terça-feira, 21 de abril de 2009

O DIA EM QUE FUI INTÉRPRETE DO JOEL SANTANA

Foi hoje cedo.

Consegui fazer umas oito das 13 perguntas previstas porque o assessor da Safa, a sigla em inglês para a Federação Sul-Africana de Futebol, marcou com outras duas equipes de televisão em sequência.

Éramos a segunda equipe.

Só que a primeira, do canal local E, aqui de Joanesburgo, se atrasou alguns minutos. Além disso, os caras não tinham intérprete de português.

Joel Santana fala um inglês sofrível.

O assessor da Safa, que se chama Sifiso, propôs que fôssemos primeiro.

Em seguida, disse Sifiso, eu, único a falar português, seria o intérpreto da entrevista do Joel Santana para a tv sul-africana.

Achei que fosse piada.

Entramos para a entrevista.

Uma sala pequena com dois banners dos patrocinadores da seleção sul-africana atrás. Um corte de energia no prédio havia deixado o local um pouco escuro. Só havia uma luz de emergência na sala.

Zee, o cinegrafista sul-africano com quem estou trabalhando, pede para puxarmos a mesa para mais perto da luz, para iluminar melhor o rosto do Joel Santana.

Uma das pernas da mesa se solta e cai no meu pé.

Antes de começarmos a entrevista, Sifiso volta para a sala e diz que Joel Santana não quer responder nenhuma pergunta sobre política.

Reforço que farei apenas as perguntas que eu havia enviado previamente por e-mail.

Sifiso havia exigido as perguntas por escrito.

Em português e em inglês.

O argumento era que, dessa forma, tanto o técnico quanto eu poderíamos nos preparar adequadamente para a entrevista.

Começamos a entrevista.

Só consegui fazer umas oito das 13 perguntas previstas porque, depois da quinta ou sexta pergunta, Sifiso, que estava atrás da câmera, ficou apontando para o relógio, numa pressão para encerrar a entrevista por causa das outras duas equipes de TV na fila.

Achei que a história da tradução fosse brincadeira.

Quando terminamos, a equipe da TV E está na porta.

Sifiso me pede para ficar e traduzir.

O repórter sul-africano me pede para ficar.

O cinegrafista, a produtora e o auxiliar me pedem para ficar.

Dou um sorriso constrangido e começo a me levantar da cadeira ao lado da em que Joel está sentado.

Joel Santana segura no braço e diz:

JOEL SANTANA - Não, não vai. Fica aqui...fica...

Eu fico.

Querem que eu fique ao lado do Joel Santana e apareça no vídeo como o intérprete dele.

Digo que não posso, que tenho contrato de exclusividade com a minha empresa.

Todos me prometem que não aparecerei nas imagens.

O repórter faz as perguntas.

Joel Santana responde longas respostas. Me perco na tradução.

Peço para ele repetir algumas respostas.

Tento anotar o que ele fala para depois traduzir, como já vi alguns intérpretes fazerem.

As perguntas e as respostas são aquelas maravilhas futebolísticas.

O repórter sul-africano quer uma avaliação das seleções que a África do Sul vai enfrentar na Copa das Confederações e uma previsão do desempenho do time.

Joel dá aquela resposta tradicional.

Olha para a câmera e diz, em português:

JOEL SANTANA - Em futebol não há passado nem futuro. Apenas o presente. E você tem que mostrar o que sabe em campo.

O repórter me encara, esperando tradução.

Lá vou eu:

EU - You know: football has no past and no future. Only the present. You have to show what you know during the match...

Joel vai se empolgando.

Daqui a pouco, começa a responder as perguntas em inglês.

Depois, se toca, pede desculpas e retoma o português.

Uma delas, no entanto, Joel se esquece completamente e a responde integralmente em inglês.

Relaxo.

Beleza, não terei de traduzir.

Quando Joel termina, espero a próxima pergunta do repórter sul-africano.

Mas ele olha para mim e diz:

REPÓRTER SUL-AFRICANO BRANCO – Won´t you translate this one?

Sacanagem com o Joel Santana, que tem sofrido muito com as críticas da imprensa sul-africana.

Joel Santana diz que não gosta de dar muitas entrevistas por causa do idioma. Soube que ele tinha um intérprete de Moçambique. Mas o português do Brasil é diferente dos demais. Como sabem, o português que nos une é o mesmo que nos separa.

Segundo me contaram, Joel Santana ficou em apuros porque a tradução do moçambicano não era precisa. E a imprensa sul-africana caía em cima.

Na entrevista para os sul-africanos, Joel Santana diz que existe a possibilidade de um amistoso com o Brasil.

Quem nunca viu o Joel Santana falando inglês, veja agora:




E veja como o inglês do Joel já está inspirando os artistas:

6 comentários:

Anônimo disse...

E qual ator do futebol não dá RESPOSTAS genéricas?

catarina disse...

Curiosamente como detesto futebol...masculino, fico sempre de pé atrás quando alguém faz analogias futebolísticas.
O meu desporto de eleição é o ténis...no feminino.Mas isso é uma questão minha.

Por exemplo:mas quem raio é aquela mulher branca com voz autoritária que luta contra a segregação racial no país que "aboliu" o Apartheid.Ela diz que a segregação continua dentro das cabeças das gentes da África do Sul.Para mim, acho que continua na cabeça do mundo ainda que legal e constitucionalmente a ideia de abolição esteja impressa. Mas e na prática? Estamos à espera que a África do Sul nos dê o exemplo.Para já surge uma tal de Winnie Mandela a dizer que o ANC voltou às suas raízes...Roots.
Credo, o que é isto?????

Helga disse...

"Joel Santana dá perguntas genéricas para todas as perguntas."

Respostas, vc quis dizer.

Carlos, não creio. MUITO engraçado teus perrengues aí. Ei, explica uma coisa: se você não apareceria no vídeo (porque 'juraram'), então pra que continuar sentado do lado to Joel?

Outra: se vocês estavam todos (uns 4 ou 5) numa salinha de entrevista só com a luz de emergência é porque também não havia ventilador/ar condicionado por lá, certo?

Taí, matou o seu leão do dia. Isso é que é história. :D hehehehh

Susana disse...

Querido Diário... tive que ir à wikipédia saber quem é o Joel Santana... digamos que no mundo da lingua portuguesa, cada país terá as suas referências e Joel Santana... não, não me dizia nada... será ignorancia básica? desculpe-me se assim for.
Continuo agarrada ao Diário, sempre à espera do seu sentir nesse mundo vasto que é o continente africano. Obrigada por isso.
Grande abraço, Susana.

Ricrg disse...

Grande Natalino (apelido de Joel aqui no Rio)! Um dia volta para o Mengão!

Anônimo disse...

Como você vive aí sem inglês? Você fala africâner?