A enquete aí ao lado com a pergunta "O papa é pop?" encerrou com 80% de "não, o papa não é pop.Pois digo-vos. Depois de ver o que vi em Angola, não há dúvidas de que o papa é mesmo pop.
Claro que há todo o simbolismo da Igreja, o marketing e um super-herói chamado Jesus Cristo moldado pela Bíblia, livros e filmes a arrastar multidões.
Esqueçam a questão religiosa. Se Jesus não tivesse existido, mas idealizado por Hollywood, ainda assim seria, provavelmente, um dos personagens mais incríveis da história.
Na Esplanada da Cimangola, um enorme terreno do tamanho de vários campos de futebol na periferia de Luanda, a 14km do centro da capital, para onde as autoridades dizem ter atraído mais de um milhão de pessoas, foi possível testemunhar a força da Igreja Católica.
Uma boa parte do povo, claro, não estava ali pela religião, mas pelo papa, pelo espetáculo que é a chegada de um papa, um ser quase etéreo que as pessoas passam a vida a ouvir falar, a ver na televisão e, de repente, têm uma oportunidade de confirmar que ele realmente existe.Imagine a situação (quem já viu um papa de perto sabe como é): centenas de milhares de pessoas passam meses recebendo a informação de que o papa vai chegar. Jornais, rádio, televisão bombardeiam diariamente as pessoas com notícias da visita.
Os padres das menores paróquias das mais miseráveis e distantes províncias começam a mobilizar o rebanho. Quem vai fazer parte do coro? Quem vai entregar a flor ao Santo Padre? Qual a vítima de mina terrestre mais representativa daquela região terá a honra de ficar no altar ao lado do papa, dele receber uma mensagem de fé e de esperança?
Como chegar a Luanda? Candongas? Ônibus fretados? Onde ficarão todos? Os colégios católicos suspendem as aulas e as salas são transformadas em dormitórios. Grupos jovens passam os dias a ensaiar os cânticos, ao som de violões e pandeiros.
De fato, um clima especial, quase mágico toma conta do país.
Chegam camisetas, bonés, bottons. Numa conferência de imprensa, os bispos explicam aos jornalistas os termos corretos, como devem se referir às autoridades da Igreja. Pedem que divulguem que o termo não é Santo Papa, como as pessoas estão a dizer nas ruas. É Santo Padre. Não, não há necessidade de pagar nem de levar documentos para assistir aos eventos ao ar livre com o papa. Os aproveitadores da fé alheia campeiam em Luanda.Chega o dia. Feriado em Angola. Governo e Igreja organizam a presença de milhares de fiéis com camisetas brancas com a foto do papa e a expressão “Abenço a Nossa Terra” ao longo do trajeto a ser percorrido pelo papamóvel.
De repente o homem chega.
No aeroporto, critica a corrupção ao lado do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 30 anos no poder. Fala dos milhares de angolanos que vivem abaixo da linha da pobreza e não têm seus direitos respeitados, solidariza-se com os mortos nas enchentes no sul de Angola, fala da guerra, condena o aborto, as seitas religiosas que infestam o país. São mais de 900 em Angola.
Pais sem informação responsabilizam os filhos pelos males da família e os acusam de feiticeiros. Entregam os filhos às seitas para que os espíritos malignos saiam de seus pequenos corpos. Mantidos em cárcere privado por meses, anos, sofrem violência física e abusos sexuais. Muitos chegam a morrer. Vez por outra, os jornais relatam que a polícia libertou uma dezena de jovens de uma dessas seitas. A última no fim do ano passado, quando 70 adolescentes foram encontrados acorrentados numa dessas igrejas no bairro de Sambizanga, um dos mais pobres e violentos de Luanda.
O papa critica a violência doméstica. As mulheres angolanas, assim como outras mundo afora, são vítimas dos companheiros, sofrem abusos sexuais e violência física em casa.
O papa critica a violência doméstica. As mulheres angolanas, assim como outras mundo afora, são vítimas dos companheiros, sofrem abusos sexuais e violência física em casa.
O presidente José Eduardo dos Santos ouve tudo. Critica a corrupção, reconhece os problemas de Angola, que mais de 50% da população não têm habitação digna, mais de 60% não têm água e esgoto. Pede a ajuda do papa para guiar corações e mentes da juventude angolana.O papa veio para isso. Ninguém deve se surpreender com os discursos do papa. Tudo estava negociado. Um sabia o que o outro ia dizer. Quando flagradas, as elites ou se enfurecem ou se comportam como garotos que se permitem um puxão de orelhas seguido de um carinho na cabeça.
O papa finalmente sai do aeroporto. Ele vem no papamóvel branco, imaculado, acenando para a multidão, com seu sorriso papal. Em questão de marketing, a Igreja é imbatível.
Isso entra na cabeça das pessoas de uma forma inimaginável. É quase um mantra. Ou melhor, é um mantra. Estou com a musiquinha na cabeça até agora. Milhares de pessoas cantando “Papa, amigo, Angola está contigo”. Repita a frase. Admita: não é irresistível?
Uma tragédia marcou a passagem do papa por Angola. No Estádio dos Coqueiros, onde Bento XVI teve um encontro com a juventude angolana, duas garotas morreram esmagadas.
Eu só soube disso à noite. Por volta do meio-dia, quando abriram os portões, foram imprensadas e pisoteadas.Quando cheguei ao estádio, por volta das 15h, tive idéia do que é ser envolvido por uma massa em fúria. Ao tentar entrar no gramado onde estava montado o palco do papa, as pessoas começaram a empurrar o portão na tentativa de entrar. Vivi alguns segundos de perda de controle do meu corpo, que se movimentava para a frente e para trás ao sabor da inércia da multidão. Quase pisei em cima de uma garota. Não há o que fazer. É como estar envolvido pela força de uma onda, sem ter onde se segurar.
Os jornais, as emissoras de rádio e a televisão controlada pelo governo não deram a notícia. Só o fizeram no dia seguinte, domingo, quando o papa, antes da missa na Cimangola, lamentou a morte das duas moças que haviam ido ao estádio para vê-lo.
Encontrei pessoas na Cimangola (o nome vem de uma fábrica de cimento que funciona ao lado do terreno – Cimentos de Angola) que chegaram na véspera, às quatro da tarde. Passaram a noite ao relento, entoando cânticos. Às seis e meia da manhã, a temperatura já estava por volta dos 30 graus. Dezenas de pessoas passaram mal.
Mas o papa chega e as pessoas sentem-se novamente revigoradas. “Papa, amigo, Angola está contigo”.Depois da missa, eu e Pytú, o cinegrafista angolano que contratei para trabalhar comigo, tentamos sair do local da missa. Misturamo-nos aos 1 milhão de fiéis que tentavam sair ao mesmo tempo.
Ficamos duas horas na estrada poeirenta esperando o carro chegar. O motorista ficou preso num engarrafamento provocado pela quantidade de carros e pessoas que tentavam ir embora. A polícia deu prioridade aos carros oficiais, aos carros com livre trânsito. Bloqueou a passagem e a situação ficou ainda pior.
Fico imaginando se as pessoas entendem a mensagem do papa. Bento XVI não é um bom orador. Tem a voz cansada. Lê os textos em português, mas muitas vezes eu mesmo tinha dificuldade para entendê-lo. As mensagens me pareciam herméticas. Misturam passagens bíblicas, referências ao amor de Jesus, à segurança proporcionada pela Igreja. No meio do texto, vem a crítica, as referências aos problemas, dificuldades, mazelas e desgovernos do país visitado.
A Igreja Católica tem aumentado o número de fiéis na África. É o segundo continente onde mais cresce, atrás apenas da Oceania. O número de pessoas batizadas subiu de 12% em 1978 para 18% em 2006. Angola é um dos países mais católicos da África. Entre 55% e 60% das pessoas se dizem católicas.
Fico imaginando se aqueles fiéis na Cimangola, sob um sol de 40 graus, conseguiram ouvir o que papa disse. E, se ouviram, se entenderam. E, se entenderam, o que acham? A visita do papa mudará o comportamento das pessoas, estimulará novas posturas? Terão elas discernimento suficiente para compreender o significado daquelas palavras?Amém!

7 comentários:
Artigo interessante sobre a toxidade do Papa:
http://fontanablog.blogspot.com/2009/03/marcos-nobre-folha-de-sao-paulo-link.html
Abraços e parabéns pelo blog.
Ótimo texto. Adorei a parte:
"Os jornais, as emissoras de rádio e a televisão controlada pelo governo não deram a notícia. Só o fizeram no dia seguinte, domingo, quando o papa, antes da missa na Cimangola, lamentou a morte das duas moças que haviam ido ao estádio para vê-lo."
Quer dizer que se não tivesse chegado aos ouvidos do Papa (autoridades buscam descobrir quem dedurou a má gestão do local) o assunto não teria notoriedade. Pelo menos não tanta dentro de Angola.
Mas é um interessante exercício de juntar tantas pessoas sob um mesmo tema. Nem eles sabiam que eram capazes de se unir, se empurrarem sem sair em briga. Exclusivamente por conta do visitante ali presente.
Realmente, pra visita ser bem aproveitada seriam necessárias muitas discussões, debates, conversas pra reflexão sobre a visita, os assuntos tratados.. Mas creio que não acontecerá, pelo menos não em larga escala. Mas seria bom de imaginar.
Ah, e a figura do papa é pop. Este papa não chega a ser tão pop quanto o antecessor. O outro era um verdadeiro diplomata. Por isso ganhou o respeito e admiração das pessoas. Fez uma associação positiva da sua posição com o trabalho que tinha de fazer.
Concordo agora com vc,ele é pop!!!!!!!
Putz, quer mais pop que aqueles sapatinhos vermelhos da mona?
As estatísticas do PNUD apontam 6 milhoes de habitants em Luanda. Se havia 1 milhão em Cimangola, onde estavam os outros 5 milhões? Isso sem levar em consideração que quase metade desses fiéies vieram de outras províncias.
Acho que o papa nem é tão pop assim. Afinal a gente sabe muito bem que´pop foi o feriadão que levou os outros 5 milhões para as praias...
bj
Concordo contigo o papa é pop mesmo, pessoas aguentarem esse calor, o ar abafado, passarem mal para verem um ser humano que tudo bem é um "líder" do catolicismo, mas eu não ia me sujeitar a isso xP
Ótimo texto!
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