sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

MAIS LEVE

Amanhã conheceremos o aeroporto para vôos domésticos de Luanda.

Vamos para a Namíbia. Como não havia vôo de volta de Windhoek na data que precisávamos, seguiremos de Sonair até Ondjiva e, de lá, cruzaremos a fronteira de carro.

Finalmente poderei comprovar se a Namíbia existe.

Desta vez, tentarei viajar leve. Na bagagem, uma câmera Nikon F2 totalmente manual (com uma pequena ajuda de um fotômetro eletrônico) com uma grande angular de 28mm, outra lente 35-70mm e uma 300mm.

Rolos de filme colorido ASA 100, dois rolos preto-e-branco (ASA 400) e uns dois de cromos que meu amigo Sérgio Dutti me presenteou quando comprei a Nikon usada dele. Os cromos estavam guardados na casa dele há algum tempo. Estão vencidos há quatro anos, mas ele me disse que eu poderia arriscar. Usá-los-ei no registro de algum animal exótico na Namíbia.

Também já coloquei na mochila o livro “A Conjura”, do José Eduardo Agualusa.

O vôo é às 7h30. Teremos de chegar ao aerporto às 5h30 e torcer para conseguir embarcar. Como sabem, chegar e sair de Luanda é praticamente uma pena alternativa.

Não iremos sós. A viagem será uma produção internacional deste diário com a Casa de Luanda.

A passagem do Ano Novo na Namíbia será, de certa forma, nossa despedida do F. e da P., companheiros expatriados da nobre estirpe.

Apesar de ter conhecido os dois há apenas seis meses, desde o primeiro momento tive aquela sensação de que éramos amigos de infância.

Pouco tempo, mas apenas boas lembranças: nossos cafés da manhã (com chocapicas), almoços e jantares aqui no Solar das Ingonbotas, na Mansão do Benfica, em Mike 2 (onde até gato fala), na casa do G. ( vizinho do lobisomem do Miramar), falta de luz, gerador ligado na garagem, banho racionado por causa de vazamento de água, falta de água, desentendimento com os senhores proteção.

Olhando de longe, quase na virada de 2008 para 2009, muitas das encrencas que enfrentamos em Angola começam a ganhar aquele ar de comicidade. Agora parecem engraçadas. Acho até que muitas delas não merecem os novos fios de cabelos brancos (sim, cada um tem um nome) que ganhei, a velha gastrite que parece ter voltado nem os momentos de ira (in)contida com os (des)jeitos, os (des)ritmos de um povo que, para mim, muitas vezes parece que não sabe aonde vai.

Talvez eu é que não consiga entender que os angolanos sabem, sim, aonde vão. Só que eles vão do jeito deles, no ritmo deles.

Não posso cair na armadilha de viver neste país com meu olhar brasileiro.

Sem soltar as âncoras jamais conseguirei navegar por outros mares.

Só volto a Angola em 2009.

Espero voltar mais leve.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

O DIA EM QUE UM CONGOLÊS ME DISSE QUE A VIDA DOS CONGOLESES NÃO ERA UMA VIDA

Foi numa tarde em Goma, numa ladeira às margens do lago Kivu.

Um homem e dois garotos empurravam uma carroça carregada de colchões em direção ao porto.

O peso da carga forçava os três carregadores a fazer paradas constantes para retomar o fôlego.

Numa dessas paradas, o homem mais velho, provavelmente o pai dos adolescentes, trocou um rápido olhar comigo.

Foi uma sensação estranha.

Tive a mesma impressão de quem olha nos olhos de um cavalo ou burro de carga atrelado a uma carroça.

Dois olhos enormes, negros, a te fitar.

Os olhares se cruzam por uma fração de segundos. O animal vira o rosto, como se pudesse ter uma visão melhor da pessoa que o observa, pisca e olha para o outro lado.

Pois o homem me encarou por uns segundos, respirou e voltou a empurrar a carroça ladeira acima.

O esforço que ele e os adolescentes faziam era evidente.

Tive vontade de ajudá-los a empurrar a carroça.

Não consegui.

Fiquei estático, imóvel, como se uma força invisível me impedisse de interferir no quadro.

Ao meu lado havia um um jovem congolês que também observava a cena.

Ficamos ali, vários minutos vendo o trio a empurrar a carroça.

Quando finalmente passaram por nós, o jovem, que aparece usando uma camisa colorida na segunda foto da seqüência abaixo, fala comigo em inglês.

JOVEM CONGOLÊS – Você está vendo? É assim que nós congoleses estamos vivendo. O que este homem pode esperar da vida? Nada. Nós congoleses não estamos vivendo, não estamos tendo uma vida.Toda essa guerra para nada.

Será que o homem (que não aparece em nenhuma das três fotos) e os dois adolescentes sabem que há mais coisas na vida do que empurrar uma carroça pelas ruas empoeiradas de uma cidade no extremo leste da República Democrática do Congo?

O que será que eles sabem do mundo?

Toda vez que me lembro daquele dia e revejo as fotos abaixo, me sinto culpado por não ter ajudado o homem e os dois adolescentes a empurrar a carroça.






segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A MÃE DA NELY MORREU DE FEITIÇO

A vida da Nely não tem sido fácil.

Desde a vinda de São Tomé e Príncipe para Angola, ela engravidou, teve uma filha, perdeu a mãe, passou meses sendo espancada pelo marido, separou, continuou a apanhar do ex-marido.

Depois da última surra, com um pedaço de madeira, a situação legal de Nely em Angola se complicou. Quando ela veio para cá, ainda era menor de idade. Chegou sob responsabilidade do então marido.

Numa das brigas que tiveram, ele a espancou, a colocou para fora de casa e rasgou todos os seus documentos (cartão de estrangeiro, passaporte).

Para regularizar a situação e poder levar a vida em Angola, Nely precisa voltar a São Tomé e tirar novo passaporte (o consulado de São Tomé em Angola só emite um passaporte provisório, com validade de um ano e rejeitado pela imigração angolana para a concessão de visto de residência).

Nely está sem a filha. Depois de toda a confusão, que vocês poderão ler nos diversos links deste post, o ex-marido levou a filha de Nely embora à força e a enviou para São Tomé. A menina agora está sendo criada pela família do ex-marido.

Nely não quer voltar para São Tomé. Diz que lá não há futuro. Não há trabalho, não há escola, não há nada.

NELY – O que vou fazer lá? Ficar olhando para a cara da minha avó?

O pai de Nely foi embora para Portugal há vários anos e nunca mais deu notícias. Deixou a mulher, Nely e mais quatro irmãos (duas meninas e dois meninos). Nely tem 20 anos e é a mais velha.

Raramente consegue falar com os irmãos, espalhados nas casas de parentes.

A avó não tem telefone em casa. Quando precisa falar, Nely liga para um orelhão próximo e pede para avisar que voltará a chamar mais tarde.
Nas poucas correspondências que recebeu de uma das irmãs, havia sempre um pedido de dinheiro.

NELY – Minha irmã sempre diz que precisa disso, precisa daquilo. Quando eu digo que não tenho dinheiro, não acreditam. Dizem que estou aqui, vivendo no paraíso de Luanda. Eles não sabem que isso aqui é um inferno.

As duas se desentenderam. Nely disse que não mandaria mais dinheiro para eles saberem o que é passar fome.

Nely se emociona e acaba dizendo que não quer voltar para São Tomé porque a família não gosta dela.

EU – Mas por que não gostam de você?

NELY – Eles dizem que minha mãe morreu por minha causa.

EU – Como assim, Nely?

NELY – Minha mãe morreu de feitiço. A mulher do pai da minha filha colocou feitiço nela e ela morreu. Minha família diz que foi por minha culpa.

EU – Nely, isso não é possível. Ninguém morre de feitiço.

NELY – Morre, morre sim.

EU – Mas qual foi o motivo da morte dela? O que está escrito na certidão de óbito?

NELY – Não sei.

EU – Mas o médico deve ter dito alguma coisa.

NELY – Os médicos em São Tomé também não sabem. Quando as pessoas têm alguma coisa que eles não conseguem explicar, mandam para o curandeiro.

EU – O médico mandou sua mãe para o curandeiro?

NELY – Sim, mandou. Minha mãe morreu com 33 anos. Ela não era doente. Ficou com as pernas paralisadas e morreu.

A mãe de Nely morreu em fevereiro deste ano.

Nely estava em Angola e não teve como ir ao enterro.

sábado, 20 de dezembro de 2008

UMA DANÇA COM O GENERAL REBELDE LAURENT NKUNDA

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Em novembro passado, o general rebelde Laurent Nkunda reuniu cerca de 5 mil pessoas no estádio municipal de Rutshuru, cidade a cerca de 85km de Goma, capital da província de Kivu Norte, extremo leste da República Democrática do Congo (RDC).

Antes do discurso, assistiu a algumas apresentações de danças, entre elas a deste senhor e de um grupo de crianças. Em certo momento, não resiste. Desce do palanque e dança com a garotada.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

CHUKUDU

A pronúncia correta em swuaili é chukudú.

É uma espécie de bicicleta de madeira sem pedais e o principal meio de transporte de carga na província de Kivu Norte, extremo leste da República Democrática do Congo.

Há centenas, milhares deles nas ruas de Goma, a capital da província, e nas estradas da região.

Cada chukudu suporta 400kg de peso e custa o equivalente a US$ 10.

Carrega-se de tudo neles, em geral a colheita para ser vendida nos mercados da região.

Muita gente empurra o chukudu por distâncias de 10km, 20km até o ponto de venda mais próximo.

Além de carregar mercadorias, o chukudu também é usado no transporte de pessoas. E é uma diversão nos raros momentos de lazer da criançada.

Com vocês, uma seleção de chukudus.





quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

UMA VIDA NA CABEÇA

Em África, carrega-se tudo na cabeça.

Do mesmo jeito de sempre.

As fotos a seguir foram feitas durante a viagem entre Kigali (Ruanda), Goma e Rutshuru (República Democrática do Congo).

Quase todas de dentro do carro em movimento, sem qualidade nem apuro técnico.

Muitas estão borradas e desfocadas, como a vida de cada uma das pessoas retratadas.










NOTÍCIAS DE ÁFRICA

Alguns sítios oferecem grandes reportagens sobre o continente africano.

São matérias de fôlego, feitas por jornalistas bastante experientes e que vivem na África há muitos anos.

A imprensa brasileira ainda não descobriu a África.

Descontando dois ou três jornalistas que conseguem vir uma vez por ano ao continente para uma série de quatro ou cinco reportagens sobre temas específicos em países específicos (em geral a convite de empresas brasileiras com negócios aqui), tudo o que se publica no Brasil sobre a África é tradução de jornais, revistas e agências internacionais.

O problema disso é que o público brasileiro está lendo um material com viés europeu ou norte-americano, cujos interesses na África são completamente diferentes dos brasileiros.

Há razões diversas para que os veículos brasileiros não tenham correspondentes fixos na África. A principal delas é o custo de vida. Aqui, tudo é bem mais caro.

É preciso registrar, no entanto, duas exceções: a TV Brasil tem um correspondente na África, baseado em Angola. A TV Record também terá um, a partir do ano que vem, baseado na África do Sul. E é bem provável que a TV Globo também coloque alguém na África do Sul, por conta da Copa do Mundo de 2010.

São reportagens feitas com um olhar brasileiro que começam a cruzar o Atlântico.

A seguir, alguns links para quem tem interesse em notícias do continente: New York Times; BBC África, em português; BBC Africa, em inglês; Financial Times.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

CENAS CONGOLESAS

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Na estrada entre Goma e Rusthuru, província de Kivu Norte, extremo leste da República Democrática do Congo

A CHEGADA DE UM GENERAL REBELDE

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Foi assim que o general rebelde Laurent Nkunda chegou ao estádio municipal de Rusthuru, cidade a cerca de 80km de Goma, capital de Kivu Norte, extremo leste da República Democrática do Congo.

Num carro com vidros escuros, cercado de soldados orientados a empurrar os jornalistas que tentavam se aproximar do líder rebelde.

As imagens tremidas são conseqüência da minha falta de experiência com filmagens, das cotoveladas de soldados e de outros jornalistas empenhados em conseguir o melhor ângulo para filmar, fotografar ou apenas olhar Nkunda de perto.

Revendo as imagens, a sensação é de que, naquele dia, fui transportado para a década de 60, quando vários países africanos passaram por movimentos de independência.

Mas tudo aconteceu no mês passado.

Parece que está escrito na Bíblia: "não há nada de novo sob o sol".

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

CENAS CONGOLESAS


No centro de Goma, capital de Kivu Norte, extremo leste da República Democrática do Congo (RDC)

EM LUANDA. DE NOVO

O retorno a Luanda é sempre um mistério.

Principalmente para quem voa de TAAG, a empresa aérea angolana.

Não se sabe se o vôo sairá no dia marcado. Se sair no dia marcado, não se sabe se sairá no horário marcado.

Mas isso é uma etapa posterior. Primeiro, é necessário conseguir embarcar no avião.

Apesar de já viver aqui há alguns meses, continuo com dificuldades para entender como a TAAG consegue fazer tanta confusão.

A volta da República Democrática do Congo (RDC) foi via Ruanda. Depois de três horas de carro de Goma a Kigali, pegamos um vôo para Joanesburgo.

O avião pousou às 6h30 da manhã. Meu vôo para Luanda estava marcado para as 14h30. Resolvi tomar um café no aeroporto até a hora aproximada do início da abertura do check-in.

Pouco antes das 9h, decido ver se o balcão da TAAG já está aberto.

Não está, mas cerca de 100 pessoas já formam uma fila. Como são freqüentes os casos de passageiros que, mesmo tendo confirmado a passagem, são impedidos de embarcar, entro na fila.
Já saí e voltei a Angola via África do Sul duas vezes. De TAAG. São momentos para se esquecer.

Sou atendido às 13h. Durante as quatro horas que passei em pé na fila, vejo, mais uma vez, aquele ritual característico dos vôos da TAAG para Luanda.

Gritaria, angolanos com cinco, seis, oito, 10 malas. Angolanos que, obviamente, não são passageiros abordando passageiros na fila com oferta de dinheiro para levarem bagagens. Angolanos vendendo lugar na frente da fila, pedindo dinheiro para que se faça o check-in na fila da classe executiva.

Os funcionários sul-africanos da TAAG começam a percorrer a fila e pedem aos passageiros com apenas uma mala (meu caso) para passar para a fila da classe executiva.

Comigo nunca aconteceu, mas são constantes os relatos de passageiros que, mesmo tendo confirmado a passagem, são impedidos de embarcar sob a alegação de falta de lugar.

Isso é outro fato comum na TAAG. A empresa exige que os passageiros confirmem o embarque com 48 horas de antecedência. Também não consigo entender o motivo da exigência.

Se os vôos estão sempre lotados, embarca quem tem o bilhete emitido.

Na verdade, entendo. Nada mais é do que a velha história de se criar dificuldades para vender facilidades. Isso, provavelmente, explica aquelas pessoas abordando passageiros na fila pedindo dinheiro para facilitar o embarque.

Tudo é um grande esquema e é o único fato que explica a exigência para que os passageiros confirmem o embarque.

Sem falar nos passageiros deixados para trás porque alguma autoridade angolana chegou de última hora e precisa viajar. A TAAG simplesmente arranja quantos lugares forem necessários para que a autoridade e seus acompanhantes consigam embarcar para Luanda depois de um fim de semana na África do Sul.

Finalmente passo pela imigração. No painel, leio a informação de que o vôo vai atrasar duas horas.

Quando começamos a embarcar no avião, me deparo com uma discussão entre os funcionários sul-africanos da TAAG, os funcionários angolanos da TAAG e uma passageira angolana da TAAG.

Ela reclama de ter sido impedida de entrar com algumas bagagens a bordo. Segundo os funcionários da empresa, ela excedeu o limite de cinco quilos que se pode levar nas bagageiras.

A angolana não se conforma e aponta para outros passageiros que estão levando malas maiores do que as dela. O funcionário sul-africano da TAAG, já alterado, diz que aqueles são passageiros da primeira classe e da executiva, que, pelo fato de pagarem passagens mais caras, têm direito a transportar mais bagagens.

A angolana não se conforma.

Começa um bate-boca.

O chefe dos comissários de bordo da TAAG aparece e manda interromper o embarque.

CHEFE DOS COMISSÁRIOS DE BORDO – Suspendam o embarque. Não há mais espaço nas bagageiras.

E, de fato, isso tem acontecido com cada vez mais freqüência. Quando localizo minha poltrona, não há mais espaço na bagageira. Estão todas tomadas por pacotes, malas e mochilas com as compras de outros passageiros. Sou obrigado a deixar minha bagagem de mão várias fileiras atrás ou a frente.

Chegamos a Luanda. No aeroporto 4 de Fevereiro.

De novo, a fila para o carimbo de vacina no verso do formulário. Funcionários mal-treinados. E o ritual de se mostrar o passaporte a cada 10 passos, mesmo já tendo sido autorizado a entrar no país.

Desta vez, me pediram para mostar o passaporte apenas duas vezes. Bem melhor do que na saída, quando tive de mostrá-lo sete vezes.

Dizem que a primeira impressão é a que fica.

A TAAG é a primeira impressão que um estrangeiro tem de Angola.

sábado, 13 de dezembro de 2008

UMA FOTO DE DOIS SORRISOS


A foto acima já foi usada no post Dois Sorrisos. Foi acompanhada da música Shosholosa, mas saiu num tamanho menor do que eu gostaria. Provavelmente por causa da música. Em tamanho menor, perde-se toda a riqueza dos detalhes dos garotos.

Gostei tanto da foto que decidi publicar de novo, em tamanho maior.
Quem quiser curtir a foto escutando a música (algo que também recomendo), é só clicar aqui e ir ao post original.
Bons sorrisos!

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

CRIANÇAS-SOLDADO


Crianças-soldado são uma poderosa arma de guerra nos conflitos ao redor do mundo.

Na África não é diferente.

Garotos de 10, 12 anos são tirados de suas famílias por grupos rebeldes, milícias e até pelos exércitos regulares dos países e forçados a combater nas linhas de frente.

Embrutecidos nas selvas, submetidos a abusos de todo tipo, viram armas letais a serviço dos senhores da guerra de plantão.

Na região de Goma, capital da província de Kivu Norte, no extremo leste da República Democrática do Congo, vi duas crianças-soldado.

A primeira, de longe.

É o garoto na foto abaixo.


Garoto-soldado que integrava a milícia Mayi-Mayi e foi capturado pelas tropas do general Laurent Nkunda


Ele foi exibido no sábado, 22 de novembro, para uma platéia de aproximadamente 5 mil pessoas no estádio municipal de Rutshuru, cidade ao norte de Goma, durante uma das aparições do general rebelde Laurent Nkunda.

Foi apresentado como ex-integrante das milícias Mayi-Mayi, grupos de moradores locais que se organizaram para garantir a proteção contra soldados hutus ruandenses que atacavam a comunidade tutsi no Congo e acabaram virando bandos de marginais. Hoje, são usados pelo exército congolês para aterrorizar a região e tumultuar o processo de paz. Roubam, matam, estupram.

Segundo o grupo do general Nkunda, o garoto, que deve ter cerca de 15 anos, já estava desgarrado das milícias e praticava crimes na região. Foi capturado e apresentado como exemplo para a comunidade. Os rebeldes não aceitam bandidos em sua região.


Garoto-soldado exibido para a mídia internacional num estádio em Rutshuru

O garoto, exibido como um troféu para a imprensa estrangeira presente ao evento, ficaria detido até que sua família aparecesse para reivindicá-lo e tratá-lo até que pudesse voltar ao convívio da sociedade.

O outro garoto-soldado já é um adulto de 22 anos. É ele na foto abaixo.


Ex-garoto-soldado que integrou o exército regular congolês

Eu o entrevistei nos arredores de Goma, no New Hope Center, entidade parceira do Norwegian Refugee Council, que investe US$ 10 milhões por ano em programas de treinamento e reabilitação de jovens vítimas da guerra.

Houve duas condições para a entrevista: seu nome não seria citado. Seu rosto não seria mostrado de frente.

Fiz a entrevista em companhia do jornalista norueguês Mikal Hem, que tinha os contatos do Norwegian Refugee Council e me convidou para acompanhá-lo.

O jovem entrou para o exército do Congo em 1997, aos 12 anos. Voluntariamente.

Para ele, o exército era uma aventura e a salvação diante dos problemas que enfrentava em casa. A mãe havia morrido. O pai casara de novo e a madrasta não gostava dele. Cansado das surras e da pouca atenção e comida que recebia, fugiu de casa.

Apresentou-se num batalhão e mentiu a idade. Disse que tinha 15 anos. Foi aceito, recebeu treinamento de quatro meses sobre estratégia militar, como se posicionar em combate, como se esconder e preparar escaramuças contra os inimigos, uso de armas.

Só entrou em pânico ao enfrentar o primeiro combate, ainda aos 12 anos. Passou o tempo todo escondido no mato, sem levantar a cabeça, com medo de levar um tiro. Alguns colegas, tão jovens quanto ele, foram mortos e feridos.

Como soldado na linha de frente dos combates, admite que presenciou cenas de estupro, mas nega ter participado de qualquer ato semelhante. “Não participei, mas sei que isso é parte da guerra. Roubei civis, dinheiro, comida, cigarro.”

Ele ficou sete anos no exército. Tentou sair em 2004.

EU - Por quê?

ELE - Porque eu não via nada de bom no que eu fazia. Não havia esperança, com o risco de ser morto a qualquer momento. Depois de perceber o perigo de ser soldado, decidi fugir. Peguei minha arma e a escondi no mato. Voltei para a casa do meu pai, a 250km de onde eu estava.

Eles não se encontravam desde que o então garoto de 12 anos havia fugido. Os parentes gostaram de reencontrá-lo, mas o pai não. Ficou com medo e achou que a presença do filho, um desertor, traria problemas para a família.

Uma semana depois, ele foi localizado pelo exército. Havia sido denunciado por um dos moradores do vilarejo, com medo de represálias.

Levado para o quartel, fugiu outra vez no ano seguinte. Novamente capturado, apanhou e ficou preso um mês.

Desta vez, a família decidiu ajudar. Conseguiu q ue um médico atestasse o jovem tinha problemas psicológicos.

O exército o liberou, com a exigência de que retornasse quando estivesse melhor. Em 2007, ele soube da existência do New Hope Center. Se inscreveu e está lá desde o ano passado, aprendendo a profissão de encanador.

Mikal, o jornalista norueguês, pergunta sua opinião sobre o conflito.

ELE – O Congo é uma vítima de suas riquezas naturais. Ruanda invadiu o Congo por causa das nosssas riquezas naturais.

MIKAL – Há solução?

ELE – O momento agora é de lutar totalmente. No fim, um dos lados vai vencer. Ou o governo vai acabar com os rebeldes ou o contrário. Não há paz fora disso. A guerra é o caminho necessário para a paz.

No sítio do Fundo das Nações Unidas para a Infância, mais conhecido pela sigla em inglês Unicef, há muita informação sobre o assunto.

Por exemplo:

Nas últimas décadas, a proporção de mortes de civis em conflitos armados aumentou dramaticamente, e é estimado em mais de 90%. Cerca de metade das vítimas são crianças.

Estimativas indicam que 20 milhões de crianças foram forçadas a fugir de suas casas por causa de conflitos e violações de direitos humanos. Elas vivem como refugiadas em países vizinhos ou deslocadas dentro do próprio país.

Mais de 2 milhões de crianças morreram como resultado direto de conflitos armados na última década. Pelo menos 6 milhões de crianças estão incapacitadas ou seriamente feridas. Mais de 1 milhão se tornaram órfãs ou foram separadas de suas famílias.

Entre 8 mil e 10 mil crianças são mortas ou mutiladas por minas terrestres todos os anos.

Estima-se em 300 mil o número de crianças-soldado (meninos e meninas abaixo de 18 anos) envolvidas em mais de 30 conflitos em todo o mundo.

Crianças-soldado são usadas como combatentes, mensageiras, carregadoreas, cozinheiras e escravas sexuais. Algumas são recrutadas à força ou seqüestradas; outras são levadas a aderir aos exércitos por causa da pobreza, abuso e discriminação, ou em busca de vingança pela violência praticada contra elas e suas famílias.

Em 2002, o Protocolo Opcional à Convenção dos Direitos das Crianças Envolvidas em Conflitos Armados passou a exigir que os países aumentassem para 18 anos a idade para o recrutamento compulsório e a participação direta em combates. E que a idade mínima para o recrutamento voluntário não fosse inferior a 15 anos.

Durante conflitos armados, garotas e mulheres são ameaçadas de estupro, violência doméstica, exploração sexual, tráfico, humilhação e mutilação sexual. O uso do estupro e de outras formas de violência contra mulheres têm se tornado uma estratégia de guerra de todos os lados envolvidos num conflito.

Relatórios produzidos depois do genocídio de Ruanda, em 1994, concluíram que praticamente todas as mulheres acima de 12 anos que sobreviveram foram estupradas.

Nos conflitos armados na ex-Iuguslávia, mais de 20 mil mulheres sofreram abuso sexual. Os conflitos também destruíram famílias, aumentando o peso econômico e emocional sobre as mulheres.

Dentre 25 países com as maiores proporções de pessoas contaminadas pelo vírus da Aids, cerca de um terço foram afetadas em decorrência de conflitos armados nos últimos anos. Dentre os 10 países com as maiores taxas de mortes de crianças com menos de cinco anos, sete são afetados por conflitos armados.

Crianças em conflitos armados experimentam rotineiramente impactos emocional e psicológico como a morte violenta dos pais ou de parentes próximos; separação das famílias; testemunham pessoas amadas sendo mortas ou torturadas; são deslocadas de suas casas e comunidade; são expostas a combates, bombardeios e outras situações de risco de morte; atos de abuso como serem seqüestradas, presas, detidas, estupradas, torturadas; perda da rotina escolar e da vida em comunidade; e futuro incerto.

Algumas participam de atos violentos. Crianças de todas as idades também são fortemente afetadas pelos níveis de estresse vividos pelos seus responsáveis.

Na República Democrática do Congo (RDC), mais de 200 mil mulheres e garotas sofreram abuso sexual nos últimos 10 anos. Só entre janeiro e outubro deste ano, apenas a organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) atenderam a 5.700 casos de abusos sexuais.

Na RDC, todos os lados estão violentando mulheres e crianças: exército, rebeldes, milícias e até a população civil.

AS VÍTIMAS DA GUERRA NA REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO (RDC)

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Reportagem da TV Brasil, a televisão pública brasileira, sobre o tratamento de mulheres e crianças vítimas da guerra civil na República Democrática do Congo (RDC).

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

CENAS RUANDENSES


Na estrada entre Goma (República Democrática do Congo) e Kigali (Ruanda)

JOÃO MELO

João Melo é jornalista, escritor, intelectual e deputado angolano. Não necessariamente nesta ordem.

Ele esteve recentemente no Brasil para lançar o livro “Filhos da Pátria”.

A repórter Mariana Ceratti, do jornal Correio Braziliense, fez uma bela entrevista com o João Melo.

Todo mundo que se interessa por África, Angola, literatura, reforma ortográfica e uma boa entrevista com boas perguntas e boas respostas precisa ler o texto da Mariana.

A entrevista é longa, mas rapidamente devorável. E se você chegou até aqui, já deu mostras de que não é preguiçoso.

Pois clique aqui e saboreie, no sítio Portugal Digital, a íntegra da conversa da Mariana Ceratti com o João Melo.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

domingo, 7 de dezembro de 2008

SHAKE HANDS WITH THE DEVIL

Crânios de vítimas do massacre de 1994, expostos no Memorial do Genocídio, em Kigali


Kigali, a capital de Ruanda, é uma das cidades mais bem organizadas da África.

As ruas são asfaltadas. O tráfego é intenso, mas nem de longe se compara aos engarrafamentos de Luanda.

Os motoristas respeitam os sinais de trânsito. Bom, há sinais de trânsito e eles funcionam.

A polícia não pede propina na rua.

O principal idioma do país é o kinyarwanda, falado por toda a população. O inglês e o francês também são idiomas oficiais, mas é comum encontrar nas ruas de Kigali quem só fale inglês e não entenda nada de francês e vice-versa. Entre eles, vale mesmo o kinyarwanda.

Os ruandenses são muito simpáticos e ainda atravessam um longo processo de reconciliação.

Em 1994, Ruanda viveu um dos piores episódios da história da humanidade.

Num período de 90 dias, mais de um milhão de ruandenses da etnia tutsi e hutus considerados moderados foram assassinados com requintes de crueldade no episódio que ficou conhecido como o genocídio de Ruanda.

Tudo começou com a morte do presidente de Ruanda, Juvenal Habyarimana, da etnia hutu. O avião em que ele viajava foi abatido por um foguete quando se preparava para pousar no aeroporto de Kigali.

O presidente Juvenal Habyarimana


O atentado foi o sinal para o início do genocídio.

No dia seguinte ao acidente, milhares de tutsis começaram a ser mortos em todo o país.

Crânios de ruandenses da etnia tutsi sendo recolhidos: mais de 1 milhão de mortos


Armados com machetes, facões, facas, pedaços de pau, armas ou qualquer objeto pontiagudo ou cortante, ruandenses da etnia hutu, insuflados pelos hutus que controlavam o governo, foram às ruas atrás dos tutsis e dos próprios hutus que adotavam uma postura de conciliação entre as duas etnias.

Talvez ainda leve tempo para se entender o que aconteceu em Ruanda.

O genocídio não foi praticado apenas pelas tropas do governo. Professores, médicos, funcionários públicos, cidadãos comuns da etnia hutu saíam às ruas todas as manhãs e passavam o dia à caça dos tutsis.

Tutsis que eram seus vizinhos, colegas de igreja, de trabalho, amigos de infância, pessoas com quem conviviam diariamente. Jogavam bola juntos, bebiam juntos, namoravam, casavam e tinham filhos.

Os tutsis fugiram das cidades e se refugiaram nos campos, nas florestas, nos pântanos na fronteira com o Congo. Deixaram tudo para trás. Empregos, casas, bens.

Todas as manhãs, os hutus se embrenhavam no mato, nas florestas, nos pântanos para matar os tutsis. Decepavam membros, estupravam as mulheres, jogavam bebês e crianças contra as árvores e paredes.

E voltavam no fim do dia com o espólio da barbárie. Dinheiro, jóias, roupas. As mulheres hutus entravam nas casas abandonadas dos tutsis para recolher o que havia.

O genocídio durou três meses. As tropas da ONU estacionadas no país foram incapazes de impedir os assassinatos.

O genocídio virou filme. Hotel Ruanda, baseado em fatos reais. O hotel que serviu como uma das locações está lá em Kigali. É o Hotel Des Milles Collines.

O título do post, Shake Hands with the Devil, é o nome do livro escrito pelo general canadense Roméo Dallaire, que comandou as forças da ONU em Ruanda entre julho de 1993 e setembro de 1994.

Em 18 de julho de 1994, o Exército Patriótico Ruandense entrou em Kigali e derrotou as forças do governo extremista Hutu.

Os números oficiais do genocídio são: mais de 300 mil órfãos, centenas de milhares de mulheres estupradas, mutiladas e infectadas com o vírus da Aids e todo o tecido social do país comprometido.

Ainda hoje, vários processos em Ruanda e no Tribunal Criminal Internacional para Ruanda, em Arusha (Tanzânia), buscam punir os responsáveis pelo genocídio.

Em Kigali, um Memorial do Genocídio foi construído para não deixar que o mundo esqueça das atrocidades cometidas e para não permitir que se repitam.

As imagens são chocantes. A mais chocante é a da foto de abertura do post.

Numa das salas, diversos crânios de ruandenses massacrados estão expostos. Vários estão rachados, prova da violência dos golpes que provocaram a morte.

Há também ossos dos corpos que foram abandonados ao relento em todo o país.
Ossos das vítimas expostos no Memorial do Genocídio, em Kigali


E algumas das armas usadas nos massacres.

Armas usadas nos massacres

Hoje, Ruanda é um país próspero. A economia cresce a taxas anuais médias de 6% desde 2003.

Cerca de 80% da população trabalha em alguma atividade ligada à agricultura.

O governo quer mudar esse perfil e transformar o país num centro tecnológico e financeiro no coração da África. Para isso, investe pesado na educação dos ruandenses, principalmente em ciência da computação. O objetivo é que o país seja um produtor de softwares. Há um esforço enorme para atrair investimentos estrangeiros.

O turismo é outra área com grande potencial. Os gorilas que habitam suas montanhas e colinas (o mote de Ruanda é “O país das mil colinas”) atraem milhares de visitantes todos os anos.

Se você vier à África e tiver oportunidade, não deixe de conhecer Ruanda.

E se você for a Kigali, não pode ir embora sem visitar o Memorial do Genocídio.

CENAS CONGOLESAS


Tanque da Missão de Paz da ONU no Congo (Monuc) estacionado na região central de Goma, capital da província de Kivu-Norte

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A HISTÓRIA DE NYENGELE KAITE JAMS. OU SIMPLESMENTE JAMES, PARA QUEM A VIDA É HAKUNA MATATA

Nyengele Kaite Jams, ou simplesmente James, em seu carro numa das ruas de Goma destruídas pelas lavas do vulcão Nyiragongo, que teve sua última erupção em 2002: 40% da cidade foi abaixo.


Jams foi nosso motorista em Goma entre os dias 20 e 27 de novembro.

Cheguei até ele graças a uma dica de Hezz Holland, jornalista inglês da Reuters que já estava morando em Goma havia quase dois meses.

Jams nasceu e cresceu em Goma. Morou um curto período de tempo em Uganda, onde vivem seus pais.

Sua primeira língua é o swuaili. Depois, francês. Como fui um aluno relapso da Aliança Francesa, nós nos falávamos em inglês, idioma em que ele se comunica bem.

O nome é Jams, mas, para facilitar nosso entendimento, se apresenta como James.

James tem 24 anos e tem 18 irmãos. Todos filhos do mesmo pai, que é muçulmano e tem duas mulheres. A mãe de James, de 41 anos, e a segunda esposa, de 36.

É o único na família que fala inglês, o que lhe abre muitas oportunidades de trabalho.

EU – E você pretende ter quantas mulheres e filhos?

JAMES – Só uma. E três filhos.

EU – Mas você pode ter mais, pois sua religião permite.

JAMES – Mas eu só quero uma mulher.

Num dos dias que passamos em Goma, James pergunta se quero conhecer a namorada dele. Eles pretendem se casar daqui a dois anos, quando ela terminar a faculdade de ciências da computação.

Dois dias depois, ele liga para alguém que, pelo tom de voz meloso ao telefone, imagino que seja a namorada. Faz um desvio e estaciona em frente a uma empresa. Uma moça espera na frente. Ela dá a volta no carro (em Goma, muitos carros são importados do Dubai e têm a direção no lado direito do veículo) e sapeca um selinho.

JAMES – This is my girlfriend. What do you think about her?

EU (que penso rápido como um raio) – Beautiful.

James abre um sorriso. A moça, que entende pouco de inglês, mas, como toda mulher, sabe reconhecer um galanteio em qualquer idioma, ruboriza.

Seguimos.

Fiz contato com James quando ainda estava em Ruanda, pouco antes de cruzar a fronteira com o Congo.

Ele cruzou a fronteira para nos buscar com as bagagens.

Perguntei se conseguiríamos atravessar sem problemas.

JAMES – Hakuna matata.

EU – Como?

JAMES – Hakuna matata.

EU – Mas isso não é música do Rei Leão.

JAMES – Não. Hakuna matata quer dizer “não tem problema” em swuaili.

Quando tínhamos nossos passaportes carimbados, James aparece e diz que estamos sendo chamados numa sala ao lado para termos as bagagens vistoriadas.

Quando chegamos lá, uma salinha escura, James foi “convidado” a se retirar do recinto pelos supostos oficiais da imigração congolesa, encarregados de vistoriar as bagagens dos estrangeiros. Como devem se lembrar, foi ali, naquela salinha escura, que paguei minha primeira propina em África.

James nos levou a dois hotéis. No primeiro não havia vagas. No segundo, conseguimos dois quartos. Pergunto quanto ele vai nos cobrar. Mas faço um alerta antes dele dizer o preço.

EU – Atenção. Antes de cobrar pense nos negócios futuros que poderemos fazer aqui. Pense a longo prazo. Me dê um preço como se eu fosse um congolês.

Erro primário. Um muzungu jamais deve dizer a um congolês cujo primeiro idioma é o swuaili para ser tratado como um irmão de cor.

JAMES – Diga o seu preço. Cuide de mim como se eu fosse seu amigo, como se eu fosse seu filho.

Morri em US$ 20 por um trajeto inferior a 5km.

No dia seguinte, enquanto seguimos para o primeiro compromisso do dia, pergunto quanto ele vai me cobrar de diário.

JAMES – Goma town: US$ 50. Plus petrol. Out of Goma, but near, not far, US$ 70. Plus petrol.

EU – Ou seja, ontem você fez um bom negócio. Cobrou US$ 20 só para nos trazer ao hotel. E hoje vai cobrar US$ 50 para dirigir o dia inteiro.

James dá aquele sorriso de quem foi pego em flagrante delito e não responde.

No carro, música congolesa e do leste africano. Peço para James me comprar um ou dois CDs com músicas tradicionais. Cada CD custa, segundo ele, entre US$ 2 e US$ 3. Deixo uns US$ 10 para ele ver o que consegue comprar. No último dia da viagem, diz que não conseguiu fazer as gravações em MP3 e me entrega os dois CDs que ele leva no próprio carro.

James é uma figura popular em Goma. Já foi motorista de um ex-integrante do governo local, por isso alguns policiais o reconhecem na rua.

Ele sempre anda com uns trocados à mão, e os distribui aqui e acolá.

Um dia, numa rotunda, reduz a velocidade ao sinal de dois guardas. Um deles se aproxima de James, que deixa umas notas amassadas na mão do policial quando o cumprimenta.

EU – Por que você deu dinheiro para ele?

JAMES – Ele é meu amigo.

EU – Tem certeza? Ele não ia te parar por alguma razão e você deu o dinheiro só para se livrar dele?

JAMES – Não. Ele é meu amigo. Trabalha o dia inteiro no sol. Ganha pouco. Só dei uma ajuda para ele comprar um refrigerante.

Não sei quanto ganha um policial no Congo, mas os soldados, segundo relatos, recebem entre US$ 10 e US$ 12 por mês. Quando recebem. Parece que, às vezes, alguém fica com o dinheiro.

Por isso não fazem questão de enfrentar as tropas do general Laurent Nkunda. Na última investida do rebelde, os soldados do exército congolês bateram em retirada, abandonando as armas pelo caminho.

Noutro dia, somos parados pela polícia. Na verdade, por uma policial, metida no tradicional uniforme amarelo-ovo dos guardas de trânsito do Congo.

Sandra era o nome dela. Uns 30 quilos acima do que deveria ser seu peso ideal, sobrancelhas depiladas e desenhadas com um lápis marrom. Batom vermelho, olhos penetrantes. Transpirava sexo.

James encosta o carro. Sandra se aproxima da janela e nos olha dentro do carro. Fala em inglês conosco. No banco de trás, Ulov, o repórter cinematográfico, desperta a libido de Sandra.

Ulov é um nome russo, mas, quando pronunciado em inglês, ganha contornos, digamos, sensuais. Ulov. You love.

A policial Sandra não esconde a excitação ao ouvir o nome.

SANDRA – Oh, You Love! Ohhh!

ULOV – No, Ulov.

JAMES – Yes, You love.

EU – Yes, You love.

EU E JAMES - YES, YOU LOVE!!!!

Sandra quer saber mais sobre Ulov, que entende bem inglês, mas tem mais dificuldades para se comunicar.

EU – Podemos deixá-lo aqui por duas horas se a senhora nos liberar.

SANDRA – Duas horas?

EU – Sim. Pode fazer o que quiser com ele. Vamos fazer nosso trabalho e depois voltamos para pegá-lo.

SANDRA – OK.

É claro que Ulov não ficou.
Acho que, no mano-a-mano, ele não resistiria a cinco minutos com Sandra.

Seguimos.

James conta que Sandra é chefe da divisão de trânsito da polícia de Goma e já se declarou apaixonada por ele.

JAMES – Ela disse que me ama e que me quer. Mas eu disse que não posso, que tenho noiva.

EU – E como ela reagiu?

JAMES – Ela disse que não se importa, que eu posso ter outras.

EU – E você?

JAMES – Não, eu amo a minha namorada. E a Sandra não faz o meu tipo.

Na hora do almoço, James pede um suco de maracujá em garrafa. Pergunto como é maracujá em francês.

JAMES – Maracujá.

EU – E você sabe como é em inglês?

JAMES – No.

EU – Passion fruit. Você acha que a Sandra gostaria de tomar um suco de passion fruit?

JAMES – Vou te falar uma coisa. A Sandra gosta de cerveja.

EU – Cerveja?

JAMES – Sim, e da garrafa grande.

OK.

Um dos 18 irmãos de James também é motorista. Há cerca de um mês, ele dirigia o carro para um jornalista belga. Os dois foram seqüestrados por milícias Mayi-Mayi. Os Mayi-Mayi são grupos de congoleses que, originalmente, se organizaram como força militar para proteger a população tutsi local dos ataques das milícias hutus de Ruanda.

Originalmente. Com o tempo, acabaram se tornando bandidos e hoje aterrorizam a população local. Roubam, estupram e matam. E, como têm ligações com o governo, são usados pelo exército congolês para combater os rebeldes e atacar a população civil e responsabilizar os soldados do general Laurent Nkunda.

O jornalista e o irmão de James ficaram três dias sendo passados de grupo para grupo, até que a ONU e o governo conseguiram acertar a libertação dos dois. Eles não foram machucados, mas o irmão de James ficou sem o carro.

Tentei entrevistá-lo, mas ele estava fora da província. Fora comprar outro carro e só voltou quando eu já havia partido para Kigali.

Todos se interessaram pela história do jornalista. Eu queria ouvir o congolês. Fica para a próxima.

James ia nos levar de carro até Kigali. Mas nossa última entrevista demorou e não conseguimos partir antes do meio-dia. James tinha de ir a Kigali e voltar antes das 18h, quando o posto de fronteira fecha.

Vai ficar para a próxima. Mas se você for a Goma e precisar de um motorista de confiança, ligue para o James. Ele resolve quase tudo. E é amigo da Sandra. O telefone dele é o (243) 994 200 907.

Hakuna matata.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

AS CARAS E BOCAS DO GENERAL REBELDE LAURENT NKUNDA NAS SELVAS DO CONGO

O general rebelde Laurent Nkunda controla um exército com aproximadamente 7 mil soldados.

Ninguém sabe se é isso mesmo, mas é o número com que trabalham o governo da República Democrática do Congo (RDC) e a Organização das Nações Unidas (ONU).

No sábado, dia 22 de novembro, Nkunda fez uma aparição no estádio municipal de Rusthuru, a 80km de Goma, digno de qualquer comício no interior de qualquer país.

O homem impressiona.

Fez caras e bocas diante de uma platéia de aproximadamente 5 mil pessoas.

A seguir, algumas caras e bocas de Laurent Nkunda que registrei durante sua fala.













terça-feira, 2 de dezembro de 2008

DOIS SORRISOS

Não sei o nome dos garotos. Eles andavam soltos pelos corredores e enfermarias do hospital administrado pelo Médecins Sans Frontières (MSF) na cidade de Kiroshi, a 40km de Goma.

Kiroshi é uma das regiões mais violentas do leste do Congo. Ali, há combates quase diários entre tropas do exército congolês, dos rebeldes e das milícias que aterrorizam a população local.

O hospital estava fechado. Foi reaberto há um mês pelo MSF.

Antes, a população não recebia qualquer tratamento médico.

Eu estava finalizando uma gravação quando apareceram essas duas crianças.

A menina, à esquerda, manteve a cara fechada, como se já tivesse consciência das dificuldades que a esperam. O garoto, camisa furada e com uma caneca plástica na mão, chegou com esse sorriso contagiante que vocês vêem aí embaixo. Fiz um sinal de positivo com o polegar e ele respondeu com outro sinal de positivo.


A menina foi embora e o garoto ficou.

Tirei a foto dele e virei o visor para que ele pudesse se ver. Ele caiu numa gargalhada incrível. Apontava o dedo para a câmera e caía na gargalhada de novo.

Logo depois chegou o garoto da direita, com um sorriso não menos contagiante. Tirei a foto dos dois e, de novo, mostrei o visor para eles verem o resultado. Desta vez, os dois caíram numa gargalhada sensacional. Falavam algo em swuaili e gargalhavam de novo.



Impossível não se deixar tocar por esses dois sorrisos, que fazem um constraste brutal com o que acontece no extremo leste do Congo.

Com vocês, dois sorrisos sensacionais para provar que nem tudo está perdido.
video
Cliquem na foto. A música é Shosholoza, cantada pelo grupo sul-africano Amaryouni.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

CENAS CONGOLESAS


Congoleses aguardam começo do comício do general rebelde Laurent Nkunda em estádio na cidade de Rutshuru