quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

AS DUAS VEZES EM QUE CRUZEI A FRONTEIRA DE ANGOLA COM A NAMÍBIA A PÉ - PARTE II

A saída do vôo para Ondjiva, capital da província do Cunene, a 40km da fronteira com a Namíbia, atrasa pouco mais de uma hora.

Antes de embarcar, temos de identificar as malas colocadas ao lado do avião.

Apesar de as malas já terem sido etiquetadas, os passageiros, um a um, têm de apontá-las aos carregadores. Como o vôo terá uma escala antes (Catumbela) e outra depois (Huambo) de Ondjiva, é preciso ter certeza que a bagagem chegará ao mesmo destino do dono.

Um funcionário da SonAir, a empresa aérea da Sonangol, a estatal do petróleo angolana, explica ao carregador o procedimento.

FUNCIONÁRIO DA SONAIR – Você pergunta ao passageiro para onde ele vai. As malas de quem vai para Ondjiva entram primeiro. As malas de quem vai para Catumbela entram depois, pois serão desembarcadas antes. Entendeu?

CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim, chefe.

FUNCIONÁRIO DA SONAIR (dirigindo-se a mim) – O senhor vai para onde?

EU – Ondjiva.

FUNCIONÁRIO DA SONAIR (dirigindo-se ao carregador) – Ele vai para Ondjiva. Já sabes o que fazer, não?

CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim chefe. A mala dele vai depois.

FUNCIONÁRIO DA SONAIR (aos berros) – NÃO, NÃO!!! Ele vai para Ondjiva. As malas de quem vai para Ondjiva entram PRIMEIRO.

CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim, chefe!

Luanda fica para trás.

Bom, as malas chegaram a Ondjiva.

Decidimos cruzar a fronteira com a Namíbia por via terrestre porque não havia vôos da capital Windhoek na data que queríamos voltar para Luanda.

No desembarque, temos de entregar os passaportes. Uma funcionária do governo os leva para uma sala e anota os dados.

Enquanto aguardamos as malas, somos abordados por um motorista de táxi que se oferece para nos levar até a fronteira. Daniel é o nome dele. Cobra 500 kwanzas por pessoa. Como somos quatro, ganha 2 mil kwanzas (US$ 26,6) por uma corrida de 40km até o posto de imigração.

Os passaportes voltam.

Arrastamos as malas até o táxi de Daniel, estacionado do lado de fora do aeroporto. É um carro azul, velho. Vou no banco da frente. O vidro da janela do meu lado não abaixa e o ar-condicionado não funciona. O sol está do meu lado. Torro durante os 40 minutos de viagem até a fronteira.

Ou melhor. Até quase a fronteira.

Quando nos aproximamos do posto de imigração, Daniel reduz a velocidade do carro.

Imediatamente somos cercados por angolanos se oferecendo para carregar a bagagem, querendo comprar kwanzas (como sabem, é proibido sair do país com kwanzas) e oferecendo dólares namibianos.

Daniel se irrita.

DANIEL – Saiam daqui. Não estão vendo que não querem fazer câmbio?

Nisso, somos abordados por um policial numa moto.

POLICIAL NA MOTO (dirigindo-se ao Daniel) – O que você está a fazer aqui? Não sabe que não pode vir até aqui de táxi?

DANIEL – Não é serviço de táxi, chefe. São meus bosses.

POLICIAL NA MOTO – Não pode. Você não pode vir aqui de táxi.

Os táxis não podem levar passageiros até a fronteira.

Daniel é obrigado a encostar num terreno vazio.

Descemos do carro e somos novamente cercados por um enxame de angolanos que se oferecem para carregar a bagagem, comprar kwanzas e vender dólares namibianos.

Agradecemos. Mas eles insistem.

ANGOLANO – Aqui não tem gatuno, chefe. Pode confiar.

EU – Ninguém disse isso. Só que não queremos fazer câmbio. Obrigado.

Depois de um tempo, os angolanos acabam se afastando.

Pagamos Daniel e arrastamos as malas pela poeira por uns 200 metros até o posto da fronteira.

No guichê, angolanos e namibianos que vivem na região da fronteira e fazem uma espécie de comércio-formiga durante todo o dia se espremem diante da janelinha do oficial da imigração para obter o carimbo de saída de Angola.

O carimbo é dado numa folha tamanho A4. É carimbado tanto na saída de um país como na entrada em outro. Muitos dos papéis estão rasgados, amassados, dobrados em dezenas de pedaços, alguns sem espaço para novos carimbos.

O oficial de imigração, com um anelão no dedo, bate o carimbo na almofada e bate no papel. Reclama com algumas pessoas que já não há espaço para novos registros.

Interrompe o trabalho e dá duas mordidas numa banana já pela metade que ele pega em cima do balcão. Carimba alguns passaportes e come duas uvas num pratinho em cima do balcão. Carimba mais uns passaportes e dá outra dentada na banana.

Finalmente conseguimos sair.

Uma semana depois, no retorno, bastou sairmos do carro para começar o assédio de angolanos do lado namibiano da fronteira querendo fazer câmbio, pedindo para levar a bagagem e pedindo dinheiro.

Recebemos o carimbo de saída e rumamos para o lado angolano da fronteira.

No caminho, angolanos insistem em “ajudar”. Pedem 200 kwanzas para levar a bagagem.

Mas vamos para o guichê errado, o da saída de Angola.

Os angolanos continuam a nos chamar. Ignoramos. Quando descobrimos que estávamos no lugar errado, fazemos o caminho de volta.

Um policial angolano enfezado vem ao nosso encontro.

POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Vocês são surdos? Vocês são surdos?

NÓS – Não!

POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Não ouviram eu dizer que a entrada era do outro lado. Até mandei o menino chamar vocês.

NÓS – Não percebemos que era o senhor. Pensamos que fossem os garotos pedindo para carregar a bagagem.

POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Eu falei que aquele era o lado errado.

EU – Desculpe. Não percebemos.

POLICIAL ENFEZADO – Da próxima vez vou tomar providência.

Fico imaginando que providência ele tomaria pelo fato de termos ido para o lado errado.

O comportamento do policial que nos abordou é o maior exemplo do servidor público despreparado para exercer uma função pública.

Enfiado num uniforme e investido do poder do Estado, o servidor de baixo escalão despreparado torna-se um pequeno ditador. Delicia-se na humilhação das pessoas, a forma mais baixa de exercício do poder.

2 comentários:

Lorena disse...

Disse tudo no último parágrafo, e normalmente a arrogância é diretamente proporcional ao despreparo e ineficiência. Se bem que encontra-se em qualquer parte do mundo gente pronta e ávida para exercer a tirania, mesmo em lugares que primam pela organização.

Helga disse...

Comentários engraçadinhos: Tive de rir um bocado pelos teus 40 min torrando no sol. Ô, situaçãozinha!
Arrastar malas por 200m até a fronteira: aposto que se arrependeu de ter trazido mala tão grande. :)
"pequeno ditador", ótimo termo este. Cabe a muitas, muitas pessoas que já vimos pela vida. O que um uniforme/crachá não faz, hein?