domingo, 23 de novembro de 2008

O DIA EM QUE FIZ DUAS PERGUNTAS AO GENERAL REBELDE LAURENT NKUNDA

O general rebelde Laurent Nkunda, em discurso na cidade de Rutshuru, a 80km de Goma

Depois de diversos telefonemas ao porta-voz do Congresso Nacional do Povo (CNDP), monsieur Bertrand, e ao conselheiro-militar, Major Muhire, recebo a orientação de ir para Rutshuru, cidade a 80km de Goma.

O general rebelde Laurent Nkunda fará uma aparição e, desde Kigali, recebi sinais de que poderia conseguir uma entrevista exclusiva com ele.

Rutshuru tem cerca de 300 mil habitantes e funciona como base do exército do rebelde Laurent Nkunda.

A estrada até lá está em péssimas condições. Levamos mais de duas horas para chegar. Há diversas barreiras militares no caminho.

Quando fizemos o credenciamento na Missão da ONU no Congo (MONUC), William Elachi Alwiga, o assessor de imprensa, nos orienta a, toda vez que sairmos de Goma, pararmos na última barreira da área controlada pelo exército congolês e procurar o comandante.

Devemos nos apresentar e informá-lo aonde vamos e quando retornaremos.

WILLIAM – Não deixem de fazer isso. Temos vários casos de jornalistas que passaram pelas barreiras sem falar nada e, quando voltaram, foram impedidos. O comandante da área apenas mandou que voltassem para o lugar de onde vieram. E não se arrisquem por aí. Tivemos um jornalista belga seqüestrado há pouco tempo pela milícia Mai-mai. Lutamos três dias para conseguir resgatá-lo. Ele ficou todo esse período sendo passado de um grupo para outro até conseguirmos trazê-lo de volta.

No trajeto, pobreza e mais pobreza. Ao longo da estrada, vemos centenas de pessoas transportando diversos tipos de mercadoria (muita cana-de-açúcar) num chukudu (pronuncia-se chukudú). É uma espécie de bicicleta de madeira bastante resistente. Pode carregar até 400kg.

Garotos carregam cana num chukudu
As mulheres, como na África em geral, carregam de tudo na cabeça. Crianças, muitas ainda bem pequenas, também ocupam as estradas levando diversos tipos de produto. De gravetos a galões com água.

São todos maltrapilhos. Roupas velhas, rasgadas. Alguns nem isso têm. Parece que as roupas foram feitas daqueles sacos de estopa de carregar batatas.


Garotos carregam agua para casa na estrada entre Goma e Rutshuru


Mulheres a caminho do trabalho no Congo

Na última barreira controlada pelo exército congolês, seguimos a orientação de William. Paramos e pedimos para falar com o chefe da área. Robert, nosso intérprete (que aqui chamam de “fixer”, palavra que vem do inglês to fix, consertar as coisas, facilitar a vida dos estrangeiros) conversa em swuaili com o chefe da área.

Peço para Robert dizer que vamos a Rutshuru e que gostaríamos da autorização dele para prosseguir. O chefe da área, que não usa uniforme militar, abre um sorriso e diz que podemos ir sem problema. E pede dinheiro para cigarros, fazendo sinal com a mão de que é fumante.

Seguimos. Robert passa mal. Peço para o motorista, Serge (que só fala francês), parar. Robert ensaia vomitar. Melhora e continuamos.

Robert tem menos de 1,50m. É professor de inglês na rede pública de Goma e faz bicos de intérprete para jornalistas e integrantes de ONGs que infestam a cidade. No meio da viagem, abre seu caderno e mostra a lição em inglês que ensina aos alunos.

Passamos pela primeira barreira do exército do rebelde Nkunda. Ninguém nos pára.

Seguimos.

Ao longo do caminho, passamos por diversos grupos de soldados. A maioria carrega lança-foguetes.

Em Rutshuru, vamos ao estádio municipal Tata Ndeze, onde Nkunda se encontrará com a população local. Jornalistas do mundo inteiro já estão lá. Somos parados na entrada e revistados. Tenho de abrir a mochila, ligar e desligar a filmadora e a máquina fotográfica, tirar a bateria e recolocá-la.

Entramos no estádio. Cerca de 4 mil pessoas estão aglomeradas à espera de Nkunda. Um grupo de rap congolês faz uma apresentação com letras alusivas ao CNDP.

Será que terei a exclusiva? Encontro um correspondente do jornal inglês The Independent, que eu havia conhecido na véspera, em Goma.

CORRESPONDENTE DO THE INDEPENDENT – A assessoria de Nkunda prometeu entrevistas exclusivas para 123 jornalistas.

Por volta das 13h, Nkunda chega. Seu carro é escoltado por uma dezena de soldados armados com fuzis AK-47, pistolas etc. Os jornalistas são empurrados. O general precisa de espaço.

Passa a tropa em revista e sobe para a arquibancada. Ouve o hino do CNPD. Apresentação de música e dança. Em determinado momento, desce do palanque para dançar com crianças no meio da multidão.

Seu discurso, em swuaili, é cheio de gestos, caras e bocas.

Nkunda faz um estilo, como viram na foto de abertura do post.

É uma festa para uma fotógrafa de não sei onde que faz todos as fotos com uma máquina manual no estilo Rolley-Flex, com filme de 120 (ou seria 128?) milímetros.

O discurso de Nkunda é de unificação do país. Ele diz que os congoleses precisam parar as brigas tribais e se unir num único povo. Nega rumores de que, na verdade, não é congolês, e sim ruandês.

Fala que o Congo, desde a época da colônia, não tem governos fortes, mas que está preparado para a guerra.

Além de seu discurso, que tem um quê de espetaculoso, a organização do evento faz entrar no estádio um ladrão. O suposto criminoso e vários jovens carregam sacos com roupas, colchões e utensílios domésticos. Tudo é jogado no chão.

O homem sobe ao palco e é apresentado à multidão. O apresentador do espetáculo, uma das autoridades locais, diz que isso é o que acontecerá com quem for pego praticando crimes na região. Nkunda e o CNDP não querem criminosos na área.

Depois, sobe ao palco um adolescente. Olhos arregalados, ele é apresentado como uma criança-soldado das milícias Mai-mai. Os Mai-mai são criminosos que aterrorizam a população na região da fronteira. Dizem que são usados pelo governo de Joseph Kabila para praticar crimes e lançar a culpa sobre os rebeldes liderados por Nkunda.

O apresentador diz que o menino-soldado foi capturado enquanto praticava crimes na região e pede que seus pais o procurem para que possa voltar ao convívio da família.

Por fim, são apresentados quatro soldados do exército congolês que desertaram e passaram a integrar o exército de Nkunda. O salário de um soldado do governo é de US$ 12. Todos eles temem o exército de Nkunda. Há duas semanas, quando o CNDP fez uma investida e chegou a oito quilômetros de Goma e a cinco do aeroporto, os soldados do governo bateram em retirada, largando armas e utensílios pelo caminho.

Depois da intervenção do enviado especial da ONU para o Congo, o ex-presidente nigeriano Olusegun Obasanjo, os rebeldes recuaram.

O evento, enfim, termina e os jornalistas são levados ao local da entrevista coletiva.

Um dos soldados de Laurent Nkunda: AK-47
É aquela correria, com os soldados dando empurrões nos jornalistas para evitar que cheguem perto de Nkunda. Eu mesmo levei uns dois ou três empurrões.

Tudo bem que, no mano-a-mano, sou praticamente uma máquina de matar, mas o soldado usava um AK-47 com um lançador de granadas acoplado. Achei melhor não reagir. Dei minha ajuda pela paz no Congo.

A entrevista foi no pátio de uma escola em frente ao estádio. Uma mesa e cadeira colocadas à sombra de uma árvore.

Jornalistas franceses, ingleses, alemães, italianos, espanhóis, sul-africanos, congoleses e eu, brasileiro.

Consigo fazer duas perguntas.
Sabado, 22 de novembro de 2008, foi, pois, o dia em que fiz duas perguntas ao general rebelde Laurent Nkunda.

EU – General, representantes da SADEC chegaram ontem a Goma. Isso pode ser um sinal de que Angola e a África do Sul podem mandar tropas para combatê-lo?

NKUNDA – Isso não é problema. Se eles querem lutar, nós estamos prontos para lutar. Mas eu acho que Angola sabe muito bem o que é lutar. E o jeito de eles resolverem seus problemas pode ajudar o Congo a resolver o nosso problema. E eu acho que Angola pode ajudar o Congo nas negociações. Por mim, estou muito interessado em saber o que Angola vai fazer. Se eles querem nos dar um conselho diferente, aí será uma outra história. Mas até onde eu sei Angola vem para ajudar no problema da negociação.

EU – O senhor teme ser rotulado de terrorista pela comunidade internacional? O que pretende fazer para obter apoio internacional à sua causa?

NKUNDA – Se você disser só a verdade, o que viu aqui, como jornalista, vai aumentar a credibilidade internacional. Diga só a verdade. Outra coisa: estou lutando pela causa correta. Só quero o apoio à causa, não o apoio da comunidade internacional. Nossa causa é correta. Quero o apoio para a nossa causa.

Nkunda tem um ar messiânico. É articulado, fala francês, inglês e os idiomas locais.

Tem 41 anos. Deixou o exército congolês no fim dos anos 90, quando Laurent Kabila, pai de Joseph Kabila, ainda era presidente.

Um jornalista perguntou por que ele não tentava mudar o país pela via democrática.

NKUNDA – Democracia é pobreza? No Congo há eleições, mas não há democracia.

Outro jornalista perguntou se ele queria ser presidente.

NKUNDA – Eu posso. É meu direito. Sou congolês.

A entrevista durou cerca de 40 minutos.

No final, não consegui minha entrevista exclusiva. À noite, de volta ao hotel em Goma, encontrei dois jornalistas noruegueses. Ela repórter e ele fotógrafo. Dizem que fizeram uma exclusiva com Nkunda.

Um colega deles tinha uma exclusiva com Nkunda marcada e os convidou para acompanhá-lo.
Será que conseguiram a entrevista pelo fato de serem loiros, de olhos azuis, jovens, nórdicos e europeus, enquanto eu sou apenas um sul-americano de cabelos e olhos castanhos e sem dinheiro no banco?

Amanhã vou acompanhar uma patrulha da MONUC pelas ruas de Goma.
P.S. Ninguem me perguntou, mas vou responder assim mesmo: sim, todas as fotos sao minhas. As boas e as ruins.

10 comentários:

F. disse...

Não vi nenhuma foto ruim aí, companheiro. E sabe o que você tá fazendo em Goma? Não é só post, ou só jornalismo. Você está fazendo história... Lendo este seu relato, lembrei-me do Kapucinski.

Abs e fica longe desses AKs por aí.

Sal Ober disse...

Grande grande, enorme ponto de reportagem!.
Muitos parabens.

saudações


http:\\coresemtonsdecinza.blogspot.com

Fábio disse...

Caríssimo, meus parabéns! Você é um desbravador, um cara talentoso e cheio de coragem.

Khristofferson Silveira disse...

É muito relevante poder ler sobre esses acontecimentos pela ótica de um jornalista brasileiro in loco.

Continue com o ótimo trabalho e, como disseram aí, fique longe dos AKs.

adri disse...

Pois tenha orgulho de seus olhos e cabelos castanhos brasileiros - eu gostei de ouvir a historia pela nossa otica!

Claro, o orgulho da conta bancaria vazia eh mais dificil :-)

Continue com o bom trabalho, vou acompanhar de perto.

Anônimo disse...

Gostei desse blog.
Parabéns, vc é talentoso!

Camila disse...

Rapaz, parabéns! belo trabalho, vixe MARIA! parei no seu diário AGORA VIROU VÍCIO.

marcello antunes disse...

Carlos Alberto Júnior.
Parabéns pelo trabalho primoroso. Uma ótima referência para quem está começando a gostar de ler sobre a África. O Zanini, da Folha, deu o pontapé inicial. Agora são dois. E o que vale a pena não é a notícia corpo 18 de 30linhas. É o "causo", a vida ao redor. Quem diria que conheceria Nely, Avozinho, Domingos....Diga a eles que são famosos aqui no Brasil. Nos conte desses detalhes de gente de carne e osso.
Todo o Sucesso do mundo.
Marcello Antunes

glaucia disse...

Tambem cheguei aqui pela dica do blog no Zanini, que acompanho desde o inicio, e me alegro muito que tenha continuado a escrever mesmo depois de votlar da Africa.
Ler relatos como o seu, nao nao sao "guspidos" de um press release de uma agencia de noticias qualquer ( o que acabou por fazer com que todas as noticias, de todos os jornais se pareçam)é uma verdadeira delicia. Parabens. Cuidado por ai!!

Tic disse...

Mano-a-Mano és uma maquina de matar??? Ahahahah. O Rebeldo Nkunda tn de ser extinto xta causar sofrimento ao povo e as FAA Angola são grandes impulsionadores pra paz na Região. Vendo esses acontecimentos eu me pergunto diariamte: Onde esta Deus????