A mudança acabou. Dois dias, quatro caminhões e oito carregadores perambulando pela casa depois, terminamos com o seguinte saldo negativo: duas garrafas de cachaça quebradas, o vidro de um pôster do filme Manhattan quebrado, a quina da cantoneira onde fica o aparelho de televisão do quarto de cima detonada, o pé da estante principal da sala (onde ficará a TV, o home theater etc.) quebrado. Sem falar nas marcas de mão e de solas de sapato pelas paredes.
A caixa de número 31, com livros, ficou desaparecida até o momento final, quando a localizamos embaixo de outras quatro caixas de livros num dos quartos.
O momento delicado da mudança foi bem no final, quando dois dos carregadores tentavam instalar os pés de um dos sofás da sala. Como cada pé tinha um encaixe diferente (tipo quebra-cabeças), eles não conseguiam parafusá-los no sofá.
Começaram a forçar os parafusos e a criar furos diferentes para encaixar os pés. Meu amor lembrou que, no Brasil, os pés ficavam paralelos à lateral do sofá. Aqui eles estavam ficando para dentro. Tiveram de desparafusar os quatro pés e fazer várias tentativas até identificarem o lugar de cada um dos pés.
E o momento mais surreal foi quando os quatro carregadores que haviam saído para fazer outra entrega voltaram para buscar os dois que haviam ficado, e para levar as caixas de papelão vazias que ocuparam quase toda a garagem da casa.
Os quatro entram na sala e rodeiam os dois que haviam ficado para desembalar a mudança e encaixar os pés do sofá.
De repente um deles começa a falar em kimbundu. Outro responde em português. Até aí, tudo bem, estou entendendo metade da conversa. O problema é que o que responde em português só fala “yá”, “sim, tem que meter os pés”, “ainda” (aqui em Angola não se diz “ainda não”. Diz-se apenas “ainda”). Imagino se estão se referindo a mim.
No momento seguinte, outros dois começam a falar em kimbundu. E a responder em kimbundu. Estão acompanhando? Já são três a falar em kimbundu.
E nada de encaixarem os pés do sofá.
Ficamos ali, naquela conversa 75% em kimbundu, 25% em português. Depois ela avança para 85% em kimbundu e 15% em português. Quando percebo, há seis carregadores angolanos parados em frente ao sofá a confabular em kimbundu. Olham, desparafusam os pés, trocam de posição e começam a gargalhar...em kimbundu. 100% de kimbundu.
No fim, os pés são colocados. Assinamos os formulários e o relatório com os danos. Eles vão embora e começamos a tarefa de acomodar o conteúdo de 227 caixas na nossa nova morada.
Mas a conversa em kimbundu ainda não me sai da cabeça. O que será que eles tanto falavam? Alguns deles, percebi, se expressavam com mais facilidade em kimbundu. Fiquei com a impressão de que não são de Luanda e o kimbundu é a primeira língua, a que eles sempre falaram em casa, com a família, com os kambas. O português veio depois, provavelmente na escola, por obrigação.
Mas ali, na sala de casa, percebi que aqueles seis angolanos eram angolanos em sua plenitude, falando o idioma dos ancestrais, aquele que se aprende por repetição, prestando atenção na fala dos pais. Não importa que o trabalho não exija muito preparo, que o salário seja baixo e pago por um branco estrangeiro.
Fiquei com vontade de aprender kimbundu.
Egypt: Life Imprisonment for Mubarak
50 minutos atrás

4 comentários:
Meu caro, tenho acompanhado diariamente, com muito interesse, as suas peripécias em Angola. Não perca o pique! Grande abraço, beijos pra Fabiana e muito boa sorte pra vocês dois.
Nem que seja pra se defender, não é? Bj.
Jr., acredite ou não, consegui visualizar exatamente o que havia sido quebrado. Pas grave, né? Acho que o saldo foi positivo, diante do volume da mudança.
Sobre o kimbundu, dou força. A hora é agora!
Contando os dias para estar com vcs!
Beijo gde!
Fui eu no anterior! Dri - risos.
Postar um comentário