Depois de cruzar a pé a fronteira de Angola rumo ao que se convencionou chamar de Namíbia e de passar uma semana em viagem exploratória ao suposto país, cabe-me comunicar que, de fato, tal lugar não existe.Sei que muitos ficarão chocados com a revelação. Afinal, passaram férias com a família, viram bichos fantásticos e tiveram os saldos de suas contas bancárias razoavelmente diminuídos com o também suposto pagamento de diárias de hotéis, aluguéis de carros, restaurantes e souvenirs diversos.
Há relatos alucinógenos de que teriam avistado leões, girafas, elefantes, springbocks, wildebeests, zebras, javalis e até um mico-leão-dourado bebendo água do mesmo poço, em perfeita harmonia.
Em post anterior, depois de contatos com diversas pessoas que garantiam ter ido ao país que não existe, eu já havia alertado sobre a não-existência da Namíbia. Tudo não passava, pois, de uma orquestração internacional.
Vamos aos fatos.
Ante a suspeita de que os viajantes que chegam ao suposto país são mantidos em sono induzido depois de respirar o conteúdo do spray disparado pelos comissários de bordo da Air Namibia (empresa que aceita cartão de crédito...), achamos por bem entrar no país que não existe por via terrestre.
Imediatamente depois de deixar a fronteira de Angola para trás, somos transportados para um mundo mágico.
Todos falam inglês, alemão e uma meia dúzia de idiomas nacionais. As ruas são limpas. As estradas asfaltadas e sinalizadas. Os sinais de trânsito funcionam.
Os preços são baratíssimos. Uma refeição com vinho não sai por mais de US$ 15 por pessoa.
Logo no primeiro dia de viagem, cruzamos com girafas, um rinoceronte, springboks, kudus, avestruzes e orixes pela estrada.
No segundo dia, caí num buraco. Quilômetros depois, o pneu estava o chão.
Lembrem-se que a expedição exploratória do Diário da África foi feita em parceria com a Casa de Luanda, que prorrogou as investigações e só deve retornar hoje a Angola.
Vimo-nos naquela situação surreal de ter um pneu furado numa estrada desértica no meio do nada, com supostos rinocerontes, zebras, babuínos e girafas a nos espreitar.
Enquanto começávamos a tentativa de trocar o pneu, surgem dois supostos namibianos.
Isso mesmo, surgem do nada. Num determinado momento não estavam ali. No momento seguinte, estavam. Quando olhei melhor ao redor, vi uma casa distante e um lodge cuja existência eu não havia percebido.
Um dos supostos namibianos toma a iniciativa.
SUPOSTO NAMIBIANO – We want to help.
Não é estranho?
EU – We are OK.
Os supostos namibianos continuam ali, parados. Querem mesmo ajudar.
Como devemos ter colocado o macaco no lugar errado, não conseguimos levantar o carro o suficiente para retirar o pneu avariado.
Um dos supostos namibianos entra embaixo do carro e encaixa o macaco no lugar certo. Os dois assumem a operação e, em questão de minutos, o pneu está trocado. Porém, vazio.
O segundo suposto namibiano diz que, junto com o kit do macaco, há um compressor de ar. Checamos e, de fato, há um compressor de ar que, conectado ao acendedor de cigarros, enche o pneu e estamos prontos para partir.
Agradecemos a ajuda e os supostos namibianos começam a ir embora.
Quem descobrir o que há de estranho nisso ganha uma semana de férias no país que não existe.
Os supostos namibianos não pedem nada. Surgem do nada, trocam o pneu e vão embora sem pedir dinheiro.
Dou 100 dólares namibianos aos dois, o equivalente a US$ 10. Eles não escondem a felicidade.
Depois descobri o porquê. Quando paramos numa oficina para consertar o pneu, o borracheiro cobrou 60 dólares namibianos. Ou seja, os dois supostos namibianos receberam muito mais do que poderiam imaginar.
Nos hotéis, alemães, alemães e mais alemães. A Namíbia deve ser o lugar com mais alemães fora da Alemanha. Provavelmente pelo fato de o país que não existe ter sido colônia dos germânicos até o fim da primeira guerra mundial, quando passou para o controle da África do Sul até a independência, em 1990.
Nossa viagem exploratória percorreu o seguinte trajeto: posto fronteiriço de Oshikango. Depois, Ondangwa, Opuwo, Palmwag, Khorixas, Outjo, Tsumeb e Namutoni (dentro do Parque Nacional de Etosha).
A prova cabal de que a Namíbia não existe foi apresentada ao fim da viagem, no momento em que cruzamos a fronteira de volta para Angola.
O caos angolano nos resgatou para o mundo real.
Mais algumas horas e estaríamos para sempre encarcerados no torpor namibiano.
O mais curioso é que, ao chegar a Luanda, fui verificar a máquina fotográfica. Para nossa surpresa, havia uma série de fotos da suposta Namíbia. Tento imaginar como aquelas imagens teriam ido parar ali.
Aí me lembro do dia em que fomos jantar e deixamos a câmera no quarto.
Tudo se encaixa. Trocaram o cartão de memória. Tiraram o nosso e colocaram outro, com imagens da suposta Namíbia.
Esses supostos namibianos não são fáceis.
Com vocês, algumas imagens do país que não existe. As supostas fotos são da F.
Primeiro, o suposto grande Kudu.

Supostos springboks







10 comentários:
Grande história, sir! É sempre bom ler seu blog - embora nem sempre prazeroso, por motivos óbvios -, mas foi um prazer especial esse se post. Deu até vontade de viajar para o país imaginário.
Perguntinha: seria na Namíbia que fica o Acre?
BTW, vale notar que "wildebeest" se chama "gnu" em português e "springbock" é "cabra-de-leque" (embora, confesso, esse nome não soe tão legal quanto "Springbock", então essa eu aceito :) )
Brincadeiras a parte, parabéns pelo blog! Acho que nunca disse isso antes :)
ainda bem que não existe: vou embora em dez dias e ficaria muito triste de não poder visitar um lugar destes, ainda mais sendo supostamente tão próximo a angola. =)
O mundo imaginário é sempre tão melhor que o real...
As supostas leoas são as mais belas! :-)
Donde se conclui que para conhecer a suposta Namíbia basta um spray. Bem, eu não sei que spray é esse que deram para vocês, mas olhando as fotos, lendo o post, e atentando para os argumentos do jornalista, só posso deduzir que o spray é bom e a "viagem" foi ótima. E, claro capricharam no serviço da máquina da F. Ô gente esperta! Também pudera colonizados pelos alemães, aprenderam muito. Mas seja lá como for, os springbocks, se não passam de suposições, são suposições lindas.
Adorei a descrição do suposto país. Realmente ele "não existe". E fica logo ali ao lado de Angola.
Os namibianos não pediram nem a famosa "gasosa"? Como ninguem respondeu, acho que ganhei uma semana no país que não existe!!!
Realmente incrível!
Ainda conhecerei o mundo imaginário!
Abraços
Será que nas margens do Cunene e no Bicuari já não moram mais os antílopes nem as feras à distancia de um disparo de máquina fotográfica?
Será que existiu tambem um mundo irreal e fantasioso nas margens do Cunene e do Cuanza e do Lucala?
Será mesmo que a real Palanca Negra foi um animal mitológico?
Será que desapareceram porque não foram resguardados em condomínios fechados?
Dá que pensar!
A Namíbia "não existe?" Huummmm, claro que existe.
A cidade do Cabo na África do Sul é que "não existe"...vale a pena conferir!
E também é pertinho de Angola.
Ana
Gente é claro que a Namíbia existe ! Uma amiga minha da escola que teve que viajar por causa do pai dela a trabalho foi para a Namíbia (África do Sul), não existe é o Cabo da África, mas a Namíbia existe sim ! Tem gente que acredita muito nesses negócios de internet e ainda ficam inventando muuuuuita besteira ! :@
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