Abdul Salam é motorista em Casablanca.Ele me foi indicado no penúltimo dia no Marrocos por um dos concièrges do hotel em que me hospedei.
Precisava de um táxi para dar um giro pela cidade e identificar alguns pontos de filmagens para a manhã do dia seguinte.
O concièrge disse que me indicaria alguém de confiança e que falasse inglês. Dez minutos depois chegou Abdul.
O trânsito em Casablanca à noite é pesado, com vários pontos de engarrafamento.
Demos uma volta de aproximadamente uma hora e passamos em frente ao bairro antigo de Habus, à Mesquita Hassan II, à Prefeitura e à Medina.
Pedimos uma indicação de lugar para jantar.
Abdul sugere o Rick´s, restaurante do filme Casablanca.
EU - Mas esse lugar é para turistas. Só foi criado depois do filme.
ABDUL - É verdade.
Abdul nos levou ao La Mer, restaurante à beira-mar.
Só descobri que era à beira-mar depois de meia hora.
Casablanca estava escura, fria, gelada, um iceberg.
Na manhã seguinte, saímos a campo para filmar.
Fomos a um mercado em Habus.
Perguntei se Abdul poderia caminhar conosco para nos mostrar o lugar e servir de intérprete.
ABDUL - Não posso. Não tenho autorização para trabalhar como guia de turismo. Precisaria de um crachá. E há policiais à paisana nas ruas. Não dá para identificá-los.
Fomos sozinhos.
Era cedo e chovia.
A maioria das lojas ainda estava fechada.
Pouca gente nas ruas. Demos a volta no quarteirão fazendo imagens gerais.
Quando voltamos para o carro, Abdul não estava.
Procuro ao redor. Nada. Atravesso a rua para me abrigar da chuva sob uma marquise.
Nisso, um marroquino na faixa dos 50 anos se aproxima.
MARROQUINO – Polícia. Autorização.
Tiro a autorização para filmagem do bolso. Nisso, Abdul chega.
ABDUL – Eu disse ao policial que vocês tinham autorização para filmar e saí do carro para procurá-los.
O policial olha as duas folhas de cópia com a autorização. Uma era o pedido de autorização feito pelo órgão de informação do governo marroquino. A outra era a autorização.
POLICIAL – Onde está o carimbo da administração municipal?
EU – Fomos informados que apenas essa documentação era suficiente para filmar.
O policial e Abdul conversam em árabe.
ABDUL – Ele disse que sem o carimbo da prefeitura vocês não podem filmar.
EU – Podemos ir lá agora?
POLICIAL – Está fechado. Só abre na segunda (era sábado).
EU – D´accord. Merci bien. Au revoir.
POLICIAL – Essas autorizações são apenas cópias. Vou ficar com elas.
E ficou com nossas autorizações de filmagem.
Como já havíamos terminado o trabalho ali, não me preocupei em argumentar mais com o policial. Como tínhamos outras duas cópias da autorização, também não me preocupei em argumentar que precisávamos daquelas cópias.
Quando entramos no carro, Abdul explica.
ABDUL – Logo que vocês saíram do carro, o policial me abordou. Ele estava tomando café naquele bar em frente ao local onde paramos. Viu quando vocês desceram com a filmadora e me perguntou quem vocês eram e o que estavam fazendo ali. Eu disse que eram jornalistas e que tinham autorização. Ele quis ver, aí saí do carro para procurá-los.
Abdul gosta de música. E adora música brasileira.
Na noite anterior, quando soube que éramos brasileiros, ficou indócil e fez várias perguntas sobre os ritmos tupiniquins.
ABDUL – There is a kind of music…
EU – Bossa Nova.
ADBUL (excitadíssimo) – YES, YES, YES, YES. BOSSA NOVA. I know a Brazilian singer. Cesaria Evora.
EU – No, she is from Cape Vert. She is African, but she sings in Portuguese too.
ABDUL – Oh, I see. I know this song in bossa nova: ôô…ô ô ô ôôô…obá, obá, obá.
EU – This is not Bossa Nova. It´s Jorge Ben, a Brazilian singer. It is a kind of samba.
ABDUL – Oh, oh, I see…
Adbul é casado, tem 40 anos e não tem filhos. A mulher dele perdeu o bebê há alguns anos e nunca mais conseguiu engravidar. Ele diz que não se importa pelo fato de ela não lhe ter dado filhos e que ela garante não ter vontade de ter outro bebê.
ABDUL – I think it is not true. She says she doesn´t want a baby, but I know she does.
EU – Será que ela não fica grávida por algum fator psicológico, medo de perder outro bebê.
ABDUL – Yes, I think so.
Enquanto nos leva ao aeroporto, Abdul fala de religião, de como o comércio também invadiu o Islã e as idas a Meca.
Também fala de música e me presenteia com um CD instrumental com música tipicamente marroquina.
Ele não sabe quem são os músicos. Diz que ganhou o CD de um amigo. A gravação foi feita em um estúdio e o CD ganhou as ruas. Não é comercializado, mas passado de mão em mão. Ninguém sabe os nomes dos músicos nem das músicas, mas, segundo Abdul, são 100% marroquinas. No fim do post vocês podem conferir uma delas.
Quando forem a Casablanca, liguem para o Abdul. O telefone dele é o 051 281 378.


8 comentários:
Quando li sobre o Abdul, me lembrei que ontem, o Tom Cruise, em visita ao Rio, disse que adorava o tango brasileiro... Será que ele conhece algum artista de quem ainda não ouvimos falar? :-)
Bjo!
Ainda bem que ficaram as filmagens. Parece que certas autoridades não saberiam ser autoridades sem uma burocracia e sem uma boa dose de controle.
Ah, esqueci. Legal a música, mas a música brasileira sempre fazendo sucesso mundo afora.
A música é boa!
"Como tínhamos outras duas cópias da autorização.." :D adorei! Vocês já previam este tipo de safadeza.
Lorena disse bem. Ainda bem que não confiscaram as filmagens também!
O que o sr. Abdul e esposa pensam sobre adoção?
Onde será que aprenderam a fazer cópias das autorizações? ;)
adorei saber da música ,dele ,do fone ,e fiquei pensando na mulher dele: quem sabe adoção ou um tratamento específico?
Brasileiro é assim ,sempre pensando nos outros também,heheheheheh
ainda bem que não levaram as filmagens : por um momento até pensei,hummmmmmmmmm sosso
Oi! Ter que ter autorização de prefeitura pra filmagens é dose! Já pensou se fosse assim por aqui?
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