Nas fotos abaixo, épossível ter uma idéia da surpresa que tive ao voltar da África do Sul, na semana passada.
O chão...
... e o teto.
Chamei a dona da casa, que também é nossa vizinha, para que ela pudesse constatar o estrago.Fez caras e bocas e me autorizou a fazer uns orçamentos para a obra. Esse tipo de obra, como se sabe, é de responsabilidade do proprietário.
Só quem já precisou de algum reparo, colntratar pedreiro, encanador ou eletricista em Luanda poderá entender a dimensão do drama.
Fiz uns telefonemas. Consegui uma pessoa para vir aqui no dia seguinte.
Sebas é o nome dele. Sebas, de Sebastião.
Ele veio, olhou o teto. Basicamente tem de tirar o resto do reboco do teto e fazer um novo reboco.
EU – Em quanto tempo dá para consertar isso?
Perguntei o preço.
EU – Mas pense bem antes de dizer. Cobre um preço justo para que eu possa te contratar outras vezes e te indicar para os amigos.
SEBAS (com um sorriso verde da cor das notas de dólar) – Dez folhas de 100.
EU – Como?
SEBAS – Dez folhas de 100. Mil dólares
EU – Como? Mil dólares??? Você está brincando.
SEBAS – Fora o material. Isso é só a mão-de-obra.
Levo Sebas para falar com a dona da casa.
SEBAS – Mil dólares.
DONA DA CASA – O quê?
SEBAS – Mil dólares. Fora o material.
DONA DA CASA – Mas isso é muito caro.
SEBAS (tentando explicar o que precisa ser feito) – É assim: vou ter de...
DONA DA CASA (interrompendo Sebas) – Eu não entendo do seu ofício. Mas eu sei o quanto me custa ganhar mil dólares. Muito obrigada, mas vou ver outras pessoas e depois fazemos contato.
A dona da casa, angolana, constata o que os brancos estrangeiros enfrentam por aqui.
Depois que Sebas vai embora, ela diz que teve problema parecido na casa dela e que um amigo da neta fez o serviço por US$ 150.
Depois, num telefonema posterior, Sebas reduziu o preço para US$ 700, mas a dona da casa continuou achando caro demais.
Era uma sexta-feira e ela me pediu até segunda para fazer os contatos e iniciar o trabalho.
Hoje é quarta-feira e a dona da casa, que também é nossa vizinha, desapareceu.
No ano passado, num dos vários problemas hidráulicos da casa, contratamos uma empresa que cobrou US$ 1,5 mil para trocar uns canos e achar o vazamento. Pagamos e apresentamos a conta a ela. Ela pagou US$ 500 um mês depois, outros US$ 500 três meses depois e nunca mais pagou os US$ 500 restantes.
Como sabem, os aluguéis em Angola são caríssimos. Nossa casa de dois quartos custa US$ 7,5 mil por mês. Valor que é pago um ano adiantado. Ou seja: no ano passado, a dona da casa recebeu US$ 90 mil.
Como hoje já é quarta-feira decidi ligar para o Sebas. Vou pagar os US$ 700 e mais os US$ 300 do material. Se for esperar pela dona da casa, vamos embora de Angola no ano que vem e o problema não terá sido resolvido.
Para mim, esse episódio é altamente revelador da alma angolana.
E aqui não vai qualquer juízo de valor.
Não quero julgar ninguém.
É apenas uma constatação.
A falta de profissionais qualificados cria situações como essa, em que contratar um pedreiro com algum grau de competência torna-se um problema sério.
Como são poucos, os preços vão lá para cima.
Se o cliente é estrangeiro, o preço é ainda mais alto.
E o comportamento dos donos da casa é padrão por aqui. Até o Yanick, líder do grupo Afroman, tem uma música sobre isso. Já postei aqui no blog.
Basta fazer uma pesquisa e escutar.
A música é ótima.
Uma crítica feita por quem vive o país, e não por estrangeiros que só vieram aqui para ganhar dinheiro e reclamar da falta de estrutura de Angola.

3 comentários:
Diário, :)
Não havia como contactar este moço que fez o serviço pra neta? E o melhor, ele nem te ver a princípio, mas falar diretamente com uma angolana e tal?
Se eu te dissesse, que cá do outro lado do Atlântico, quando eu vejo a sua via crúcis, eu também fico desolado, vc acreditaria em mim?
Haja saco.
Não parece um tanto prematuro falar em "contratar um pedreiro com algum grau de competência"?
Sem querer ser Cassandra, tá?
Bjks
Postar um comentário