sábado, 24 de janeiro de 2009

PARECE QUE TRAÍRAM O GENERAL REBELDE LAURENT NKUNDA


O general rebelde Laurent Nkunda foi preso na quinta-feira à noite em Ruanda.

Segundo leio nas agências internacionais, a prisão aconteceu “na seqüência de uma ofensiva militar” dos exércitos da República Democrática do Congo (RDC) e de Ruanda contra milícias da etnia hutu que atuam no leste da RDC.

As milícias hutus são as mesmas que fugiram de Ruanda depois do genocídio de 1994 e até hoje aterrorizam moradores da região, em especial os da etnia tutsi, a mesma de Nkunda e do presidente de Ruanda, Paul Kagame.

A história ainda carece de mais detalhes, mas parece que, no meio da confusão, Nkunda e os soldados que o protegiam tiveram de fugir para Ruanda, onde acabaram presos.

A RDC pede a extradição de Nkunda, considerado pelo governo do presidente Joseph Kabila um criminoso de guerra.

Em novembro estive em Goma, capital da província de Kivu Norte.

Nkunda controlava a parte norte da província e seu Congresso Nacional do Povo (CNDP) ficava baseado na cidade de Rutshuru, a 85km de Goma.

Nas estradas, soldados com fusis AK-47 e lança-foguetes.

As tropas de Nkunda estavam com moral alta naquele momento. Duas semanas antes, haviam feito uma ofensiva contra o exército congolês e chegado a cerca de 10km de Goma, cidade ocupada pelas tropas da ONU.

Vi Nkunda de perto, numa manifestação organizada no estádio municipal de Rutshuru. Depois, numa entrevista coletiva, consegui fazer duas perguntas para ele.

Nkunda é alto e magro. Destaca-se em relação aos demais militares do CNDP. Usa uma bengala com uma águia de aço na ponta.

Aos 41 anos, é formado em psicologia e justificava sua luta como a única forma de proteger a população tutsi dos ataques das milícias hutus. Acusava o governo do Congo de corrupção e desrespeito à Constituição.

Nos dois últimos meses, sua influência no CNPD diminuiu e Nkunda passou a ter sua autoridade questionada.

Um grupo de militares, liderado pelo chefe do Estado-Maior do CNPD, Bosco Ntaganda, também segundo leio nas agências internacionais, teria assinado um acordo com o governo congolês e sido integrado ao exército regular – ou algo parecido.

Tudo isso, na verdade, só me levar a crer que Nkunda foi traído pelos antigos companheiros, cansados de manter uma guerra sem qualquer expectativa de vitória.

Kinshasa, a capital da RDC, fica a 2,5 mil quilômetros de Goma. Não há acesso por terra. Imagine quanto tempo essa confusão ia durar.

Ainda é cedo para saber o que houve de fato e faço aqui minhas especulações.

Nkunda foi traído. É possível que as altas patentes que o abandonaram negociaram cargos no governo, eventual reconhecimento do CNPF como força política, áreas ricas em minerais etc.

Laurent Nkunda, aparentemente, não tinha apoio internacional.

Havia acusações de que o governo de Ruanda dava apoio logístico e financeiro ao rebelde Nkunda. Todos os lados sempre negaram tais afirmações.

O fato é que os governos da região precisavam fazer uma opção: ou permitiam a existência de Nkunda, prolongando um conflito que só levaria mais sofrimento a milhares de inocentes, ou iam atrás do general rebelde.

Parece que fizeram uma escolha.
P.S. Obrigado aos leitores do blog que me mandaram e-mails com notícias sobre a prisão de Nkunda.

3 comentários:

GEOGRAFIA NO VESTIBULAR disse...

Parabens pela reportagem...gostaria de manter contatos e gostaria que, se possível, publicasse uma materia sobre a africa em meu blog devidamente postado.
um grande abraço

Katiuska disse...

Parabéns pelo blog. Bastante informativo...

Lorena disse...

Resta saber se a prisão de Nkunda será o bastante para acabar com a violência que atinge a população e, como você disse, com o sofrimento de milhares de inocentes.