quarta-feira, 20 de agosto de 2008

QUEM SÃO OS ANGOLANOS

Abaixo, reproduzo trechos de várias fontes consultadas. Muitas das informações estão no livro Angola: anathomy of an oil state, de Tony Hodges.

Angola possui três principais grupos etno-linguísticos. Juntos, representam cerca de três quartos da população africana. Esses grupos, que não são lingüisticamente homogêneos, são os ovimbundu, mbundu e bakongo.

OVIMBUNDU
Os ovimbundu falam o umbundu. Estiveram historicamente concentrados nas províncias de Huambo e Bié, no planalto central do país. No período colonial, começaram a migrar para o litoral devido à falta de terra e competição com agricultores brancos. Foram principalmente para as cidades de Lobito e Benguela.

Muitos homens ovimbundu também integraram as forças armadas portugueses, em parte por razões econômicas e em parte porque os portugueses, deliberadamente, concentraram seu processo de recrutamento militar nas regiões centro e sul de Angola, na seqüência do início da revolta nacionalista, em 1961.

Havia um certo desenvolvimento industrial na região dos ovimbundu, com Huambo e Lobito tornando-se o segundo e terceiros maiores centros industriais, atrás apenas de Luanda. A ferrovia de Benguela tornou-se fator chave na indução do desenvolvimento do planalto central.

De acordo com o censo de 1960 (em Angola não há censo desde 1970. Tudo é feito por estimativa. Dependendo de quem faz o cálculo, os números variam absurdamente), 38% dos africanos eram ovimbundu. Essa proporção parece não ter mudado desde então. Uma pesquisa nacional feita em 1996 (realizada em todas as 18 províncias, em áreas controladas tanto pelo MPLA como pela Unita) mostrou que o umbundu era a língua-materna de 30% da população.

MBUNDU
Os mbundu (cuja língua é o kimbundu) foram historicamente dominantes na capital e seu interior (as atuais províncias do Bengo, Kwanza Norte, Malange e nordeste do Kwanza Sul). Apesar de os portugueses terem travado relações logo após a chegada com o reino do Congo, os mbundu foram os que mais interagiram com eles, desde que estabeleceram uma colônia permanente em Luanda, em 1576, como base para o comércio de escravos. Luanda esteve sob domínio português por quatro séculos, com exceção de um breve período de ocupação holandesa, entre 1641 e 1648.

Enquanto muitos angolanos entraram em contato com os portugueses direta ou indiretamente por meio do tráfico de escravos (mais de 4 milhões foram exportados da região Angola-Congo entre os séculos XVI e XIX), os mbundu do oeste foram o único grupo majoritário a ser controlado pelos portugueses, até a partilha da África, no século XIX.

O desenvolvimento de Luanda como capital da colônia e principal centro industrial trouxe populações de mbundu de maneira desproporcional para a cultura urbana, onde, por causa da pesada presença dos colonos portugueses e do grande número de mestiços lusófonos, o português era largamente falado.

Isso, aparentemente, resultou numa rápida mudança linguística e cultural dos mbundu urbanizados, particularmente nas últimas décadas de controle português. Este processo continuou depois da independência, apesar da partida dos colonizadores, com a urbanização acelerada, por causa da chegada de mais e mais mbundos num ambiente pesadamente lusófono.

Segundo a pesquisa de 1996, apenas 15% dos angolanos falavam kimbundu, sua língua-materna, enquanto 23% da população africana era classificada como mbundu no censo de 1960.

BAKONGO
O terceiro maior grupo étnico são os bakongo, que vivem principalmente no noroeste, nas províncias do Zaire, Uíge e Cabinda e nos vizinhos Congo (Brazzaville) e na República Democrática do Congo (ex-Zaire). Eles falam o kikongo. Até a chegada dos portugueses na região dos bakongo, no fim do século XV, eles possuíam um reino forte e unificado, baseado no M´banza Kongo (agora na província do Zaire). O reino do Congo foi fortemente enfraquecido pelos ataques portugueses no século XVII, mas um forte senso de identidade bakongo permaneceu.

Por causa das demarcações de fronteiras entre Angola, Congo e República Democrática do Congo, muitos bakongo têm, historicamente, afinidades muito próximas com seus vizinhos de outros países e outros povos angolanos no sul. Isso foi reforçado depois da rebelião de 1961, que provocou um êxodo enorme dos refugiados bakongos para o que hoje é a região da República Democrática do Congo.

Apesar de muitos desses refugiados terem voltado depois da independência como “retornados”, a proporção de angolanos que falam kikongo era de apenas 8,5% em 1996, muito menos que a fatia de população bakongo de 1960 (13,5%).

A redução da proporção de angolanos que falam línguas africanas, em particular kimbundu, reflete as incursões da língua portuguesa. Principalmente na África, com exceção de algumas ilhas-estado,as línguas européias dos colonizadores assumiram proeminência como língua franca entre a maioria da população. A pesquisa de 1966 mostrou que o português se havia tornado o segundo idioma mais falado no país, sendo a língua-materna de 26% dos angolanos, bem à frente do kimbundu e do kikongo.

O avanço do português sobre as línguas africanas tem sido grande entre os mbundu, mas todos os grupos africanos têm sido afetados.

A urbanização tem sido uma das forças nesse processo, interagindo com outros, como a expansão da educação depois da independência e o impacto da televisão. O português se beneficiou de seu status de única língua oficial e de sua promoção depois da independência como instrumento de unidade nacional. O português tem sido o único meio de instrução nas escolas, assim como a língua dos militares, oferecendo uma língua comum para várias gerações.

O rápido avanço do português é refletido na distribuição de línguas por idade. A pesquisa de 1966 mostrou que o português é mais amplamente falado pelas crianças do que pelos adultos. Não menos que 42% das crianças de até nove anos e 34% das crianças entre 10 e 19 anos falam português como sua primeira língua. Essa proporção cai para 18% entre as pessoas de 20 a 29 anos e para 10% entre os que têm mais de 40 anos.

Passou a ser comum encontrar jovens angolanos, especialmente em Luanda, que não falam qualquer língua africana – situação sem paralelo em toda a África subsaariana.

A implicação disso é clara: quase metade das crianças estão sendo criadas para falar português como primeira língua. Apesar de, no longo prazo, isso se apresentar como ameaça à diversidade cultural de Angola, também poderia ter um efeito positivo no sentido de ajudar a desenvolver uma identidade nacional forte.

O serviço militar obrigatório também tem tido um papel de unificação, dando a jovens homens de todos os grupos etnicos uma identidade compartilhada, assim como uma língua comum.

Isso também tem reduzido a influência de autoridades tradicionais, chefes das tribos, genericamente conhecidos como Sobas.

Essas mudanças sociológicas e lingüísticas tendem a modificar o senso de identidade angolano. Mas pesquisadores afirmam que, depois de 30 anos de guerra, os angolanos estão mais interessados na paz do que em qualquer forma de nacionalismo étnico que promova a violência.

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