É assim: compramos nosso Toyota RAV-4 ano 1997 em Benfica (relembrem a saga em CONFIANÇA, CHEFE, CONFIANÇA). Um milhão, trezentos e doze mil e quinhentos kwanzas. Tudo bem, tudo bem. Assim, em kwanzas, parece uma fortuna. Mas lembrem-se que US$ 1 é igual a 75 kwanzas. Pagamos, pois, US$ 17,5 mil (R$ 29,5 mil).
O pagamento foi em dinheiro vivo. Transferências bancárias, cheques, cartões de crédito e de débito são coisas incipientes em Angola. Muita gente desconfia do sistema e prefere dinheiro na mão. Deixei US$ 100 com Michel (a história dele está no mesmo post anterior), a título de Confiança, chefe, confiança e para pagar a taxa cobrada pela administração do local onde os carros ficam expostos.
Fomos ao banco sacar o dinheiro. Aqui é possível fazer retiradas tanto em kwanzas como em dólares. Basta avisar ao gerente a quantia desejada.
Depois de preencher a papelada, um funcionário da agência nos levou a uma sala reservada. Lá, uma câmera no alto de uma das paredes monitorava nossos movimentos. Uma das paredes internas era a porta de um enorme cofre.
O funcionário conversou com alguém dentro do cofre e trouxe duas pilhas de notas de US$ 100 que totalizavam os US$ 17,5 mil. Passou na máquina de contar dinheiro. Nós também contamos as notas. Duas vezes. Saímos do banco e fomos entregar o dinheiro a Michel.
Por falta de documentos, decidimos pagar apenas metade do valor do carro. O restante seria quitado no dia seguinte. Michel pega um bolo de US$ 8,5 mil e começa a contar. De repente, segura uma das notas no contra-luz e diz:
MICHEL – Essa nota é falsa.
EU – Não é possível. Acabei de tirar o dinheiro do banco.
MICHEL – Pode ver, chefe. O número 100 da nota não muda de cor. É falsa.
EU – Mas o banco não ia dar uma nota falsa.
MICHEL – Às vezes são os funcionários mesmo. Metem uma nota falsa quando o cliente vai
levantar quantidade.
Dou outra nota ao Michel e guardei a suposta nota falsa.
Michel continua a contar as notas.
MICHEL – Essa outra...
Gelei. Pronto. Fomos vítimas de um derrame de notas de US$ 100 falsas.
MICHEL (segurando outra nota de US$ 100 toda detonada) – Esta é velha, mas é verdadeira.
Alívio.
Tentamos falar com a gerência do banco, mas era sexta-feira e o expediente já havia encerrado. Ligamos na segunda. Ao receber a informação da nota, a gerência disse que o banco não distribuía dinheiro falso. Mau começo.
Não dissemos que o banco deu uma nota falsa. Dissemos que uma pessoa não aceitou a nota sob a alegação de que era falsa e gostaríamos de ir à agência para tratar do assunto. Marcamos para o dia seguinte.
Chegamos na hora do almoço. Agência lotada. Ar-condicionado pifado. A gerência não estava na sala, mas numa mesa do lado de dentro do balcão. Mostramos a nota. A gerência olha e diz:
A GERÊNCIA – É, é falsa.
E devolve a nota.
NÓS – E o que o banco vai fazer?
A GERÊNCIA – A nota já saiu do banco, ninguém garante que não foi trocada...
NÓS – Essa nota saiu daqui e foi direto para pagar o carro. Não passou pelas mãos de mais ninguém.
A GERÊNCIA – Não podemos fazer nada.
NÓS – O banco está achando que viemos aqui dar um golpe?
A GERÊNCIA – Não digam o que acham que estou a pensar porque vocês não sabem o que estou a pensar.
NÓS – Então é isso? O banco não vai registrar nada, nenhuma ocorrência?
A GERÊNCIA (dando as costas e voltando a mexer no computador) – É.
NÓS – Queremos sacar o dinheiro e encerrar a conta.
A GERÊNCIA (em tom irônico apontando para a fila com umas 50 pessoas) – À vontade, a bicha (fila) fica ali.
Saímos do banco com aquele desejo de iniciar uma guerra civil.
Por acaso temos acesso ao presidente do banco. Ouviu a história com paciência e tentou justificar o comportamento da gerência da agência. Disse que o sistema bancário em Angola era diferente do Brasil, estava começando, que a gerência era “um bucadinho azeda”, que estava na empresa havia bastante tempo, que trabalhou em agências difíceis em que a imposição da autoridade perante os clientes era necessária (o que será que ele quis dizer com isso?), imagine se o banco tivesse de trocar toda nota que um cliente dissesse que é falsa, mas que ia resolver o assunto.
Já que estávamos com o presidente do banco, não podia deixar de dizer o que achava.
EU – Senhor, presidente. Não é possível que o banco vá imaginar que vamos sacar US$ 17,5 mil e depois voltar ao banco para aplicar um golpe de US$ 100. Realmente não conheço o sistema daqui nem quero dizer que o banco deixou passar uma nota falsa, mas a experiência que temos de atendimento em nosso país é diferente. A gerência deveria ter nos levado para uma sala reservada para conversar sobre o assunto – e não começar um bate-boca no meio da agência, na frente dos outros clientes – e, no mínimo, dizer que iria avaliar o caso.
ELA – E o que vamos fazer com essa nota falsa?
PRESIDENTE DO BANCO – Estão com ela aí?
ELA –Sim, na minha carteira (e movimenta-se para pegá-la).
PRESIDENTE DO BANCO (gesticulando que não quer ver a nota) – Não, não é necessário. Isso vai ser resolvido.
ELA – Mas como? Houve uma quebra de confiança. Não tenho mais confiança de que não acontecerá outra vez.
EU – Presidente, de novo: não quero insinuar nada, nem sei direito como as coisas funcionam aqui, mas, no Brasil, os bancos têm responsabilidade de retirar dinheiro falso de circulação. Num episódio como este, o banco reteria a nota, abriria uma ocorrência e remeteria a nota falsa ao Banco Central para análise. E, em nome do bom relacionamento com o cliente, trocaria a nota falsa por uma verdadeira.
ELA – No Brasil nem podemos carregar uma nota falsa porque é crime..
EU – O mínimo que poderíamos esperar era que a gerência ficasse com a nota. Mesmo que não a substituísse, pelo menos poderia dizer que encaminharia o caso à direção do banco. Nem isso ela fez.
PRESIDENTE DO BANCO – Deixe-me ver a nota.
Ele olha a nota falsa. Tira a carteira do bolso interno do paletó, abre, pega uma nota de US$ 100 verdadeira e fica com a falsa.
Continuamos clientes do banco. Mudamos de agência. A vida segue.
Egypt: Life Imprisonment for Mubarak
51 minutos atrás

5 comentários:
Olá Júnior. É de revoltar mesmo essa história. Meu marido trabalhou cinco meses em Angola. Rodou muito pelo interior daí e me contou histórias absurdas, coisas inconcebíveis para a nossa realidade brasileira. Ah, sim, sou amiga da Renata Stuani. Trabalho com ela aqui na Presidência. Parabéns pelo blog e sucesso!
É...um depoimento muito ilustrativo.
Começo a entender os comentários que tenho ouvido sobre o despreparo dos funcionários das instituições financeiras que funcionam em Angola.
Em toda a parte do mundo há bons e maus empregados bancários, honestos e vigaristas.Estórias absurdas existem em Angola, mas também no Brasil, em Portugal e etc, etc.A nota de cem dólares falsa é um acontecimento como outro qualquer que já se passou em outros lugares.Já me aconteceu aqui há uns anos, numa casa de cambios do Rio de Janeiro,trocar uma nota de cem dólares verdadeira e ficar sem ela pois me devolveram uma falsa.Ia me queixar aquem? Ao Papa? Angola é um país jovem, cheio de problemas, teve guerra de libertação, fuga de todos os quadros portugueses da era colonial e recentemente, acabou uma guerra civil sangrenta.
A. obrigada pelo comentário tão simpático no meu blog. O seu blog é também muito interessante. Já está nos meus favoritos.
abs,
Mirella
Caro fernando baião,
reconheço que no Brasil e em qualquer outro país esse tipo de problema acontece. O objetivo do relato não foi fazer um ataque ao país, do qual sou grande admirador, mas contar um pouco das experiências em Angola. Por acaso, tenho acesso ao presidente do banco e pude fazer a queixa. Espero que o episódio sirva para melhorar o atendimento ao público, que tem o direito de ser bem atendido.
abs.,
A.
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