quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Aljazeera

Faz tempo que não leio nada que não esteja relacionado à África.

Desde a primeira sinalização de que viríamos para Angola, comecei a ler tudo o que conseguia sobre o continente.

Literatura, história, política, economia.

Não dá para entender o presente sem conhecer o passado.

Só que é coisa demais para recuperar.

E, nos meus tempos de colégio, nada se estudava sobre África.

Simplesmente não aprendi coisa alguma.

Provavelmente por falha minha.

E na imprensa brasileira, pouco ou nada se vê ou se lê que não esteja relacionada a estereótipos ou reproduções de agências internacionais.

Desde abril do ano passado, já estive em 11 países africanos.

Procuro ler o que posso sobre cada um deles antes de cada viagem.

A formação histórica, aspectos religiosos, a economia, a política, a literatura. Tento comprar pelo menos um CD em cada país.

Leio o sítio da CIA, os relatórios de inteligência da The Economist.

Mas é sempre muito pouco.

Estou sempre atrasado, chegando depois.

Também tento, em cada país, trazer algo da literatura e da história. Nem sempre consigo.

Tenho assistido muito à CNN.

E mais ainda à Aljazeera.

O canal árabe está arrebentando.

Tem muito dinheiro e, com isso, consegue fazer uma televisão de altíssima qualidade, com correspondentes no mundo todo.

Estão, claro, no Oriente Médio, nas principais capitais americanas, Canadá, América Central, do Sul, Ásia, Europa e África.

Muita notícia da África.

O show de tecnologia é outra coisa fascinante.

A programação é, cada vez mais, ao vivo.

O âncora no estúdio chama um correspondente em Washington, depois pula para Beijing, vai para Gaza, de lá para Londres, desce para a Itália, Darfur e por aí vai.

Imagino a fortuna que custa uma operação dessas.

As abordagens também são interessantíssimas.

Reportagens que não assistiremos em nenhum outro canal.

Antes do último bombardeio israelense na Faixa de Gaza, por exemplo, o repórter que cobre a região entrou ao vivo em frente a um caixa eletrônico.

A história era a seguinte: segundo a reportagem, Israel não permitia, havia semanas, que nenhum carro-forte entrasse na Faixa de Gaza para abastecer os caixas automáticos. As pessoas não conseguiam sacar dinheiro havia mais de mês. Não tinham dinheiro para comprar comida, pagar as despesas, nada.

O repórter tenta fazer um saque e não consegue. Mostra, ao vivo, a mensagem de falta de dinheiro exibida pela tela do terminal.

Uma história sensacional.

Outro dia vi uma reportagem sobre a luta dos muçulmanos na Itália para construírem uma mesquita no país e a resistência de católicos radicais.

Ontem assisti a outra história sobre uma garota muçulmana de 12 anos que lidera um movimento num dos países muçulmanos do norte da África (não me lembro qual agora) contra a mutilação sexual feminina, aquela operação para retirada do clitóris.

Outra matéria foi sobre mulheres presas na Jordânia apenas pelo fato de terem sido flagradas namorando escondidas. São mantidas em presídios, sem julgamento, e só conseguem sair se a família arranjar um marido. Elas casam na cadeia e são entregues sob a custódia do novo marido.

Um canal árabe mostrando o mundo árabe.

P.S. Como bem me lembra a Mariana, faltou dizer que dá para assistir a Aljazeera na net. Clique aqui.

3 comentários:

Helga disse...

Bacana. Será que a católica globosat colocaria este canal entre os da tv a cabo? terrível não ter as infos em 1a mão quando se quer.
Inclusive o que mais gostei no dia 11/09/01 foi poder assistir em primeira mão infos diretamente da CNN, se é que me entende.
Ver os próprios personagens do conflito falando sobre é realmetne uma abordagem muito mais particular e interessante.

É como o que ouvi de uma correspondente brazuca na Argentina: é o olhar brasileiro sobre a Argentina, e isso também é bem interessante. Como o trabalho que você tem feito aí (e muito bem, com toda essa pesquisa preparatória aí).

Lorena disse...

Não é brincadeira não. Ainda existem muitas mulheres sofrendo por esse mundo afora. Em algumas culturas o atraso, o retrocesso impera, domina, e assim vão perpetuando esses costumes eternamente. A rede de TV Aljazeera está em diversos países e continentes mas parece que não aprendem ou avançam em nada.
De resto, creio que essa experiência - morar fora, viajar, conhecer histórias e culturas diferentes - é impagável. Descobrir um mundo que é bem maior do que poderíamos supor, não tem preço. Já passei por isso e, apesar de ter passado por alguns momentos duros de aturar, faria tudo de novo.

Mari Ceratti disse...

Companheiro, faltou só dizer que o site da emissora é sensacional e que há vários programas (ou trechos de programas) no Youtube para quem quer assistir, mas não assina esse canal a cabo.