Vida de candongueiro não é fácil. É assim (expressão usada DEMAIS pelos angolanos quando querem explicar alguma coisa): o acordo universal, no bigode do gato, olho no olho, sem assinatura nem nada prevê o seguinte. O candongueiro pega a van e tem de entregar US$ 100 no fim do dia para o dono da candonga. Com a dita cuja lavada. Se ele fizer mais de US$ 100, o dinheiro é dele. Se fizer menos, tem de tirar do próprio do bolso. E em um dia da semana o candongueiro pode dirigir a candonga e ficar com todo o dinheiro que arrecadar.
Esse sistema explica tudo: os candongueiros ficam enlouquecidos (trafegam em fila tripla, em fila dupla na contramão, sobem na calçada e o diabo) para fazer os US$ 100 diários mais um restinho pra eles. E mais enlouquecidos no dia deles, quando não precisam prestar contas ao dono da candonga. Ou seja, todo dia tem 500 mil candongueiros ensandecidos pelas ruas de Luanda e adjacências.
Também convivem com os achaques da polícia. Os candongueiros são parados a todo momento e precisam dar uma gasosa (como chamam a propina por aqui. No Brasil é cervejinha. Aqui é gasosa porque é como chamam o refrigerante. Dar uma gasosa significa pagar um refrigerante. Uma cervejinha) para não terem a candonga apreendida. E isso é fácil demais. 120% das candongas não têm condições mínimas de trafegar. O jeito é pagar uma gasosa.
Uma passagem de candonga custa, no mínimo, 50 kwanzas (lembrem que US$ 1 = 75 kwanzas). Mas como todo angolano que se preze mora longe, eles gastam, por baixo, de 150 a 300 kwanzas por dia. Mas se estiver carregando alguma coisa (um pacote ou uma caixa que ocupe outro assento), são obrigados a pagar passagem extra.
Agora há quadrilhas que ficam em alguns pontos e ameaçam os candongueiros com facas, estiletes, garrafas quebradas e revólveres. Se não pagar uma taxa, não pode pegar passageiro ali.
Quando dirijo, sempre cedo passagem aos candongueiros. Apesar de a maioria cometer barbaridades o dia inteiro, só lembro que eles precisam juntar US$ 100 no fim do dia. E ainda entregar a candonga lavada. Vida de candongueiro é um inferno.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
VIDA DE CANDONGUEIRO
Marcadores:
angola,
candongueiro,
Carlos Alberto Jr.,
Diário da África
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
Querido mano Jr.
Vc está arrasando nos seus relatos. Me sinto viajando contigo e Fabiana.
Este fim de semana eu vou viajar pra Angra, mas na semana que vem prometo te andar meus relatos candongueiros do Rio de Janeiro. Um abraço forte do amigo de sempre. Fábio.
Olha.. te contar.. Brasília era assim nos tempos do querido governador Roriz. Alegria dos bairros mais distantes: foi ele que chamou todos para vir morar aqui, ele daria um lote. E deu. E só. E aqui vieram e aqui ficaram. Por tempos ficou-se muita gente por aí sentado esperando a vida passar até que resolver levantar e trabalhar: aumento da criminalidade violência (ganhamos até do Rio e número de mortes violentas).
Para dar emprego criaram o conceito das vans aqui. Nunca houve tanto acidente quanto nessa época.
Então saiba: Brasília, capital federal do Brasil era igual Luanda há um tempo atrás (em relação à algo da pobreza e muito do transporte, que era neste mesmo esquema que você falou).
Postar um comentário