domingo, 1 de março de 2009

PORTAIS DIMENSIONAIS E PENSAMENTOS IMPERFEITOS

Há pouco mais de uma semana assisti a "Into the Wild".

Achei o filme perturbador.

Muita gente diz que a história despertou a vontade de fazer o mesmo que Christopher McCandless.

Bom, talvez não o mesmo, pois o sujeito abandonou tudo para alcançar o Alaska.

Agora, alguns dias depois, imagino se a fuga (?) para o norte não era uma busca desesperada de reencontro.

Estava olhando algumas fotos no computador para postar e encontrei essa aí de cima, tirada numa estrada no norte da Namíbia, perto do deserto, perto do nada.

Estradas assim em geral me provocam uma compulsão.

É uma janela que se abre, um daqueles portais dimensionais que vemos nos filmes de ficção.

Abrem-se e fecham-se de tempos em tempos.

Se você está no lugar certo, na hora certa, tem a oportunidade de cruzar a fronteira.

Bom, cruzei a fronteira de Angola com a Namíbia a pé. Duas vezes. Posso dizer que é, de fato, uma experiência, digamos, dimensional.

Há uma cerca de arame. Um passo depois você está em outra dimensão. Tanto daqui para lá quanto vice-versa.

São duas dimensões, dois mundos que ocupam o mesmo deserto, separados por uma cerca de arame.

Em janeiro completei nove meses de Angola. Não corridos, pois viajei bastante.

As pessoas com quem converso dizem que, a cada retorno, a vontade de ir embora chega cada vez mais cedo.

Todos parecem sofrer tanto aqui.

As únicas pessoas que vejo elogiarem o país são os funcionários das multinacionais, em geral petroleiras e empreiteiras.

Vivem em casas administradas pelas empresas. Não se preocupam com a falta de água, de energia, gás, vazamentos, motoristas, a dificuldade de estacionar o carro na rua, chegar em casa e ter um carro estacionado na porta da garagem, ser seguido por meia dúzia de pessoas até o carro toda vez que vai ao supermercado.

A empresa toma conta de tudo.

Esses, em geral, adoram Luanda.

O que me remete, mais uma vez, ao portal dimensional.

Essas pessoas estão e, ao mesmo tempo, não estão em Luanda.

Coabitam a mesma dimensão em que eu vivo. Posso vê-los nos supermercados. Estão lá. Percorrem os corredores, enchem os carrinhos com produtos importados.

Reproduzem em Luanda o estilo de vida que sempre tiveram.

Poderiam estar em qualquer lugar do mundo.

As multinacionais os mantêm numa bolha, numa Luanda que não existe.

10 comentários:

RMM disse...

É pena este desgosto. Sinto também, ás vezes, com o Brasil uma imensa tristeza e frustração. Tão duro o dia a dia, impostos tão altos, tanta conta ... tv a cabo que começa te cobrando 90 e estabiliza em $400 reais/mes, luz, telefone e água somando $1000 reais/mes numa casa de tres pessoas... Uma vida tão cara de pagar e tão insegura. Tanto medo de andar na rua com vidro abaixado, de parar nos sinais, tanta gente assaltada.

Numa pequena cidade do sul de Santa Catarina minha mãe foi ferida,surrada e roubada quando ía à farmacia - o delinquente levou o dinheiro da compra do mes e não foi preso - ela levou semanas pra se recuperar e perdeu a coragem de andar na rua. Meu cunhado foi assaltado em casa, aqui em Florianópolis, e rezando pra que não lesassem sua retina recém operada, foi amordaçado, ameaçado, torturado por dois guris que nunca foram presos. E ninguem com coragem pra dizer que os bandidos precisam ser presos, que precisamos construir cadeias, que não merecemos viver tão inseguros. Ninguem com coragem pra dizer que não manter presos pedófilos assassinos reincidentes e latrocidas reincidentes é condenar a morte um porção de gente que eles vão matar.
Desculpe o desabafo, mas isto também é o Brasil de hoje, é o que agente encontra quando volta.
Grande abraço

sonia disse...

Olá,creio que sou mais as suas observações que me deixam mais na realidade ,embora vc sofra com isso,desculpe-me.....
Graças a seu blog ,cheguei até outras coisas impensáveis em saber para mim.......e que gostei muito de saber..Portanto estou mandando uma força daqui do Brasil,pois graças ao sei blog eu abri uma porta maior para a áfrica.......
um abraço da tiazona sonia

Helga disse...

Só digo uma coisa: Onde quer que você for leve um notebook com internet e uma máq. fotográfica junto.

;)

Menina de Angola disse...

hummm, não trabalho em mutinacional, muito menos numa petrolifera, nao tenho problemas com a casa, água ou luz. Mas dirijo meu carro nesse transito louco, não fico presa dentro das bolhas de Talatona e estou sempre perdida em algum buraco da cidade. Mas quer saber, não sinto ainda vontade de ir embora. Há tanta coisa para ver, tantos lugares e pessoas para conhecer...

Acho que as pessoas que mais reclamam são as que só sabem trabalhar e encher a cara aos finais de semana...

O pessoal vem para a àfrica e acha que vai ter o mesmo estilo de vida de SP ou RJ, em vez de aproveitar as coisas boas desse país tão rico...

Aliás como anda a Nely?!

bj

Saudosa Maloca disse...

Concdordo com o que vc disse. É assim mesmo!!!
Hipocrisia de quem fala que no Brasil são os mesmos problemas... pelo menos lá, no quesito criminalidade, sou apenas mais uma nos 200 milhões de habitantes. Aqui sou uma no meio porcento de brancos que sobrevivem em meio ao período de reconstrução da nação...

zé maia disse...

Pois, eu tenho um monte a elogiar de Luanda. São ão sei direito que coisas são essas. É o tipo de amor que se sente por avós raivosas, antiquadas e fedorentas. Quer dizer, você pode ignorar essa vó ou pode comer da comida dela e até se hospedar com ela algumas vezes... Sei lá, viu? Vejo desses brasileiros o tempo todo, mas é tudo o que tento ignorar por aqui. Outra coisa que tento ignorar sou eu mesmo, com essa mania tão comum de achar que estou morando "na África". Pois, estamos "em África" e isso torna tudo muito diferente, né? O que não dá mesmo é pra deixar de viver, se isolar nessas esferas idiotas que nos prendem a passados recentes e achar que ainda somos os mesmos. Somos branquelos, os novos, os bons, os maus, os novos PULAS. Viemos, não pra ficar, mas pra algo que fica e que vai com agente depois. Somos fundamentalmente distintos, taxar isso como bom ou ruim é o problema, porque entender o que se passa não é coisa pra executivo, diplomata ou jornalista nenhum. Talvez com um puco de tifo, kuduro, saudade e resistência cheguemos perto disso. Taí, a mudança abrupta que um lugar pode proporcionar pra quem vive de verdade por aqui talvez mereça um elogio inequívoco...

Renan disse...

O filme Na natureza selvagem é fantástico. O filme, o seu blog, da essa sensação que temos que sair, correr para a vida...
Agora bolha, ou universo paralelo, outra realidade, existe em todos os lugares onde existem desigualdades...
Obrigado por me mostrar o continente africano.
abraço

Helga disse...

Zé Maia,

Este teu sentimento não é muito justo, faz você se sentir um apátrida. E isso me lembrou um texto adaptado do Exupéry (que seria referente à parte da raposa):
"Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, pois cada pessoa é única, e nenhuma substitui outra. Cada um que passa em nossa vida passa sozinho, mas não vai só, nem nos deixa sós. Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesmo. Há os que levam muito; mas não há os que não levam nada. Há os que deixam muito; mas não há os que não deixam nada. Esta é a maior responsabilidade de nossa vida e a prova evidente que nada é ao acaso.
(Antoine De Saint-Exupery)

Ou seja, sua passagem pelo país causa um impacto (provavelmente positivo) na vida das pessoas. Você contribui, mesmo que pelo exemplo em silêncio.

Afonso Loureiro disse...

Saindo das cidades, para os matos sem fim e horizontes infinitos, entramos numa dimensão nova, que desaparece imediatamente a seguir a termos avistado o primeiro aviso de minas...

Anônimo disse...

Os funcionários das multinacionais gostam da quantia enorme de dinheiro que ganham em Luanda, só isso. Eu trabalho para uma multinacional sediada aqui no Rio e com atividades em Angola e, com frequência, passo temporadas aí. Mesmo com a empresa pagando tudo e alugando casas em condomínios razoáveis, as dificuldades são muitas e a vontade de sair de Angola realmente aparece mais cedo a cada temporada em Luanda. Até hoje eu me lembro da sensação maravilhosa que foi avistar o Pão de Açúcar quando do retorno ao Rio após meu primeiro mês em Luanda.