Terminei de ler a biografia do Jacob Zuma, provável futuro presidente da África do Sul.
Não há como negar a popularidade dele, apesar de todas as encrencas em que já se meteu.
Zuma ficou 10 anos preso em Robben Island, dos 21 aos 31 anos. Foi acusado pelo regime racista da África do Sul de tramar a derrubada do governo.
O fim do apartheid, em 1994, permitiu a realização de eleições livres e multirraciais, vencidas por Nelson Mandela.
Quando Mandela terminou o mandato, Thabo Mbeki foi eleito presidente. Zuma, que atuou durante vários anos na inteligência e contra-inteligência do Congresso Nacional Africano (CNA) – dentro e fora da África do Sul –, foi eleito vice-presidente do partido e, em consequência, tornou-se o vice-presidente de Mbeki.
Zuma continua totalmente enrolado com a Justiça. Foi inocentado de uma acusação de estupro contra uma jovem de 31 anos portadora do vírus HIV. Zuma a conhecia desde criança. Ela é filha de um amigo dos tempos das operações clandestinas do CNA em outros países africanos.
Ao longo do processo, informações de que a moça teria sofrido abuso sexual na infância e feito falsas acusações de estupros contra outras pessoas pesaram a favor de Zuma. Segundo ele, os dois fizeram sexo com o consentimento dela. A moça estava hospedada na casa dele e apareceu na frente de Zuma com uma tanga.
Quando terminou de trabalhar no escritório, Zuma foi ao quarto onde a jovem dormia e se ofereceu para fazer uma massagem. Ela diz que recusou. Ele diz que ela não pediu para parar. Zuma não usou preservativo, apesar de saber que ela é portadora do vírus da Aids. Ele diz que, quando terminaram, ele se lavou para impedir a contaminação. No dia seguinte, ela o acusou de estupro.
Zuma, no entanto, foi inocentado e o caso está encerrado.
Mas ele ainda está enrolado em outra história de corrupção relacionada à compra de armas para o reaparelhamento das forças armadas sul-africanas quando era vice-presidente da República.
Um dos empresários envolvidos pagou, durante anos, despesas pessoais de Zuma e da família dele. Por causa do episódio, Mbeki demitiu Zuma do cargo de vice-presidente do país.
O empesário foi condenado. O processo contra Zuma ainda está em andamento. Foi adiado algumas vezes e só deve ter prosseguimento depois das eleições marcadas para o próximo dia 22.
Devo ir à África do Sul cobrir as eleições.
Quarenta partidos estão inscritos. Na África do Sul, vota-se nos partidos, que têm uma lista de candidatos. O partido com maior número de votos monta o governo e indica o presidente. Zuma, como presidente do favorito Congresso Nacional Africano, deve se tornar o líder da nação.
No total, há 23 milhões de eleitores aptos a votar e 40 partidos inscritos. O parlamento tem 400 assentos, que são preenchidos de acordo com uma média ponderada do resultado nacional e das nove províncias. O CNA detém hoje 280 cadeiras no parlamento (70%).
Há um ou dois meses, Mandela anunciou apoio público a Jacob Zuma. Alguns me perguntaram como era possível que Mandela ficasse ao lado de Zuma. Não sei. Talvez Mandela encare Zuma como a única alternativa contra o esfacelamento do CNA. O tempo dirá.
Antes de embarcar para Joanesburgo, tenho a pretensão de terminar dois livros para melhorar o entendimento sobre o país. Um deles comecei a ler ontem. Chama-se Shades of Difference – Mac Maharaj and the Struggle for South Africa. Ao escrever a biografia de Maharaj, Padraig O´Malley conta a história da luta contra o apartheid.
De origem indiana, Maharaj também esteve preso em Robben Island e foi o responsável por contrabandear para fora da prisão os manuscritos da biografia de Nelson Mandela, também encacerado na ilha. Mandela, aliás, faz um prefácio bastante emocionante sobre Maharaj e seu papel na luta contra o regime racista.
O outro livro é a biografia do próprio Mandela (Long Walk to Freedom). Não sei se conseguirei. São dois tijolos que, juntos, ultrapassam a mil páginas. Mas vou tentar.
Afinal, não vim de tão longe para sentir medo.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
30 minutos atrás

7 comentários:
A qente compra livros pra espantar a morte!
Só me permito morrer depois que ler todos os livros que quero ler. Então acho que ainda vai demorar uns quatro mil volumes....
É isso, o tempo o dirá.
Também eu vou estar atenta, não só às eleições sul-africanas, como ao útil e eficaz Diário da África.
Por favor, avança sem medo e traz-nos notícias.Olhar certeiro e bom trabalho!
"Ele diz que, quando terminaram, ele se lavou para impedir a contaminação." Heheheheh
E quantos anos tinha a moça quando apareceu pra ele só de tanga?
Então o Zuma pode ser o menos pior candidato, pro Mandela.
Enfim, ele rouba mas faz, né.a
Não entendi sua última frase, porque eu não diria que vc teria 'medo' de não conseguir ler.
Que bom que vc cobrirá as eleições. :) Teremos uma boa visão da história então.
Eu parei de ler na parte que a Helga citou...
E é nessas horas que eu vejo que NUNCA vou entender a África...
Zuma é também o nome de um dos maiores ditadores do Paquistão. Medo.
Boas! Claro que nunca devemos dar o lugar ao Medo! O que lhe podemos dar é luta e da brava! Historia estas dos bastidorea do governo Sul Africano muito obscura! O que me espanta é a peserverança destas personalidades em ficar nos corredores do Poder...Enfim têm a palavras os cidadãos sul africanos!
Jorge madureira
João Marcelo:
Por vezes, também a África não nos entende a nós. E a África terá muitos Zumas mas é muito mais do que esse acto zúmico.É a África.Tem muitos e muitos defeitos mas nunca noutro lugar me senti tão humildemente esmagada perante a sua grandeza.Foi o único sitio onde dei por mim, inconscientemente, a fazer uma vénia.Gentes que me deram toda a licença para entrar nas suas vidas no preciso momento em que me perdi.
Há o Zuma pois há e o resto João, não conta para nada?
Outra coisa, a África são muitos países.Costumamos particularizar as diferentes nações nos outros continentes, no entanto quando a África se chega é como se só existisse o africano.Não.Existe o congolês, o sul-africano, o maliano, o malgache etc.
Dizer a África e os africanos poupa-nos tempo mas é bom que nos lembremos disto tal como nos lembramos de dizer o brasileiro, o português, o francês e o espanhol e etc.
Claro que no final esperamos ser todos feitos do mesmo.
O comentário é grande mas também não vim de tão longe para me melindrar.
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