quinta-feira, 24 de julho de 2008

A FILHA DE NELY

Nely voltou do trabalho e encontrou a filha de 1 ano e sete meses com febre. Ligou para o ex-marido, que vive com a primeira mulher e com quem Nely voltou a namorar, para pedir ajuda. O ex-marido-namorado culpou Nely pelo estado de saúde da filha e disse que não ajudaria em nada.

Nely mora num quarto nos fundos de uma casa. Quando sai para trabalhar, deixa a filha com uma moça de 22 anos, a quem paga US$ 50 mensais. A moça é órfã da guerra civil de Angola. Foi adotada pela família dona da casa quando, ainda criança, vagava pelas ruas de Luanda.
A moça começou a estudar. Quando dá a hora da aula, deixa a filha de Nely sozinha no quintal.

Os donos da casa não querem que a moça tome conta da criança. Ontem, Nely chegou a casa e encontrou a filha toda suja de fezes. A moça já havia ido para a escola e ninguém quis limpar a filha de Nely.

A filha de Nely está aprendendo a falar. As únicas expressões que a ouvimos dizer são “filho da puta” e “caralho”, que a menina escuta o dia inteiro no quintal da casa em que mora. Toda vez que a filha de Nely repete os palavrões, apanha de Nely. A garota passa o dia chorando.

Nely precisa colocar a filha numa creche. O ex-marido-namorado quer a guarda da filha e diz que não vai pagar a creche. “Ninguém vai meter a mão no meu bolso”, rosnou quando Nely pediu ajuda.

NELY – Vou acabar mesmo dando a minha filha, assim páram de me encher.

Em Angola há dias de cortar o coração.

1 comentários:

F. disse...

realmente, A. esses dramas invadem as nossas vidas e não sabemos como lidar com eles.