quinta-feira, 31 de julho de 2008
KIMBUNDU
A caixa de número 31, com livros, ficou desaparecida até o momento final, quando a localizamos embaixo de outras quatro caixas de livros num dos quartos.
O momento delicado da mudança foi bem no final, quando dois dos carregadores tentavam instalar os pés de um dos sofás da sala. Como cada pé tinha um encaixe diferente (tipo quebra-cabeças), eles não conseguiam parafusá-los no sofá.
Começaram a forçar os parafusos e a criar furos diferentes para encaixar os pés. Meu amor lembrou que, no Brasil, os pés ficavam paralelos à lateral do sofá. Aqui eles estavam ficando para dentro. Tiveram de desparafusar os quatro pés e fazer várias tentativas até identificarem o lugar de cada um dos pés.
E o momento mais surreal foi quando os quatro carregadores que haviam saído para fazer outra entrega voltaram para buscar os dois que haviam ficado, e para levar as caixas de papelão vazias que ocuparam quase toda a garagem da casa.
Os quatro entram na sala e rodeiam os dois que haviam ficado para desembalar a mudança e encaixar os pés do sofá.
De repente um deles começa a falar em kimbundu. Outro responde em português. Até aí, tudo bem, estou entendendo metade da conversa. O problema é que o que responde em português só fala “yá”, “sim, tem que meter os pés”, “ainda” (aqui em Angola não se diz “ainda não”. Diz-se apenas “ainda”). Imagino se estão se referindo a mim.
No momento seguinte, outros dois começam a falar em kimbundu. E a responder em kimbundu. Estão acompanhando? Já são três a falar em kimbundu.
E nada de encaixarem os pés do sofá.
Ficamos ali, naquela conversa 75% em kimbundu, 25% em português. Depois ela avança para 85% em kimbundu e 15% em português. Quando percebo, há seis carregadores angolanos parados em frente ao sofá a confabular em kimbundu. Olham, desparafusam os pés, trocam de posição e começam a gargalhar...em kimbundu. 100% de kimbundu.
No fim, os pés são colocados. Assinamos os formulários e o relatório com os danos. Eles vão embora e começamos a tarefa de acomodar o conteúdo de 227 caixas na nossa nova morada.
Mas a conversa em kimbundu ainda não me sai da cabeça. O que será que eles tanto falavam? Alguns deles, percebi, se expressavam com mais facilidade em kimbundu. Fiquei com a impressão de que não são de Luanda e o kimbundu é a primeira língua, a que eles sempre falaram em casa, com a família, com os kambas. O português veio depois, provavelmente na escola, por obrigação.
Mas ali, na sala de casa, percebi que aqueles seis angolanos eram angolanos em sua plenitude, falando o idioma dos ancestrais, aquele que se aprende por repetição, prestando atenção na fala dos pais. Não importa que o trabalho não exija muito preparo, que o salário seja baixo e pago por um branco estrangeiro.
Fiquei com vontade de aprender kimbundu.
quarta-feira, 30 de julho de 2008
TEM QUE PAGAR
Antes de mudarmos para cá, Pedro e Dembo usavam um banheiro construído na garagem de nossa casa pelo inquilino anterior. Controlavam o portão e o acesso da criançada que queria entrar para pegar maçãs da índia que caem da árvore do vizinho.
Nossa chegada desmontou o esquema dos dois. Não podem mais usar o banheiro nem tirar uma soneca na garagem quando o cansaço aperta. Passam boa parte do dia sentados numa cadeira de plástico branca (do tipo que se vai à praia), no pedaço da calçada que separa nossa casa da do vizinho.
Pelo menos uma vez por semana eles nos pedem dinheiro. Ou é para o café-da-manhã ou para o táxi (candonga). Os senhores Proteção costumam trabalhar em escalas que variam de oito a 24 horas (o que já acho demais para um segurança privado), mas Pedro e Dembo acertaram um esquema entre eles de 48 por 48 horas.
Um dia perguntei a Dembo como ele agüentava.
DEMBO – Já estamos acostumados. Ficamos aqui acordados vigiando...
É uma vida desgraçada. Os dois passam o dia esfomeados, pois nunca têm dinheiro (pelo que dizem), e a empresa só oferece uma refeição por turno. Um prato com arroz e frango todos os dias, segundo Pedro me contou.
De vez em quando ofereço um sanduíche a eles. Nunca os vi comerem na hora. Ou guardam no porta-luvas do carro que usam como alojamento ou levam para casa.
Não sei se ficam realmente satisfeitos quando recebem comida. Acho que querem mesmo é dinheiro.
Um dia abri o portão pela manhã e dei de cara com o Pedro do outro lado da rua. Eles sabem quando estou para sair por causa do barulho dos cadeados, correntes e travas que tenho de abrir todas as manhãs. E ficam ali em volta, para ver se sobra alguma coisa. Naquele dia, Pedro me olhou e disse:
PEDRO – Mata-bicho?
EU – Mas o vizinho não te dá? Ele me disse que te dá mata-bicho.
PEDRO – Não, não é todo dia. 50 kwanzas, chefe.
E morro em 50 kwanzas.
Noutro dia, abro o portão e o Dembo já está ali na frente. É o último dia da escala de 48 horas e ele diz que não tem dinheiro para ir embora. Pede 100 kwanzas. Morro em 100 kwanzas.
O relato a seguir aconteceu hoje pela manhã, antes da mudança chegar aqui em casa. Perguntei a Pedro quem era o dono do carro que ele e Dembo usam como alojamento. Precisava que o carro fosse retirado do local para que o caminhão com nossa mobília estacionasse o mais perto possível do portão.
Depois de me falar que o dono do carro era o vizinho, Pedro, sempre com um sorriso sonso no rosto, veio com o papo:
PEDRO – O senhor tem que me dar dinheiro?
EU – Por que eu tenho que te dar dinheiro?
PEDRO – Porque estamos aqui, olhamos a casa...
EU – Não, acho que não.
PEDRO – Não?
EU – Não. Já te dou mata-bicho.
PEDRO –Não, é pouco. Tem que dar. Tío, estamos aqui a olhar a casa. Tem que pagar. Aqui é assim.
Fico em silêncio.
PEDRO – O tío vai dar. Tío! Não é sempre. No fim do mês, chama a gente e diz: “Toma, Pedro; toma Dembo”!
EU – Vamos ver.
PEDRO – O tío vai ver? Tá bom.
Cometi um erro ao dizer que ia ver. Deveria ter cortado logo o papo. E me incomodou o tom do “tem que pagar”. Amanhã provavelmente ele vai me cobrar uma resposta que será a que ele não quer ouvir. E o clima não vai ficar bom. Teremos um vigia na porta de casa irritado porque me recusei a dar dinheiro para ele não fazer nada.
Contei o episódio com Pedro ao motorista. Domingos ouviu e me falou:
DOMINGOS – Por isso o Dembo estava agitado hoje na porta do senhor e demorou para ir embora.
EU – O Dembo?
DOMINGOS – É. Perguntou se o senhor não ia sair. Eu disse que ainda não eram oito horas. Ele falou que o senhor prometeu dar um dinheiro a ele. Eu disse para ele ficar tranqüilo. Se o senhor disse que ia dar, vai cumprir.
EU – Mas eu não prometi nada.
Ou seja: Dembo estava à minha espreita pela manhã para pedir dinheiro. Foi embora antes de eu sair e Pedro, que chegou para rendê-lo, se encarregou de fazer o pedido. Quando Dembo voltar daqui a dois dias certamente vai me pedir dinheiro. Dinheiro que não darei. E aí teremos dois seguranças irritados conosco na porta de casa.
CHEGOU
Ainda faltam armários, estantes, cama, mesas. A casa está atolada de caixas em todos os cômodos. Não vai caber. A casa é menor do que nosso apartamento anterior. Não vai caber.
Como não vieram os armários nem as estantes (por que, Senhor, por que não vieram os armários nem as estantes?), só pudemos abrir poucas caixas pois não há lugar para guardar as coisas.
Amanhã prometem trazer o resto.
NÃO TINHA SALDO
As lojas de ambas vivem lotadas. Filas para comprar aparelhos e cartão de recarga. E todo mundo na rua usa celular, ou telemóveis. Como o serviço ainda deixa a desejar, é comum as pessoas terem uma linha de cada operadora. Quando uma falha, usa-se a outra. A campanha publicitária da Unitel usa o mote “Unitel, o próximo mais próximo”. Os clientes insatisfeitos refizeram o slogan para “Unitel, o próximo mais distante”. Maldade...
O problema é que, como em qualquer país, uma ligação de celular é cara. Talvez isso explique o porquê de a grande maioria das linhas ser de aparelhos pré-pagos. Também não tenho informações precisas, mas já me deram algumas explicações.
A primeira é realmente o custo da ligação. E aqui não se calcula o tempo da ligação pré-paga em minutos, mas em UTTs. Os cartões vêm em 125 UTTs, 150 UTTs, 175 UTTs, 200 UTTs e por aí vai. Mas dá para falar quanto tempo? Depende.
Quando compramos nosso primeiro celular, fizemos a mesma pergunta à moça da loja.
EU – Com esse chip que vem no celular pré-pago dá para falar quanto tempo?
VENDEDORA (numa lógica lusitana impecável) – Pois depende. Se falar muito, dura pouco. Se falar pouco, dura muito.
EU (depois de trocar um olhar incrédulo de dois segundos com meu amor) – Tudo bem, mas dá para falar quantos minutos?
VENDEDORA (mantendo a lógica lusitana impecável) – Pois foi o que eu disse. Se falar muito, dura pouco. Se falar pouco, dura muito.
MEU AMOR - É esse mesmo que queremos.
A vendedora tinha razão, só não soube explicar a lógica do sistema. É assim: se você liga de um aparelho Unitel para outro Unitel ou de um Movicel para outro Movicel, o preço é um. Se ligar de um Unitel para um Movicel ou vice-versa, o preço é outro. E depende da hora do dia, do dia da semana, dos créditos concedidos pelas operadoras no momento da recarga e essas coisas que as operadoras de telefonia adoram fazer para o cliente achar que está ganhando. Igual no Brasil.
Eu queria comprar um pós-pago desde o começo, mas como ainda estava com visto de turista, não foi possível. Na loja alegaram que estrangeiro só pode ter linha pós-paga depois de três meses de residência. Sem alternativa, ficamos com o pré-pago.
A segunda explicação que me deram para a enxurrada de celulares pré-pagos é a questão dos endereços. Não sei se é verdade, mas vamos a ela. Por causa da guerra, o Estado entrou em colapso. As estatísticas como censos, cadastramento de pessoas, emissão de documentos, numeração de casas e outras coisas pararam de ser feitas.
As casas deixadas pelos portugueses depois da independência foram ocupadas pelos angolanos. Os parentes, amigos e desconhecidos que vinham do interior fugidos da guerra eram acomodados nessas casas. Sem espaço para tanta gente, o jeito foi fazer puxadinhos. Em alguns bairros da região central mesmo de Luanda, há ruas sem calçadas. As calçadas ganharam puxadinhos que viraram cômodos e até casas, com cinco, seis, oito, 10 moradores. São residências novas, que não estavam lá, nunca foram registradas. Na prática, estão lá mas não existem.
Como muita gente ainda hoje não tem endereço fixo (passa um mês aqui, outro ali e depois desaparece no mundo), as empresas temem levar calote. As telefônicas e até empresas de TV a cabo só costumam prestar serviços pós-pagos para pessoas jurídicas, mais fáceis de localizar. E é uma burocracia. Chegam a exigir documento com registro em cartório.
A TV a cabo aqui de casa, por exemplo, é pré-paga. E não há alternativa. Paguei US$ 600 pelo primeiro mês mais o custo dos equipamentos e a instalação. Agora pago, antecipadamente, US$ 90 mensais pelo pacote “Bué Mais” (que oferece a Globo e a Record internacionais). Se não pagar no vencimento, eles cortam o sinal. E tenho de pagar na loja da TVCABO, a principal operadora local. Quer dizer, posso pagar no banco, mas a empresa exige que depois eu vá à loja ou ligue para dizer o código do pagamento para eles não bloquearem meu sinal. É melhor ir direto na loja.
Apesar da quantidade de gente com telemóveis pelas ruas, muitos passam semanas sem fazer uma ligação. As pessoas não têm dinheiro para comprar os cartões pré-pagos (que custam de 300 kwanzas - US$ 4 ou R$ 6,4 - a cerca de 3 mil kwanzas -US$ 40 ou R$ 64). O sistema de telefonia aqui não permite ligação a cobrar. Ou seja, se tenho um telemóvel sem crédito, não posso ligar a cobrar para outra pessoa. Apenas recebo chamadas.
E aqui eles não dizem crédito, dizem saldo. Quando algo dá errado e você pergunta por que não te ligaram, a resposta é sempre a mesma: “não tinha saldo, chefe”.
Isso provoca grandes confusões. Você combina um serviço com alguém. Esse alguém não aparece. Duas horas depois você liga e a pessoa diz:
PESSOA – Meu filho ficou doente.
VOCÊ – E por que você não ligou para avisar que não vinha?
PESSOA – Não tinha saldo, chefe.
Você marca uma reunião e a história se repete. Chega ao lugar e não tem ninguém. Quando consegue fazer contato, a pessoa diz que não ligou porque não tinha saldo.
Como não temos telefone fixo em casa, compramos um telemóvel extra e deixamos com Nely, para situações de emergência. O aparelho veio com um “saldo” de 125 UTTs (não, não me perguntem quantos minutos dá para falar). Nely leva o celular para casa. Na primeira semana aqui em casa, Nely se atrasa por causa do trânsito. Quando ela chega, pergunto:
EU – Nely, deixamos um celular com você para essas emergências. Estamos atrasados para o trabalho. Por que você não ligou?
NELY – Não tinha saldo.
EU – Como não tinha saldo? O aparelho veio com 125 UTTs e você não ligou pra gente nenhuma vez.
NELY – É que liguei pra Santumé e acabou rápido mesmo...
Nely fez uma ligação internacional de Angola para os parentes em São Tomé e Príncipe do telemóvel pré-pago que deixamos com ela. Nesse caso, consigo calcular que as 125 UTTs que vieram no aparelho da Nely deram para ela falar uns bons oito milésimos de segundo com a família nas ilhas do Atlântico.
Então já sabem: se eu não ligar é porque não tinha saldo.
terça-feira, 29 de julho de 2008
PARA CONHECER ANGOLA
ANGOLA: ANATOMY OF AN OIL STATE, Tony Hodges
ANGOLA: THE WEIGHT OF HISTORY, Patrick Chabal & Nuno Vidal, editors
A HISTORY OF POSTCOLONIAL LUSOPHONE AFRICA, Patrick Chabal com David Birminghan, Joshua Forrest, Malyn Newitt, Gerhard Seibert, Elisa Silva Andrade
O TRATO DOS VIVENTES, Luiz Felipe de Alencastro
Outras dicas virão em breve.
HORÁRIO ELEITORAL EM ANGOLA
Leia o texto abaixo ou direto na AngolaPress:
ELEIÇÃO: Apresentação de programas dos partidos vai consumir 01h10 diária na televisão
Luanda, 28/07 - Uma hora e dez minutos, diária, é o tempo de emissão destinado às 14 formações políticas concorrentes às próximas eleições legislativas, para apresentarem os manifestos eleitorais respectivos na Televisão Pública de Angola (TPA).
No âmbito do Direito de Antena consagrado, até final do período de campanha eleitoral, cada partido disporá de cinco minutos/dia para emissão de programa próprio, num dos canais da Televisão Pública. O bloco será emitido no espaço das 19h15 às 20h25.
Com vista a garantir que os concorrentes, em igualdade, beneficiem deste pressuposto e dando seguimento ao processo que culminará no acto de votar, em 5 de Setembro, a Comissão Nacional Eleitoral (CNE) realizou, hoje (terça-feira), o sorteio da ordem de precedência dos programas a serem emitidos.
A cerimónia, decorrida no Centro de Convenções de Talatona, em presença dos mandatários das listas, consistiu na extracção de 14 bolas, devidamente numeradas, representando cada uma das forças políticas.
Como resultado do sorteio, a apresentação será feita pelo PADEPA (19h15), Unita (19:20), FOFAC (19:25), FNLA (19:30), AD-Coligação (19:35), PDP-ANA (19:40), PRS (19:45), PRD (19:50), MPLA (19:55), PLD (20:00), Nova Democracia (20:05), FpD (20:10), PPE (20:15) e PAJOCA (20:20).
Igualmente a CNE procedeu a distribuição do Tempo de Antena para a Rádio Nacional de Angola (RNA), que emitirá das 18h35 às 20h55, em períodos de dez minutos.
Assim, a FpD (18h35), PRD (18:45), Nova Democracia (18:55), AD-Coligação (19:05), PDP-ANA (19:15), PAJOCA (19:25), PLD (19:35), PPE (19:45), FNLA (19:55), FOFAC (20:05), PRS (20:15), Unita (20:25), MPLA (20:35) e PADEPA (20:45).
Na cerimónia, orientada pelo presidente da CNE, Caetano de Sousa, procedeu-se ainda o sorteio para posicionamento dos partidos políticos no Boletim de Voto, cuja ordem será PRS, PLD, FpD, PDP-ANA, PPE, FNLA, PAJOCA, FOFAC, Nova Democracia, MPLA, Unita, PADEPA, PRD, AD-Coligação.
COZINHAS ITATIAIA
Vamos aos fatos. Ou melhor. Voltemos um pouco no tempo. É assim: nossa mudança ainda está no porto de Luanda. Precisamos de um armário para colocar os mantimentos enquanto a situação não se normaliza.
Primeiro fui ao Superáfrica, uma espécie de TOK STOK. Entro na loja e não vejo nenhum armário de cozinha. Descubro uma vendedora lá no fundo. Pergunto pelos armários de cozinha.
EU – Vocês vendem armários de cozinha?
VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não percebo.
EU – Vocês vendem armários de cozinha?
VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não.
EU – Não tem?
VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Não.
EU (dando meia volta para ir embora) – Obrigado.
VENDEDORA (sem tirar os olhos da tela do celular) – Armários de cozinha...? Espera...lá no fundo, naquela parede preta-e-branca. Depois vira à direta e vai até o fundo. Depois, à esquerda.
Faço o trajeto. Parede preta-e-branca, direita até o fundo, esquerda.
Incrível: uma seção inteira de armários de cozinha.
Espero a vendedora terminar de atender um cliente.
EU – Quanto é o armário?
VENDEDORA – US$ 670 o metro linear.
Aí tem golpe. Metro linear? Ela poderia ter dito apenas US$ 670 o metro, mas disse US$ 670 o metro linear para eu achar que é um metro maior, tipo um metro e meio, mais caro.
EU (fazendo cara de carpinteiro entendido em metros lineares) – E este outro?
VENDEDORA – US$ 740 o metro linear.
EU (cara de marceneiro formado pelo Senai) – Só tem dessa cor?
VENDEDORA – Não, temos outras.
EU – Tem para pronta-entrega?
VENDEDORA – Sim. Alguém vai tirar as medidas e instalamos em um ou dois dias.
EU – Qual o horário de funcionamento no sábado?
VENDEDORA – Das 8h30 às 13h.
EU – Depois eu volto com a minha mulher. Obrigado.
Sorridente, a vendedora faz que vai me acompanhar até a saída quando encontra outra funcionária da loja, que lhe entrega um corte de tecido bem verde para fazer uma roupa.
VENDEDORA (com um olhar na minha direção de quem busca cumplicidade) – Ai, com esse verde vou parecer capim. Assim os bodes vão querer me comer...
EU (em fuga estratégica daquele pedaço de relva ambulante e saliente) - Não me parece de todo ruim...
Fujo da loja. Do lado de fora, sou cercado por vendedores com catálogos dos mesmos móveis vendidos no Superáfrica quando tento entrar no carro.
VENDEDOR (quase esfregando o catálogo em mim) – Chefe, chefe, olha, por favor, olha, mesmos móveis, mais barato.
Entro no carro e fecho a porta. Lá de dentro ainda ouço o vendedor a me chamar “chefe, chefe, chefe, mesmos móveis, mais barato..”
Achamos esse metro linear muito caro, mas pela falta de opção já cogitávamos pagar US$ 1.340 (50.250 kwanzas) por dois metros lineares.
Dois dias depois, no sábado, voltando de Luanda Sul, passamos em frente a uma loja de móveis de cozinha. Demos meia-volta e entramos.
O paraíso dos armários de cozinha. Linha Itatiaia completa. Começo a ouvir a voz do Lombardi.
Nas cozinhas-modelo para seduzir as donas-de-casa, armários de várias cores. Meu amor, sempre decidida, escolhe logo um branco, para combinar com os que trouxemos e ainda repousam num contêiner no porto de Luanda.
O armário é metálico e tem três portas. No total, 1,10m de comprimento. A gloriosa Itatiaia fala o nosso idioma. Nada de metro linear. Compramos dois. Total: 2,20m e US$ 600. Uma pechincha. E ainda entregam e montam...
Como não tínhamos dinheiro suficiente (e lá não aceitam cartão de crédito nem de débito), tive de voltar na segunda. Fiz a compra. A entrega ficou para o dia seguinte pela manhã.
TERÇA-FEIRA - Passo a manhã em casa, ouvidos atentos (não temos campainha no portão) ao som de um caminhão a estacionar na rua. São 13h20 e o caminhão chega. Os entregadores deixam duas embalagens plásticas com os armários desmontados na cozinha.
EU – Vocês não vão montar?
ENTREGADOR – Não, o montador vem daqui a pouco. Está a terminar um serviço em outro lugar e já chega.
EU – Mas vem mesmo?
ENTREGADOR – Sim, ele vem. Já está a chegar.
17h. Ligo para a vendedora Vanda, que me atendeu na loja.
EU – Vanda, os montadores ainda não chegaram.
VANDA – Mas nós nunca montamos os armários no mesmo dia.
EU – Mas o entregador disse que o montador já estava vindo.
VANDA – Não percebo.
EU – Mas o entregador disse que o montador já ESTAVA A VIR...
VANDA – Ah, pois, não, nós nunca montamos os armários no mesmo dia. Mas amanhã vou falar para eles se arrancarem daqui logo cedo. Até às 10h eles chegam.
QUARTA-FEIRA – 9h. Jamil, o montador, me liga da loja.
JAMIL – Senhor A.?
EU – Sim.
JAMIL – É o montador do armário. Gostaria de saber se posso ir montar o armário e se o senhor poderia me passar o endereço.
EU – Sim, por favor, venha...sim, posso dar o endereço.
Dou o endereço. Quer dizer, explico onde moro. Ninguém aqui se guia pelos endereços. Quando quer explicar um local a alguém, você tem de usar pontos de referências do tipo: sabe a rua da igreja Sagrada Família? Pois vá em direção à rua da Assembléia. Vai passar o prédio do Livro (um prédio grande em forma de livro aberto), depois o prédio da Unitel. É nessa rua.
Jamil e um ajudante chegam às 13h. Se perderam. Foram lá para o largo da Maianga. É perto daqui, mas não é aqui.
EU – Mas eu não te expliquei onde era?
JAMIL – Não foi comigo que o senhor falou. Me explicaram errado.
Jamil abre a embalagem do primeiro armário e começa a montá-lo. Abre a embalagem do segundo armário e...estão faltando TODOS os parafusos.
Ligo para a loja. O dono é brasileiro. Pede desculpas, pede para ver se não falta mais nada e pede para falar com Jamil.
JAMIL – Chefe, não vieram os parafusos. Alguém abriu a embalagem e tirou os parafusos.
CHEFE DO JAMIL (só ouço ruído de voz abafada)
JAMIL – É aquele armário que estava mesmo no canto, tiraram as peças e não meteram outras no lugar.
CHEFE DO JAMIL (só ouço ruído de voz abafada)
JAMIL – Sim, só falta isso, chefe. OK.
Jamil e o colega vão embora e prometem voltar no dia seguinte pela manhã.
QUINTA-FEIRA – 9h – Estou à espera de Jamil com um armário desmontado na cozinha e outro ainda na embalagem. 10h50 chega o Jamil. Termina de montar o primeiro armário. Observo algo estranho.
EU – Jamil, o segundo armário também não tinha de ter essa canaleta para sustentar a segunda porta?
JAMIL (mudo, começa a revirar a embalagem do segundo armário)
Incrível. Está faltando a canaleta para sustentar a segunda porta do armário.
Enquanto ligo para o brasileiro dono da loja, Jamil fica pálido.
JAMIL (antecipando a bronca que levaria) – E ontem o chefe me pediu para ver se não faltava mais nada...
Falo com o dono da loja e passo para o Jamil.
JAMIL – Chefe, já está toda a estrutura montada. Falta mesmo é a canaleta, chefe. Esse era aquele armário que estava separado, chefe. Tiraram as peças e não meteram outras no lugar, chefe.
Jamil silencia. Do outro lado, alguém mais entra na linha.
JAMIL – Cubano? Cubano, é a canaleta do armário. Tás a ver? A canaleta, cubano. A canaleta. Separa a canaleta.
Jamil desliga.
EU – E agora?
JAMIL – Vou lá buscar, chefe. Estou de volta às 12h.
EU – Mas são 11h10. Você não vai ir e voltar de Luanda Sul até as 12h.
JAMIL – Xii, é mesmo. Mas eu volto, eu volto.
Os armários serão instalados em cima da pia da cozinha. Temo que a furadeira arrebente algum cano.
Quando Jamil faz as marcações na parede com a chave de fenda, ouvimos um som oco. Será que tem um cano?
JAMIL – É possível, chefe. Mas são só três furos que vou fazer na parede, chefe.
EU – Eu sei, mas basta um cano no caminho para termos um desastre.
Jamil começa a furar. A furadeira geme. Jamil faz o primeiro furo. Faz o segundo furo. Faz o terceiro furo. Nenhum cano furado. Jamil olha para mim e diz:
JAMIL – Graças a Deus, chefe!
Antes de Jamil sair para buscar a canaleta, peço para ele usar a furadeira da loja e instalar um porta-toalhas no banheiro do quarto. Jamil sobe e diz que a broca é muito grossa. Vai trazer uma mais fina quando voltar.
Nada de Jamil voltar. Saio para o almoço. Quando volto ele já está à espera. Armário da cozinha montado. Vamos furar a parede.
Ele pega o suporte dos parafusos e marca com caneta bic o local onde deve fazer os furos. Coloca o suporte no outro lado.
EU – Jamil, os furos do suporte são iguais desse lado?
JAMIL – Sim, chefe. São iguais.
Jamil marca e começa a furar. A broca entorta.
JAMIL – Minha broca...
Empresto o martelo e vamos para a parte da frente da casa. Ele bate, a broca volta ao estado original e retomamos o trabalho. Jamil faz os furos no primeiro suporte, coloca as buchas na parede e prende o suporte. Faz os furos para o segundo suporte. Quando vai afixar o suporte, pára e dá dois socos na própria cabeça.
EU – Que foi, Jamil?
JAMIL – Os furos. Esse suporte é diferente.
EU – E eu ainda te perguntei...
Resultado: Jamil acaba tendo de fazer quatro furos onde deveria ter feito apenas dois.
Finalmente colocamos o suporte para toalhas. Descemos.
EU – Jamil, quanto você vai me cobrar pelo serviço.
JAMIL (olhinhos angolanos brilhando e sorriso aberto) – O chefe diz o preço...
Como não tenho idéia do preço dessas coisas, tinha colocado uma nota de 500 kwanzas (US$ 6,6) num bolso e uma de 1.000 kwanzas (US$ 13,3) no outro bolso. Nunca coloque muito dinheiro junto. Se virem que você tem mais, vão cobrar mais.
EU – Pensei em 500 kwanzas.
JAMIL – 500 kwanzas?? Não, é muito pouco.
EU – Quanto é que você estava pensando em cobrar?
JAMIL – Dá-me 1.000 kwanzas.
EU – 1.000 kwanzas? O motorista trabalha o dia inteiro e não ganha isso.
JAMIL – Mas tenho que pagar o táxi (candonga).
EU – Mas você veio aqui pela empresa, que é quem está pagando o táxi.
JAMIL – Mas eu tive de voltar aqui, chefe. Fiquei a esperar o chefe voltar do almoço.
EU – Voltou porque você não trouxe todos os equipamentos.
JAMIL – Então me dá o que o chefe quiser...
EU – Toma, 500 kwanzas.
JAMIL (pegando a nota de 500 kwanzas, sorriso no rosto) – Está bem, mas da próxima vez te vou a fugir.
Jamil quis dizer que, se alguma vez eu tentar contratá-lo para outro serviço, ele não vai aceitar.
Quatro dias, 500 kwanzas e um Jamil insatisfeito depois, temos os armários Itatiaia de US$ 600 na cozinha e o porta-toalhas instalado no banheiro do quarto.
NOVOS PALADARES
Este é para os dias em que acordo com a sensação de que estou mais magro e posso abusar um pouco no mata-bicho (café-da-manhã).
Este outro é para as manhãs em que enfiei o pé na jaca na noite anterior e preciso de um acompanhamento mais light para o cereal matinal.
Acompanhado de um danup sabor "frutos do bosque"...
...e, para encerrar o dia, a preferência nacional: uma gloriosa Cuca. Afinal, ninguém é de ferro.
P.S. da relação acima, a Cuca é o único produto angolano.
segunda-feira, 28 de julho de 2008
O PRÉDIO DO KINAXIXI

ÁGUA TEM, MAS A LUZ...
Passamos à tarde e o início da noite com o nosso gerador laranja New Sound Proof, da marca Denyo, em atividade.
Concordo que ele produza um new sound. Mas achei a palavra proof fora do contexto...
domingo, 27 de julho de 2008
RIO DE JANEIRO DE ÁFRICA
sábado, 26 de julho de 2008
ZUNGUEIRAS
Mercado de rua é uma forma de dizer. Existe o Mercado de São Paulo. Uma área cercada onde se compram legumes, verduras e frutas, algo de vestuário e não muito mais do que isso. As outras coisas são negociadas com as zungueiras (calma que no próximo parágrafo explico quem são as moças) na rua do São Paulo, do pedaço em que o asfalto acaba em diante. A rua do São Paulo é, na verdade, uma avenida de terra larga permanentemente engarrafada pelas candongas que trafegam em filas duplas e triplas na mão e na contramão. Não necessariamente nessa ordem. As obras em andamento na região contribuem para piorar o trânsito. É lá, na rua do São Paulo, que os angolanos sem dinheiro e os gringos curiosos, e que se acham malandros, fazem as compras de utensílios domésticos.
É assim: zungueiras são mulheres que vendem de tudo pelas ruas da cidade. Tanto podem ter um ponto fixo como caminhar sem rumo durante todo o dia. Até a hora em que a mercadoria acaba ou até a hora de ir para casa. Os homens que vendem nas ruas também são chamados de zungueiros. No Brasil seriam chamada(o)s de camelôs ou vendedora(e)s ambulantes.
Elas colocam uma rodilha na cabeça para ajudar no equilíbrio de uma bacia onde já vi colocarem de um tudo. Bananas, abacaxis, pães, mangas, peixe seco, peixe fresco, biscoitos, botijão de gás (esses vão sem a bacia, direto na rodilha).
Como precisam manter a espinha ereta para não derrubar o que levam na cabeça, o movimento delas é meio robotizado. Não podem fazer movimentos bruscos e quase nunca viram a cabeça. Quando querem olhar para o lado, giram o corpo inteiro. Quando cruzo com elas na rua, observo seus olhos deslocarem-se do centro da órbita para o canto. Um rabo de olho com uma breve esperança de que, ao cruzar seus olhares com os nossos, poderão garantir alguns kwanzas no fim do dia.
Ainda não fiz fotos delas, mas clique no link para ter uma idéia de como são as zungueiras.
sexta-feira, 25 de julho de 2008
PALUDISMO
Nely a levou ao médico pela manhã. Furaram o dedo da menina para recolher uma amostra de sangue. A filha de Nely está com paludismo (malária).
O médico receitou um xarope com doses às 7h, às 14h e às 21h (não sou médico, mas acho que falta uma dose...).
CONTA-GOTAS
Ontem e hoje, o nível de água na cisterna estava baixo demais para fazer a bomba funcionar.
Ontem, pelo menos, estava entrando água da rua. Na hora do almoço já podíamos abrir as torneiras.
Hoje não chega uma gota. Escovo os dentes com a água que Nely mantém armazenada em garrafas e baldes. Meu amor usa água mineral.
Em África são 8h. Bom dia a todos.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
ELEIÇÕES EM ANGOLA
1 – MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola)
2 – Unita (União Nacional para a Independência Total de Angola)
3 – PRS (Partido de Renovação Social)
4 – FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola)
5 – PDP-ANA (Partido Democrático Para o Progresso de Aliança Nacional de Angola)
6 – PLD (Partido Liberal Democrático)
7 – PRD (Partido Renovador Democrático)
8 – Padepa (Partido de Apoio Democrático e Progresso de Angola)
9 – AD-Coligação (Coligação Angola Democrática)
10 – FOFAC (Fórum Fraternal Angolano Coligação)
11 – Nova Democracia
12 – Pajoca (Partido da Aliança da Juventude Operária-Camponesa de Angola)
13 – Plataforma Política Eleitoral
14 – FPD (Frente para a Democracia)
A Assembléia Nacional de Angola é unicameral. Tem 220 deputados assim distribuídos, segundo o resultado das eleiçõles de 29 e 30 de setembro de 1992:
MPLA (129)
Unita (70)
PRS (6)
FNLA (5)
PLD (3)
PAJOCA (1)
PNDA (1)
PDP-ANA (1)
FDA (1) - o Fórum Democrático Angolano teve a candidatura rejeitada pelo Tribunal Constitucional para as próximas eleições
AD-Coligação (1)
PRD (1)
PSD (1) – o Partido Social Democrático também teve a candidatura rejeitada pelo Tribunal Constitucional para as próximas eleições
Além do FDA e do PSD, outros 16 partidos tiveram as candidaturas rejeitadas pelo tribunal.
A FILHA DE NELY
Nely mora num quarto nos fundos de uma casa. Quando sai para trabalhar, deixa a filha com uma moça de 22 anos, a quem paga US$ 50 mensais. A moça é órfã da guerra civil de Angola. Foi adotada pela família dona da casa quando, ainda criança, vagava pelas ruas de Luanda.
A moça começou a estudar. Quando dá a hora da aula, deixa a filha de Nely sozinha no quintal.
Os donos da casa não querem que a moça tome conta da criança. Ontem, Nely chegou a casa e encontrou a filha toda suja de fezes. A moça já havia ido para a escola e ninguém quis limpar a filha de Nely.
A filha de Nely está aprendendo a falar. As únicas expressões que a ouvimos dizer são “filho da puta” e “caralho”, que a menina escuta o dia inteiro no quintal da casa em que mora. Toda vez que a filha de Nely repete os palavrões, apanha de Nely. A garota passa o dia chorando.
Nely precisa colocar a filha numa creche. O ex-marido-namorado quer a guarda da filha e diz que não vai pagar a creche. “Ninguém vai meter a mão no meu bolso”, rosnou quando Nely pediu ajuda.
NELY – Vou acabar mesmo dando a minha filha, assim páram de me encher.
Em Angola há dias de cortar o coração.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
A NOTA DE US$ 100 FALSA
O pagamento foi em dinheiro vivo. Transferências bancárias, cheques, cartões de crédito e de débito são coisas incipientes em Angola. Muita gente desconfia do sistema e prefere dinheiro na mão. Deixei US$ 100 com Michel (a história dele está no mesmo post anterior), a título de Confiança, chefe, confiança e para pagar a taxa cobrada pela administração do local onde os carros ficam expostos.
Fomos ao banco sacar o dinheiro. Aqui é possível fazer retiradas tanto em kwanzas como em dólares. Basta avisar ao gerente a quantia desejada.
Depois de preencher a papelada, um funcionário da agência nos levou a uma sala reservada. Lá, uma câmera no alto de uma das paredes monitorava nossos movimentos. Uma das paredes internas era a porta de um enorme cofre.
O funcionário conversou com alguém dentro do cofre e trouxe duas pilhas de notas de US$ 100 que totalizavam os US$ 17,5 mil. Passou na máquina de contar dinheiro. Nós também contamos as notas. Duas vezes. Saímos do banco e fomos entregar o dinheiro a Michel.
Por falta de documentos, decidimos pagar apenas metade do valor do carro. O restante seria quitado no dia seguinte. Michel pega um bolo de US$ 8,5 mil e começa a contar. De repente, segura uma das notas no contra-luz e diz:
MICHEL – Essa nota é falsa.
EU – Não é possível. Acabei de tirar o dinheiro do banco.
MICHEL – Pode ver, chefe. O número 100 da nota não muda de cor. É falsa.
EU – Mas o banco não ia dar uma nota falsa.
MICHEL – Às vezes são os funcionários mesmo. Metem uma nota falsa quando o cliente vai
levantar quantidade.
Dou outra nota ao Michel e guardei a suposta nota falsa.
Michel continua a contar as notas.
MICHEL – Essa outra...
Gelei. Pronto. Fomos vítimas de um derrame de notas de US$ 100 falsas.
MICHEL (segurando outra nota de US$ 100 toda detonada) – Esta é velha, mas é verdadeira.
Alívio.
Tentamos falar com a gerência do banco, mas era sexta-feira e o expediente já havia encerrado. Ligamos na segunda. Ao receber a informação da nota, a gerência disse que o banco não distribuía dinheiro falso. Mau começo.
Não dissemos que o banco deu uma nota falsa. Dissemos que uma pessoa não aceitou a nota sob a alegação de que era falsa e gostaríamos de ir à agência para tratar do assunto. Marcamos para o dia seguinte.
Chegamos na hora do almoço. Agência lotada. Ar-condicionado pifado. A gerência não estava na sala, mas numa mesa do lado de dentro do balcão. Mostramos a nota. A gerência olha e diz:
A GERÊNCIA – É, é falsa.
E devolve a nota.
NÓS – E o que o banco vai fazer?
A GERÊNCIA – A nota já saiu do banco, ninguém garante que não foi trocada...
NÓS – Essa nota saiu daqui e foi direto para pagar o carro. Não passou pelas mãos de mais ninguém.
A GERÊNCIA – Não podemos fazer nada.
NÓS – O banco está achando que viemos aqui dar um golpe?
A GERÊNCIA – Não digam o que acham que estou a pensar porque vocês não sabem o que estou a pensar.
NÓS – Então é isso? O banco não vai registrar nada, nenhuma ocorrência?
A GERÊNCIA (dando as costas e voltando a mexer no computador) – É.
NÓS – Queremos sacar o dinheiro e encerrar a conta.
A GERÊNCIA (em tom irônico apontando para a fila com umas 50 pessoas) – À vontade, a bicha (fila) fica ali.
Saímos do banco com aquele desejo de iniciar uma guerra civil.
Por acaso temos acesso ao presidente do banco. Ouviu a história com paciência e tentou justificar o comportamento da gerência da agência. Disse que o sistema bancário em Angola era diferente do Brasil, estava começando, que a gerência era “um bucadinho azeda”, que estava na empresa havia bastante tempo, que trabalhou em agências difíceis em que a imposição da autoridade perante os clientes era necessária (o que será que ele quis dizer com isso?), imagine se o banco tivesse de trocar toda nota que um cliente dissesse que é falsa, mas que ia resolver o assunto.
Já que estávamos com o presidente do banco, não podia deixar de dizer o que achava.
EU – Senhor, presidente. Não é possível que o banco vá imaginar que vamos sacar US$ 17,5 mil e depois voltar ao banco para aplicar um golpe de US$ 100. Realmente não conheço o sistema daqui nem quero dizer que o banco deixou passar uma nota falsa, mas a experiência que temos de atendimento em nosso país é diferente. A gerência deveria ter nos levado para uma sala reservada para conversar sobre o assunto – e não começar um bate-boca no meio da agência, na frente dos outros clientes – e, no mínimo, dizer que iria avaliar o caso.
ELA – E o que vamos fazer com essa nota falsa?
PRESIDENTE DO BANCO – Estão com ela aí?
ELA –Sim, na minha carteira (e movimenta-se para pegá-la).
PRESIDENTE DO BANCO (gesticulando que não quer ver a nota) – Não, não é necessário. Isso vai ser resolvido.
ELA – Mas como? Houve uma quebra de confiança. Não tenho mais confiança de que não acontecerá outra vez.
EU – Presidente, de novo: não quero insinuar nada, nem sei direito como as coisas funcionam aqui, mas, no Brasil, os bancos têm responsabilidade de retirar dinheiro falso de circulação. Num episódio como este, o banco reteria a nota, abriria uma ocorrência e remeteria a nota falsa ao Banco Central para análise. E, em nome do bom relacionamento com o cliente, trocaria a nota falsa por uma verdadeira.
ELA – No Brasil nem podemos carregar uma nota falsa porque é crime..
EU – O mínimo que poderíamos esperar era que a gerência ficasse com a nota. Mesmo que não a substituísse, pelo menos poderia dizer que encaminharia o caso à direção do banco. Nem isso ela fez.
PRESIDENTE DO BANCO – Deixe-me ver a nota.
Ele olha a nota falsa. Tira a carteira do bolso interno do paletó, abre, pega uma nota de US$ 100 verdadeira e fica com a falsa.
Continuamos clientes do banco. Mudamos de agência. A vida segue.
terça-feira, 22 de julho de 2008
DE GATUNOS E RETROVISORES
Furtar um espelho retrovisor é coisa simples. Mete-se uma chave de fenda ou algum objeto pontiagudo entre o espelho e a estrutura que o sustenta e pronto. Ele sai com grande facilidade. Em questão de segundos. Encontrar os espelhos no lugar quando deixamos o carro estacionado é uma loteria às avessas.
O furto de retrovisores, pois, criou dois mercados bastante lucrativos.
Mercado 1: o comércio de espelhos retrovisores furtados. Como nas ruas de Luanda compra-se praticamente de tudo, lá também estão os retrovisores. Jovens circulam entre os carros engarrafados oferecendo diversos modelos de espelhos.
Já ouvi relatos de que os seguranças (perdão, o SENHOR PROTEÇÃO) de casas e prédios fazem parte do esquema. Quando alguém não quer pagar uma gasosa para eles ficarem de olho nos carros, indicam aos miúdos (como chamam os garotos) quais devem ser furtados. E ouvi mais: não é raro o motorista comprar o próprio retrovisor furtado.
Mercado 2: barras metálicas protetoras.
É assim: em determinados bairros da cidade encontramos pessoas que instalam duas pequenas barras metálicas nos retrovisores, de forma a impedir que sejam retirados pelos gatunos.
Na semana passada foi minha vez de aderir ao serviço. Não quero virar estatística na mão dos gatunos.
Esse pessoal (em geral adolescentes) que instala as barras protetoras circula pela cidade inteira, mas não é tão simples identificá-los. Às vezes estamos com o carro estacionado e eles surgem do nada. Colocam a peça metálica em frente ao retrovisor para mostrar como vai ficar e emendam um discurso de que vão levar os espelhos se não fizermos a instalação. Noutras vezes precisamos da ajuda de uma pessoa da terra para nos apontar quem são eles no meio da multidão de vendedores. Há quem diga que são eles mesmos que furtam os espelhos, mas não posso acreditar numa coisa dessas...
O preço. Sim, o preço do serviço. Os motoristas me diziam que, na cidade de Luanda, cobram muito caro. Cartel mesmo: não se consegue gripar ou meter os ferros (expressão que eles usam para o ato de instalar as barras metálicas) nos retrovisores por menos de 3 mil kwanzas (US$ 40 ou R$ 68).
E meter os ferros é, aparentemente, simples. Não leva mais de cinco minutos. É assim: com uma furadeira manual, movida à manivela, eles fazem duas perfurações (uma em cima e outra embaixo) na peça plástica onde ficam os retrovisores. Tiram do bolso as barras metálicas (que já vêm com um furo), encaixam o rebite (arrebite?? Sei lá) e pronto. Estamos salvos.
Com o preço de 3 mil kwanzas em mente, não poderia pagar mais. Um dia estava dirigindo e vi um sujeito colocando as barras metálicas num carro estacionado na rua. Buzinei e ele se aproximou, mas o sinal abriu e só consegui pegar o número do terminal (como eles chamam os telemóveis, ou móveis ou os nossos celulares) dele. Dadinho era o nome da figura.
Eu já estava me sentindo o tal. Dirigindo meu RAV-4 ano 1997 pelas ruas de Luanda e negociando com os caras em pleno trânsito como se fosse um local, totalmente confundido com os angolanos.
Quando liguei mais tarde para saber o preço, Dadinho queria me cobrar 12 mil kwanzas (US$ 160 ou R$ 272) para colocar as barras nos retrovisores e nos faróis (sim, também levam os faróis – que depois são vendidos nas ruas). Agradeci e pedi ajuda ao motorista.
Lá fomos ao Golfe, um bairro popular na periferia de Luanda que na época colonial era habitado por funcionários públicos portugueses. Algumas casas ainda mantêm a arquitetura daquele período. Hoje são ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, gente demais, candongas demais e poeira demais.
Depois de meia hora avançando rumo a uma Angola profunda, encontramos dois garotos que metem os ferros. O motorista buzina e encosta. Abaixo o vidro da janela e eles se aproximam.

Numa falha de reportagem imperdoável, só perguntei o nome de um dos miúdos: Jaime (à esquerda).
Seu Mendes, o motorista, assume a operação. E travam o seguinte diálogo:
JAIME – Paizinho...
SEU MENDES – Quanto é pá?
JAIME (tendo de dar um preço para um são-tomense que dirigia para um branco – FATOR ESTRANGEIRO= 500 KWANZAS) – Dois mil e quinhentos.
SEU MENDES – É quê, pá? Meti os ferros por 1.000 kwanzas na semana passada.
Seu Mendes começa a acelerar o carro para ir em busca de outras ofertas. Nisso, o outro miúdo, provavelmente o sócio de Jaime (os dois aparentam cerca de 16 anos), interfere:
MIÚDO SEM NOME – Papá, espera.
SEU MENDES – Fala mais, fala mais (expressão que Seu Mendes usa o tempo todo para pedir um preço mais baixo nas barganhas que também adora fazer pela cidade).
JAIME – 1.500 kwanzas.
EU – 1.000 kwanzas. Só dou 1.000 kwanzas (US$ 13 ou R$ 22,6).
Fechamos o negócio e os miúdos começam a operação. Quando estão para terminar no retrovisor do lado do motorista, aparece um terceiro adolescente a dizer que eles não sabem trabalhar direito. O miúdo sem nome reage.
MIÚDO SEM NOME – Sai daqui. Te parto a cabeça (eles adoram usar essa expressão. Mas não funciona se não imaginarem o sotaque angolano).
Nisso o carro é cercado por vendedores ambulantes. Um deles vem com uma lata de spray preto na mão. Quer lançar um jato nos rebites (arrebites?) para a cabeça do parafuso ficar da mesma cor do plástico do retrovisor.
MIÚDO DO SPRAY – Vai ficar buníítu (acho que o sotaque angolano é mais ou menos assim. E se não conseguirem imaginar o sotaque angolano também não funciona).
Seu Mendes despacha o garoto. Mas esse miúdo é um empreendedor nato. Vejam só: ele fica na cola de quem instala os ferros de proteção nos retrovisores. Espera de longe e só aparece no momento final para lançar uma rajada de spray preto. Numa outra falha de reportagem imperdoável, não perguntei quanto ele cobra pelo jato de spray.
Pago os 1.000 kwanzas aos garotos.
Seu Mendes negocia a frente de um rádio (o meu está no porta-luvas). O sujeito começa pedindo US$ 160. Seu Mendes ouve o preço e diz:
SEU MENDES – Fala mais, fala mais!
O vendedor reduz o preço para US$ 40. Seu Mendes aceita. O vendedor diz que vai buscar o rádio e sai. Seu Mendes liga o motor do carro.
SEU MENDES – Vamos porque é capaz dele voltar e aí vamos ter de comprar o rádio.
Seu Mendes coloca o carro no meio das candongas. O vendedor nem olha.
SEU MENDES – Tás a ver? Ele não vem. Por esse preço ele não vende.
Vamos embora. Nosso RAV-4 ano 1997 já circula pelas ruas de Luanda com barras de ferro protetoras nos espelhos retrovisores (que vocês podem checar no detalhe da foto).
NZINGA MBANDI NGOLA, A RAINHA GINGA (1587-1663)

segunda-feira, 21 de julho de 2008
CONVERSA COM UM ANGOLANO COMUM
ANGOLANO COMUM (AC) – Com 12 anos. Eu era muito criança. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão mais velho. Éramos só dois irmãos. Agora somos muitos. Somos sete.
EU – E começou a trabalhar com quantos anos?
AC – Comecei a trabalhar com 15 anos numa empresa de construção militar, que faz pontes.
EU – E com 18 anos foi para a tropa?
AC – Sim. Todo mundo que trabalhava nessa empresa ia para a tropa quando completava 18 anos. Fiz treinamento militar aqui na Barra do Kwanza. Três meses. Aprendi a atirar, rastejar, primeiros socorros, acampamento na selva, no rio. Muita coisa.
EU – E depois daqui foi pra onde?
AC – A primeira área foi no Kunene, em 1988. Eu tinha 19 anos quando participei do primeiro combate. Dei tiro, mas não levei nenhum. Colegas levaram tiro, ficaram feridos, outros morreram.
EU – Vocês atacaram ou foram atacados?
AC – Foi em defesa. Fomos atacados. Estávamos na selva. Naquela altura, quem estava no Kunene eram os sul-africanos. Vieram pela Namíbia, com aviação.
EU – Quanto tempo durou esse primeiro combate?
AC – Foi à noite. Estávamos acampados. Começou às 4h da manhã e só terminou às 6h.
EU – Quantos soldados havia na sua tropa?
AC – Dois mil, quinhentos e tal. Não faço idéia de quantos morreram no ataque aéreo, mas morreram muitos. Fomos nos esconder. Já tinham informação de que estávamos lá. Eu estava dormindo naquela altura. Ouvi barulho, gritaria e acordamos. Muitos fugiram. Foi uma surpresa. Pra mim foi a primeira vez. Foi um susto mesmo muito grande.
EU – Teve vontade de ir embora?
AC – Sim, eu chorava. Foi difícil.
EU – E eram todos muito jovens?
AC – Éramos todos jovens. Mas logo depois fomos nos acostumando, depois de algumas semanas.
EU – E qual foi o seu primeiro combate?
AC – Foi um ataque que fizemos. Sabíamos onde estávamos e fomos atrás deles. Era a Unita. Mas não conseguimos. Fomos corridos porque a Unita estava com carros de combate Búfalo e tivemos de recuar.
EU – E você já atirou em alguém? Já matou alguém?
AC – Já dei tiros, mas não sei se matei. É difícil saber. De onde atiram contra você, você também atira lá. Se páram de atirar é porque ou você atingiu alguém ou ele fugiu. A guerra é muito cruel.
EU – E você saiu da tropa em que ano?
AC – Em 1995. A guerra ainda estava. Depois ficou mais forte. Porque depois a guerra já foi na cidade. Veio para a cidade.
EU – E você chegou a combater em Luanda?
AC – Em 1992 eu já não estava na tropa. Pediram aos mais antigos que voltassem, mas eu não voltei. Muitos morreram. Eu saí em 1995 porque sofri um acidente de carro.
EU – E o governo pagou alguma indenização?
AC – Nada. Agora é que está a pagar. Mas não está muito fácil. Tem que abrir um processo, informar onde trabalhou, quem foi seu chefe, quem foi seu comandante, onde ficaste, onde foste preparado, abrir um processo, procurar no fichário. Até encontrar os seus dados...naquela fase da guerra era muito pessoal. Normalmente quem se apresentava na tropa eles ainda tinham os dados, mas quem era pego nas províncias, pelo caminho onde passavam, não tinham dados.
EU – As tropas iam pelas províncias e recrutavam os jovens que encontravam pelo caminho?
AC – Às vezes parávamos aqui, dormíamos aqui e às 4h da madrugada íamos lá na cidade recolher todos os jovens.
EU – Batiam na porta das casas?
AC – Batiam nas portas. E levavam todos os jovens.
EU – Devia ser um desespero. Todo mundo chorando...
AC – Todo mundo a chorar. Os pais a chorar.
EU – E tinha que ir.
AC – Tinha que ir.
EU – E se alguém se recusasse? Ia preso?
AC - Eles matavam mesmo naquela altura.
EU – Matavam?
AC – Matavam quem não queria ir. Se não quer ir, mata. Diziam que era da Unita. E ninguém
queria ir para a tropa porque ia morrer. Mas quem não estava com as tropas do governo estava contra o govenro.
EU – E aí você teve o acidente de carro?
AC – Um colega dirigia e fomos atacados. Naquela de fugir, entramos num buraco. Mas só nos ferimos. Ninguém morreu.
EU – E qual a sua expectativa em relação às eleições?
AC – A guerra é impossível. É impossível voltar à guerra. Ninguém mais quer isso. Agora, confusão pode haver.
EU – Que tipo de confusão? As pessoas têm medo do que pode acontecer?
AC – Sim, as pessoas têm medo do que pode acontecer porque já aconteceu em 1992. As pessoas votaram com aquele prazer enorme, a guerra acabou, acabou. Vamos votar para escolher quem vai governar, escolhemos. No fim, muitas pessoas morreram, o próprio público que votou. De 1992 até 2000 morreu mais gente do que na guerra passada. Porque era guerra na cidade. As pessoas tiveram que fugir, abandonar as províncias todas e tiveram de vir morar aqui em Luanda. Naquela época, de Viana até Catete já não se podia ir porque era mato. Se ia lá, alguém te apanhava. Era a Unita ou a tropa do governo. Quer dizer, a Unita passa ali e mata o povo. A tropa do governo passa ali e mata o povo porque, se estava no mato, era gente da Unita. Não tinha para onde ir. Então a população teve de vir para Luanda. Por isso é que Luanda inchou muito. Não havia guerra. Depois houve combate aqui, mas durou só dois dias. Mataram o pessoal da Unita e o resto conseguiu fugir.
EU – Como mataram o Savimbi?
AC – O Savimbi...é uma história um bocadinho difícil contar como ele foi morto. Ele era bastante perseguido, bastante perseguido. Ia para o Zaire, para o Congo. Ia para onde conseguia ir. Zâmbia, Zimbábue. Para o Congo já não ia porque o presidente do Congo é amigo do presidente angolano.
EU – Os soldados do Congo também iam atrás do Savimbi.
AC – Sim, havia soldado de todo lado à procura do Savimbi. Vinha soldado do Congo para cá. Vinha soldado da Zâmbia pra cá à procura do Savimbi. E muita troca de informação. Depois os tropas dele também já viviam mal, passavam fome. Não tinham roupa, não tinham armamento, começaram a desertar.
EU – Houve traição...
AC – Alguém traiu sim. Foi morto aqui em Angola, em Luena. É próximo da Zâmbia. Fronteira com a Zâmbia. Acharam o local onde ele estava e mataram.
EU – Na mata?
AC – Sim, na mata. Estava em guerra. E ele foi traído porque ele tinha uma bota diferente de todos. Aquela bota ninguém tinha, só ele que tinha. Essa parte de trás fica pra frente. É virada. Quando ele pisa aqui, a bota indica que ele foi para o lado contrário.
EU – A sola da bota deixava a pegada no sentido contrário ao do passo?
AC – Sim. Ninguém sabia. O único general dele que sabia, que desertou da Unita, veio aqui em Luanda e deu essa informação ao governo. Quando viam uma tropa indo para um lado e a pegada de só uma pessoa indo para o outro lado, sabiam que o Savimbi estava naquela tropa. Foi assim que conseguiram apanhá-lo.
EU – E quando mataram o Savimbi? Trouxeram o corpo para Luanda?
AC – Não, o corpo ficou em Luena. A televisão mostrou a imagem dele morto, os sítios por onde entraram os tiros. Queriam trazer o corpo aqui em Luanda, mas o povo de Luena não deixou. O povo de Luena foi um povo que sofreu muito nesta guerra. O Savimbi martirizou muito aquela província. Então o povo quis queimar o corpo.
EU – O Savimbi era originário de qual província?
AC – Do Kuíto. Mas a província onde ele nasceu foi onde ele martirizou, onde matou mais gente.
EU – Maltratou o povo da própria província.
AC – Da própria província.
EU – E ele falava vários idiomas.
AC – Falava português, inglês, francês. Temos muitas línguas nacionais. Ele falava todas.
EU – Ele era carismático? Conseguia mobilizar as massas?
AC – Ele até não conseguia mobilizar as massas. Levava as massas à força. E o que ele fazia? Ele levava as pessoas à força. Punha num sítio. E cada um deles era guarda do outro. Se um fugisse, ele matava o que não tomou conta. Ele fazia isso. Quer dizer, se você quisesse fugir, não podia me dizer, porque se me dissesse, eu tinha de contar pra ele. Foi assim que ele conseguiu. Ele espalhou a desconfiança entre todo mundo. Ninguém confiava em ninguém. Foi assim que ele conseguiu fazer essa guerra esse tempo todo. Ele mandava um general dele combater numa determinada província. Tem de ocupar aquela província porque é ponto estratégico dele. Tem de combater e ocupar mesmo. Se combateres e não conseguires ocupar, então ele te manda chamar. Manda te chamar para te matar porque você não conseguiu. E se você fugir ele prende a sua família. E mata a família mesmo. Prende a mulher, prende os filhos. Mata mesmo.
Se voltar a guerra, sei lá como esse povo vai ficar. O povo até agora está assustado.
domingo, 20 de julho de 2008
GIRABOLA
1º - PETRO DE LUANDA – 34 PONTOS
2º - SANTOS FC – 30 PONTOS
3º - 1º DE AGOSTO – 29 PONTOS
4º - RECREATIVO DO LIBOLO – 27 PONTOS
5º - BENFICA DE LUANDA – 22 PONTOS
6º - 1º DE MAIO – 21 PONTOS
7º - ASA – 21 PONTOS
8º - SAGRADA ESPERANÇA – 20 PONTOS
9º - KABUSCORP – 16 PONTOS
10º - FC BRAVOS DO MAQUIS – 16 PONTOS
11º - INTERCLUBE – 15 PONTOS
12º - DESPORTIVO DA HUÍLA – 13 PONTOS
13º - PETRO DO HUAMBO – 12 PONTOS
14º - BENFICA DO LUBANGO – 09 PONTOS
sábado, 19 de julho de 2008
O DIA EM QUE FALEI RUSSO EM LUANDA
Quando terminei o encontro, liguei para o motorista me pegar na porta do prédio. Fiquei ali esperando, vendo o movimento. Pessoas indo para o trabalho, vendedores ambulantes. Estava naquela expectativa de que, depois de um tempo, ninguém mais notaria que eu sou branco e conseguiria me confundir com a paisagem local.
Poucos metros adiante vejo um sujeito encostado num carro a me observar de rabo de olho. Aparenta ter entre 20 e 25 anos. Maltrapilho, descabelado e pés descalços. Tensão no ar. Ele se aproxima e fica a poucos centímetros de mim. Sinto o bafo de álcool. Ele tem o rosto inchado, uma mistura de quem acabou de acordar com bêbado crônico. Travamos o seguinte diálogo:
ELE – Amigo, amigo, tô com fome (e coloca a mão na barriga).
EU (encolho os ombros em sinal de que não entendo o que ele diz) - ...
ELE – Amigo, amigo, tô com fome...
EU (encolho os ombros e faço aquele gesto com as mãos para reforçar que não entendo o que ele diz) - ...
ELE – Brasileiro? Italiano? Espanhol?
EU - (encolho os ombros e faço aquele gesto com as mãos para reforçar que não entendo o que ele diz) - ...
Ele levanta o punho direito fechado e o mantém a poucos centímetros do meu rosto. Não foi um gesto agressivo. Percebo que ele quer estabelecer alguma forma de comunicação comigo. Também fecho o meu punho e encosto no dele, num cumprimento típico de amigos. Ele abre um sorriso e diz:
ELE – Amigo...dinheiro.
EU - Мы развили и установили уникальную позицию в мировом экспорте Северо-американских транспортных средств.
ELE (olhos arregalados, sem entender uma palavra do meu russo arcaico) – O quê? Amigo, não entendo. Fala de novo.
EU - Наши клиенты уверены в том, что мы обеспечиваем сеть услуг, позволяющих им осуществлять покупки без всяких трудностей.
Ele me olha e sai correndo atrás de um carro que sobe a ladeira em frente ao prédio onde espero o motorista que não chega.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
DUAS GAFES
Gafe 1, durante encontro com uma alta autoridade do governo angolano:
ALTA AUTORIDADE ANGOLANA – E como está essa história do terceiro mandato do presidente Lula?
Faço minhas considerações e termino com a seguinte pérola:
EU – ...e como o senhor sabe, a alternância de poder é muito importante para a democracia...
ALTA AUTORIDADE ANGOLANA (em silêncio, rosto impassível, olhos fixos nos meus olhos) - ...
EU – Acho que no Brasil seria um erro...
ALTA AUTORIDADE ANGOLANA (em silêncio, rosto impassível, olhos fixos nos meus olhos) - ...
Achei melhor mudar de assunto.
Angola realiza no dia 5 de setembro a primeira eleição legislativa desde 1992. O presidente, José Eduardo dos Santos, está no poder desde 1979.
Gafe 2, durante conversa com diplomata cubano em Angola:
EU - ...y el cambio al capitalismo, como Cuba está a hacer ahora, com Raúl...
DIPLOMATA CUBANO – (discurso de meia hora para negar qualquer mudança rumo ao capitalismo e reforçar o compromisso com o socialismo).
OUVI A TUA VOZ A CHAMAR O MEU NOME
ELE – É quê? Não quero nada contigo...
ELA – Não te chamei.
ELE – Não quero nada contigo...
ELA – Não te chamei.
ELE – Pois eu ouvi a tua voz a chamar o meu nome...
ELA – Não te chamei.
ELE – Pois eu ouvi a tua voz a me chamar o meu nome...
E ele foi embora com um sorriso de cantada barata nos lábios.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
ENTRARAM LÁ EM CASA
Vejo o sujeito chegar à beirada da marquise, pular de novo para o telhado do banheiro. Desço as escadas, mas ele já se foi. Saio de casa. Quando abro o portão, dou de cara com o vizinho (que também é o proprietário do imóvel que alugamos), que apareceu para entregar um molho de chaves da casa que ele havia esquecido.
Pergunto se ele viu alguém pular o muro. Ele diz que não. Nesse momento, surge da casa em frente um garoto com uma camisa vermelha (a mesma cor que o sujeito que entrou em casa usava). Vamos lá tomar satisfações. Ele nega. Diz que estava dormindo, que acabou de acordar, que havia percebido a falta de energia, que havia acabado de acender o “candeeiro” e que saíra de casa para olhar o movimento da rua.
Não vi o rosto do invasor, e, apesar da camisa vermelha ser prova suficiente para mim de que era ele a pular o muro, concedi-lhe o benefício da dúvida.
Ele provavelmente entrou em casa para pegar as tais maçãs da Índia, umas frutas pequeninas e ácidas que caem da árvore do vizinho no chão da garagem e na marquise de casa. Essas maçãs da Índia levam as pessoas à loucura. Provei uma e não gostei. Lembra aquelas maçãs massudas, que você morde e não tem caldo. Mas o povo adora.
Como a casa que alugamos estava fechada havia um ano, Pedro e Dembo (os senhores Proteção que tomam conta da casa do vizinho dono da nossa casa) usavam o banheiro construído na garagem e controlavam o portão. Deixavam os miúdos (como chamam as crianças aqui) entrar para recolher as maçãs que caem na garagem (e elas caem todo dia o dia todo).
Resumindo: nossa mudança para a casa acabou com o banheiro privativo dos senhores Proteção Pedro e Dembo e com a farra das maçãs da Índia. Por isso de vez em quando compro para eles um sandes, sanduíche de queijo e fiambre num pão delicioso chamado Carcaça. Eles adoram. De vez em quando também ofereço uma coca-cola. Eles nunca comem na hora. Abrem um sorriso, pegam o pacote com o sanduíche e a gasosa (como chamam os refrigerantes por aqui) e guardam no carro estacionado em frente ao vizinho e que serve de dormitório para eles.
Ainda não presenciei, mas tenho certeza que devem ter um ritual. Devem deitar o banco do carro, procurar uma estação de rádio em que o Paulo Flores (calma, em breve escreverei sobre ele) esteja cantando um Semba e, só então, vão saborear o sandes.
À VONTADE COM OS MICROFONES
Anúncio 1:
Casting para Canal de Televisão
Projecto de televisão admite:
APRESENTADORES(AS)
- Boa aparência;
- Idade mínima 18 anos;
- Estar à vontade com as câmaras;
- Facilidade em ler teleponto;
- empatia com os entrevistados;
- facilidade de decorar guiões
Casting aberto a todos os interessados que reúnam os requisitos acima citados.
Data: 19 de julho de 2008
Local: Centro de Convenções, Talatona
Hora: 10h
Agarra esta oportunidade e lança-te numa carreira brilhante!
Anúncio 2:
Procuram-se vozes femininas e masculinas para Casting
Projeto de Rádio admite:
APRESENTADORES(AS)
- Idade mínima 18 anos;
- Com ou sem experiência:
- Boa condição (como assim?);
- À vontade com os microfones (COMO ASSIM?????);
- Empatia com os entrevistados;
- Capacidade de improvisar;
- Facilidade de decorar guiões
Casting aberto a todos os interessados que reúnam os requisitos acima citados.
Data: 19 de julho de 2008
Local: Centro de Convenções, Talatona
Hora: 10h
Agarra esta oportunidade e lança-te numa carreira brilhante!
Bom, aguardo comentários.
MUGINGA LEONTINA RENE CHIL
Abaixo, alguns exemplos de uma compra que fiz ontem, no hipermercado Jumbo (sim, de origem brasileira). Usei o câmbio US$ 1 = R$ 1,7:
1 litro de leite tipo longa vida – 210 kwanzas = US$ 2,8 = R$ 4,48
1 kg de farinha de trigo extra fina nacional – 185 kwanzas = US$ 2,4 = R$ 4,19
1 lata de tomate pelati 780g – 260 kwanzas = US$ 3,46 = R$ 5,89
1 pacote de bolacha água e sal – 90 kwanzas = US$ 1,2 = R$ 2,04
1 dúzia de ovos – 330 kwanzas = US$ 4,4 = R$ 7,48
1 caixa de fio dental – 625 kwanzas = US$ 8,3 = R$ 14,16
1 shampoo organic 250mm – 375 kwanzas = US$ 5 = R$ 8,5
1 iogurte (tipo Dan Up) – 255 kwanzas = US$ 3,4 = R$ 5,78 (sim, a unidade. Não é a caixinha com quatro)
344 gramas de queijo prato fatiado – 326 kwanzas = US$ 4,34 = 7,38
Bom, ainda há outros itens tipo duas garrafas de vinho tinto barato, óleo de soja, cerveja, refrigerante etc. Mas coisa pouca, para fazer lanche em casa durante alguns dias. Pode ser que alguns preços não sejam tão mais caros do que no Brasil, mas no final a conta deu 17.140,80 kwanzas. Ou US$ 228,53. Ou R$ 388,5. É muito caro.
A exemplo de redes atacadistas como Makro e Super Adega (quem mora em Brasília sabe o que quero dizer), nas quais o cliente é obrigado a mostrar a fatura e deixar um funcionário postado na saída do estabelecimento fuçar os sacos plásticos com as compras antes de ir embora, aqui fazem isso em todos os supermercados. E, assim como no Brasil, dependendo da cara do sujeito e do humor do seu Proteção da loja, o dito cujo leva um baculejo geral.
O que achei simpático é que, no final da fatura emitida pela máquina registradora, logo depois do valor da compra, do valor pago pelo cliente e do valor do troco, vem impresso o nome do vendedor(a). Na minha fatura está lá:
“Atendido por: Muginga Leontina Rene Chil”
quarta-feira, 16 de julho de 2008
FATOR ESTRANGEIRO = 500 KWANZAS
É assim:
O comércio de rua é qualquer coisa em Luanda. Num simples trajeto de carro pode-se comprar de quase um tudo. Ao longo das ruas engarrafadas por RAV-4 (sim, estou a bordo de um deles), Prados, Range Rovers, Land Rovers, Silverados, Hummers (meu sonho de consumo para dar uma banda no Kinaxixi), candongas e afins, perfilam-se os vendedores.
Segue uma breve lista de coisas que já vi à disposição nas ruas: cabide de roupa, araras (para pendurar roupas), aparelhos de rádio, capa para pneu estepe, limpadores de pára-brisa, bidon (galão para colocar o gasóleo do gerador), cadeados, correntes, frutas, verduras, pão, cerveja Cuca (50 kwanzas a latinha), Blue (uma espécie de guaraná Jesus com maior variedade de cores), biscoito, coca-cola, água, espelhos retrovisores, cabo de aço, funil, dinheiro (sim, pode-se fazer câmbio pelas ruas com as kínguilas – num futuro breve darei detalhes), jornais (aliás, aqui não há banca de jornais), fruteiras, celulares, camisa, calça, sapatos (os vendedores penduram diversos pares pelo corpo. Só precisam ter a sorte de encontrar um cliente com um pé que caiba no modelo à venda). Enfim, há uma infinidade de coisas. E se você não encontrar o que procura, pode encomendar. Marca de passar no dia seguinte e eles quase sempre conseguem o que o cliente deseja.
Também é possível contratar serviços diversos. Perto do Largo da Edel (a empresa de eletricidade de Luanda) há uma espécie de borracharia ao ar livre. Os “borracheiros” fazem de tudo. Trocam câmara de ar, tapam furos, desempenam rodas e metem ar nos pneus (aqui não se diz encher os pneus).
Meter ar nos pneus também custa dinheiro. Enquanto no Brasil o serviço está disponível gratuitamente em qualquer posto de gasolina, os “borracheiros” daqui cobram 50 kwanzas (US$ 0,66 ou R$ 1,13, mais ou menos). Para tapar um furo no pneu, cobram...foi quando descobri que estou avaliado em 500 kwanzas.
É assim:
Nosso RAV-4 veio com um pneu sobressalente. Além do estepe, Michel (leiam o post “Confiança, chefe, confiança” para relembrar a figura) deixou outro pneu no porta-malas. Michel é meu kamba (amigo), pensei. Os kambas ajudam os kambas. Ele gostou de mim e me presenteou com um pneu a mais.
Pois bem. Fui com o motorista meter ar no estepe e no sobressalente. Michel entregara o carro com os dois vazios. Esquecimento, claro...
Metemos ar no estepe. Metemos ar no sobressalente, que se esvazia imediatamente com um chiado ruidoso. O “borracheiro” olha daqui, olha dali e identifica um rombo no pneu (Michel, meu kamba, como fostes capaz...).
Chega o momento da negociação. O motorista pergunta o preço para tapar o furo.
BORRACHEIRO – 1.500 kwanzas.
Chego perto do motorista, Seu Mendes, são- tomense radicado em Luanda desde 1973, e indago, discretamente, ao pé do ouvido (como se isso fosse possível diante de uma platéia de borracheiros angolanos):
EU – O preço está justo?
Seu Mendes hesita um quarto de segundo (o suficiente para eu entender que, claro, para mim será mais caro) e responde:
SEU MENDES – Sim, é o que cobram...
Hesito outro quarto de segundo.
EU – Estou com pressa...depois passamos.
Deixo os 100 kwanzas pela metida de ar nos dois pneus e saímos.
Peço para Seu Mendes passar lá, sozinho, no dia seguinte. Dou-lhe os 1.500 kwanzas e ele volta com um troco de 500 kwanzas. É isso. Sou o fator "estrangeiro" a inflacionar o mercado.
Naquele dia descobri que valho 500 kwanzas na borracharia ao ar livre perto da Edel.
terça-feira, 15 de julho de 2008
UM DIA INESQUECÍVEL
Abrimos o portão da garagem. Um carro estacionado bloqueia nossa saída. Pergunto aos vigias (senhores Proteção) da rua de quem é. Da moça da casa em frente. Toco a campainha, bato no portão. Ninguém responde. Um dos proteções diz que não há ninguém em casa.
EU - Como assim não há ninguém em casa?
SENHOR PROTEÇÃO (sotaque angolano) - Saíram, chefe! Eu disse que tinha gente na casa, mas ela entrou no carro da amiga que veio buscá-la e foram embora.
Não adianta argumentar. Como parar o carro é uma das atividades mais difíceis pela falta de vagas, muita gente estaciona na porta das garagens e vai embora mesmo.
Chegam alguns vizinhos. Lamentam o episódio e dizem que, como a casa que alugamos esteve fechada por mais de um ano, todos se acostumaram a parar o carro ali, na porta da garagem. São solidários e se oferecem para tentar ligar para a dona do carro. Ninguém atende.
Decido ligar para a polícia. Aqui discamos para o 113 em vez do 190. A moça atende e diz que ali é apenas uma central e vai encaminhar (é que, assim com em Portugal, aqui não há gerúndio. Se houvesse, ela teria dito “vou estar encaminhando”) o caso para o Departamento de Trânsito e
Viaturas. Uma hora depois, nada. Nem a polícia nem a dona do carro.
Já são 13h30 e a feijoada começou há meia hora. Estou na calçada em frente a casa quando sinto algo úmido nas costas. Um belo passarinho angolano que acabara de se deliciar com as maçãs da índia (frutas pequenas e ácidas da árvore do vizinho cujos galhos avançam para a nossa garagem) resolve se aliviar sobre mim...
Entro para trocar a camisa.
Ligo outra vez para a polícia. Digo que já estou há mais de uma hora tentando sair de casa para um compromisso e não consigo. Desta vez a atendende pede a placa do carro e diz que alguém vai me procurar.
Nisso, a vizinha surge e diz que conseguiu falar com a mãe da dona do carro. Parece que tudo vai se resolver.
De fato, a dona do carro, portuguesa, aparece com a amiga e o filho pequeno. Em trajes de banho. “Estávamos na ilha. Viemos o mais rápido possível. Mil desculpas”.
Ela tira o carro e estamos prontos para sair. Tento ligar para a polícia para dizer que o problema foi resolvido. A ligação não completo e desisto. Nely, nossa empregada de São Tomé e Príncipe, aparece e anuncia triunfalmente: “a água acabou”.
Tudo bem. Íamos passar o dia fora mesmo. É só deixar a bomba desligada quando sair e, à noite, a cisterna estará cheia outra vez.
Entro no carro, introduzo a chave na ignição do nosso RAV 4 Toyota usado, ano 1997, comprado na véspera e...nada. A bateria acabou.
Como ainda ia deixar o carro com o Michel, que me vendeu o veículo, para ele trocar o rádio que não funciona e me trazer uma tal chave de roda do estepe com um segredo antifurto, liguei para ele vir me resgatar. Ele chega, troca a bateria e vamos para a feijoada.
Estamos na época do cacimbo, o inverno de Angola, com dias ensolarados, temperatura amena e uma névoa matinal que se dissipa ao longo do dia.
A casa dos amigos fica no bairro de Miramar. Tem uma vista belíssima de um pedaço da baía de Luanda. Vemos o porto.
Encontro agradável. Até esquecemos das dificuldades luandenses. Voltamos para casa. Ligamos a bomba d´água e...nada. Não funciona. Levanto a tampa da cisterna: o nível de água baixíssimo. A bomba não consegue puxar água. Nenhuma água nas torneiras. Vou para a torneira da garagem, que recebe água direto da rua. É sempre nossa salvação. Colocamos a mangueira ali e jogamos água direto na cisterna. Sem água. Faltou água na rua. Não há uma gota.
Não dá para tomar banho, escovar os dentes. Número 1 e número 2 entram em esquema de revezamento e restrição total.
Escovamos os dentes com água mineral. Vamos dormir. Será um cacimbo inesquecível...
P.S. a água só voltou no dia seguinte.
domingo, 13 de julho de 2008
NELY
Nely veio, engravidou, separou e hoje mora com a filha num anexo alugado (como os angolanos chamam os cômodos construídos nos quintais) em uma casa de família.
O drama de Nely começou poucos meses depois do desembarque em Luanda. O namorado, promovido a marido/senhor quando ela pisou em solo angolano, continuava as viagens para São Tomé. Lá, reatou com a primeira mulher. Durante alguns meses, administrou a relação de bigamia internacional.
A primeira mulher descobriu e passou a ligar para Nely. Discutiam ao telefone. Nely foi tomar satisfações com o marido e acabou submetida a uma rotina de espancamentos. Cada vez que a primeira mulher ligava, Nely reclamava e apanhava. As vizinhas diziam para ela ir à polícia. Nely não ia.
Um dia, toda machucada, saiu de casa com a roupa do corpo e a filha de nove meses. O marido reteve todos os documentos dela. Rasgou o passaporte e o cartão de estrangeiro. Nely hospedou-se na casa de um primo por alguns dias, até alugar o quarto onde vive com a filha há três meses.
Nely tem quatro irmãos mais novos, que vivem com a avó em São Tomé. A mãe morreu e o pai desapareceu em Portugal há muitos anos. Nunca mais deu notícias. Soube há pouco tempo que a irmã de 16 anos saiu de casa e não quer nada com estudo. O sonho de Nely é juntar dinheiro, voltar para São Tomé, comprar um terreno e construir uma casa para a família.
Nely trabalha como doméstica. Ganha US$ 450 por mês. Prefere receber o salário em dólares. Quando faz o câmbio para kwanzas, o dinheiro vai embora. Como não tem documentos, não pode abrir conta em banco. A embaixada de São Tomé em Angola só emite passaporte provisório, com validade de um ano. Os bancos angolanos não aceitam esse tipo de documento. Conta nova só com o passaporte tradicional, emitido no país de origem. Nely deixa parte do salário com uma amiga que gosta de economizar dinheiro. A amiga economiza para as duas.
Na casa em que trabalha, ainda não há muito o que fazer. A mudança dos patrões ainda não chegou. Sua rotina restringe-se a limpar a casa, lavar a louça e passar a roupa.
Nely gosta de novelas brasileiras e filmes de terror.”Não sinto medo”, costuma dizer. Antes de ir embora, senta-se na poltrona da sala e passa pelo menos uma hora zapeando pelos canais. Há uma coisa que Nely gosta mais do que as novelas brasileiras. Filmes indianos e novelas de canais árabes transmitidos pela TV a cabo.
Quando alguém pergunta por que ela assiste a esses programas se não entende a língua falada pelos atores, ela responde: “Mas eu gosto”.
Nely ainda encontra o ex-marido. Ele visita a filha com freqüência. Alega que tem direito e insiste para ela voltar. Ela diz que não quer, mas admite que ainda se relacionam.
Tomara que Nely não fique grávida de novo.
P.S. Nely já não está com a filha. Para saber mais, clique aqui.
sábado, 12 de julho de 2008
SENHOR PROTEÇÃO
É uma indústria do medo. Quem não contrata um vigia corre o risco de ter a casa invadida. São diversos os relatos de pessoas assaltadas dentro de casa ou quando subiam as escadas do prédio em que moram.
O negócio é rentável. Não se conhece os números, mas o mercado da vigilância privada emprega milhares de pessoas. Há profissionais bem treinados, mas a impressão é que a grande maioria é de pessoas despreparadas para exercer a função.
O salário é baixo e o regime de trabalho, cruel. Há escalas de oito, 12, 24 e 48 horas. Na rua em que moro, Pedro e Dembo se revezam a cada dois dias. São contratados para proteger duas casas vizinhas. Quase todo dia pedem dinheiro. Ou para comer ou para pegar a candonga de volta para casa.
Quando abro o portão, eles estão por ali. Olham de longe e logo se aproximam. Aqui não se pede para pagar um café. Querem um “mata-bicho” ou uma gasosa. Às vezes pedem 50 ou 100 kwanzas. De vez em quando preparo um sanduíche para eles. Sanduíche, aliás, é palavra que não entendem. Para eles, é tudo pão. Tenha algo dentro ou não.
Os vigias de outras casas também ficam de olho. Conhecem nossos horários, quantas pessoas vivem na casa. Um deles, contratado de uma casa do outro lado da rua, alguns metros adiante, me abordou um dia e pediu um “mata-bicho”. Neguei. Horas depois, quando voltei para casa, ele caminhava completamente bêbado pela rua. A gasosa nem sempre é para o mata-bicho.
As empresas que os contratam oferecem apenas uma refeição por jornada. Se eles trabalham oito horas, ótimo. Durante as escalas de 48 horas, como as de Pedro e Dembo, recebem apenas dois lanches. Por isso estão sempre esfomeados.
Uso a expressão guarda e vigia, mas soube recentemente que eles odeiam ser chamados assim. Como trabalham para empresas de proteção pessoal e/ou patrimonial, querem ser conhecidos apenas como “Proteção”. Senhor Proteção.
Muitos dos senhores Proteção passam o dia sentados em cadeiras plásticas brancas diante das casas e dos prédios que deveriam vigiar. Dormem boa parte do dia. Ali mesmo, em frente às casas. Acomodam-se nas cadeiras plásticas, puxam o boné sobre os olhos e tiram um cochilo. Vários bebem bastante ao longo do dia. Cerveja Cuca, a mais barata (50 kwanzas a latinha).
Em frente à casa do vizinho há um carro permanentemente estacionado. Deve ser do próprio vizinho, mas parece abandonado. Pedro e Dembo apossaram-se dele e o utilizam como casa. Quando não estão ocupando a cadeira de plástico branco, estão dormindo dentro do carro. Outro dia cheguei da rua e Pedro, o mais novo, segurava um aparelho de barbear na mão e um pedaço de espelho na outra. Barbeava-se ali mesmo, na rua. No fim do dia, lá estava Pedro lavando os pés com água de uma lata.
E assim levam a vida. Durante 48 horas são angolanos travestidos de senhor Proteção, encarregados de proteger as casas dos brancos dos angolanos pobres.



