segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A MÃE DA NELY MORREU DE FEITIÇO

A vida da Nely não tem sido fácil.

Desde a vinda de São Tomé e Príncipe para Angola, ela engravidou, teve uma filha, perdeu a mãe, passou meses sendo espancada pelo marido, separou, continuou a apanhar do ex-marido.

Depois da última surra, com um pedaço de madeira, a situação legal de Nely em Angola se complicou. Quando ela veio para cá, ainda era menor de idade. Chegou sob responsabilidade do então marido.

Numa das brigas que tiveram, ele a espancou, a colocou para fora de casa e rasgou todos os seus documentos (cartão de estrangeiro, passaporte).

Para regularizar a situação e poder levar a vida em Angola, Nely precisa voltar a São Tomé e tirar novo passaporte (o consulado de São Tomé em Angola só emite um passaporte provisório, com validade de um ano e rejeitado pela imigração angolana para a concessão de visto de residência).

Nely está sem a filha. Depois de toda a confusão, que vocês poderão ler nos diversos links deste post, o ex-marido levou a filha de Nely embora à força e a enviou para São Tomé. A menina agora está sendo criada pela família do ex-marido.

Nely não quer voltar para São Tomé. Diz que lá não há futuro. Não há trabalho, não há escola, não há nada.

NELY – O que vou fazer lá? Ficar olhando para a cara da minha avó?

O pai de Nely foi embora para Portugal há vários anos e nunca mais deu notícias. Deixou a mulher, Nely e mais quatro irmãos (duas meninas e dois meninos). Nely tem 20 anos e é a mais velha.

Raramente consegue falar com os irmãos, espalhados nas casas de parentes.

A avó não tem telefone em casa. Quando precisa falar, Nely liga para um orelhão próximo e pede para avisar que voltará a chamar mais tarde.
Nas poucas correspondências que recebeu de uma das irmãs, havia sempre um pedido de dinheiro.

NELY – Minha irmã sempre diz que precisa disso, precisa daquilo. Quando eu digo que não tenho dinheiro, não acreditam. Dizem que estou aqui, vivendo no paraíso de Luanda. Eles não sabem que isso aqui é um inferno.

As duas se desentenderam. Nely disse que não mandaria mais dinheiro para eles saberem o que é passar fome.

Nely se emociona e acaba dizendo que não quer voltar para São Tomé porque a família não gosta dela.

EU – Mas por que não gostam de você?

NELY – Eles dizem que minha mãe morreu por minha causa.

EU – Como assim, Nely?

NELY – Minha mãe morreu de feitiço. A mulher do pai da minha filha colocou feitiço nela e ela morreu. Minha família diz que foi por minha culpa.

EU – Nely, isso não é possível. Ninguém morre de feitiço.

NELY – Morre, morre sim.

EU – Mas qual foi o motivo da morte dela? O que está escrito na certidão de óbito?

NELY – Não sei.

EU – Mas o médico deve ter dito alguma coisa.

NELY – Os médicos em São Tomé também não sabem. Quando as pessoas têm alguma coisa que eles não conseguem explicar, mandam para o curandeiro.

EU – O médico mandou sua mãe para o curandeiro?

NELY – Sim, mandou. Minha mãe morreu com 33 anos. Ela não era doente. Ficou com as pernas paralisadas e morreu.

A mãe de Nely morreu em fevereiro deste ano.

Nely estava em Angola e não teve como ir ao enterro.

3 comentários:

Afonso Loureiro disse...

Para nós, ocidentais, As crenças em feitiços e magias parecem-nos algo tão irreal e distante que não somos sequer capazes de imaginar o como são importantes para que com eles convide desde pequeno. As coisas inexplicáveis têm de ter uma justificação. Às vezes, só mesmo um feitiço é capaz de o fazer...

A Nely já tem um feiticeiro poderoso a trabalhar para ela. Chama-se Carlos Alberto!

Lorena disse...

Jornalista você contou pra Nely que aqui se diz que essa coisa de feitiço costuma virar contra o feiticeiro? Não? E disse que ninguém tem o PODER de matar ninguém só com feitiço? Já pensou se isso fosse possível? O que costumam fazer por esse mundo afora, é usarem objetos mais paupáveis para darem conta do recado. O mundo, a África, aqui, ali, estão cheios de exemplos do gênero.

Lorena disse...

Opa,opa,opa!!!! Passei de novo por aqui, li o que escrevi e estou sem palavras!!! De qualquer forma, tem certos erros de ortografia que quando a gente comete, é melhor nem falar nada mesmo. Fazer o quê? Bem diz o dito: boca fala, boca paga. Isso deve ser porque "impliquei" com as fotos e filmagens do blog. Quando implicar da próxima vez serei mais cuidadosa depois. Hehehe...