segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

AS DUAS VEZES EM QUE CRUZEI A FRONTEIRA DE ANGOLA COM A NAMÍBIA A PÉ (PARTE I – AINDA EM LUANDA)

Sair de Luanda pelo aeroporto 4 de Fevereiro é uma aventura.

Os passageiros dos vôos internacionais são submetidos a insinuações de achaques, assédios de malandros, funcionários despreparados para exercer suas funções e a surreal exigência de se apresentar o passaporte sete vezes até conseguir entrar no avião.

No terminal doméstico, a situação não é muito diferente.

A estrutura para os passageiros é até um pouco melhor do que a disponível no terminal internacional. Mas os acompanhantes são proibidos de entrar. São obrigados a ficar no pátio do estacionamento. Ali, só passa pelo guarda quem mostrar documento e passagem.

O check-in foi até tranqüilo. Não havia fila.

A selvageria começa no momento da entrada na sala de embarque.

Forma-se uma longa fila para que os passageiros passem a bagagem de mão por um único aparelho de raios-X.

Quem já esteve por aqui sabe da dificuldade dos angolanos não apenas em fazer fila, mas de respeitar a fila depois que ela se organiza.

A fila avança. Lá na frente, começamos a ouvir uma gritaria. São angolanos se estapeando e trocando empurrões.

Motivo: os angolanos que estavam na fila não queriam deixar outros angolanos furarem a fila.

De nada adianta.

Os angolanos que não respeitam filas não querem saber de nada. Passam na frente, colocam suas bagagens na esteira do aparelho de raios-X e entram.

Começa uma gritaria. Os policiais e seguranças de plantão nada fazem.

Vai chegando nossa vez de entrar.

Mais angolanos chegam para furar a fila.

Só para lembrar, a Casa de Luanda e o Diário da África estavam juntos na viagem à Namíbia.

A Casa de Luanda informa a um senhor angolano que tentava se infiltrar na nossa frente que não apenas havia uma fila, mas que ela começava lá atrás.

ANGOLANO QUE NÃO RESPEITA FILA – Ai, é?

CASA DE LUANDA – Ai, é.

O angolano furão foi para o fim da fila.

Mas os angolanos furões surgem em profusão.

Tentam passar na minha frente.

EU – Meu senhor, a fila é lá atrás.

O angolano furão nem liga. Finge que não ouve e continua ali, avançando.

EU (em mais um momento de valentia) – O senhor não vai passar na minha frente. A fila é lá atrás.

E avanço para impedir que ele entre na minha frente.

Nisso, surge um dos seguranças que manda o angolano furador de fila ir lá para trás. O angolano furador de fila não vai. Continua a tentar entrar. O segurança o empurra para trás.

Nada.

O angolano continua ali e acaba entrando depois de nós.

É inacreditável.

E a solução para isso seria simples. Bastava colocar um daqueles cordões que formam aquelas filas únicas nas agências bancárias no início do aparelho de raios-X. Seria suficiente para impedir que os angolanos espertalhões furassem a fila.

Angola ainda tem muitos desafios pela frente.

Ensinar as pessoas a respeitar as filas é um deles.

2 comentários:

Gabriel Borges disse...

Será que "furar a fila" é um problema geral africano? A primeira vez que isso aconteceu me senti muito mal, insultado mesmo. Outro dia dei meu lugar no banco a uma senhora, a fila virou um inferno todas as "mamas" queriam passar na minha frente, aqui não tem fila de idosos...

Helga disse...

Concordo com a parte do "é muita coragem" pra enfrentar uma pessoa desconhecida em ambiente não-familiar. Embora.. talvez não tão assim pra você, certo? :)

Mas dependendo da autoridade com que se fala (e a intensidade do olhar, like you mean it) resolvem a questão. Tenho poucos destes momentos inspirados, confesso. :P