Outro dia pularam o muro lá de casa. Primeira semana na nova casa. Eu estava na sala, escrevendo no computador, quando vi o vulto pela janela. Pulou o muro do vizinho, passou pelo telhado do banheiro (sim, temos um banheiro na garagem) pisou no gerador (que estava funcionando porque moramos na parte de Luanda que estava sem energia) e subiu para a marquise que separa o térreo do primeiro andar. Momentos de pânico. Subo para o andar de cima e, pela janela, vejo alguém rastejando pela marquise. Tento abrir a janela (ainda me pergunto o porquê dessa reação maravilhosa) para afugentá-lo. Não consigo.
Vejo o sujeito chegar à beirada da marquise, pular de novo para o telhado do banheiro. Desço as escadas, mas ele já se foi. Saio de casa. Quando abro o portão, dou de cara com o vizinho (que também é o proprietário do imóvel que alugamos), que apareceu para entregar um molho de chaves da casa que ele havia esquecido.
Pergunto se ele viu alguém pular o muro. Ele diz que não. Nesse momento, surge da casa em frente um garoto com uma camisa vermelha (a mesma cor que o sujeito que entrou em casa usava). Vamos lá tomar satisfações. Ele nega. Diz que estava dormindo, que acabou de acordar, que havia percebido a falta de energia, que havia acabado de acender o “candeeiro” e que saíra de casa para olhar o movimento da rua.
Não vi o rosto do invasor, e, apesar da camisa vermelha ser prova suficiente para mim de que era ele a pular o muro, concedi-lhe o benefício da dúvida.
Ele provavelmente entrou em casa para pegar as tais maçãs da Índia, umas frutas pequeninas e ácidas que caem da árvore do vizinho no chão da garagem e na marquise de casa. Essas maçãs da Índia levam as pessoas à loucura. Provei uma e não gostei. Lembra aquelas maçãs massudas, que você morde e não tem caldo. Mas o povo adora.
Como a casa que alugamos estava fechada havia um ano, Pedro e Dembo (os senhores Proteção que tomam conta da casa do vizinho dono da nossa casa) usavam o banheiro construído na garagem e controlavam o portão. Deixavam os miúdos (como chamam as crianças aqui) entrar para recolher as maçãs que caem na garagem (e elas caem todo dia o dia todo).
Resumindo: nossa mudança para a casa acabou com o banheiro privativo dos senhores Proteção Pedro e Dembo e com a farra das maçãs da Índia. Por isso de vez em quando compro para eles um sandes, sanduíche de queijo e fiambre num pão delicioso chamado Carcaça. Eles adoram. De vez em quando também ofereço uma coca-cola. Eles nunca comem na hora. Abrem um sorriso, pegam o pacote com o sanduíche e a gasosa (como chamam os refrigerantes por aqui) e guardam no carro estacionado em frente ao vizinho e que serve de dormitório para eles.
Ainda não presenciei, mas tenho certeza que devem ter um ritual. Devem deitar o banco do carro, procurar uma estação de rádio em que o Paulo Flores (calma, em breve escreverei sobre ele) esteja cantando um Semba e, só então, vão saborear o sandes.
Egypt: Life Imprisonment for Mubarak
50 minutos atrás

3 comentários:
Júnior,
pelas histórias que vc está contando vai ser difícil eu te visitar aí...
Quando chega o circuito Elizabeth Arden???
bj
Cris
Ou então levam as saduiches para casa. Conheço quem tenha imposto a regra de oferecer o mata-bicho aos trabalhadores para que eles não trabalhassem com fome... eles levavam-no para casa e continuavam a trabalhar com fome.
Continue com a suas histórias!
Qual a possibilidade de você deixar estes meninos irem lá comer as maçãs massudas? Política de boa vizinhança. :D
Melhor gente conhecida por aí do que desconhecida.
Estabelece limites!
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