Sair de Luanda pelo aeroporto 4 de Fevereiro é uma aventura.
Os passageiros dos vôos internacionais são submetidos a insinuações de achaques, assédios de malandros, funcionários despreparados para exercer suas funções e a surreal exigência de se apresentar o passaporte sete vezes até conseguir entrar no avião.
No terminal doméstico, a situação não é muito diferente.
A estrutura para os passageiros é até um pouco melhor do que a disponível no terminal internacional. Mas os acompanhantes são proibidos de entrar. São obrigados a ficar no pátio do estacionamento. Ali, só passa pelo guarda quem mostrar documento e passagem.
O check-in foi até tranqüilo. Não havia fila.
A selvageria começa no momento da entrada na sala de embarque.
Forma-se uma longa fila para que os passageiros passem a bagagem de mão por um único aparelho de raios-X.
Quem já esteve por aqui sabe da dificuldade dos angolanos não apenas em fazer fila, mas de respeitar a fila depois que ela se organiza.
A fila avança. Lá na frente, começamos a ouvir uma gritaria. São angolanos se estapeando e trocando empurrões.
Motivo: os angolanos que estavam na fila não queriam deixar outros angolanos furarem a fila.
De nada adianta.
Os angolanos que não respeitam filas não querem saber de nada. Passam na frente, colocam suas bagagens na esteira do aparelho de raios-X e entram.
Começa uma gritaria. Os policiais e seguranças de plantão nada fazem.
Vai chegando nossa vez de entrar.
Mais angolanos chegam para furar a fila.
Só para lembrar, a Casa de Luanda e o Diário da África estavam juntos na viagem à Namíbia.
A Casa de Luanda informa a um senhor angolano que tentava se infiltrar na nossa frente que não apenas havia uma fila, mas que ela começava lá atrás.
ANGOLANO QUE NÃO RESPEITA FILA – Ai, é?
CASA DE LUANDA – Ai, é.
O angolano furão foi para o fim da fila.
Mas os angolanos furões surgem em profusão.
Tentam passar na minha frente.
EU – Meu senhor, a fila é lá atrás.
O angolano furão nem liga. Finge que não ouve e continua ali, avançando.
EU (em mais um momento de valentia) – O senhor não vai passar na minha frente. A fila é lá atrás.
E avanço para impedir que ele entre na minha frente.
Nisso, surge um dos seguranças que manda o angolano furador de fila ir lá para trás. O angolano furador de fila não vai. Continua a tentar entrar. O segurança o empurra para trás.
Nada.
O angolano continua ali e acaba entrando depois de nós.
É inacreditável.
E a solução para isso seria simples. Bastava colocar um daqueles cordões que formam aquelas filas únicas nas agências bancárias no início do aparelho de raios-X. Seria suficiente para impedir que os angolanos espertalhões furassem a fila.
Angola ainda tem muitos desafios pela frente.
Ensinar as pessoas a respeitar as filas é um deles.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
AS DUAS VEZES EM QUE CRUZEI A FRONTEIRA DE ANGOLA COM A NAMÍBIA A PÉ (PARTE I – AINDA EM LUANDA)
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2 comentários:
Será que "furar a fila" é um problema geral africano? A primeira vez que isso aconteceu me senti muito mal, insultado mesmo. Outro dia dei meu lugar no banco a uma senhora, a fila virou um inferno todas as "mamas" queriam passar na minha frente, aqui não tem fila de idosos...
Concordo com a parte do "é muita coragem" pra enfrentar uma pessoa desconhecida em ambiente não-familiar. Embora.. talvez não tão assim pra você, certo? :)
Mas dependendo da autoridade com que se fala (e a intensidade do olhar, like you mean it) resolvem a questão. Tenho poucos destes momentos inspirados, confesso. :P
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