Soubemos logo cedo, numa conversa muito confusa.
Quem contou foi o ex-marido. Apesar de ex, ele ainda mantém o hábito de espancá-la.
Ele ligou para cá e perguntou se podíamos imaginar que Nely conseguisse carona para vir trabalhar às 6h da manhã todos os dias com um angolano.
EX-MARIDO ESPANCADOR DA NELY – Vocês podem acreditar se algum angolano faria isso?
Como escrevi acima, a conversa foi toda muito confusa. Ele disse que não sabia se Nely viria trabalhar hoje.
Liguei para o celular da Nely. Atendeu o ex-marido espancador.
EU – Quero falar com a Nely.
EX-MARIDO ESPANCADOR DA NELY – Ela não voltou. Não sei onde está.
EU – O senhor bateu na Nely?
EX-MARIDO ESPANCADOR DA NELY – Bati.
Fiquei descontrolado ao telefone e disse que ele seria preso e deportado de Angola (o ex-marido espancador também é de São Tomé). Ele também ficou irritado e disse que eu não sabia com quem estava falando.
EU – Sei muito bem com quem estou falando.
Deveria ter completado a frase, mas estava tão furioso que desliguei o telefone. Na verdade, sei quem ele é. Existem aos montes por aí: um covarde que bate em mulheres.
Nely já havia contado que, antes de se separar, apanhava muito do ex-marido. Hoje também soube como ele se chama: Amâncio, um nome que para mim estará sempre associado a atos de covardia.
Começamos a ficar preocupados com o estado físico de Nely.
Consigo o telefone de uma prima dela e acabo descobrindo mais um pouco da história.
Na confusão, Nely deu uma facada na testa do ex-marido. Ele prestou queixa na polícia e Nely foi presa. A prima, que parece não estar muito preocupada com o destino da parente, não sabe nem o nome completo de Nely nem a delegacia para onde ela foi levada.
EU – Mas você não sabe nem o sobrenome da sua prima?
PRIMA DA NELY – Não, não sei.
Entramos em contato com o consulado de São Tomé e Príncipe em Angola. Os consulados têm obrigação legal de defender os interesses de seus cidadãos no exterior.
O responsável pela área disse que não era a primeira vez que esse tipo de situação acontecia. Tenho cá minhas dúvidas sobre o empenho que será dedicado ao caso. Mas ele tem os meios de descobrir em qual delegacia Nely está detida.
O que mais posso fazer para ajudá-la?
O que vocês, que testemunham o cotidiano da Nely por meio das minhas impressões, podem fazer para ajudá-la?
Pensei numa corrente mundial a favor da Nely, em que cada pessoa que lesse este post ligasse para o consulado de São Tomé e Príncipe em seu país e exigisse alguma providência, que entupíssemos a caixa de mensagens das embaixadas e consulados de São Tomé e Príncipe ao redor do mundo com e-mails exigindo providências. Há uma santomense presa injustamente numa cadeia em Luanda.
Com essa prisão, Nely começa a escrever mais um capítulo de sua tragédia pessoal em Angola. Cliquem aqui para ler um pouco da história dessa garota de 20 anos que veio para Luanda iludida por promessas de um futuro melhor. São vários posts protagonizados por ela. Alguns divertidos, outros tristes, mas todos refletem sua força.
O surreal desse episódio é que, de vítima, Nely poderá se tornar ré. Poderá ser acusada de tentativa de homicídio?
Escrevo aqui sem saber detalhes do que aconteceu, mas imagino que ela deve ter usado a faca como medida extrema de auto-defesa contra um sujeito que alivia suas frustrações com o mundo enchendo a garota de porrada.
Ao comentar a história com Domingos, ele diz que, na semana passada, Nely também havia apanhado. Estava com os braços todos arranhados.
O que leva uma mulher a se envolver com esse tipo de gente? O que leva uma mulher a se submeter a sessões de espancamento?
Nely vive em Angola sem documentos. Foram todos rasgados pelo ex-marido espancador num de seus acessos de fúria, logo depois de tê-la arrebentado na pancada.
Provavelmente está em situação irregular. Possivelmente será deportada. Não sei quando e nem em que condições Nely será solta.
Talvez passe a noite na cadeia.
Uma cadeia num bairro miserável de Luanda.
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