Foi agora.
Muita gente não acredita quando comento sobre o alto custo de vida em Luanda. Vários não acreditam que Luanda é a capital mais cara do mundo para expatriados. Mais cara que Nova York, Londres, Paris, Estocolmo, Moscou, Genebra.
Não acreditem em mim. Pesquisem. Ou venham passar uma temporada em Luanda.
Outros tantos não acreditam quando digo que o aluguel aqui de casa é de US$ 7,5 mil mensais. E que em Angola os aluguéis são pagos um ano adiantados.
Uma casa simples. Com vazamentos. Vários. Secretos.
No térreo, garagem (com um gerador por causa da constante falta de energia), sala grande, cozinha, um lavabo clandestino feito embaixo da escada, quintal com banheiro e uma pequena lavanderia.
No andar de cima, um banheiro e dois quartos, sendo uma suíte feita sem muito critério que, desconfiamos, seja a origem de todos os vazamentos da casa.
Não são apenas os aluguéis que custam caro. Tudo é caríssimo.
Um quilo de tomate pode sair por US$ 20. Uma bandeja de uvas pode custar US$ 30 o quilo. Um bife com fritas pode custar, facilmente, US$ 50. Um cano furado pode sair por US$ 1.000,00.
Tapar um pequeno furo na tubulação de ar-condicionado do carro e colocar o gás para enfrentarmos o calor luandense custa US$ 200.
Precisa de eletricista? Ele não vai sair da sua casa sem ter tirado pelo menos US$ 100 de você. Mesmo que só tenha trocado uma lâmpada.
Por que é tudo tão caro?
A explicação é simples.
O atabalhoado processo de independência e a guerra acabaram com tudo. Primeiro, a independência. Em 1975, pelo menos 300 mil portugueses abandonaram Angola. Médicos, dentistas, advogados, empresários, encanadores, mecânicos, burocratas, professores.
Imagine uma profissão qualquer e todos os profissionais terão ido embora.
Em questão de meses, Angola ficou sem quadros. Não havia quem soubesse gerenciar as finanças do país. Não havia quem soubesse pilotar uma turbina de geração de energia.
Depois, a guerra. O esforço de guerra sugou o dinheiro que deveria ser investido na saúde, na educação, na infra-estrutura do país.
Agora, multiplique essa situação por 27 anos.
O resultado chama-se Luanda.
O país não tem indústrias. Tudo é importado. Vem de navio. No porto, não há espaço. Os navios ficam dois, três meses atracados em alto-mar, aguardando autorização para descarregar.
Só agora é que a agricultura começa a dar os primeiros passos. Mas só nas áreas em que não há minas terrestres. O último número que ouvi era de que mais da metade das terras cultiváveis do país estava cheia de minas. Enquanto o terreno não estiver limpo, nada feito. Portanto, até comida precisa ser importada.
Com a alta no preço do petróleo nos últimos anos, os fretes subiram e, por tabela, o de todos os produtos. Chegou-se a uma situação tal que mesmo os itens produzidos em Angola podiam custar mais que os importados.
Por quê?
Os economistas que me corrijam, mas parece ter algo a ver com a tal lei da oferta e da procura. Quem quer agora tem de pagar mais.
Torça para o seu carro não dar defeito. Encontrar um mecânico de confiança é uma dureza. Um mecânico de confiança que entenda de mecânica, mais difícil ainda.
Se for algo mais sério e o carro tiver de ficar na oficina, prepare um plano logístico. Em Luanda, como todos sabem, não há táxi.
Acenda uma vela. Use aquelas fotos comprometedoras que você tem escondidas em casa para chantagear alguém com algum poder.
Ou você tem um carro reserva, ou amigos ou muito dinheiro para alugar um carro.
Se houver algum disponível nas locadoras. Nem sempre há. E raramente fazem reserva. Já tentei. O rapaz me disse, uma vez, por telefone:
RAPAZ DA LOCADORA - O senhor tem de ligar todos os dias.
EU – Mas não tem uma previsão, não posso fazer uma reserva?
RAPAZ DA LOCADORA – Não. Às vezes o cliente resolve ficar mais tempo com o carro. Tem mesmo de ligar.
Amanhã vou pegar o carro na oficina. Por sorte, a oficina é aqui perto de casa. Dá para ir a pé. E hoje não precisei fazer nada que exigisse carro. Trocaram duas peças: uma no freio, que fazia barulho. E o rolamento de uma das rodas. US$ 580.
E depois tem o fator estrangeiro.
Sou estrangeiro e branco. Logo, sou rico.
É branco, é rico.
Faz sentido que se pense assim. Em geral, os brancos aqui são os que têm dinheiro.
Nossa casa de US$ 7,5 mil é uma pechincha. Já não se encontra nada parecido para alugar pelo mesmo preço. Não por menos de US$ 10 mil.
Em Luanda Sul, novo bairro a 20km do centro de Luanda, em construção pela Odebrecht, há vários prédios prestes a serem inaugurados. Apartamentos de um, dois, três, quatro quartos. Os aluguéis começam em US$ 10 mil.
Quem mora nesses lugares são funcionários de multinacionais que vêm para Angola num pacote. Depende, claro, do nível dentro da empresa.
Mas, em geral, já chegam com o aluguel, carro (às vezes com motorista) e colégio para os filhos. Não sei o valor exato das mensalidades, mas as escolas internacionais custam entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por mês. E paga-se uma determinada – e elevada – quantia no ato da matrícula. Uma espécie de jóia.
Algumas empresas estão começando a mudar o perfil dos funcionários que trazem para cá. A preferência agora é por solteiros ou casais sem filhos.
Com a crise internacional e a queda no preço do petróleo, não se sabe ao certo como a economia angolana será afetada.
Pode ser que o governo diminua o ritmo das obras, o que terá um impacto forte num país que precisa criar emprego e aumentar a renda da população.
Em janeiro do ano que vem Angola sediará a Copa Africana. Há estádios e hotéis em construção em todo o país. A construção civil continuará, portanto, como um dos indutores do crescimento econômico. Mas vamos ver até onde o governo terá fôlego para manter o ritmo das obras.
Em Angola, é assim.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
16 minutos atrás

12 comentários:
é mesmo
Nossa, tô achando muito interessante essas informações, até porque eu não sabia NADA sobre Angola!
Prezado Diário da África,
Fico feliz que minha sugestão de um post só sobre os preços tenha sida acatada.
Uma sugestão que dei no post anterior mas que na verdade representa o interesse de muitos leitores do seu blog e quicá vc já estivesse a pensar em postar.
É difícil arrumar palavras para expressar minha perplexidade com os preços altíssimos.
Duas observações apenas:
1) Se vc mora em Londres, em Tóquio ou Estocolmo, pelo menos vc tem a certeza de que o cano será consertado; além disso, essas cidades são boas para viver e trazem alguma compensação para os altos preços;
2) Agora a licão mais importante que tomo: JAMAIS irei morar numa cidade estrangeira sem conhecer os detalhes cotidianos. Não quero apostar na coragem e na aventura e depois dar com os burros n´água.Vou fazer uma campanha: "quero um blog como Diário da África para cada país do mundo!!"
Caros,
Sugiro que leiam os primeiros posts do blog, de julho do ano passado.
Ali tem minhas impressões iniciais de Luanda, o choque da chegada.
Obrigado pelas visitas.
sim, Diário da África, eu já li tudo aquilo...
"...venham passar uma temporada em Luanda."
Não, obrigada.
Bom, pelo visto comida, estradas, coisas em geral não haverão, mas prédios.. ah os prédios da Odebrecht, estes haverão. E souveniers chineses, claro.
Aluguel em Luanda: uma casa de 3 quartos (1 suíte, os outros dois minúsculos) em um dos piores condomínios de Luanda Sul (por incrível que pareça, nem o gerador funciona direito) por 23 mil dólares mensais, 1 ano pago adiantado. Ok, não sei se o nome da empresa que alugou contribuiu para aumentarem o preço, mas, de qualquer forma, totalmente irreal.
Diário da África
muito obrigado pelas informações aqui postadas. Sou angolano, e realmente tenho que concordar com a situação dos preços, onde a gente paga pelo preço de ouro para obter serviços de porcaria. É claro que tudo tende a mudar, mas vai levar muito tempo para tal.
Discordo da ideia de não haver transporte público em luanda, nomeadamente táxis. Porque há aquilo que chamamos de "táxis", que são transportes colectivos privados, ideia essa que tristemente foi copiada da vizinha Rep. do Congo Democrático.
Tal como disse, 27 anos de instabilidade trazem essas feridas que temos hoje.
Mas com o tempo isso muda. Se não tivessemos em guerra e instabilidade política seriamos certamente a nação mais poderosa de África. Abraços
Eu estou indo trabalhar para Luanda este ano e fiquei bastante assustada com essa informação ... Afinal 3000Usd não é um bom ordenado ....
Olá!
Recebi uma proposta para trabalhar em Angola e gostaria de saber qual seria um ordenado (salário) bom para se viver em Angola?
Agradeço a atenção!
Forte abraço
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