quarta-feira, 30 de julho de 2008

NÃO TINHA SALDO

Os telefones celulares são um fenômeno em Angola. Não, não tenho números, mas é só observar a quantidade de gente com os aparelhos para constatar. Há duas empresas de celular no país, a Unitel e a Movicel. A Unitel é privada. A Movicel percente à estatal Angola Telecom, mas os jornais aqui publicam há semanas reportagens dizendo que será privatizada e que 30% da empresa já foram negociados com a chinesa ZTE.

As lojas de ambas vivem lotadas. Filas para comprar aparelhos e cartão de recarga. E todo mundo na rua usa celular, ou telemóveis. Como o serviço ainda deixa a desejar, é comum as pessoas terem uma linha de cada operadora. Quando uma falha, usa-se a outra. A campanha publicitária da Unitel usa o mote “Unitel, o próximo mais próximo”. Os clientes insatisfeitos refizeram o slogan para “Unitel, o próximo mais distante”. Maldade...

O problema é que, como em qualquer país, uma ligação de celular é cara. Talvez isso explique o porquê de a grande maioria das linhas ser de aparelhos pré-pagos. Também não tenho informações precisas, mas já me deram algumas explicações.

A primeira é realmente o custo da ligação. E aqui não se calcula o tempo da ligação pré-paga em minutos, mas em UTTs. Os cartões vêm em 125 UTTs, 150 UTTs, 175 UTTs, 200 UTTs e por aí vai. Mas dá para falar quanto tempo? Depende.

Quando compramos nosso primeiro celular, fizemos a mesma pergunta à moça da loja.

EU – Com esse chip que vem no celular pré-pago dá para falar quanto tempo?

VENDEDORA (numa lógica lusitana impecável) – Pois depende. Se falar muito, dura pouco. Se falar pouco, dura muito.

EU (depois de trocar um olhar incrédulo de dois segundos com meu amor) – Tudo bem, mas dá para falar quantos minutos?

VENDEDORA (mantendo a lógica lusitana impecável) – Pois foi o que eu disse. Se falar muito, dura pouco. Se falar pouco, dura muito.

MEU AMOR - É esse mesmo que queremos.

A vendedora tinha razão, só não soube explicar a lógica do sistema. É assim: se você liga de um aparelho Unitel para outro Unitel ou de um Movicel para outro Movicel, o preço é um. Se ligar de um Unitel para um Movicel ou vice-versa, o preço é outro. E depende da hora do dia, do dia da semana, dos créditos concedidos pelas operadoras no momento da recarga e essas coisas que as operadoras de telefonia adoram fazer para o cliente achar que está ganhando. Igual no Brasil.

Eu queria comprar um pós-pago desde o começo, mas como ainda estava com visto de turista, não foi possível. Na loja alegaram que estrangeiro só pode ter linha pós-paga depois de três meses de residência. Sem alternativa, ficamos com o pré-pago.

A segunda explicação que me deram para a enxurrada de celulares pré-pagos é a questão dos endereços. Não sei se é verdade, mas vamos a ela. Por causa da guerra, o Estado entrou em colapso. As estatísticas como censos, cadastramento de pessoas, emissão de documentos, numeração de casas e outras coisas pararam de ser feitas.

As casas deixadas pelos portugueses depois da independência foram ocupadas pelos angolanos. Os parentes, amigos e desconhecidos que vinham do interior fugidos da guerra eram acomodados nessas casas. Sem espaço para tanta gente, o jeito foi fazer puxadinhos. Em alguns bairros da região central mesmo de Luanda, há ruas sem calçadas. As calçadas ganharam puxadinhos que viraram cômodos e até casas, com cinco, seis, oito, 10 moradores. São residências novas, que não estavam lá, nunca foram registradas. Na prática, estão lá mas não existem.

Como muita gente ainda hoje não tem endereço fixo (passa um mês aqui, outro ali e depois desaparece no mundo), as empresas temem levar calote. As telefônicas e até empresas de TV a cabo só costumam prestar serviços pós-pagos para pessoas jurídicas, mais fáceis de localizar. E é uma burocracia. Chegam a exigir documento com registro em cartório.

A TV a cabo aqui de casa, por exemplo, é pré-paga. E não há alternativa. Paguei US$ 600 pelo primeiro mês mais o custo dos equipamentos e a instalação. Agora pago, antecipadamente, US$ 90 mensais pelo pacote “Bué Mais” (que oferece a Globo e a Record internacionais). Se não pagar no vencimento, eles cortam o sinal. E tenho de pagar na loja da TVCABO, a principal operadora local. Quer dizer, posso pagar no banco, mas a empresa exige que depois eu vá à loja ou ligue para dizer o código do pagamento para eles não bloquearem meu sinal. É melhor ir direto na loja.

Apesar da quantidade de gente com telemóveis pelas ruas, muitos passam semanas sem fazer uma ligação. As pessoas não têm dinheiro para comprar os cartões pré-pagos (que custam de 300 kwanzas - US$ 4 ou R$ 6,4 - a cerca de 3 mil kwanzas -US$ 40 ou R$ 64). O sistema de telefonia aqui não permite ligação a cobrar. Ou seja, se tenho um telemóvel sem crédito, não posso ligar a cobrar para outra pessoa. Apenas recebo chamadas.

E aqui eles não dizem crédito, dizem saldo. Quando algo dá errado e você pergunta por que não te ligaram, a resposta é sempre a mesma: “não tinha saldo, chefe”.

Isso provoca grandes confusões. Você combina um serviço com alguém. Esse alguém não aparece. Duas horas depois você liga e a pessoa diz:

PESSOA – Meu filho ficou doente.

VOCÊ – E por que você não ligou para avisar que não vinha?

PESSOA – Não tinha saldo, chefe.

Você marca uma reunião e a história se repete. Chega ao lugar e não tem ninguém. Quando consegue fazer contato, a pessoa diz que não ligou porque não tinha saldo.

Como não temos telefone fixo em casa, compramos um telemóvel extra e deixamos com Nely, para situações de emergência. O aparelho veio com um “saldo” de 125 UTTs (não, não me perguntem quantos minutos dá para falar). Nely leva o celular para casa. Na primeira semana aqui em casa, Nely se atrasa por causa do trânsito. Quando ela chega, pergunto:

EU – Nely, deixamos um celular com você para essas emergências. Estamos atrasados para o trabalho. Por que você não ligou?

NELY – Não tinha saldo.

EU – Como não tinha saldo? O aparelho veio com 125 UTTs e você não ligou pra gente nenhuma vez.

NELY – É que liguei pra Santumé e acabou rápido mesmo...

Nely fez uma ligação internacional de Angola para os parentes em São Tomé e Príncipe do telemóvel pré-pago que deixamos com ela. Nesse caso, consigo calcular que as 125 UTTs que vieram no aparelho da Nely deram para ela falar uns bons oito milésimos de segundo com a família nas ilhas do Atlântico.

Então já sabem: se eu não ligar é porque não tinha saldo.

4 comentários:

AP disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Filipy disse...

Olha,tá precisando de um cinegrafista/editor/jornalista/faz-tudo aí?!! Nem que seja pra testemunhar esssas aventuras!!! Um gRande ABraço,

Filipy Parente

AP disse...

São mesmo aventuras!

Fátima disse...

Ainda bem que tens a net pra comunicação com seus colegas do Brasil. Abraços.