O diário recebeu o seguinte comentário de um leitor anônimo:
“Prezado Diário da África,
As partes mais brilhantes de seu blog são aquelas de quando você descreveu a Guerra Civil no Congo. Se passaram muitos posts e você não retornou ao tema (talvez para evitar o horror do tema).
Porém, eu (certamente muitos outros leitores assíduos também) gostaria de ter um "retrospecto" daquela extraodinária cobertura sobre a guerra civil, as mulheres violadas, as crianças desoladas.
Talvez um retorno, um pequeno post sobre a situação política naquele país.
Um abraço e parabéns pelo blog, cujos posts memoráveis não se reduzem apenas aos do Congo.”
Várias vezes pensei em escrever outra vez sobre a situação na República Democrática do Congo.
Acompanho pela internet a situação no país. Tudo continua muito ruim.
O general rebelde Laurent Nkunda foi capturado e está em prisão domiciliar em Ruanda.
Os exércitos do Congo e de Ruanda realizaram operações conjuntas na região para prender milícias hutus que aterrorizam as pessoas.
O que terá acontecido com Kibundila Baronani, que encontrei em tratamento médico num hospital em Goma? Ela tem 17 anos. Aos 10, foi violentada por quatro soldados. Passou por diversas cirurgias de reconstituição anal e vaginal.
O que terá acontecido com Ela, que passou três semanas e meia como escrava sexual nas selvas do Congo?
O que terá acontecido com as crianças no campo de deslocados que sorriam o tempo todo e me chamavam de Muzungu?
E James, para quem a vida é Hakuna Matata? Sobre este posso dizer. De vez em quando nos falamos por telefone. Ele continua lá em Goma, no seu trabalho de fixer e de motorista. Antes de eu vir embora, deixei com ele, de presente, um livro sobre Angola. O título era “Angola: promisses and lies”. Ele demonstrou grande interesse na história de Angola e, como o livro era escrito em inglês e ele queria melhorar o vocabulário no idioma, dei o livro para ele. Não sei se ele leu.
O que terá acontecido com tantos outros que conheci por lá?
Não sei. Precisaria voltar a Goma. E isso explica o motivo pelo qual não voltei a escrever sobre o Congo.
Tenho grandes dificuldades de escrever sobre coisas que não vivencio. Eu poderia, sim, escrever longos posts sobre a complexa situação política do Congo (ou de qualquer outra país da África ou do mundo), como a miséria continua, como a exploração ilegal de diamantes ainda mantém a população na pobreza, como a corrupção dos generais que controlam as áreas diamantíferas perpetuará a desgraça daquele povo por tanto tempo.
Bastaria fazer uma pesquisa rápida na internet, ler as notícias das agências internacionais e, pronto. Teria eu farto material para trabalhar. Mas seria mera tradução. É claro que eu poderia acrescentar minhas lembranças, fazer um comentário específico com base na experiência que tive por lá.
Mas acho que não seria justo. Em vez de apenas traduzir as agências internacionais e os relatos dos repórteres que lá estão, prefiro indicar os sítios para que cada um leia as matérias e tire suas conclusões.
Por isso não voltei ao assunto com a profundidade que o tema merece. Vez ou outra reproduzo uma notícia que acho mais interessante e até faço um pequeno comentário. Mas não consigo ir além. Para produzir algo melhor, precisaria voltar lá, mergulhar de novo naquelas histórias. Gostaria muito, mas não sei se e quando isso vai acontecer.
As experiências que tive por lá ainda me atormentam. Quando lembro dos olhos da Ela se encherem de lágrimas ao narrar que pensou em abortar a filha que, em novembro do ano passado, tinha cinco meses porque a garota é fruto de um estupro e só não o fez porque não sabia, ainda me emociono.
A mesma coisa com o relato de Kibundila, que mantinha no rosto um sorriso ao contar como foi violentada seguidas vezes por quatro adultos quando tinha apenas dez anos de idade.
A mesma coisa com o médico da ONG Médicos Sem Fronteiras, que me explicou, emocionado, por que há tanto estupro contra garotas (não sabem se defender, não têm força para se defender, têm as vaginas estreitas e os violadores chegam rapidamente ao orgasmo).
A mesma coisa com as crianças que me seguiam no campo de deslocados me chamando de “muzungu”. Em especial um garotinho que passou o dedo no meu braço para ver se eu era coberto com uma tinta branca e depois encostou seu bracinho no meu para comparar as cores.
Para contar tudo isso, preciso voltar. Por isso não voltei ao assunto.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
23 minutos atrás

3 comentários:
Essa história do garotinho, senhor muzungu, é de doer a alma. Em mim, dói.
Prezado Diário da África,
Sou o anônimo que lhe escreveu cobrando posts sobre a RDC.
Só tenho a lhe parabenizar por esse seu post. Transparece responsabilidade jornalística, originalidade no tratamento do blog e uma profunda ética humanista.
Concordo inteiramente com seus argumentos. Não vale a pena requentar notícias internacionais. Leio o seu blog justamente porque descreve opiniões cotidianas, o olhar de quem está no meio do furacão.
Ainda que anônimo, para mim é uma grande honra ter meu comentário publicado e respondido no seu blog.
É, além disso, uma experiência emocionante ler suas linhas relembrando sua passagem na RDA.
Um abraço.
Prezado Diário da África,
Sou o anônimo que lhe escreveu cobrando posts sobre a RDC.
Só tenho a lhe parabenizar por esse seu post. Transparece responsabilidade jornalística, originalidade no tratamento do blog e uma profunda ética humanista.
Concordo inteiramente com seus argumentos. Não vale a pena requentar notícias internacionais. Leio o seu blog justamente porque descreve opiniões cotidianas, o olhar de quem está no meio do furacão.
Ainda que anônimo, para mim é uma grande honra ter meu comentário publicado e respondido no seu blog.
Um abraço.
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