Sou eu.
Dizem que crianças são crianças no mundo todo.
Começo a ter cá minhas dúvidas.
Como sabem, na casa do vizinho da direita tem um pé de maçã-da-índia, uma pequena fruta massuda que os angolanos simplesmente adoram.
Boa parte dos galhos estão sobre a nossa garagem, cujo chão vive cheio dessas maçãs.
A criançada da rua vive enlouquecida catando toda e qualquer maçã que encontra. Quando o vizinho da esquerda deixa o portão aberto (o que acontece todos os dias), a garotada pula o muro para pegar as frutas na garagem aqui de casa.
Flagrados, saem em debandada.
Como o muro tem umas grades com pontas, sempre há o risco de um acidente. Para evitar que continuassem pulando o muro, tentei fazer um acordo com eles. Se parassem de pular o muro, eu abriria o portão e os deixaria pegarem as maçãs-da-índia.
O acordo funcionou temporariamente. Era até divertido ver a farra que a garotada fazia quando eu abria o portão para eles entrarem.
Garotos entre seis e 12 anos.
A notícia se espalhou pela vizinhança e a molecada passou a se revezar em grupos, ao longo do dia, para bater no portão querendo entrar para pegar as maçãs.
Muitas vezes, quando eu voltava para casa, encontrava um pequeno grupo no portão, aguardando a minha chegada.
GAROTOS - Esperamos bwé (leia-se bué, que significa muito em kimbundu) !!!
Depois, passaram a bater no portão às oito da manhã do sábado e do domingo querendo entrar para pegar as frutas. Alguns reclamavam que não há campainha na casa.
Virei refém em minha própria casa, obrigado a estar disponível para abrir o portão várias vezes ao longo do dia.
Só que muitos continuaram (e continuam) a pular o muro.
E aí começa a se revelar um pouco da jovem alma angolana.
Os garotos dizem sim para tudo. Aceitam o acordo, mas no momento seguinte, continuam a fazer o que sempre fizeram.
Flagrados em cima do muro, fogem. Minutos depois, batem no portão pedindo para pegar as maçãs.
Confrontados com o fato de terem quebrado o acordo e estarem pulando o muro, negam que estivessem pulando o muro.
Só faltam dizer “eu não sou eu”.
Como eles quebraram o acordo, o acesso à garagem para recolher as maçãs está temporariamente suspenso.
Mesmo assim, continuam a bater no portão e a fazer tudo o que sempre fizeram. Jogam pedaços de pau nos galhos para derrubar mais maçãs. A madeira, em geral, cai na garagem.
Enchem garrafas plásticas com areia e jogam nos galhos. Todos os dias há três ou quatro garrafas na garagem.
Passam pedaços de madeira, de ferro e de canos por baixo do portão da garagem na esperança de capturar alguma maçã mais próxima.
Durante a nossa viagem, o Cláudio veio colocar o carro para funcionar, para evitar problemas com a bateria. Disse que, quando chegou aqui, um dos moleques estava em cima do teto do carro, jogando paus nos galhos das árvores.
Não sei se as crianças mudaram, se as crianças angolanas são diferentes ou se eu mudei.
No meu tempo de criança, não se pulava sistematicamente o muro dos vizinhos sabendo que eles estavam em casa.
Havia uma regra não escrita sobre limites, até onde se podia ir.
Já ouvi de diversas pessoas que roubos e furtos entre os angolanos são um problema apenas se o autor for pego em flagrante delito. Se ninguém ver, não tem problema.
Aparentemente, não haveria um problema moral em dar uma de amigo do alheio e subtrair os bens de outrem.
Dizem que esse comportamente é consequência da guerra. A guerra explica tudo e justifica qualquer coisa.
Até urinar na rua.
Outro dia estava fazendo uma gravação no fim da ilha de Luanda. Um lavador de carros olhava de longe a montagem do tripé e minha preparação para a filmagem.
De repente, ele interrompe a lavagem do carro e começa a caminhar na minha direção. Coloca o pênis para fora e começa a urinar. Vem caminhando na minha direção e urinando. Na frente de várias pessoas que se aglomeravam atrás da câmera. O mijão pára a uns 20 metros de onde estou gravando. Observa o que estou fazendo. Termina de urinar, coloca o pênis para dentro dos shorts e retorna para a lavagem do carro.
E eu me tornei o vilão das maçãs-da-índia. Tornei-me aquele adulto que existe na vida de toda criança, em toda rua, em todo bairro, ranzinza e ranheta, que não deixa as crianças entrarem no quintal para pegar as frutas.
Com o agravante de ser estrangeiro. Certamente sou o branco de merda ou brasileiro de merda, como alguns costumam se referir aos brasileiros nos momentos de irritação, ou outro calão angolano que desconheço.
Em Angola, sou o mostro das maçãs-da-índia.
Uganda: Netizens Show Support for National Team on Twitter, Facebook
34 minutos atrás

14 comentários:
O pé dessas maçãs é caro? Se não, pq elas não plantam um?
O Diário da África está sangrando. O bom humor virou amargura.
(Essas complicações que vc narra no dia-a-dia são a visão do inferno. Eu não aguentaria!)
Acho que essas complicações cotidianas têm às vezes um efeito perverso sobre os brasileiros que aí estão (claro que não é o seu caso): eles se tornam racistas. Atribuem essas falhas seríssimas do sistema social e econômico à raça.
Talvez vc já tenha notado isso. Coisa triste de se ver.
e não dá para colocar uma fotinha de maçã da india pra gente ver????????estou curiosa,hummmmmmmmmm
abraços e obrigada
PS: pelo menos vai dar para eu entender monstro do que?hehehe
desculpe-me sonia
Oi, :)
"No meu tempo de criança, não se pulava sistematicamente o muro dos vizinhos sabendo que eles estavam em casa." foi um dos meus trechos preferidos.
Sabe que estava pensando sobre isso outro dia. Está passando agora a novela Dona Beija no SBT. Num dado momento a mãe (ou pai) diz à filha "Você não vai pra X lugar" e na hora eu pensei "ué, é só ela ir escondida, se quiser vai" e percebi que naqueles dias se o pai dizia não era não.
Uma terrível constatação.
Impressionante a do moço exibicionista. Bem.. primata da parte dele.
E se você fosse mau mesmo cortaria os galhos da árvore do vizinho. :P
Acho que a criançada não está muito a fim de esperar alguns anos para poder comer as maçãs.
Quando julgamos que tudo está a correr bem, há alguém que nos relembra que afinal somos brancos.
Damos por nós com um discurso bem mais racista, mas também começamos a distinguir as excepções ao estereótipo.
Fora de Luanda é diferente, somos pessoas e não brancos de merda.
Gosto do seu Blog. Dos divertidos e dos amargurados como este. Gosto dos diálogos que transcreve e por momentos estou em Angola a ouvir os angolanos falar. Gosto das suas histórias de Angola e da outra África. Das pessoas, dos lugares que traz para as páginas deste Diário. Continue e muita paciência e sobretudo bom humor para a sua jornada de mais uma ano! Felicidades.
A que ponto se chega, heim? Se bobear ainda tem que evitar os flagrantes para que as crianças não corram o risco de se machucarem nas grades.
A propósito, que mal lhe pergunte, mas você já pensou em se mudar de casa?
Olha, Sr Monstro das Maçãs-da-Índia. aqui no Brasil ha uns 10 anos atraz javi mulecada jogando bombinha na casa dos monstros-do-não-devolve-a-bola. entaum acho q mulecada é tudo igual sim... so q hj é mais sem limites...
muito bom o post bem divertido me faz me lembrar...
abrax
Eu sou brasileira e tambem mora na Africa, mas na Africa do Sul... Mas por ser produtora de uma revista angolana sei muito bem o que diz... e complicado e somente morando na Africa para poder dizer o que realemnte e isso aqui...
cara, esse foi um dos seus melhores posts
"Postos melhores virão". É por essas e muitas outras que ninguém consegue ficar mais de 2 anos aqui... é um cotidiado muito difícil!
Poderia postar uma foto da arvore e dos frutos?
Nao foram as criancas que mudaram, o que mundou foram os homens.
NO meu tempo de kadengue de luanda nao era necessaria permissao,e muito menos para colher fruta...algo esta errado ou entao sou eu que nao entendi o texto...ja agora quem quer foto da fruta em causa escreva para emanuel1950@gmail.com que tenho muito gosto em enviar. Emanuel Teixeira, ex correspondente de guerra, jornalista, fotografo e umas coisas mais...saludos!
Postar um comentário