quarta-feira, 30 de julho de 2008

TEM QUE PAGAR

Pedro e Dembo são vigias da casa ao lado da nossa. Mas aqui são conhecidos como Proteção. Senhor Proteção. Moram num dos carros do vizinho que, por aparente falta de condições de uso, jaz abandonado em frente da casa.

Antes de mudarmos para cá, Pedro e Dembo usavam um banheiro construído na garagem de nossa casa pelo inquilino anterior. Controlavam o portão e o acesso da criançada que queria entrar para pegar maçãs da índia que caem da árvore do vizinho.

Nossa chegada desmontou o esquema dos dois. Não podem mais usar o banheiro nem tirar uma soneca na garagem quando o cansaço aperta. Passam boa parte do dia sentados numa cadeira de plástico branca (do tipo que se vai à praia), no pedaço da calçada que separa nossa casa da do vizinho.

Pelo menos uma vez por semana eles nos pedem dinheiro. Ou é para o café-da-manhã ou para o táxi (candonga). Os senhores Proteção costumam trabalhar em escalas que variam de oito a 24 horas (o que já acho demais para um segurança privado), mas Pedro e Dembo acertaram um esquema entre eles de 48 por 48 horas.

Um dia perguntei a Dembo como ele agüentava.

DEMBO – Já estamos acostumados. Ficamos aqui acordados vigiando...

É uma vida desgraçada. Os dois passam o dia esfomeados, pois nunca têm dinheiro (pelo que dizem), e a empresa só oferece uma refeição por turno. Um prato com arroz e frango todos os dias, segundo Pedro me contou.

De vez em quando ofereço um sanduíche a eles. Nunca os vi comerem na hora. Ou guardam no porta-luvas do carro que usam como alojamento ou levam para casa.

Não sei se ficam realmente satisfeitos quando recebem comida. Acho que querem mesmo é dinheiro.

Um dia abri o portão pela manhã e dei de cara com o Pedro do outro lado da rua. Eles sabem quando estou para sair por causa do barulho dos cadeados, correntes e travas que tenho de abrir todas as manhãs. E ficam ali em volta, para ver se sobra alguma coisa. Naquele dia, Pedro me olhou e disse:

PEDRO – Mata-bicho?

EU – Mas o vizinho não te dá? Ele me disse que te dá mata-bicho.

PEDRO – Não, não é todo dia. 50 kwanzas, chefe.

E morro em 50 kwanzas.

Noutro dia, abro o portão e o Dembo já está ali na frente. É o último dia da escala de 48 horas e ele diz que não tem dinheiro para ir embora. Pede 100 kwanzas. Morro em 100 kwanzas.

O relato a seguir aconteceu hoje pela manhã, antes da mudança chegar aqui em casa. Perguntei a Pedro quem era o dono do carro que ele e Dembo usam como alojamento. Precisava que o carro fosse retirado do local para que o caminhão com nossa mobília estacionasse o mais perto possível do portão.

Depois de me falar que o dono do carro era o vizinho, Pedro, sempre com um sorriso sonso no rosto, veio com o papo:

PEDRO – O senhor tem que me dar dinheiro?

EU – Por que eu tenho que te dar dinheiro?

PEDRO – Porque estamos aqui, olhamos a casa...

EU – Não, acho que não.

PEDRO – Não?

EU – Não. Já te dou mata-bicho.

PEDRO –Não, é pouco. Tem que dar. Tío, estamos aqui a olhar a casa. Tem que pagar. Aqui é assim.

Fico em silêncio.

PEDRO – O tío vai dar. Tío! Não é sempre. No fim do mês, chama a gente e diz: “Toma, Pedro; toma Dembo”!

EU – Vamos ver.

PEDRO – O tío vai ver? Tá bom.

Cometi um erro ao dizer que ia ver. Deveria ter cortado logo o papo. E me incomodou o tom do “tem que pagar”. Amanhã provavelmente ele vai me cobrar uma resposta que será a que ele não quer ouvir. E o clima não vai ficar bom. Teremos um vigia na porta de casa irritado porque me recusei a dar dinheiro para ele não fazer nada.

Contei o episódio com Pedro ao motorista. Domingos ouviu e me falou:

DOMINGOS – Por isso o Dembo estava agitado hoje na porta do senhor e demorou para ir embora.

EU – O Dembo?

DOMINGOS – É. Perguntou se o senhor não ia sair. Eu disse que ainda não eram oito horas. Ele falou que o senhor prometeu dar um dinheiro a ele. Eu disse para ele ficar tranqüilo. Se o senhor disse que ia dar, vai cumprir.

EU – Mas eu não prometi nada.

Ou seja: Dembo estava à minha espreita pela manhã para pedir dinheiro. Foi embora antes de eu sair e Pedro, que chegou para rendê-lo, se encarregou de fazer o pedido. Quando Dembo voltar daqui a dois dias certamente vai me pedir dinheiro. Dinheiro que não darei. E aí teremos dois seguranças irritados conosco na porta de casa.

2 comentários:

Fátima disse...

Mas se for pagar pela vigilância, qual será o valor mensal? De "bobeira" foram embora 150. Abraços.

Migas disse...

Complicado dizer que não mas ainda mais dizer que sim, uma única vez. Por um lado em compreendo que são pobres, ganham pouco. Por outro lado, à primeira oportunidade, não o gastam em comida. Gastam em cucas e isso, faz-me uma tremenda confusão. Imagine que ouvi uma vez um ex-trabalhador falar que, sábado tinha bebido 15 biricocas (cervejas). Como eu posso ter vontade de ajudar alguém que gasta o dinheiro desta forma?