Dizem que todo mundo tem seu preço. Descobri que o meu é 500 kwanzas. Explico. Ou melhor, para usar essa fantástica expressão angolana:
É assim:
O comércio de rua é qualquer coisa em Luanda. Num simples trajeto de carro pode-se comprar de quase um tudo. Ao longo das ruas engarrafadas por RAV-4 (sim, estou a bordo de um deles), Prados, Range Rovers, Land Rovers, Silverados, Hummers (meu sonho de consumo para dar uma banda no Kinaxixi), candongas e afins, perfilam-se os vendedores.
Segue uma breve lista de coisas que já vi à disposição nas ruas: cabide de roupa, araras (para pendurar roupas), aparelhos de rádio, capa para pneu estepe, limpadores de pára-brisa, bidon (galão para colocar o gasóleo do gerador), cadeados, correntes, frutas, verduras, pão, cerveja Cuca (50 kwanzas a latinha), Blue (uma espécie de guaraná Jesus com maior variedade de cores), biscoito, coca-cola, água, espelhos retrovisores, cabo de aço, funil, dinheiro (sim, pode-se fazer câmbio pelas ruas com as kínguilas – num futuro breve darei detalhes), jornais (aliás, aqui não há banca de jornais), fruteiras, celulares, camisa, calça, sapatos (os vendedores penduram diversos pares pelo corpo. Só precisam ter a sorte de encontrar um cliente com um pé que caiba no modelo à venda). Enfim, há uma infinidade de coisas. E se você não encontrar o que procura, pode encomendar. Marca de passar no dia seguinte e eles quase sempre conseguem o que o cliente deseja.
Também é possível contratar serviços diversos. Perto do Largo da Edel (a empresa de eletricidade de Luanda) há uma espécie de borracharia ao ar livre. Os “borracheiros” fazem de tudo. Trocam câmara de ar, tapam furos, desempenam rodas e metem ar nos pneus (aqui não se diz encher os pneus).
Meter ar nos pneus também custa dinheiro. Enquanto no Brasil o serviço está disponível gratuitamente em qualquer posto de gasolina, os “borracheiros” daqui cobram 50 kwanzas (US$ 0,66 ou R$ 1,13, mais ou menos). Para tapar um furo no pneu, cobram...foi quando descobri que estou avaliado em 500 kwanzas.
É assim:
Nosso RAV-4 veio com um pneu sobressalente. Além do estepe, Michel (leiam o post “Confiança, chefe, confiança” para relembrar a figura) deixou outro pneu no porta-malas. Michel é meu kamba (amigo), pensei. Os kambas ajudam os kambas. Ele gostou de mim e me presenteou com um pneu a mais.
Pois bem. Fui com o motorista meter ar no estepe e no sobressalente. Michel entregara o carro com os dois vazios. Esquecimento, claro...
Metemos ar no estepe. Metemos ar no sobressalente, que se esvazia imediatamente com um chiado ruidoso. O “borracheiro” olha daqui, olha dali e identifica um rombo no pneu (Michel, meu kamba, como fostes capaz...).
Chega o momento da negociação. O motorista pergunta o preço para tapar o furo.
BORRACHEIRO – 1.500 kwanzas.
Chego perto do motorista, Seu Mendes, são- tomense radicado em Luanda desde 1973, e indago, discretamente, ao pé do ouvido (como se isso fosse possível diante de uma platéia de borracheiros angolanos):
EU – O preço está justo?
Seu Mendes hesita um quarto de segundo (o suficiente para eu entender que, claro, para mim será mais caro) e responde:
SEU MENDES – Sim, é o que cobram...
Hesito outro quarto de segundo.
EU – Estou com pressa...depois passamos.
Deixo os 100 kwanzas pela metida de ar nos dois pneus e saímos.
Peço para Seu Mendes passar lá, sozinho, no dia seguinte. Dou-lhe os 1.500 kwanzas e ele volta com um troco de 500 kwanzas. É isso. Sou o fator "estrangeiro" a inflacionar o mercado.
Naquele dia descobri que valho 500 kwanzas na borracharia ao ar livre perto da Edel.
Egypt: Life Imprisonment for Mubarak
50 minutos atrás

1 comentários:
Não creio que vossa senhoria também conheça Guaraná Jesus. :D hehehehh
Muito esperto seu movimento de passar pro cabra voltar lá solo. Entretanto.. aposto que custava uns $500 mesmo, o cara que só te devolveu $500, hehehe.
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