domingo, 13 de julho de 2008

NELY

Nely tem 20 anos e nasceu na ilha de São Tomé. Está em Angola há dois anos e sete meses. Veio com um namorado, também de São Tomé, que já morava em Luanda. Separado da primeira mulher, o namorado insistia há tempos para que ela viesse morar com ele. Carpinteiro, ele dizia ganhar o suficiente para sustentar os dois.

Nely veio, engravidou, separou e hoje mora com a filha num anexo alugado (como os angolanos chamam os cômodos construídos nos quintais) em uma casa de família.

O drama de Nely começou poucos meses depois do desembarque em Luanda. O namorado, promovido a marido/senhor quando ela pisou em solo angolano, continuava as viagens para São Tomé. Lá, reatou com a primeira mulher. Durante alguns meses, administrou a relação de bigamia internacional.

A primeira mulher descobriu e passou a ligar para Nely. Discutiam ao telefone. Nely foi tomar satisfações com o marido e acabou submetida a uma rotina de espancamentos. Cada vez que a primeira mulher ligava, Nely reclamava e apanhava. As vizinhas diziam para ela ir à polícia. Nely não ia.

Um dia, toda machucada, saiu de casa com a roupa do corpo e a filha de nove meses. O marido reteve todos os documentos dela. Rasgou o passaporte e o cartão de estrangeiro. Nely hospedou-se na casa de um primo por alguns dias, até alugar o quarto onde vive com a filha há três meses.

Nely tem quatro irmãos mais novos, que vivem com a avó em São Tomé. A mãe morreu e o pai desapareceu em Portugal há muitos anos. Nunca mais deu notícias. Soube há pouco tempo que a irmã de 16 anos saiu de casa e não quer nada com estudo. O sonho de Nely é juntar dinheiro, voltar para São Tomé, comprar um terreno e construir uma casa para a família.

Nely trabalha como doméstica. Ganha US$ 450 por mês. Prefere receber o salário em dólares. Quando faz o câmbio para kwanzas, o dinheiro vai embora. Como não tem documentos, não pode abrir conta em banco. A embaixada de São Tomé em Angola só emite passaporte provisório, com validade de um ano. Os bancos angolanos não aceitam esse tipo de documento. Conta nova só com o passaporte tradicional, emitido no país de origem. Nely deixa parte do salário com uma amiga que gosta de economizar dinheiro. A amiga economiza para as duas.

Na casa em que trabalha, ainda não há muito o que fazer. A mudança dos patrões ainda não chegou. Sua rotina restringe-se a limpar a casa, lavar a louça e passar a roupa.
Nely gosta de novelas brasileiras e filmes de terror.”Não sinto medo”, costuma dizer. Antes de ir embora, senta-se na poltrona da sala e passa pelo menos uma hora zapeando pelos canais. Há uma coisa que Nely gosta mais do que as novelas brasileiras. Filmes indianos e novelas de canais árabes transmitidos pela TV a cabo.

Quando alguém pergunta por que ela assiste a esses programas se não entende a língua falada pelos atores, ela responde: “Mas eu gosto”.

Nely ainda encontra o ex-marido. Ele visita a filha com freqüência. Alega que tem direito e insiste para ela voltar. Ela diz que não quer, mas admite que ainda se relacionam.

Tomara que Nely não fique grávida de novo.

P.S. Nely já não está com a filha. Para saber mais, clique aqui.

4 comentários:

Adriana Ferreira disse...

Jr.!!!
Adorei! Eu diria que foi ESSENCIAL ler tudo o que escreveu a respeito do meu destino de férias - risos. Agora, tenho mais certeza ainda de que quero encontrar vocês e participar, ainda que minimamente, disso tudo.
Parabéns pelas matérias, viu? As que reproduzem diálogos são as melhores!
Abração para vcs!
Devo ligar amanhã de manhã!

gina disse...

Júnior,eu e Nina adoramos as últimas aventuras angolanas.
Queremos acompanhar todos os capí-
tulos.
Bjs !

Helga disse...

Não vou dizer 'inacreditável', mas putz grila.. era pra essa Nely ter ido na polícia há muito tempo!!!

Concordo com a Adriana: adoro os diálogos. :D

O amigo João (do Pezinho) também faz bastantes diálogos. heheheh

Kinha disse...

Boa tarde!!
Gostei muito deste blog, a verdade é que vejo que o seu autor conehce muito de África, o que faz com que a forma como escreve sobre este continente seja cativante, interessante, quase tão quente como África. Gostei muito.
Gostava que entrasse em contacto comigo pois gsotava de falar-lhe em nome de minube, catarina@minube.com.
Os melhores cumprimentos,

Catarina