Sábado à tarde é um bom momento para ir a Luanda Sul, o bairro construído por empreiteiras brasileiras a 20 quilômetros do caos diário da capital angolana. Para quem conhece Brasília, é uma espécie de Lago Sul. São diversos condomínios fechados com casas avaliadas entre US$ 1 milhão e US$ 3 milhões, habitadas por executivos de petroleiras, empresas de diamante, diretores de multinacionais e angolanos ricos.
Ir a Luanda Sul é força de expressão. Nos condomínios só entram moradores e convidados. O pessoal vai ao novo bairro mesmo é para passear, comprar, almoçar ou ir ao cinema no Belas Shopping, centro de compras construído também por empreiteiras brasileiras. Há apenas o andar térreo e é sucesso absoluto, o paraíso dos expatriados, novos e velhos ricos luandenses.
O problema é chegar e sair de lá. As vias de acesso entre Luanda e Luanda Sul estão em construção. Pistas de mão dupla estão sendo duplicadas e/ou triplicadas. Casebres de beira de estrada são retirados para dar lugar ao asfalto por onde circulam diariamente milhares de carrões 4X4 importados da Europa, Estados Unidos, Dubai e Coréia.
No fm de semana é até fácil chegar a Luanda Sul. Durante a semana, gasta-se de duas a quatro horas para percorrer os 20 quilômetros e mais o trânsito dentro da cidade. As pistas duplas de repente voltam a ser vias de mão dupla. Executivos endinheirados conduzidos por seus motoristas angolanos disputam centímetros de asfalto com os condutores das candongas, as vans, aqui chamadas de táxis, que cometem loucuras no trânsito para garantir a féria no fim do dia.
É assim (outra expressão usada muitíssimo pelos angolanos quando querem explicar alguma coisa): voltávamos de um churrasco em Luanda Sul. Parei num cruzamento para dar passagem a um caminhão que transportava um contêiner. O guarda me viu e já mandou encostar.
Ainda estou com visto de turista e uso minha carteira de motorista do Brasil, que vale por três meses, de acordo com a legislação internacional.
Travamos o seguinte diálogo:
Guarda – Documento, por favor.
Entrego a carteira de habilitação do Brasil e o documento PROVISÓRIO de fiscalização do carro que compramos há uma semana.
O guarda olha a carteira (totalmente diferente da deles, que aqui é chamada de bilhete), tenta entender aquelas informações. Eu digo que ela vale três meses. Me atrapalho e digo que é garantido pela lei ELEITORAL (meu Deus). O guarda apenas pergunta:
GUARDA - Vale dois meses?
EU - Três meses, segundo a LEI ELEITORAL.
GUARDA, em tom imperativo – Comprovante de pagamento do imposto.
Eu nunca tinha ouvido falar nisso. Mas como o carro havia sido inspecionado dois dias antes, reajo:
EU - Aqui no pára-brisas tem o selo da inspeção. Está tudo certo.
O guarda vai para a frente do carro verificar o tal selo da inspeção colado no pára-brisas. Ele nem sequer abriu o documento da inspeção que eu entreguei junto com a carteira. Volta para o meu lado e diz:
GUARDA – Seguro.
EU – Não tenho.
GUARDA – Não tem? Xiii, é obrigatório (imaginem aquele sorriso de satisfação, embaixo daquele bigode, já imaginando quanto dinheiro extra vai conseguir...)...
EU – Não, não é obrigatório. Em nenhum lugar do mundo é obrigatório.
GUARDA (com uma risada irônica, luvas brancas – aqui eles só podem pegar seus documentos se estiverem usando luvas brancas) – Mas Angola não é qualquer lugar do mundo. Veja esse trânsito (e aponta para a rua)...e se o senhor bate em alguém...
EU – Eu pago.
GUARDA – Paga?
EU – Pago. O seguro não é obrigatório. Se tiver algo errado, o senhor diga. Terei de comunicar ao Comissário Vaz (essa foi de gênio), que cuida das comunidades estrangeiras em Angola.
De fato, o Comissário Vaz existe e o guarda sabe. Ele é mesmo encarregado das comunidades estrangeiras e agora eu uso o nome dele em vão o tempo todo.
A irritação aumenta e ela diz:
ELA – Está tudo certo com o carro. Se há errado, o senhor informe o que é.
O guarda não esperava por essa. Dois estrangeiros sem irregularidades não dispostos a pagar gasosa.
O guarda faz dois segundos de silêncio intermináveis e diz:
GUARDA – Triângulo, macaco e chave de roda.
Unbelievable. Desço do carro, abro o porta-malas e o compartimento onde ficam os apetrechos. O guarda olha de longe e não diz nada. Se tivesse checado mesmo, teria descoberto que faltava o triângulo. Quando estou fechando o compartimento ele diz:
GUARDA – Espero não estar sendo inconveniente.
EU – Não, imagine. O senhor está apenas cumprindo sua obrigação.
O guarda me devolve os documentos e deixa a carteira de motorista por último. Segura na minha frente e diz:
GUARDA – Ah, mas está plastificada. Aqui é proibido.
Olhamo-nos nos olhos e identifico lá no fundo daqueles olhinhos angolanos um lampejo de vitória.
Pego a carteira e digo:
EU – Não, a carteira não está plastificada, é só uma proteção (e tiro triunfalmente a carteira de dentro da capa plástica).
Olho para o guarda e pergunto:
EU – Mais alguma coisa? Posso ir.
GUARDA – Sim, pode.
EU – Muito obrigado. Parabéns pelo seu trabalho.
Entro no carro e arrancamos para Luanda.
P.S. Jamais chame um guarda angolano de guarda. Aqui, ninguém gosta de ser chamado de guarda (nem os que ficam de guarda em frente a casas e prédios). Quando abordado por um representante da lei, refira-se a ele como “Seu Polícia” ou “ Senhor Agente”.
Ir a Luanda Sul é força de expressão. Nos condomínios só entram moradores e convidados. O pessoal vai ao novo bairro mesmo é para passear, comprar, almoçar ou ir ao cinema no Belas Shopping, centro de compras construído também por empreiteiras brasileiras. Há apenas o andar térreo e é sucesso absoluto, o paraíso dos expatriados, novos e velhos ricos luandenses.
O problema é chegar e sair de lá. As vias de acesso entre Luanda e Luanda Sul estão em construção. Pistas de mão dupla estão sendo duplicadas e/ou triplicadas. Casebres de beira de estrada são retirados para dar lugar ao asfalto por onde circulam diariamente milhares de carrões 4X4 importados da Europa, Estados Unidos, Dubai e Coréia.
No fm de semana é até fácil chegar a Luanda Sul. Durante a semana, gasta-se de duas a quatro horas para percorrer os 20 quilômetros e mais o trânsito dentro da cidade. As pistas duplas de repente voltam a ser vias de mão dupla. Executivos endinheirados conduzidos por seus motoristas angolanos disputam centímetros de asfalto com os condutores das candongas, as vans, aqui chamadas de táxis, que cometem loucuras no trânsito para garantir a féria no fim do dia.
É assim (outra expressão usada muitíssimo pelos angolanos quando querem explicar alguma coisa): voltávamos de um churrasco em Luanda Sul. Parei num cruzamento para dar passagem a um caminhão que transportava um contêiner. O guarda me viu e já mandou encostar.
Ainda estou com visto de turista e uso minha carteira de motorista do Brasil, que vale por três meses, de acordo com a legislação internacional.
Travamos o seguinte diálogo:
Guarda – Documento, por favor.
Entrego a carteira de habilitação do Brasil e o documento PROVISÓRIO de fiscalização do carro que compramos há uma semana.
O guarda olha a carteira (totalmente diferente da deles, que aqui é chamada de bilhete), tenta entender aquelas informações. Eu digo que ela vale três meses. Me atrapalho e digo que é garantido pela lei ELEITORAL (meu Deus). O guarda apenas pergunta:
GUARDA - Vale dois meses?
EU - Três meses, segundo a LEI ELEITORAL.
GUARDA, em tom imperativo – Comprovante de pagamento do imposto.
Eu nunca tinha ouvido falar nisso. Mas como o carro havia sido inspecionado dois dias antes, reajo:
EU - Aqui no pára-brisas tem o selo da inspeção. Está tudo certo.
O guarda vai para a frente do carro verificar o tal selo da inspeção colado no pára-brisas. Ele nem sequer abriu o documento da inspeção que eu entreguei junto com a carteira. Volta para o meu lado e diz:
GUARDA – Seguro.
EU – Não tenho.
GUARDA – Não tem? Xiii, é obrigatório (imaginem aquele sorriso de satisfação, embaixo daquele bigode, já imaginando quanto dinheiro extra vai conseguir...)...
EU – Não, não é obrigatório. Em nenhum lugar do mundo é obrigatório.
GUARDA (com uma risada irônica, luvas brancas – aqui eles só podem pegar seus documentos se estiverem usando luvas brancas) – Mas Angola não é qualquer lugar do mundo. Veja esse trânsito (e aponta para a rua)...e se o senhor bate em alguém...
EU – Eu pago.
GUARDA – Paga?
EU – Pago. O seguro não é obrigatório. Se tiver algo errado, o senhor diga. Terei de comunicar ao Comissário Vaz (essa foi de gênio), que cuida das comunidades estrangeiras em Angola.
De fato, o Comissário Vaz existe e o guarda sabe. Ele é mesmo encarregado das comunidades estrangeiras e agora eu uso o nome dele em vão o tempo todo.
A irritação aumenta e ela diz:
ELA – Está tudo certo com o carro. Se há errado, o senhor informe o que é.
O guarda não esperava por essa. Dois estrangeiros sem irregularidades não dispostos a pagar gasosa.
O guarda faz dois segundos de silêncio intermináveis e diz:
GUARDA – Triângulo, macaco e chave de roda.
Unbelievable. Desço do carro, abro o porta-malas e o compartimento onde ficam os apetrechos. O guarda olha de longe e não diz nada. Se tivesse checado mesmo, teria descoberto que faltava o triângulo. Quando estou fechando o compartimento ele diz:
GUARDA – Espero não estar sendo inconveniente.
EU – Não, imagine. O senhor está apenas cumprindo sua obrigação.
O guarda me devolve os documentos e deixa a carteira de motorista por último. Segura na minha frente e diz:
GUARDA – Ah, mas está plastificada. Aqui é proibido.
Olhamo-nos nos olhos e identifico lá no fundo daqueles olhinhos angolanos um lampejo de vitória.
Pego a carteira e digo:
EU – Não, a carteira não está plastificada, é só uma proteção (e tiro triunfalmente a carteira de dentro da capa plástica).
Olho para o guarda e pergunto:
EU – Mais alguma coisa? Posso ir.
GUARDA – Sim, pode.
EU – Muito obrigado. Parabéns pelo seu trabalho.
Entro no carro e arrancamos para Luanda.
P.S. Jamais chame um guarda angolano de guarda. Aqui, ninguém gosta de ser chamado de guarda (nem os que ficam de guarda em frente a casas e prédios). Quando abordado por um representante da lei, refira-se a ele como “Seu Polícia” ou “ Senhor Agente”.

1 comentários:
Não compreendi uma coisa: Ela? Ela quem que estava do seu lado?
E essa foi demais! :D Terei de saber dessas coisas se eu quiser morar na África algum dia, heheheh. :)
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