Sim, os olhos e ouvidos do Estado existem.Mas não apenas vêem e escutam.
Também têm uma face.
Tive a oportunidade de conhecer dois deles na viagem ao Norte da África.
Na Líbia e na Tunísia, a bem dizer.
Países em que a liberdade de imprensa ainda precisa avançar.
Na Líbia, nosso guia foi Seif El-Slam.
Menos de 30 anos, me procurou no saguão do hotel onde eu estava.
Falava um inglês rudimentar e, num primeiro momento, entendi que ele era jornalista líbio e havia me confundido com alguém da organização do seminário empresarial que eu cobria.
Depois, ele me passou o telefone. Do outro lado da linha, alguém que falava inglês disse que Seif era do governo e facilitaria nosso trabalho nas ruas de Trípoli.
E colocou um carro à nossa disposição para filmarmos e entrevistarmos quem quiséssemos nas ruas da capital líbia.Seif ficou na nossa cola o tempo todo.
Mas ajudou em tudo.
Como falava e entendia muito pouco de inglês, nossas conversas mantinham aquele tom rudimentar de homens da idade da pedra.
EU – Seif. Film here. Police. OK?
SEIF – OK. No problem.
E filmávamos sem que a polícia nos incomodasse.
EU – Seif, film the museum.SEIF – Museum? Now? Go.
EU – No. Not go. Film.
SEIF – Go. OK.
E Seif nos abandonava na rua e ia em direção ao museu.
Nossa comunicação era complicada.
Seif volta minutos depois.
SEIF – Museum close. Open 7. Close 1.
E ficamos nessa o dia e meio que Seif nos ciceroneou.
Caminhamos pelo mercado Al Muchir, com Seif na nossa cola.Fomos ao arco romano. Seif à tiracolo.
No dia de ir embora, tínhamos almoço com a comitiva brasileira num restaurante no centro histórico de Trípoli.
Tentei me despedir de Seif.
EU – Seif. Thank you. We will stay here. We will have lunch with the Brazilian delegation. After that, we are going to the airport.
SEIF – Airport. Now?
EU – No, later. You can go. We finished here. We will have lunch and go to the airport in the Brazilian bus. Thank you very much. Bye, my friend.
SEIF – OK. Bus? Airport. Now.
EU – No. We are not going now. We will have lunch.
SEIF – Yes. Ok. Lunch. Stay.
E ficou. Seif almoçou conosco. Ficou alheio o tempo todo na mesa em que se falava apenas português.
Alguém da comitiva disse:ALGUÉM DA COMITIVA – Vocês é que acham que ele não fala inglês.
Aí começam as teorias da conspiração.
O governo líbio teria colocado um agente para acompanhar os jornalistas que, de fato, domina o inglês, mas finge ter conhecimentos apenas rudimentares do idioma.
Seif seria um artista, pois várias vezes ligou para alguém em árabe e depois colocou o sujeito para falar comigo em inglês, para que eu explicasse o que gostaríamos de fazer. Aí eu retornava o telefone para o Seif, que nos levava onde queríamos.
Acho que ele não sabia mesmo inglês.
Ou era um grande artista e não saberia falar apenas inglês, mas seriam também fluente em português.
Durante o almoço, um grupo de brasileiros da comitiva entra no restaurante fazendo algazarra, com aqueles típicos chapéus árabes.Seif acha engraçado.
SEIF – Hahahaha. Saudi. Not Libya. Saudi.
Pelo que entendi, Seif diz que os chapéus não são típicos da Líbia, mas usados pelos sauditas.
Depois do almoço, Seif continua a nos acompanhar. Entramos no ônibus brasileiro. Seif não aparece.
Mas quando desembarcamos no aeroporto, já está lá, sorridente, a nossa espera.
Pega os passaportes dos jornalistas, nos separa da comitiva e ficamos andando de um lado para o outro no aeroporto.
Na prática, acabamos tendo um tratamento VIP na terra do coronel Qadhafi. Não pegamos fila, tivemos nossos passaportes carimbados.
Pago um café e um doce líbio para o Seif.
Digo que gostaria de comprar um CD de música líbia. Ele me leva a duas lojas no aeroporto, mas não havia um único disco com música local.
EU – Seif, where can I get some Libyan music?
SEIF – Internet.
EU – What is the name of the singer?
SEIF – Google.
EU – No, the name of the singer. Singer.
SEIF – Yes, google. Libyan music. Google.
EU – OK.
Seif nos acompanha até o finger do avião.
Na Tunísia (abaixo), também temos dificuldades para filmar.
Antes de ir às ruas, precisamos passar num órgão do governo para obter a autorização de filmagem.Chegamos ao prédio. Me identifico. Pedem para aguardar.
Aparece Mr. Akaichi.
Pergunto se ele virá conosco no carro.
MR. AKAICHI (num inglês perfeito) – No. Everything is close here. We can walk. Here we have the main avenue.
De fato, é um dos principais pontos turísticos de Túnis. Arquitetura francesa, roupas totalmente ocidentalizadas.
Um policial aparece. Mr. Akaichi entrega uma autorização e o policial se afasta. Somos orientados a não filmar determinado prédio do governo.
Pergunto se posso entrevistar pessoas na rua.
MR. AKAICHI – No. You need a different authorization. This one is only for filming.
Ok. Apenas filmamos.
Puxo conversa com Mr. Akaichi. Digo que gostaria de comprar um CD de música tunisiana tradicional.
Ele me leva a uma loja numa rua transversal e escolhe o CD de Hedi Jouni (uma das músicas está disponível seis posts abaixo).
O equivalente a US$ 2. Não tenho dinheiro. Ele compra. Faço câmbio e devolvo.
Caminhamos. Ele pede um cigarro ao fotógrafo que nos acompanha.
Seguimos pela avenida até um monumento histórico.
Mr. Akaichi pede que eu aguarde.MR. AKAICHI – I haven´t had lunch. I will buy a sandwich. Wait here. Five minutes.
Nesse meio tempo, nessa praça aí abaixo, sou abordado por três turistas, atraídos pela câmera e por eu estar com o microfone da TV. Um negro com cabelo rastafári, um calvo com brinco na orelha e outro com chapéu arabe.
Falam em francês e perguntam de onde sou e o que faço ali. Explico.O rastafári me entrega, disfarçadamente, um folheto em inglês e em árabe.
Dizem que é perigoso me passar aquele papel na Tunísia, pois envolve religião e eles poderiam ser presos.
Coloco o papel no bolso. Depois, leio que é mesmo sobre alguma religião que envolve a presença de seres extra-terrestres e discos voadores no planeta.
É mesmo estranho.
Imagino a situação em que sou preso num país árabe sob a acusação de tentar introduzir na Tunísia uma seita extra-terrestre.
Mr. Akaichi retorna mastigando um sanduíche.
Fazemos o caminho de volta.
Oferece um cigarro ao fotógrafo.
MR. AKAICHI – Tunisian.
Mr. Akaichi pergunta se pretendo filmar algo mais.
MR. AKAICHI – I am here just for you.
Entendo que ele, como funcionário público, já deve ter passado a hora de deixar o trabalho e quer ir embora.
EU: No, no. We just need the stand up and we will leave.
Gravo a passagem. Mr. Akaichi faz a gentileza de segurar minha mochila.
MR. AKAICHI – That´s it?
EU – YES.
Assim funciona o controle de alguns estados árabes sobre a mídia.
Mr. Akaichi se despede e vai embora, nos deixa ali sozinhos para pegar um táxi que nos levará ao aeroporto.
Por um momento penso se poderia arriscar e entrevistar alguém na rua.
Desisto.
Não teria como negar o envolvimento com extra-terrestres.

7 comentários:
EU – What is the name of the singer?
SEIF – Google.
Estou rindo sozinha só com esse trecho!
E o que são essas líbias de chador fazendo pose no meio da rua? Adoooooro.
Jisuis!! Adorei este post! Um dos mais engraçados, principalmente pelas situações/diálogos. Além do já mencionado pela Mari acima, tem também as partes que destaco:
"Fomos ao arco romano. Seif à tiracolo."
"Imagino a situação em que sou preso num país árabe sob a acusação de tentar introduzir na Tunísia uma seita extra-terrestre."
Esta última digna de Luís Fernando Veríssimo ao meu ver. :P
Eu QUASE pedi pra servir na Tunisia... a chefe é muito gente boa... mas estado-vigiado assim é demais pra minha cabeça :)
Mesmo assim, estou doido pra conhecer depois de ver as fotos :)
Esse guia líbio possui um nome muito parecido com o do filho do presidente da Líbia.
Vc devia escrever um livro com as suas "aventuras" pela África!
Já tem uma leitora!
Lembrei do filme "A Vida dos Outros". Vai ver que esse negócio de Seif ficar falando "Google, Google" já era por receio de acabar numa loja escolhendo músicas e estender o horário de trabalho. Ele deve ter percebido a perda de tempo ou que, em matéria de conspirações internacionais, esses brasileiros não sabem nada.
Hahaha... Envolvimento com extra-terrestres ou talvez seja vc um deles... Eu já desconfiava...rs Alto, com aquele cabelo grande... Trocando confidências com o Edu (que tb pode ser um de vcs)no fundo da sala... Abraços e que venham mais aventuras pra compartilhar com a gente.
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