Nathanael, o motorista com quem trabalhei nas últimas quatro semanas, me pegou no hotel em Johanesburgo às 06h30. No caminho para o aeroporto, ele conta que a neta recém-nascida, de apenas dois dias, morreu.
O vôo foi tranquilo. Pela primeira vez na vida voei de classe executiva. Sim, vivi a vida por detrás da cortina que isola a plebe na classe econômica.
Para a própria segurança de vocês, não direi os motivos pelos quais eu estava do outro lado da cortina.
Cadeira espaçosa, águas, vinhos, espumantes, refrigerantes, entradas, carnes. A classe executiva é praticamente um restaurante voador.
Meia hora antes de o avião pousar, as aeromoças distribuem formulários do serviço sanitário de Angola para serem preenchidos. Em português, inglês e francês, o questionário foi obviamente desenvolvido por conta da gripe suína.
Muito bem, controle sanitário eficaz.
Pelo fato de estar na classe executiva, consegui desembarcar antes da plebe.
Isso significa que não ficarei uma hora na fila da imigração. Mas como sempre acontece, as outras filas sempre andam mais rápido.
A funcionária que cuida da minha fila parece estar em treinamento. Faz perguntas ao colega do lado a cada passaporte.
Na minha vez, ela passa um longo tempo preenchendo informações no terminal de computador. Quando termina, percebe que o passaporte é diplomático e ela deveria ter preenchido outra tela.
Também para a proteção de vocês, não direi as razões pelas quais tenho um passaporte diplomático.
Depois de receber o carimbo da imigração, todo passageiros tem de mostrar o passaporte para outro funcionário do governo antes de ter acesso às esteiras de bagagem.
Como sabem, os angolanos adoram pedir um documento, um passaporte, um papel qualquer para dizer que falta um carimbo.
Entrego o meu passaporte. Ele olha de trás para a frente, da frente para a trás.
FUNCIONÁRIO DO GOVERNO – Onde está o visto?
EU – O passaporte é diplomático. Não precisa de visto.
FUNCIONÁRIO DO GOVERNO – É diplomático?
EU – Sim.
Sou liberado.
Estranhamente, as malas estão na esteira. Despachei três bagagens. Uma está caída entre as esteiras. Sou obrigado a pular a esteira para resgatá-la. A segunda chega logo depois. Quando percebo a terceira, ela está distante, no outro lado da sala. Tenho de esperar que dê a volta na esteira. Mas vou monitorando de longe.
Eis que a mala é retirada da esteira por um funcionário do aeroporto. Vou lá do outro lado recuperar a mala.
EU – Por que você tirou a mala da esteira?
FUNCIONÁRIO DO AEROPORTO – Ela já rodou aqui duas vezes.
EU – Mas eu acabei de sair da imigração. Se você ficar tirando as malas que estão na esteira, quem estiver lá do outro lado não vai ver e vai ficar horas esperando a mala.
FUNCIONÁRIO DO AEROPORTO – Mas ela já rodou muito.
EU – Mas você tem que deixar mais tempo.
O funcionário continua a tirar as malas da esteira.
Vou em direção à saída. Um funcionário com jaleco salta na minha frente e pede os comprovantes das bagagens. Entrego e sigo.
Vou para o canal verde, do nada a declarar. Três policiais (duas mulheres e um homem) dizem que tenho de abrir a bagagem.
EU – Passaporte diplomático.
Uma delas pega o passaporte. Abre numa página aleatória e, em seguida, vai conferir a etiqueta de uma das malas. Não faz nenhum sentido, mas fico com a impressão de que eles precisam mostrar que estão conferindo algo para justificar a própria existência.
Saio naquela multidão. Não vejo o Cláudio. Ligo para o Cláudio. A ligação é ruim e não, não falamos a mesma língua. O português do Brasil e o de Angola não são iguais. Isso é ficção. Não nos entendemos pessoalmente. Por telefone é pior ainda.
EU – Cláudio, cadê você?
CLÁUDIO - Estou aqui.
EU – Aqui onde, Cláudio?
CLÁUDIO – Na saída.
EU – Não estou te vendo. Por favor, venha para o desembarque. Estou cheio de bagagens e preciso da sua ajuda.
Cláudio aparece. Vou na direção dele.
Antes de alcançá-lo, tenho de furar um bloqueio angolano interessado em levar minhas malas. Digo que não precisa. Cláudio fica ao meu lado e vamos empurrando o carrinho.
Nisso, um angolano do outro lado da rua (sim, o desembarque termina na rua) vem em minha direção. Paro o carrinho de supetão e olho para ele, que usa camiseta, bermuda e chinelo.
ANGOLANO – No problem, my friend.
O angolano acha que sou gringo. De fato, sou gringo.
CLÁUDIO – Não precisa.
Seguimos em direção ao carro. O angolano nos segue. Chegamos ao carro. Cláudio abre o porta-malas. O angolano se aproxima e segura o carrinho. Outro angolano chega.
EU (em tom exaltado, quase gritando) - O que foi? Qual o problema? O que vocês querem?
ANGOLANO – Agora sim...
O angolano não esperava que eu fosse brasileiro ou que falasse português.
Sem dizer nada, ele se afasta e fala para o outro angolano.
ANGOLANO – Tás a ver, você veio me seguir...
Momentos depois, vejo o angolano seguindo um chinês que empurra o carrinho de bagagem no estacionamento. Outros momentos depois, vejo o angolano empurrando o carrinho de bagagem do chinês em direção a um carro.
Chegamos em casa.
Uma moto está estacionada na porta da garagem. É a moto do vizinho. Os vizinhos, como sabem, adoram estacionar na porta da garagem aqui de casa. Não estacionam na deles. Estacionam na nossa.
Abro o portão. A garagem está imunda com folhas, maçãs da índia que caem da árvore do vizinho, latas de Cuca amassadas, garrafas plásticas de água vazias, pedaços de ferro, de madeira. Coisas deixadas pelas crianças da rua que pulam o muro para pegar as maçãs da índia que caem na nossa garagem.
Cláudio me diz que teve de deixar o carro em outro lugar porque um dia chegou aqui e os garotos estavam em cima do carro.
Entro em casa e encontro dois cadáveres de barata. Um na sala e outro no corredor.
Subo para o andar de cima. Tento acender a luz. Não há luz. Desde que cheguei, há sete horas, não há luz na região. O gerador funciona a todo vapor, fazendo um barulho infernal.
Quando chego no quarto, a grande surpresa. Parte da laje do teto desabou sobre parte da cama. Um pedaço grande, de uns 40cmX30cm, teria feito um belo estrago se estivéssemos ali no momento em que ele caiu. Há sujeira pelo quarto todo e outros pedaços da laje podem cair a qualquer momento. Terei de dormir no quarto de hóspedes.
A laje desabou, provavelmente, por causa de infiltrações antigas e serviços mal-feitos.
Agora tenho de achar um pedreiro para consertar o teto. Retirar toda a camada de laje que está para cair, lixar, corrigir, pintar etc.
Como é bom estar em casa.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
31 minutos atrás

11 comentários:
eu lendo e ficando desolado a cada frase.
soltei uma meia dúzia de palavrões ao ler seu texto.
Vc não soltou nenhum?
Se não é uma solução, é um consolo.
Eu juro que teria botado fogo na moto.
Paciência limite tem.
Ainda bem que o jornalista cuidou da nossa segurança e nos poupou dos detalhes perigosos, porque lendo o relato da chegada em Angola, da moto na garagem, dos pedaços de madeira e ferro espalhados no caminho e o desabamento do teto, chega-se facilmente à conclusão que a parte da história que não foi contada por questões de segurança, é nitroglicerina pura.
Lar, doce lar.
conclusão:
viajar de classe executiva dá azar.
Hhahaahah PQP!!!! Estou com dó de você. :D
Nossa, este foi um dos melhores posts. Parece que resume muitos dos antigos (com os problemas antigos).
Adorei o "ANGOLANO – Agora sim...". Jesus, que medo dum negão enorme colado em mim no aeroporto se oferecendo pra carregar minhas malas e aproveitar e me sequestrar já que está por ali mesmo.
Concordo com o 3o anônimo. :D E com a M.Jo. também. Assim como o Pezinho mesmo com tudo isso você ainda se sente chegando em casa. Certo? :)
Não estive em angola, mas já ouvi muitos relatos de quem passou por lá. Um deles foi: "E havia o caos sobre a face da terra!".
Fora isso, em minha passagem pela África convivi com vários angolanos em Johannesburg, e pior do que tentar entender o que eles falam com você é tentar entender o que eles falam entre eles!
Nesse aspecto, os moçambicanos são mais agradáveis de se ouvir.
Como eles mesmos dizem, "é maningue nice".
Nada como a nossa casa! E ainda mais com todos os defeitos juntos...
Aliás, vc já tentou se benzer?
Tragicômico... como a África :)
Recomendo um banho de arruda, por via das dúvidas :P
E vc sabe que eu meio que imaginava que UM DIA vc ia ter de escrever algo sobre o seu passaporte secreto? Ainda mais com a sanha africana por vistos, carimbos e selos (não que a nossa seja muito melhor, mas...)Demorou pra caramba, parabéns :)
E welcome home :)
Meu amigo, acho que o raio cai duas vezes num mesmo local. Da próxima vez em que nos encontrarmos vou lhe cumprimentar de longe.
Só uma perguntinha: vc tava de Taag? Porque eu queria muito saber onde vc encontrou essa classe executiva tão boa... Na Taag é que não foi, foi?
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