quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O ATAQUE DAS BARATAS

Quando mudamos para nossa casa, costumávamos encontrar um ou dois cadáveres todas as manhãs. Em geral no banheiro do térreo.

Como a mudança ainda não havia chegado, era fácil identificá-las se espreitando pelos espaços vazios da sala. Uma corridinha até a pilastra lateral. Uma paradinha estratégica. Reconhecimento da área em busca de potenciais inimigos. Outra corridinha até a canaleta por onde passam os cabos da TV. Outra paradinha estratégica. Outro reconhecimento da área em busca de potenciais inimigos.

Outra corridinha até...CRASH...life is short!

Nunca gostei de baratas.

Em geral elas apareciam durante o dia. Em geral meio zonzas. Alvos fáceis. Nível de desafio baixo.

Decidimos dedetizar a casa. Chamamos um especialista, prestador de serviços para a Odebrecht. O Palhares. Palhares veio, olhou a casa. Palhares estudou no Brasil. Em Minas Gerais. Alfenas. Sabe identificar os pontos fracos. Os da casa e o meu.

PALHARES – US$ 200.

EU – Tudo isso para jogar um veneno ?

PALHARES – Em Angola não se fabrica nada. Não temos inseticidas aqui. Temos de importar da África do Sul. E tem os impostos...O senhor tem de ficar fora de casa 24h. O cheiro é muito forte. Mas pode entrar na casa depois de oito horas para limpar. Deixe o ar-condicionado a funcionar para sair o cheiro. E a empregada tem de lavar as paredes.

EU – Ok. Segunda-feira?

PALHARES – Segunda. Dois funcionários vão vir.

Na segunda aparece um único funcionário de lambreta. Metido num macacão azul e usando sandálias do tipo franciscanas, coloca um equipamento com o formato de uma mochila nas costas. De lá saía um cano para borrifar o veneno nos esconderijos secretos das baratas angolanas. Parecia saído daquele filme “Os caça-fantasmas”.

O cheiro era, de fato, insuportável. Fez o serviço em 10 minutos. Palhares, que chegou um pouco depois, aguardava lá fora. Entrego US$ 200 pra ele e abandonamos o lar.

Voltamos 24 horas depois. Imaginei que, em casa, nos depararíamos com a imagem de corpos espalhados pela sala e demais cômodos.

Nada. Veneno bom, esse. Não deixa vestígios.

Na manhã seguinte, uma barata atravessa a sala em correria, num passo bêbado. Uma barata suicida, pois veio em minha direção. Fiz o que deveria ser feito.

No segundo dia depois da dedetização, mais dois cadáveres. Um no banheiro e outro na sala.

EU – Nely, tem um cadáver no banheiro.

NELY (assustada) – Como?

EU – Uma barata. Morta. No banheiro. Vocês não usam a palavra barata?

NELY - Yáá! É que achei que tinha uma pessoa morta...

À tarde, por volta das 14h30, surge uma barata em disparada pela sala. E outra. E mais outra.
Nely entra na sala.

NELY – Baratas, são muitas.

Vou ver de onde surgem. Passam por baixo da porta do banheiro. Abro a porta. 300 mil baratas.

Saem de uma fresta lateral entre a porta e a parede. Começamos a pisar nas baratas. Nely usa a pá de lixo no massacre. E os pés. Descalços.

EU – Nely, vai calçar o sapato.

Nely, aos gritos, continua o massacre. Percebo que contratamos uma assassina nata. Enchemos meio saco daqueles de supermercados de cadáveres.

Ligo para o Palhares.

EU – Palhares, as baratas voltaram.

PALHARES – É assim mesmo. Depois de dois ou três dias elas aparecem. Estavam escondidas.

EU – Sim, só que há 500 baratas correndo pela casa.

PALHARES – Vou mandar o funcionário aí.

De fato, o funcionário que trabalhava em “Os caça-fantasmas” aparece em 15 minutos. Borrifa mais veneno. Baratas agonizam pelo chão.

Desde então (isso já faz uns dois meses), devemos ter achado no máximo uns cinco cadáveres.
Quem precisar de um dedetizador em Luanda que aparece na hora marcada e executa o serviço com qualidade, este Diário indica o Palhares.

3 comentários:

F. disse...

será que o palhares é tão eficiente assim também contra os roedores? Os namorados noturnos não páram de violar a Dorotéia...

Fátima disse...

Bem, após esta eficiente dedetização, posso considerar a hipótese de fazer-lhes uma visita -rs.

Helga disse...

"Vou ver de onde surgem. Passam por baixo da porta do banheiro. Abro a porta. 300 mil baratas."

Sinceramente eu corria na direção oposta!!!

Que pechincha hein! $200!??