Eu já havia escutado comentários sobre o discurso do Pepetela. Eis que, hoje, descubro um trecho no Morro da Maianga, que fica aí ao lado, na relação de sítios que valem a pena. Não pensei duas vezes. Surrupiei e reproduzo abaixo, dando crédito ao companheiro do morro.
Extractos da Oração de Sapiência proferida na Universidade Agostinho Neto por Artur Pestana (Pepetela) na abertura do novo ano académico do ensino superior (13/03/09)]
1-"A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém dejulgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anossessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, queela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agoraé difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado."
(...)
2-"Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vezmais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros sãona heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter,açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando gruposeconómicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. Asnotícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vaiaparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associaçõesentre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíramdo nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dêlucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduosôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez,deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância setornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer,então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por darcabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior."
(...)
3-"Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns aenriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldarestrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo.Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. Oestado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar coma necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis,de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram asleis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética."
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
22 minutos atrás

3 comentários:
Bacana, gostei do texto.
sou estudante de comunicaçao social e grande apreciadora das obras de Pepetela. este discurso mostra um horizonte alargado sobre aspectos nao so ligadas a educaçao mas com um conjuto de parametros ligados a questoes politicas e a forma como cada autor social lida com a sua realide social.
É mesmo um discurso de saber, ciência, experiencia , sapiência, sociologia, ideologia , visão antropológica, crítica, humanista, ao nível dos grandes pensadores/ lutadores idealistas históricos Che Guevara, Mandela, Zappata, Spartacus, Ghandi,do depois Mau Tzé-tse Tunga, Lumbumba,Lenine,Allende?, Simon Bolívar, Chico Mendes,
Sitting Bull, Gerónimo,
Agostinho Neto, Amílcar Cabral,Hoji ya Henda,Shaka Zulu,
da retórica dos discursos do padreco António Vieira, da semiologia neoescrita fruidora de Roland Barthes,
e outros grandes revolucionários q agora nao me vêem à cabeça.
granda men
ganda kota-madiê comandante
obrigado gracias pepetela
por amostrares angola ao mundo na tua obra literária
e da tua vivencia nela
pra ela , dela pro mundo,
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