sexta-feira, 6 de março de 2009

PEQUENAS FELICIDADES ANGOLANAS

Desde que nos mudamos para cá convivemos com questões hidráulicas diversas.

Às vezes são vazamentos nos banheiros, na sala, no quarto, na garagem.

Seu Corrêa não quer voltar enquanto os donos da casa não pagarem o serviço anterior.

Liguei para ele ontem, para perguntar se já havia recebido o pagamento.

SEU CORRÊA - Eh, pá! Ainda. Falei com a dona Maria José. Ela disse que o irmão está em França. Só quando voltar é que vão ver a situação. Assim é muito pesado.

Bom, tínhamos um grande vazamento no mesmo lugar em que Gegê havia trabalhado antes.

Ao lado do cano que traz água da rua, surgiu uma nova mina d´água. A água brota do chão, escorre para a calçada e alimenta um eterno lamaçal no fim da rua.

Graças a alguns contatos secretos que fizemos aqui no estrangeiro, recebi a indicação de Zóla.

Ele veio aqui ontem. Olhou o vazamento. Contei a ele que a bomba não pára de funcionar e que suspeitamos de outro vazamento. Zóla levantou a hipótese de não ser vazamento, mas um defeito na eletrobomba.

EU – Como assim?

ZÓLA – Sim, a eletrobomba pensa que a canalização está a precisar de água. Mas não está. Então, funciona sem parar. É como se estivesse a puxar água do tanque para dentro da vivenda, mas não está.

Era só o que nos faltava. Uma eletrobomba angolana esquizofrênica, que escuta vozes dentro do compartimento elétrico que a mandam continuar jogando água no encanamento.

Zóla ficou de voltar hoje, na hora do almoço, durante o intervalo na empresa que trabalha. Quando ele me disse isso ontem, duvidei. O cara vai sair do serviço na hora do almoço e passar aqui?

Bom, mas tenho bom coração e concedi-lhe o benefício da dúvida.

Hoje pela manhã, Nely sobe ao escritório.

NELY – O XPTOX oukkksi doiwej?

EU – É o quê, Nely?

NELY – Iwlldpwo doepwsp?

EU – Nely, fala devagar. Não entendi nada.

NELY – Desceu pá mexer no coiso?

EU – Que coiso, Nely?

NELY – Acabou a água.

Às vezes não entendo o que Nely diz. E vice-versa. Como sabem, o português que nos une é o mesmo que nos separa. Mas ao ouvir as três palavras “acabou a água”, todas as peças se encaixaram na minha cabeça. Ela perguntou se eu havia descido para desligar o disjuntor que controla a bomba. Como estamos com um vazamento, só ligamos a bomba quando precisamos de água. Isso implica trocentos sobes-e-desces de descadas toda vez que precisamos dar descarga, lavar as mãos, tomar banho etc.

EU – Não, não desliguei nada.

A bomba havia parado de funcionar.

Pronto. Estávamos de volta ao inferno que vivemos meses antes, quando a bomba funcionava sem parar por causa de um vazamento e o tanque d´água acabava em pouco mais de duas horas. Sem água no tanque, a bóia não emite o sinal elétrico que aciona a bomba para jogar água no encanamento. Era a confirmação que eu precisava. De fato, havia um vazamento.

Nisso, Zóla me liga. Diz que vai se atrasar um pouco. Eu sabia.

Mas, não é que ele chega logo depois, bem no horário previsto do atraso? Ele olha a eletrobomba e diz que precisa substituir algumas peças. Lá se vão 9 mil kwanzas.

Ele volta uma hora depois. Substitui as peças e...a eletrobomba voltou a funcionar. Não era um vazamento, e sim um problema eletro-mecânico-hidráulico.

Quem precisar de um eletricista-encanador que entende do serviço, mande uma mensagem que eu passo o telefone do Zóla.

Se você não nunca esteve em Luanda, não mora na Luanda verdadeira (e sim nas bolhas mantidas pelas multinacionais), não poderá, jamais, imaginar o que esta pequena felicidade angolana representa.

10 comentários:

Mari Ceratti disse...

Aleluia, irmãos. :-)

F. disse...

É bom que se diga, os 9 mil kwanzas, feita a conversão, batem ali pela bagatela de 120 dólares. Ou estou enganado?
Saiu barato dessa vez, hein companheiro? ;)

Helga disse...

Enquanto lia tua saga de arrumar a casa fiquei pensando: "putz, a próxima pessoa que pegar a casa dele vai ficar feliz em ter uma casa com menos problemas" porque vc pega cada abacaxi pra descascar por aí!! :D

Mayra disse...

zóla pra zédu, quer dizer, presidente!

Anônimo disse...

Seu Gegê estava te enganando.

Convinha a ele a continuidade (Senão a eternidade) dos problemas hidráulicos da sua casa.

Parabéns! Que as pequenas felicidades se repitam.

Anônimo disse...

onde eu escrevi Seu Gegê, entenda-se Seu Corrêa.

sonia disse...

nossa pelo menos morri de rir com a forma de vc descrever essa epopéia maluca........

papu disse...

Eu entendo muito bem a preciosidade q isso é, e consigo imaginar. Não porque tenha passado por isso alguma vez: sempre vivi em Lisboa e agora vivo em Londres. Vivo, porém, numa Londres que tb não existe para a maioria das pessoas, ou melhor, numa Londres que a maioria desconhece. Onde, por ex, você tem um vasamento da casa de banho para a cozinha que dura desde que você alugou a casa (4 anos). Isto apesar de já se ter mudado a banheira e vedado a junção desta com a parede vezes sem conta. A água continua a infiltrar-se pela parede (às vezes melhora, e volta a piorar) e a humedecer as traves de madeira que existem no tecto, e você dá consigo pensando quando é que aquela merda vai apodrecer e cair. Onde são precisos dois anos para que o senhorio se convença de que é verdade que está a chover dentro de casa, e mande consertar o telhado. Onde você tem uma fuga de gás e não consegue encontrar ninguém que lhe venha resolver o problema, e pode ficar sem gás um dia inteiro à espera que venha alguém (e isto no inverno significa tremer de frio). E isto se tiver dinheiro para pagar adiantado e depois descontar na renda, porque senão fica nas mãos da vontade do senhorio e pode esquecer. Onde você encontra caldeiras instaladas em quartos e casas de banho, num desrespeito completamente absurdo pelas normas de segurança. Onde você aluga uma casa e passado meses descobre que a instalação de gás estava mal feita, e que durante todo esse tempo existiu risco de uma explosão dentro de casa, apenas quando os fulanos da companhia vêm fazer uma visita de inspecção à instalação. E então você se pergunta porque diabo essa visita não foi feita antes, e como é possivel que os senhorios não sejam obrigados a exibir prova de que tudo está dentro das normas de segurança antes de alugarem as casas. E podia ficar aqui falando de muitas coisas mais, mas acho que o comentário já vai longo. Bom. De qualquer forma, acho que tudo isto de que falei não é nem de perto nem de longe comparável a essas histórias que você descreve. Cumprimentos :)

Anônimo disse...

viste? Afinal em Londres (1º mundo)tb tem cachoeira dentro de casa, tb tem vazamento e tb tem coisas feias. Mas de certeza que tb tem muitas coisas bonitas...

Moçambicano disse...

Sou Moçambicano vivo ou melhor sobrevivo em Angola ha 6 anos e bom saber que alguem pensa desta terra como eu ja estava a pensar que er a maluco e olha que nao venho do 1 mundo.