacha o garoto. Mas esse miúdo é um empreendedor nato. Vejam só: ele fica na cola de quem instala os ferros de proteção nos retrovisores. Espera de longe e só aparece no momento final para lançar uma rajada de spray preto. Numa outra falha de reportagem imperdoável, não perguntei quanto ele cobra pelo jato de spray.
Pago os 1.000 kwanzas aos garotos.
Seu Mendes negocia a frente de um rádio (o meu está no porta-luvas). O sujeito começa pedindo US$ 160. Seu Mendes ouve o preço e diz:
SEU MENDES – Fala mais, fala mais!
O vendedor reduz o preço para US$ 40. Seu Mendes aceita. O vendedor diz que vai buscar o rádio e sai. Seu Mendes liga o motor do carro.
SEU MENDES – Vamos porque é capaz dele voltar e aí vamos ter de comprar o rádio.
Seu Mendes coloca o carro no meio das candongas. O vendedor nem olha.
SEU MENDES – Tás a ver? Ele não vem. Por esse preço ele não vende.
Vamos embora. Nosso RAV-4 ano 1997 já circula pelas ruas de Luanda com barras de ferro protetoras nos espelhos retrovisores (que vocês podem checar no detalhe da foto).

4 comentários:
Júnior,
Parabéns pelo Blog, está muito bom mesmo! Abri o link e li tudo de uma vez.
Por favor, continue escrevendo para que tenhamos idéia de como vão levando a vida por aí.
Beijos para Fabiana,
Grande abraço,
Jean
Já pensou se a moda pega por aqui? Por falar em absurdos, tem "flanelinha" aqui colocando cones em vagas de estacionamento. Pois é: demarcação de vagas (em local de difícil estacionamento, já deve ter motorista combinando com o "flanelinha" a hora que vai passar pra estacionar). Uma afronta! Ah,treina este sotaque angolano pra vc falar pra gente. Meu abraço.
Essa do cone (que aqui se chama polícia pequenina) é comum aqui, Fátima. Várias casas colocam na frente para guardar a vaga, já que os angolanos ricos têm muitos carros que nem cabem na garagens.
Queria encomendar um par desses produtos de alta tecnologia para instalar no meu morcegão.
Quando vocês vierem em setembro;mas,fala mais,fala mais,só pago 200 kuanzas.
Valeu,Jr....é outro mundo,mas parece um de que ouvi falar...do outro lado do oceano
JB
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