28 de junho de 2008. Um dia inesquecível. O sábado prometia algumas alegrias. Água na cisterna para tomar banho, escovar os dentes. O carro recém-comprado na garagem pronto para nos levar aonde quiséssemos. Feijoada na casa de amigos.
Abrimos o portão da garagem. Um carro estacionado bloqueia nossa saída. Pergunto aos vigias (senhores Proteção) da rua de quem é. Da moça da casa em frente. Toco a campainha, bato no portão. Ninguém responde. Um dos proteções diz que não há ninguém em casa.
EU - Como assim não há ninguém em casa?
SENHOR PROTEÇÃO (sotaque angolano) - Saíram, chefe! Eu disse que tinha gente na casa, mas ela entrou no carro da amiga que veio buscá-la e foram embora.
Não adianta argumentar. Como parar o carro é uma das atividades mais difíceis pela falta de vagas, muita gente estaciona na porta das garagens e vai embora mesmo.
Chegam alguns vizinhos. Lamentam o episódio e dizem que, como a casa que alugamos esteve fechada por mais de um ano, todos se acostumaram a parar o carro ali, na porta da garagem. São solidários e se oferecem para tentar ligar para a dona do carro. Ninguém atende.
Decido ligar para a polícia. Aqui discamos para o 113 em vez do 190. A moça atende e diz que ali é apenas uma central e vai encaminhar (é que, assim com em Portugal, aqui não há gerúndio. Se houvesse, ela teria dito “vou estar encaminhando”) o caso para o Departamento de Trânsito e
Viaturas. Uma hora depois, nada. Nem a polícia nem a dona do carro.
Já são 13h30 e a feijoada começou há meia hora. Estou na calçada em frente a casa quando sinto algo úmido nas costas. Um belo passarinho angolano que acabara de se deliciar com as maçãs da índia (frutas pequenas e ácidas da árvore do vizinho cujos galhos avançam para a nossa garagem) resolve se aliviar sobre mim...
Entro para trocar a camisa.
Ligo outra vez para a polícia. Digo que já estou há mais de uma hora tentando sair de casa para um compromisso e não consigo. Desta vez a atendende pede a placa do carro e diz que alguém vai me procurar.
Nisso, a vizinha surge e diz que conseguiu falar com a mãe da dona do carro. Parece que tudo vai se resolver.
De fato, a dona do carro, portuguesa, aparece com a amiga e o filho pequeno. Em trajes de banho. “Estávamos na ilha. Viemos o mais rápido possível. Mil desculpas”.
Ela tira o carro e estamos prontos para sair. Tento ligar para a polícia para dizer que o problema foi resolvido. A ligação não completo e desisto. Nely, nossa empregada de São Tomé e Príncipe, aparece e anuncia triunfalmente: “a água acabou”.
Tudo bem. Íamos passar o dia fora mesmo. É só deixar a bomba desligada quando sair e, à noite, a cisterna estará cheia outra vez.
Entro no carro, introduzo a chave na ignição do nosso RAV 4 Toyota usado, ano 1997, comprado na véspera e...nada. A bateria acabou.
Como ainda ia deixar o carro com o Michel, que me vendeu o veículo, para ele trocar o rádio que não funciona e me trazer uma tal chave de roda do estepe com um segredo antifurto, liguei para ele vir me resgatar. Ele chega, troca a bateria e vamos para a feijoada.
Estamos na época do cacimbo, o inverno de Angola, com dias ensolarados, temperatura amena e uma névoa matinal que se dissipa ao longo do dia.
A casa dos amigos fica no bairro de Miramar. Tem uma vista belíssima de um pedaço da baía de Luanda. Vemos o porto.
Encontro agradável. Até esquecemos das dificuldades luandenses. Voltamos para casa. Ligamos a bomba d´água e...nada. Não funciona. Levanto a tampa da cisterna: o nível de água baixíssimo. A bomba não consegue puxar água. Nenhuma água nas torneiras. Vou para a torneira da garagem, que recebe água direto da rua. É sempre nossa salvação. Colocamos a mangueira ali e jogamos água direto na cisterna. Sem água. Faltou água na rua. Não há uma gota.
Não dá para tomar banho, escovar os dentes. Número 1 e número 2 entram em esquema de revezamento e restrição total.
Escovamos os dentes com água mineral. Vamos dormir. Será um cacimbo inesquecível...
P.S. a água só voltou no dia seguinte.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
Parabens pelo Blog. Esta muito bom mesmo. Pelo menos isso compensa suas desventuras.
Marcelo Caetano.
Lei de Murphy é assim mesmo. O melhor é não sair da cama e esperar o dia passar. :P eheheh Qualquer tentativa de sair da cama pode resultar de torção inexplicável do pé ou pisão no pobre do gato que por qualquer motivo resolveu parar ali.
:)
Postar um comentário