terça-feira, 20 de janeiro de 2009

LOST AND ALONE IN PRETORIA

Estou sozinho no lobby do hotel em Pretória.

Jantei sozinho numa mesa de quatro lugares no restaurante do hotel.

Cerveja sul-africana.

De entrada, carpaccio feito com carne de avestruz e orix.

Como prato principal, carne, arroz e uns legumes.

Estou no lobby porque a internet não funciona no quarto.

O dia foi um cipoal.

Pela manhã, fui ao shopping ao lado do hotel comprar um telefone local e tirar cópias do passaporte para apresentar na embaixada da Líbia.

Em seguida, me desloquei 40 minutos até um dos extremos de Pretória (ainda não entendi a cidade direito, mas me parece formada por pequenas aglomerações espalhadas, bem espalhadas) para deixar o passaporte para ser traduzido para o árabe pelo Mr. Ali, tradutor juramentado indicado pela embaixada líbia.

Mr. Ali é líbio radicado em Pretória. Promete me entregar o passaporte às 14h. Pergunto se posso pegar às 15h. Ele diz 14h30. Como bom árabe, não perde a chance negociar. Nem mesmo no horário.

Ligo para a embaixada da Líbia para perguntar se a carta-convite chegou. Não chegou.

A moça do serviço consular pede meu número de passaporte. Depois de alguns segundos de esperança, ela diz que há vários pedidos de vistos, mas não para mim.
Ela diz para eu ligar em uma hora e falar com o chefe dela, Mr. XPTO (não consegui entender o nome dele).

Preciso entrar em contato com o Brasil, mas estou quatro horas na frente.

Aproveito para passar na embaixada de Angola e checar se a carta do Centro de Imprensa pedindo que me seja concedido visto de retorno chegou.

Não consigo passar do portão. Na portaria envidraçada, um sujeito diz pelo interfone que o adido de imprensa não chegou.

Pergunto se posso falar com alguém do consulado, uma vez que já estou ali mesmo.

Em inglês, o sujeito diz que não posso. Pede para eu anotar os telefones da embaixada que estão num papel afixado no vidro. Alguma palavra dita pelo sujeito do outro lado do vidro denuncia sua angolanidade.

O porteiro é angolano.

Começamos a falar em português.

EU – Mas eu estou ligando para estes números desde manhã cedo. Só dá ocupado ou ninguém atende.

ANGOLANO – Mas os números são esses mesmos.

EU – Mas ninguém atende. Já que estou aqui, não posso falar com alguém sobre o visto?

ANGOLANO – Não, a pessoa mesmo responsável pela imprensa é o Dr. X. Ele ainda não chegou, mas vai chegar. Tente ligar para a embaixada e pedir o telemóvel dele.

EU – Mas eu já estou aqui, me deixe falar com alguém.

ANGOLANO – Não, quem cuida mesmo da imprensa é ele. Tem de ligar.

OK, desisto.

Estou na porta da embaixada de Angola e preciso ligar para a embaixada para conseguir falar com alguém.

Em África, Deus não é pai, é padrasto.

Volto para o hotel e ligo 37 vezes para cada um dos cinco números da embaixada que anotei. Todos ocupados. O único que atende é o fax...

Meia hora de tentativas depois, consigo falar com a secretária. Ela me diz que o adido de imprensa está de férias.

EU – E quem está no lugar dele.

SECRETÁRIA – Ninguém.

EU – Então com quem posso falar para resolver a questão do visto?

SECRETÁRIA – Ligue para o senhor xxxx. Ele vai orientar.

O senhor xxx não gostou que liguei no telemóvel dele.

SENHOR XXX – Quem lhe passou este número?

EU – A secretária da embaixada.

SENHOR XXX - Escuta, estou numa reunião. Ligue de novo para a embaixada e peça o telemóvel do adido de imprensa. Fale com ele. Ele está de férias, mas ainda está na África do Sul. Não é má-vontade, mas estou numa reunião. Se ele não conseguir resolver, me ligue de volta.

Ligo para a embaixada e consigo o telemóvel do adido de imprensa.

ADIDO DE IMPRENSA – Estou de férias.

EU – Sim, eu sei. Mas o senhor xxx disse para eu lhe telefonar para saber sobre o comunicado do centro de imprensa.

ADIDO DE IMPRENSA – Vou ligar para a embaixada. Se o fax tiver caído, te encaminho para o setor consular.

EU – O senhor quer o meu número ou eu ligo depois.

ADIDO DE IMPRENSA – Me ligue daqui a uma hora.

Mando um e-mail para o Brasil comunicando que a embaixada da Líbia não recebeu o pedido de visto.

Como tenho de voltar para pegar o passaporte traduzido para o árabe às 14h, volto ao shopping ao lado do hotel e peço um sanduíche. Enquanto espero, toca o telefone.

É alguém do Centro de Imprensa, em Angola.

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Já viajou?

EU – Sim, estou em Pretória. O adido de imprensa está de férias, mas me disse que ainda não recebeu o fax aí do centro de imprensa.

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Você tem o telefone da embaixada?

EU – Sim, tenho...

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Isso aí é muito complicado. Estamos tentando mandar o fax, mas dizem que não chegou.

Passo todos os números que anotei na portaria da embaixada.

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – E qual é o número do fax?

EU – É o xxxxx.

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – É só este?

EU – Sim.

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – É, dizem que não receberam...

Estão a perceber a surrealidade da coisa?

O centro de imprensa me liga em Pretória para saber se eu tenho os números de telefone e do fax da embaixada de Angola em Pretória e para se queixar que não estão conseguindo enviar o fax que me garantirá o visto de retorno a Angola.

Termino o sanduíche a tempo de pegar o carro às 14h, para chegar a casa do Mr. Ali, que está traduzindo meu passaporte para o árabe.

Chego às 14h35. Toco o interfone. Mr. Ali não responde. Ligo. Mr. Ali atende e diz algo incompreensível. Entendo apenas que ele já vai chegar.

Ligo para o adido de imprensa da embaixada de Angola.

ADIDO DE IMPRENSA ANGOLANO – O comunicado do centro de imprensa não chegou. Sem ele não posso fazer nada.

Espero meia hora. Ligo de novo. Mr. Ali ainda está a caminho. Só chega às 15h30 e ainda vai traduzir o passaporte.

Nisso, ligo para a embaixada da Líbia. Falo com a funcionária do setor consular, que me passa para o chefe, Mr. XPTO.

Mr. XPTO confirma que recebeu o fax da embaixada da Líbia no Brasil pedindo para me conceder o visto.

Mas...

Mas eu também preciso apresentar, além do passaporte traduzido para o árabe e de um convite do próprio governo líbio, uma carta da embaixada do Brasil na África do Sul confirmando que vou à Líbia em missão oficial.

EU – Desculpe, só para eu entender: a carta da embaixada da Líbia no Brasil não é suficiente?

MR. XPTO – Sim, é, mas também precisamos da carta da embaixada do Brasil aqui. É só uma formalidade...

EU – OK. Não tem problema. Posso deixar o passaporte aí amanhã?

MR. XPTO – Sim. Vai trazer pessoalmente ou via courrier?

EU – Posso pedir para entregarem?

MR. XPTO – Sim, mas precisa preencher o formulário antes.

EU – Vocês ficam abertos até que horas?

MR. XPTO – Até as 16h.

EU – OK, estou indo agora.

MR. XPTO – Não chegue depois das 16h, hein!

EU – Qual o endereço de vocês?

MR. XPTO – diwoeiuj xkkksooiea.

EU – Sorry, could you repeat it?

MR. XPTO – xoosiduelwl ssididie oiuqlw.

EU – Sorry, I didn´t understand.

MR. XPTO – Fale com o Mr. Ali, ele sabe onde fica.

São 15h40. Estou na calçada, em frente ao condomínio do Mr. Ali, que está trancado em casa terminando de traduzir o passaporte.

Ligo para ele. Minha idéia é perguntar onde fica a embaixada. Enquanto ele termina de traduzir, vou lá e volto.

EU – Mr. Ali, preciso buscar o formulário na embaixada da Líbia...

MR. ALI – Sim, sim, sim, já estou terminando, já vou.

E desliga o telefone.

15h45. Ligo de novo para o Mr. Ali.

EU – Mr. Ali, preciso buscar o formulário e...

MR. ALI (que sabe ser persuasivo) – Só um minuto. Um minuto. Um minuto. Já vou.

E desliga.

15h50. Mr. Ali chega com o passaporte e o recibo. Vou pagar, mas ele corre para dentro de casa para atender o telefone.

Volta às 15h52, explica ao motorista onde é a embaixada. Chegamos às 15h56, a tempo de pegar o formulário.

Por que nunca me contaram sobre essas coisas na faculdade?

Amanhã tem mais.

8 comentários:

Afonso Loureiro disse...

Kafka, o teu inferno não foi nada, comparado com a realidade de África (especialmente quando mete Angola pelo meio)!

Anônimo disse...

thats my idea of hell on earth!

F. disse...

É companheiro, a vida desses caras é a burocracia, é disso que eles se alimentam. Das dificuldades que criam para os outros. Por isso nunca vão te ajudar em nada... Agora, depois a atuação do centro de imprensa, você já pode pleitear um cargo de funcionário. Desculpa lá!

Lorena disse...

Vai ver eles não contam sobre esssas coisas na faculdade com receio de evasão do curso. Depois de toda essa experiência qualquer dificuldade com burocracia vai parecer café pequeno. Bem..., tomara, né? As coisas por aí são tão imprevisíveis. Boa sorte e boa viagem, jornalista.

Lara disse...

Isso que eu chamo de Missão (quase) impossível.

Helga disse...

Hhahaahahhaha

Olha que eles tentaram de tudo pra fazer você desistir dessa tal visita ao outro país. Por que as pessoas insistem em querer viajar e fazer eles trabalharem?

Isso é que é canseira. Já passei por umas dessas também. QUer dizer, de vez em quando alguém faz isso só de sacanagem.

Ah, pensei que você não conseguiria chegar lá a tempo! :D Que bom que deu tempo.

Gabriel Borges disse...

ha ha ha passei por algo parecido, mas sem o tradutor!
O nome das ruas são impronunciáveis! e o melhor tem várias que trocam de nomes, logo vc não se acha de forma alguma!

Boa sorte na viagem e se vc gosta de sushi aproveita ai tem boas casas de frutos do mar, não existe restaurante japones!

boa sorte!

Marcelo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=0UrxTNX9tS4