Tudo escrito em árabe
Não entendi uma palavra.
Tomara que seja mesmo um visto e não alguma ordem de detenção assim que eu desembarcar no aeroporto em Trípoli.
Achei curioso que, no formulário que preenchi na embaixada, eles perguntam a religião da pessoa.
Fomos orientados a não levar bebidas alcoólicas e nem revistas pornográficas nas malas.
Bom, essa história está resolvida. É o visto na mão.
Agora, o visto perdido.
Mais uma vez, não consegui contato telefônico, mediúnico nem de fumaça com a embaixada de Angola em Pretória.
Os telefones só davam sinal de ocupado. TODOS.
Vou embora sem o visto no passaporte ordinário. Voltarei a Angola com meu passaporte secreto.
Ou talvez não volte. Sabe-se lá o que o norte da África me reserva.
Hoje acordei, de novo, às 6h da manhã. Seis e quinze, para ser mais honesto.
Sempre coloco vários alarmes para me acordar. O primeiro, às 5h50. O segundo, às 5h50. O terceiro, às 6h.
Não tinha como enrolar. Eu precisava confirmar se o passaporte com o visto estava certo. Se não tivesse, eu teria de voltar à embaixada da Líbia.
E o motorista que me levaria a Joanesburgo para mais um dia de trabalho chegaria às 7h.
A estadia em Pretória, por causa da proximidade com as embaixadas, acabou me sacrificando.
Por causa do trânsito, duas horas para chegar a Joanesburgo.
O dia foi bem produtivo, mas não consegui entrevistar o Joel Santana, técnico da seleção sul-africana. Ele deu uma coletiva pela manhã, para falar sobre a próxima partida.
A idéia era uma reportagem sobre a Copa do Mundo do ano que vem. Na segunda-feira faltarão 500 dias para a partida de estréia.
Havíamos acabado de chegar à sede da Associação Sul-Africana de Futebol quando nos informaram que o local da entrevista havia sido transferido. Não dava tempo de chegar. Nem fomos. A história da copa vai ficar para a próxima.
Mas vi o estádio de Soccer City em obras. Vão ampliar a capacidade de 80 mil para 95.700 pessoas.
Esse estádio será um dos 10 que abrigarão os jogos das seleções e foi o primeiro do país estruturado para receber partidas internacionais.
Além disso, o Soccer City faz parte da história do país. Foi lá, em 1990, que Nelson Mandela fez seu primeiro comício depois de ter sido libertado da prisão, após 27 anos atrás das grades.
Pela manhã, também passamos em frente à casa do Mandela. Fica numa rua tranqüila, muros altos e quatro carros de polícia permanentemente estacionados na porta.
É proibido estacionar o carro na rua. É cana certa.
Num dos shoppings da cidade, vi uma estátua gigante do Mandela. Sorriso aberto, simulando um passo de dança, como puderam ver na foto de abertura do post.
Vi o Mandela ao vivo duas vezes. A primeira foi em Brasília, em 1998. Ele estava terminando o mandato de presidente e foi fazer uma visita de estado ao Fernando Henrique Cardoso.
Eu estava na cola dele. Um dia antes da entrevista coletiva que deu no hotel, eu estava na recepção quando a comitiva, liderada pelo próprio Mandela, chegou de um dos compromissos oficiais.
A polícia fechou tudo e impediu o acesso da imprensa. Mas como eu já estava dentro do hotel, acabei ficando ao lado de alguns sul-africanos residentes no Brasil.
Mandela cumprimentou um por um. Quando chegou minha vez, perguntou quem eu era e o que estava fazendo ali.
Eu, em toda minha mulatice, disse que estava ali por causa dele.
Mandela é alto. Mais alto do que eu, que tenho, dependendo do dia, 1,84m e, dependendo de outros dias, 1,85m. Mas tem dias que tenho 1,50m. E alguns poucos em que fico com mais de 2m. Esses são mais raros.
No dia seguinte, na coletiva, a imprensa toda o aguardava numa sala do hotel. Ele chegou com uma camisa estampada com motivos africanos.
Foi a primeira vez que fiquei impressionado com a presença de uma pessoa.
Mandela emanava uma nobreza impressionante.
Quando se sentou na cadeira para começar a entrevista, parecia mesmo um rei africano.
É difícil explicar. Nem sei se conseguirei, mas ele tem uma superioridade. Fiquei com a sensação de que estava diante de uma pessoa que nasceu com uma missão a ser cumprida.
Depois de ficar 27 anos preso, tornou-se presidente da África do Sul e, após cumprir o mandato de quatro anos, decidiu não concorrer mais.
Tivesse tendências tirânicas, estaria até hoje no poder.
É o que vemos na África. Gente há 10, 20, 30 anos no cargo.
A segunda vez que vi Mandela foi em outubro do ano passado, em Maputo.
Ele estava em Moçambique, hospedado na casa da sua esposa, Graça Machel (viúva do ex-presidente moçambicano Samora Machel, morto num acidente aéreo em 1986).
Recebeu a visita do presidente Lula. Depois do encontro reservado, apareceu e posou para algumas fotos.
Com dificuldades para andar, chegou de braços dados com Lula. Na não livre, uma bengala. Usava aparelhos para surdez, mas vinha com o mesmo sorriso contagiante que eu vira na vez anterior, há 11 anos, em Brasília.
Fez piadas com os jornalistas e disse que, naquela idade, 90 anos, ele não deveria mais estar recebendo autoridades, e sim cavando a própria cova.
Deixo encaminhado um pedido para entrevistar Mandela. Tomara que ele aceite.
Amanhã embarco para a Líbia. De carro até Joanesburgo. Depois, um vôo até Acra. De lá, troco de avião e amanheço em Trípoli.
Inshalá.

5 comentários:
"Mandela é alto. Mais alto do que eu, que tenho, dependendo do dia, 1,84m e, dependendo de outros dias, 1,85m. Mas tem dias que tenho 1,50m. E alguns poucos em que fico com mais de 2m. Esses são mais raros."
Caraca! Mto bom!
Dizer mais o quê? Guma, em seu comentário, já disse tudo.
Concordo plenamento, algumas pessoas nasceram para uma missão, para um propósito. Vidas que não brotaram para serem comuns.
Ei, no fim das contas faltou dizer qual a altura do Mandela. :D
Legal ter podido ver e falar com ele. :)
"Foi a primeira vez que fiquei impressionado com a presença de uma semana." Essa não entendi.
"Mandela é alto. Mais alto do que eu, que tenho, dependendo do dia, 1,84m e, dependendo de outros dias, 1,85m. Mas tem dias que tenho 1,50m. E alguns poucos em que fico com mais de 2m. Esses são mais raros."
HUUAHUHAUHAUAHUAHUAHUAHUAUAUAH
Quisera eu ter um senso de humor à sua altura.
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