A história de hoje na África é o assassinato do presidente de Guiné-Bissau, João Bernardo Vieira.
É a notícia do dia, mas aqui de Angola não dá para competir com os repórteres das agências de notícias e dos jornais que estão no local. É melhor ler no New York Times, BBC e afins.
A história que me chamou atenção mesmo foi um post que o Fábio Zanini publicou ontem no Pé na África. Era o relato do Márcio Gagliato, brasileiro que trabalha para a ONG Care em diversas áreas de conflito. Ele esteve em Ruanda recentemente para realizar um trabalho relacionado ao trauma do genocídio de 1994.
Sugiro que leiam o post do Zanini clicando aqui antes de continuar a leitura aqui no Diário.
Leram? Bom, então posso comentar.
Em 1994, mais de um milhão de pessoas da etnia tutsi (e hutus moderados) foram assassinadas em Ruanda. O governo faz um esforço enorme de reconciliação nacional, mas acho que serão necessárias algumas gerações até que a história seja superada. Se é que será um dia.
Há alguns livros e filmes excelentes sobre o que se passou em Ruanda. Um deles, que estou terminando de ler, é o Shake Hands with the Devil, escrito pelo então coronel canadense Roméo Dallaire, que comandava as tropas da missão da ONU em Kigali durante o genocídio.
O que me chamou a atenção, além do interessantíssimo relato do Márcio, foi uma reportagem da CNN neste fim de semana. A repórter Christiane Amanpour fez uma matéria sobre os casos de genocídios que continuam a se repetir mundo afora.
Ela esteve em Ruanda e conversou com uma mulher tutsi que, segundo a reportagem, havia perdoado o homem da etnia hutu que matou os quatro filhos dela. Depois de ir à igreja, a mulher havia convidado o sujeito para almoçar na casa dela.
E lá foi a Christiane Amanpour acompanhar o encontro. Almoçou com eles e, no final, perguntou para a mulher o que ela havia feito para perdoar. A mulher disse que, como cristã, tinha a obrigação de perdoar e, de fato, o havia perdoado do fundo do coração.
Achei aquilo muito estranho.
Estive em Ruanda em novembro. O governo ruandense faz mesmo um enorme esforço de reconciliação. Trabalha especialmente com os jovens e proibiu a divisão entre tutsis e hutus (como se eles não se reconhecessem). Desde 1994, há apenas ruandenses, um único povo unido no esforço de reconstrução.
Pois o relato do Márcio ficou ainda mais interessante depois de ter visto a reportagem da CNN. A mulher não pode dizer outra coisa além de afirmar que perdoou o assassino dos filhos dela.
O governo impôs a reconciliação, o perdão.
Não sei se dá para assistir a matéria da Amanpour pela internet. Se for possível, leiam o post do Márcio outra vez e vejam a matéria.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
22 minutos atrás

3 comentários:
Extraordinário o relato daquele brasileiro.
Os jornalistas brasileiros que agora descobriram áfrica, já faziam falta há muitos anos "em português".
Pois os jornalistas portugueses devido à colonização e descolonização mal explicada, não conseguem dexcomplexar-se.
Como os portugueses não prepararam elites para governar as suas colónias após a sua independência, tambem são acusados por essa falha.
Só que as elites preparadas por ingleses, franceses e belgas tornaram-se muito refinados.
Mas ainda é estranho convidar o cara que matou os quatro filhos dela para um almoço.
Perdoar... quem sabe
Agora, almoçar???
Realmente é difícil entender que uma mãe vá almoçar com o assassino dos seus quatro filhos, mesmo se submetendo ao decreto, à obrigação de perdoar. É muita sublimação, só pode.
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