sexta-feira, 15 de maio de 2009

O QUE VEM A SEGUIR?

O que determina o comportamento de uma pessoa?

O que determina o comportamento de um povo?

O que leva ao sucesso ou ao fracasso?

Já disseram que o sucesso é solitário.

E o fracasso? Será também solitário ou o conjunto de fracassos individuais?

No último ano, percorri 11 países africanos.

Deu para ter uma idéia rasa, rasteira, ridícula do que é esta parte do mundo.

Na verdade, não deu para nada. O que se pode entender com visitas de alguns dias, nos piores casos, e de algumas semanas, nos melhores casos?

Serviu apenas para dar cores, cheiros e rostos aos fatos, histórias e coisas que li nos livros, na internet, nas revistas, nos jornais.

Há pessoas incríveis por aí. Por um breve momento, jornalistas chegam, contam as histórias dessas pessoas. Elas se sentem (?) importantes.

Sentem?

Ou essas pessoas têm a importância que atribuímos a elas?


São importantes pelo tempo e dimensão que quisermos.

Somos os senhores da importância. Elegemos quem será importante até a próxima edição, até a próxima vítima.

E, quando partimos, elas já não são mais importantes. Cumpriram seu papel.

Estariam condenadas às suas maravilhosas vidas medíocres?

Enquanto nas cidades pensamos no novo computador, no novo carro, no novo filme do Batman e na origem de Wolverine, nas selvas do Congo mulheres e crianças tentam passar um dia sem serem vítimas de abuso sexual.

O que terá acontecido com aquela garota de 17 anos que conheci em Goma? Aos 10 anos ela foi brutalmente estuprada por quatro homens. Precisou de cirurgias de reparação no ânus e a na vagina. A bexiga rompeu. Ela não tinha controle sobre a urina.

Fui embora num avião e ela continua no Congo.

Por que ela nasceu no Congo e vive uma vida desgraçada?

Afinal, é uma vida desgraçada? Para quem? Qual a referência de desgraça para ela? É a mesma para mim?

O telescópio Hubble viu coisas que ninguém mais viu. O homem envia foguetes, robôs, telescópios ao espaço. Recebe sinais estranhos do espaço sideral.

Enquanto parte da humanidade está na iminência do próximo salto, a outra parte está voltada para trás.

Em 2001, uma Odisséia no Espaço, o monolito negro simbolizava o que vinha a seguir. O próximo passo, o próximo salto.

Quando os homens das cavernas fizeram dos ossos uma arma de matar, o monolito negro estava lá para jogar a humanidade na era espacial. Quando o computador Hall perdeu o controle, lá estava o monolito negro para jogar o homem numa miscelânia espaço-temporal.

O que vem a seguir?

6 comentários:

Helga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Helga disse...

Querido Diário,

"Estariam condenadas às suas maravilhosas vidas medíocres?"

Acho que só estarão se se permitirem. Claro, a maioria vai pelo que os outros pensam, infelizmente, mas é com esperança que digo que o negócio vai, devagar mas vai.

Sobre a menina, que você contou a história e foi embora: Vc contou sua história, entende? Não saberíamos que havia uma menina assim se você não o contasse. Imagine se outros relatos históricos não fossem contados também. Quanto mais pessoas tomarem conhecimento dessa (e doutras) histórias, melhor.

Você está fazendo um bom trabalho. Um ótimo trabalho. E você ficaria mais tempo em cada país se pudesse. :)

Anônimo disse...

Espero que a seguir venham outros que relatem as "cores, os cheiros e rostos" com a riqueza de detalhes que tanto nos impressionaram e emocionaram.

Outro dia assisti a um programa no qual as meninas de uma tribo africana são chicoteadas num ritual em honra dos irmãos que marca a passagem deles da infância para a vida adulta. Elas eram chi-cote-a-das, e detalhe: alegremente.

Assim como assisti ao documentário 'Pátria Proibida' - emocionante - em que tudo que aquela gente quer para o seu povo é uma vida melhor, o que inclui paz. E fica claro a ligação deles com a sua terra, com a sua gente, apesar de todas as atrocidades.

De fato, não poderemos saber o que é alegria e desgraça para todas essas pessoas, tem muita coisa que não podemos mensurar, já que as diferenças são abissais, mas esses trabalhos aproximam e despertam a atenção para a África e seus problemas.

Talvez esteja muito longe o tempo em que os congolês ou o sudanês, por exemplo, possam se ocupar do próximo computador ou carro, mas quero crer que evoluir deva ser o caminho natural, civilidade, respeito às diferenças, dentre outras coisas, já seria um grande passo.

Lara Maria disse...

O mundo se esquece de que por baixo da pele todos somos negros. A África é a nossa mãe e, teoricamente, somos todos irmãos, mas isso é uma questão da evolução dos espíritos. Há desgraça no mundo pois ela é uma consequencia dos fatos que correram no passado e devem ser reparados.
"Ou é pelo amor ou pela dor"

- antes que pergunte, sou espírita, sim.

Ju Borges disse...

Viver aí nesse continente transforma demais as pessoas. Ninguém sai igual. Engraçado, começo a sentir um tom tão diferente nos seus relatos... não sei bem explicar o que é... bjs!

Afonso Loureiro disse...

África, essa terra de extremos, que um dia amamos para odiar no dia seguinte, já te marcou...

Eu também senti que cresci, talvez não nas direcções previstas, mas mudei.