Acho curioso os que se irritam com quem se irrita com o caos.
Como se o caos fosse algo etéreo, e não o resultado das ações das pessoas.
Acho curioso quem adota o discurso do “isso é Angola”, “Angola é assim mesmo”, “você tem que entender que eles estavam em guerra” e outras frases feitas como se todos fossem obrigados a se submeter ao caos sem reagir.
É um raciocínio típico de quem vive nas tais bolhas de expatriados.
Em geral, funcionários de multinacionais que vivem em outra Luanda.
Na Luanda onde os motoristas angolanos são pagos para se estressar no lugar deles.
Na Luanda em que as bagagens são despachadas no aeroporto por angolanos.
Na Luanda em que as bagagens são retiradas das esteiras no desembarque por angolanos que vivem na Luanda real.
Esses habitantes das bolhas se irritam com quem se irrita com as dificuldades da Luanda real, pois para eles é impossível entendê-la, uma vez que nela nunca estiveram.
Já a viram de longe, por trás dos vidros escurecidos dos carros 4X4 que têm à disposição.
Se não são funcionários das bolhas multinacionais, são funcionários das bolhas dos organismos internacionais, das bolhas construídas pelo governo angolano para assessores, consultores e afins.
São os que não precisam trocar uma lâmpada nem encontrar um eletricista, um pedreiro. Ligam para a empresa e em algum momento alguém aparece para resolver o problema.
Cada um cria a sua bolha. Vivemos em nossas próprias bolhas em nossos próprios países.
O fato de estar em Angola não significa que sou obrigado a achar tudo normal.
E o fato de reclamar não significa que tenho um “ódio visceral” por Angola.
Reclamo das coisas daqui como reclamaria em Portugal ou no Brasil.
Os idiotas continuam a nascer e não escolhem pátria. Estão entre nós.
Os relatos feitos aqui no Diário são reais. Não há histórias inventadas. Não há exageros. E nem há racismo ou preconceito.
Quem mora em Luanda se identifica nas situações.
Quem já precisou contratar um serviço qualquer em qualquer país do mundo terá pelo menos meia dúzia de histórias terríveis para contar de incompetência, má-vontade e falta de caráter.
Só que não vivo no Brasil nem em Portugal e nem escrevo sobre os problemas de lá.
É claro que os relatos do Diário são parciais. E não poderia ser diferente, pois são resultado da experiência num lugar que não funciona.
Luanda não funciona.
Mas poderia funcionar.
São inúmeros os exemplos cotidianos de situações que poderiam ser resolvidas facilmente pelo bom senso das pessoas.
E não falo dos miseráveis que perambulam pelas ruas da cidade. Falo dos angolanos ricos, a classe média emergente que só quer saber de um telemóvel novo e de um carro importado.
São os mesmos que se comportam quando estão no exterior. Respeitam faixa de pedestres, não bloqueiam cruzamento e não furam fila. Mas bastou voltar para cá e é como se estivessem possuídos por um santo da anarquia.
E isso também não é racismo nem preconceito.
Apenas uma constatação.
Que venham as pedras!
Rés-do-chão
2 horas atrás


16 comentários:
Acho que todos os países têm as suas falhas.Sou portuguesa...tuga como nos chamamos em portugal...pula como nos chamam em angola. Aqui tem-se o habito de andar sempre a dizer um ditado "a galinha do vizinho é sempre melhor que a minha", e acho que isso explica bem o sentimento de descontentamento que temos sempre pelo país onde vivemos.Há sempre algo que podia ser melhor.Nunca fui a angola,apesar de ser filha de retornados...expatriados como chamam por aí (para serem politicamente correctos),no entanto conheço muitos angolanos que me relatam a mesma realidade que o senhor relata.Tem razão no que diz e acho que só criticando e fazendo barulho é que os países andam para a frente e as mudanças ocorrem.Não acho que mereça pedradas pelos comentários que faz...acho que merece um agradecimento por não fechar os olhos e achar que está tudo bem.Está a fazer um favor a esse país.
Parabéns pelos posts, espero que continue escrevendo esses relatos. Eu concordo plenamente com o que você escreveu pois sofri na pele (embora por bem menos tempo, fiquei aí em Angola por 60 dias em um projeto de curta duração).
Você fez o que eu não tive coragem de fazer: criou um blog anônimo, o que te dá uma certa liberdade de escrever. Espero que continue assim, pois é muito difícil encontrar relatos reais de quem está em Angola.
Os posts no meu blog com relatos daí são todos auto-censurados pra evitar problemas, pois é incrível a quantidade de pedras que jogam na gente quando fazemos qualquer reclamação.
Isso é reflexo de um preconceito negativo, o de que todo brasileiro que vai pra Angola é incompetente, vai aí pra ganhar dinheiro e só sabe reclamar. Embora em parte isso seja verdade, não passa de uma desculpa conveniente de quem, como você bem disse, vive em sua bolhazinha.
O que mais custa nas "pedradas" é que, geralmente, quem as manda são aqueles que não perceberam que cada um tem direito à sua opinião.
Quando a crítica é educada, mesmo que não concordemos, temos de a aceitar.
Por vezes, quem vive na bolha, vive também num mundo demasiado fundamentalista, incapaz de admitir que entre o preto e o branco há também o cinzento.
Bem rapaz,só posso te dar mais coragem uai!!!!!!!!!
e fazer uma reclamação sim: eu fiquei na maior curiosidade para saber o que era a tal maçã-figo ,era isso,desculpe-me se o nome não é esse,porque sou uma curiosaaaaa em todos os sentidos......e vc não colocou........(mas eu te perdoo,ok?) vc deve estar ocupado com outras coisas e isso seria muito insignificante,banal.........
mas para mim não ,que sou uma detalhista neurótica.......
creio que me contaminou o espirito anárquico também.........hehehehehe,desculpe-me pela pedrinha e abraços sonia
cara sou fanzaço de teu blog e acredito que esta coberto de razao.
porem...
tenho acessado cada vez menos seu blog em razao desses posts choroes.
gostava muito mais quando simplesmente descrevia situacoes que por si so nao precisavam de quaisquer digressoes maiores que o proprio absurdo que descrevia.
nao sei se me entende. era mais leve. mais gostoso e prazeroso de ler. para ser curto e grosso cuidado para nao reclamar demais e virar um chato.
abco!
perfeito!
JP
Ao Ademar...
O blog do Junior nunca foi anônimo... desde sempre ele mostrou a cara e postou as opiniões dele sem dourar a pilula nem mascarar nada. Quem quisesse mais,podia ver as reportagens dele na TV, e quem quisesse caça-lo nas ruas nem dificuldades teria, já que até foto ele já mostrou :)
O fato dele não alardear aos quatro ventos o nome e a situação dele em Angola não o tornam anônimo...
Não é fácil viver isso aqui... é como há alguns anos, alguns de nós nos orgulhávamos do "jeitinho brasileiro" que aos poucos foi tornando-se sinônimo de malandragem e falta de ética. Poucos abrem a boa para dizerem que o fazem, e muito fazem a sua parte para justamente sermos o contrário, exemplo em tudo oq fazemos. Angola deveria começar a parar de descansar desde a guerra e ir a luta, mas não com cinismo e malandragem, mas com ética e respeito pelos outros, por eles, por tudo e pelo nada.
A diferença é que nós brasileiros somos capazes de reconhecer oq outros páíses tem de melhor que o nosso e miramos neles como alvos a serem atingidos, ainda que mereçam aperfeiçoamento. Em Angola sinto um nacionalismo cego-xiita-burro que é incapaz de aproveitar oq outros países fazem de bom ou como as pessoas desses países se comportam... simplesmente por pura arrogância. Outro diz fui obrigado a ouvir de um angolano que nunca deve ter ido nem a Benguela se gabar de que a TAAG é uma excelente cia aérea... a melhor da África. É rir para não chorar né?
eu sou Angolano a viver fora ha bwe de tempo,qto tempo? pra ai uns 12anos fora de Angola,nas Europas como dizem..
entretanto, este ano tenho planos de voltar a viver lá...e...sinceramente este blog tem muito do real q por lá acontece!
Tenho familia lá e sei por amigos q ha situações de bradar aos ceus..nao sei porque as pessoas "apedrajam" por ler certas verdades?!
Ok, a guerra...a corrupção..o esquema...a cunha...o analfabestismo e falta de instrução e com alguma falta de vontade de aprender..e a GRANDE vontade política das coias melhorarem, com muita frustraçaõ a mistura e sei lá mais o quê..a listá poderia ter muitas mais razoes..mas já é tempo de as pessoas relamnte mostrarem vontade de trabalhar e melhorar a vida nas cidades de Angola!
Eu como Angolano, tou farto de ouvir falar num pais q mais cresce economicamente, mas q esse crescimnto n tem nenhuma expressao na vida quotidiana..e nem sei se realmente devo ir de volta p Angola..mas enfim, é meu pais!
continue com suas constatações e continaremos espiando seu blog.
Mais um excelente post, como sempre.
Luís
Um leitor diário do teu blog.
Viu?
Nenhuma pedra, só apoios e solidariedade.
O caminho está certo.
Bjks
Não foi em Angola, mas conheci bem essa mistura de sentimentos que você extravazou agora.
Quando ninguém concordava comigo, a frustração aumentava. Quando achava alguém que concordasse, eu sentia que estava certo e a frustração se consolidava. Frustração e tudo mais.
Só suportei porque o tormento tinha data para acabar.
P.S.: Comecei a ler o blog há pouco tempo e já remexi os arquivos todos! Gosto muito do que você escreve.
Que dureza, rapaz! Parabéns pelos posts! E não se intimide com eventuais pedradas. O primeiro passo para resolver os problemas que você está vivenciando em Angola é constatá-los. Não adianta nada varrer a poeira pra debaixo do tapete. Eu vejo seus relatos como uma contribuição para Angola. A argumentação de que você é estrangeiro e, por causa disso, não pode criticar e dar nenhuma opinião sobre esse ou aquele país é de uma assombrosa burrice e de um nacionalismo vazio. Não leva ninguém a lugar nenhum e cheira à censura pura e simples. Parabéns e continue firme! Jamais esperei que pudesse ver um blog brasileiro tão bom sobre a África!
putz Carlos... nenhuma pedrinha? hahaha! Só pra nao deixar barato, aí vai: O que tem de errado com a sua bolha? Foi a mais legal e civilizada que eu visitei em todo o tempo que passei aí.
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