quarta-feira, 25 de novembro de 2009

SOBRE O QUE SERIA UM BOM SALÁRIO EM LUANDA

Bom, o assunto parece mesmo despertar o interesse.

E como o meu amigo R. comentou no post anterior sobre o tema, tampouco parece haver resposta certa.

Luanda tem sido escolhida ano após ano a capital mais cara do mundo.

Na frente de Tóquio, Genebra, Nova York, Londres, Paris e aquelas capitais nórdicas onde todos os problemas da humanidade parecem ter sido resolvidos há uns dois séculos.

Vamos aos fatos.

Entre 1975 e 2002, o país estava mobilizado para a guerra civil.

Não se investiu em infra-estruturas, escolas etc. porque a prioridade era outra.

Sem indústrias, o país não produz nada.

Tudo é importado.

Depois da guerra, as multinacionais (as petroleiras e empreiteiras, especificamente) começaram a desembarcar em peso em Angola.

Além dos diretores, presidentes e consultores, também precisaram trazer profissionais de níveis intermediários para realizar o serviço, diante da carência de mão-de-obra qualificada em Angola.

Esse pessoal passou a disputar a pouca oferta de tudo o que havia em Angola: casas, apartamentos, comida, tudo.

Imaginem que, entre 1975 e 2002, não se ergueu um novo prédio residencial em Luanda (pelo menos não na quantidade necessária).

Praticamente não se fez obras de saneamento básico, infra-estrutura.

Nada.

O esforço era para a guerra.

Desde 2002, o número de estrangeiros que chega ao país só aumenta, aumentando também a pressão inflacionária.

Além disso, começa a surgir uma classe média angolana com poder de compra para consumir bens, produtos e serviços de qualidade.

Isso explica os altos preços.

Uma casa de dois ou três quartos em condições razoáveis de habitabilidade em Luanda, em bairros como Maianga, Miramar, Maculusso, Vila Alice, Ingombotas (posso estar confundindo bairros com regiões. Peço desculpas) não sai por menos de US$ 10 mil mensais.

Arriscaria dizer que há uma grande probabilidade de não sair por menos de US$ 12 mil, US$ 15 mil.

Alguém perguntou quanto custaria comprar uma casa.

Depende, mas acho que só empresas estão comprando casa aqui por absoluta necessidade de hospedar os funcionários.

Só milionários compram casa em Luanda.

Não vale a pena.

Por que tão caro?

Porque não há oferta.

Somente agora começam a ser feitos lançamentos de imóveis na cidade.

Há prédios residenciais e comerciais sendo inaugurados por toda parte, mas ainda vai levar tempo até os preços caírem.

Quanto tempo?

Não sei.

Já ouvi falar em dois, três, quatro, cinco anos.

Ninguém sabe.

Qual seria o salário ideal para viver em Luanda?

Depende de uma série de fatores que várias pessoas já comentaram.

Se o seu contrato prevê que o empregador vai pagar o aluguel, é importante você saber onde fica a casa.

Qual bairro?

A rua é calçada?

Em Luanda, várias ruas em regiões centrais estão em péssimo estado.

Além dos buracos (muitas não têm asfalto), há problemas de esgoto, bueiros sem tampa etc.

A casa precisa ter um gerador e um tanque reserva para armazenar água.

Os cortes de energia são frequentes em Luanda.

Às vezes passamos três, quatro semanas sem falta de luz.

E depois vem uma semana inteira com cortes de seis, sete horas diárias.

Sem energia elétrica, não há água.

E há bairros que ficam às vezes mais de uma semana sem receber água.

Lembre-se que os aluguéis aqui são pagos com um ano de antecedência.

Portanto, se o seu contrato de trabalho prevê que você vai pagar o aluguel e você conseguiu uma casa de US$ 10 mil, lembre-se que terá de desembolsar, de cara, US$ 120mil.

Se você tem filhos, precisa se preocupar com as escolas.

Estou por fora dos preços, mas já escutei que as escolas internacionais cobram entre US$ 3 mil e US$ 4 mil por mês (talvez mais). Também com um ano adiantado.

Aqui também você vai precisar de um carro um pouco maior.

Não precisa ser uma land rover, mas um RAV-4 da Toyota, que é o carro mais popular em Luanda.

Prepare mais uns US$ 20 mil a US$ 25 mil para comprar um usado em condições.

O nosso carro é um RAV-4 ano 1997.

Pagamos US$ 18 mil há um ano e meio.

E qualquer coisa que você precise fazer no carro é uma fortuna.

Qualquer coisa.

Vou traduzir: aqui, qualquer coisa começa em US$ 500.

A cidade de Luanda não é muito grande.

Arriscaria dizer que seria mais ou menos do tamanho do Plano Piloto, para quem conhece Brasília.

Mas é o caos urbano.

O número de candongas (as vans) diminuiu bastante, mas ainda fazem bastante confusão pela cidade.

O problema da falta de energia impede que os sinais de trânsito funcionem.

Com isso, é um salve-se quem puder nos cruzamentos.

Como as pessoas aqui tendem a comprar carros enormes ( 4x4) e as ruas são estreitas, boa parte de mão-dupla, o trânsito fica ainda mais complicado.

Não se acha lugar para estacionar com facilidade.

Se o seu contrato não tiver um motorista, vale a pena contratar um.

Em alguns lugares é simplesmente impossível ir sozinho.

Não há onde deixar o carro e não dá para resolver tudo a pé.

O salário dos motoristas varia bastante.

Mas é aquela velha história: você recebe aquilo que você paga.

Os salários variam entrte US$ 200 e US$ 500.

É muito?

É pouco?

Não sei.

Tudo bem que os estrangeiros vivem num universo paralelo.

Os nossos preços não são os preços dos locais.

Em geral, pois os angolanos são muito afetados por toda a pressão inflacionária no país.

A alta dependência do petróleo e a falta de diversificação da economia não criam empregos.

Boa parte da população sobrevive vendendo coisas nas ruas.

Portanto, é impossível comparar esse tipo de coisa.

O estrangeiro que vem para cá vive na bolha do estrangeiro, que é mais cara, pois ele tenta reproduzir aqui o mesmo estilo de vida que levava em seu país de origem.

Só que os produtos e serviços que ele consumia lá não existem aqui e, quando existem, são mais caros.

Para os empregados domésticos, é o mesmo raciocínio.

Salários variam de US$ 200 a US$ 500.

Eu, particularmente, acho difícil você conseguir contratar alguém por US$ 200 mensais.

O ideal, como em qualquer lugar do mundo, é contratar alguém indicado.

Serviços também são caros.

Pintores vão cobrar US$ 200 para pintar uma parede.

Eletricistas vão cobrar US$ 100 para puxar uns fios e consertar um curto-circuito.

Encanadores vão cobrar US$ 100 para serviços de uma hora.

É preciso ter uma boa rede de contatos e contratar quem sabe fazer.

A falta de qualificação é grande e, como já aconteceu comigo várias vezes, é preciso contratar outra pessoa para refazer o trabalho que alguém acabou de fazer.

Supermercado?

Prepare-se para gastar uns US$ 300 num carrinho com produtos que no Brasil sairiam em torno de R$ 200.

Há alguns bons restaurantes em Luanda.

Depois de um tempo aqui comecei a me acostumar com os preços e a perder um pouco a noção entre o caro e o barato.

Sei lá: um jantar simples sem vinho sai por algo entre US$ 40 e US$ 60 por pessoa.

Num lugar que, em Brasília, onde eu morava antes de vir para cá, sairia por R$ 40.

Está fazendo as contas?

Vamos lá: US$ 10 mil de aluguel (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de motorista (se você for um cara de sorte) + US$ 400 de empregada doméstica (se você for um cara de sorte) = US$ 10.800.

Seu mês começa em US $ 10.800.

Se você for um cara de sorte.

Se não trouxer filhos.

Se conseguir um carro que não dê problemas a toda hora.

Se alugar uma casa que não tenha vazamentos nem problemas elétricos.

Se não tiver que contratar um segurança para ficar na sua porta.

Faltou dizer aqui de coisas importantes que você precisa negociar e alguém mencionou num dos comentários.

As folgas.

Em geral, os estrangeiros das multinacionais trabalham três ou quatro meses aqui e têm direito a duas semanas de folga no seu país de origem.

Há gente que trabalha num outro esquema: 28 dias direto, sem fim de semana nem feriado, e outros 28 dias de folga no seu país de origem.

Quem fica três ou quatro meses e tem direito a folga também tem direito a passagem para seu país de origem.

O mesmo para os que fazem 28 por 28.

Essa é a média.

Mas há dezenas de outros tipos de contrato.

Gente que negocia duas passagens por ano para o seu país de origem etc.

Aí é a negociação caso a caso.

O importante é você não se iludir nem se deslumbrar quando te acenarem com um salário que no Brasil seria espetacular.

Um salário é apenas um número sem valor se você não conhece a realidade do lugar para onde vai.

Tem que colocar tudo na ponta do lápis.

Não embarque em aventuras.

E, se puder, venha conhecer Luanda (ou o lugar onde vai trabalhar e morar) antes de decidir.

Sei de gente que pede para sair no primeiro mês.

A realidade aqui é muito diferente da brasileira.

Não interprete nada a partir da sua perspectiva.

Você precisa mudar a forma de raciocinar.

As regras são outras.

Os códigos são outros.

Mas também é uma grande experiência.

Assim como aí no Brasil você é obrigado a conviver com brasileiros muito chatos e malas, aqui você também vai conhecer muitos angolanos chatos e malas.

Mas também vai conhecer angolanos muito legais que vão mudar o seu jeito de encarar a vida.

Pense nisso e não acredite em nada do que escrevi.

Venha ver como é.

17 comentários:

Anônimo disse...

Não sou um cara de sorte.

Para mim, um salário bom em Luanda seria: 15 mil de auxílio moradia + 15 mil de salário. No mínimo.

Como tenho muito azar, e certamente encontraria casa para reformar, carros problemáticos, etc, precisaria também de uma ajuda de custo (paga apenas uma vez) de 30 mil dólares para sair do Brasil e ir para Luanda. Esse dinheiro eu usaria para comprar um RAV-4 e para as despesas iniciais.

Helga disse...

Uau, adorei.

Melhor relato de um país que eu já li. :) Resume bem a estada em Angola. Ok, pelo menos dá pra se ter uma ideia muito boa.

vipinho disse...

Posso dizer que desde que comecei a ler o teu blog, este foi o post mais certeiro sobre a situação em que nos deixou a guerra civil. Não culpas nem tentas culpar ninguém, simplesmente mostras que as circunstancias tornaram Angola (ou Luanda) no que ela é hoje. Fico triste por ver a minha cidade nesta situação, mas também só posso ficar contente porque pelo menos as empresas estrangeiras trazem algum trabalho para cá. Mas sem qualificação nacional, é mesmo difícil Angola sair do buraco em que se meteu tão cedo. Dum teu fã do Maculusso. Avante!

Anônimo disse...

Obrigado peslas respostas, é bem legal ter essa visão de Luanda de quem está aí vivendo o dia a dia.

Imagino que essa situação somente piora o desenvolvimento do país, afinal a empresa precisa ter um retorno muito significativo para manter um profissional no país com um custo tão alto!!

Só mais uma duvida..., e o sobre o turismo?? Quanto se gasta com hotel ou aluguel de carros por aí??

[]'s!!!

Diário da África disse...

Anônimo,

O alto custo que as empresas têm para trazer funcionários está embutido nos contratos com o governo daqui. É tudo repassado para o consumidor.
Em relação ao turismo, ainda não existe infra-estrutura. Os hotéis são poucos e caros. É difícil fazer reserva e as diárias num hotel três estrelas começam em US$ 250, US$ 300.
Isso quando o hóspede não é surpreendido na chegada com a informação de que a reserva foi cancelada.
Há diversos casos de pessoas que saíram para trabalhar e, quando chegaram à noite, toda a bagagem havia sido retirada do quarto porque o hotel colocou outra pessoa no lugar. Mesmo com as diárias tendo sido pagas antecipadamente.
Um carro simples com motorista não vai sair por menos de US$ 150.

Helga disse...

Situações surreais.

Ademar disse...

Estive envolvido em um projeto em Angola no final de 2007. Era um projeto com o governo de lá, em parceria com uma empresa angolana. Todas as nossas despesas eram reembolsadas e moradia/transporte era de responsabilidade da empresa parceira (o que não quer dizer que tudo funcionasse a contento, muito pelo contrário, mas já ajudava bastante).

A minha recomendação pra quem me pergunta sobre salário é parecida com a sua: vá com tudo pago por 1-3 meses e veja por si só, você não tem nada a perder (a não ser possíveis compromissos no Brasil). Só aceite ir por conta se já tiver experiência lá.

No meu caso o projeto era de curta duração, então ficávamos 1-3 meses sem despesa alguma e recebíamos um bonus no salário brasileiro. Foi uma ótima experiência. Ninguém ficou rico, mas deu pra custear as férias na África do Sul antes de voltar (tenho alguns relatos no meu blog se alguém tiver curiosidade).

Diário da África disse...

Falando em salário, se for possível, peça para receber no Brasil.
Receba em Angola apenas o necessário para a sua sobrevivência.
Por conta da crise econômica, o governo passou a restringir remessas para o exterior. Tirar dinheiro daqui agora é uma complicação.

MM disse...

Um dos melhores posts. Franco, direto na veia, uma fotografia escrita, sem viés publicitário, de um realismo pragmático e crítico único. Os comentários dos leitores também. Enriquecedores e complementares. Para quem está em SP, mora no Morumbi, leva vida de classe média, fica a sensação de que sou feliz e não tenho noção disto. O que parecia ser um dos melhores investimentos, comprar um imóvel de 2 quartos para alugar em Luanda, pelo jeito o valor inicial e a realidade inimaginável para quem vê um ângulo só de fora, sabota este raciocínio.

Diário da África disse...

Os preços dos imóveis são altíssimos.
Em Luanda Sul, as casas dos primeiros condomínios custavam cerca de US$ 1 milhão. Ouço relatos de que já passaram dos US$ 3 milhões.
É uma bolha imobiliária que também não se sabe quanto tempo vai durar.
O outro problema é que a posse da terra aqui é complicada. Tudo pertence ao EStado.
Agora é que começam a tentar regularizar essas coisas.
Os imóveis deixados pelos portugueses que foram ocupados pelos angolanos pertencem ao Estado.
Não sei bem como funciona essa questão de propriedade, mas sempre ouço que há muita confusão na hora de comprar ou vender imóveis.
Se algum leitor tiver mais informações, por favor, fique à vontade para escrever.
Para quem pensa em investir em imóveis em Angola, é preciso se informar MUITO antes.
Não sei quais as restrições para estrangeiros não-residentes comprarem imóvel aqui.
Não são coisas simples de se fazer.
Da mesma forma que não se deve iludir com os valores dos salários daqui, cuidado com essas propostas mirabolantes que prometem dinheiro fácil e retornos sensacionais.
Se alguém chegar com uma conversa de "vamos comprar um imóvel em Luanda e alugar por US$ 15 mil por mês e viver tranquilos no Brasil ou em qualquer lugar".
Cuidado!

Thiago Interaminense disse...

Eu conheci um cara mala, que morava aqui no Brasil e agora mora em Angola. Um jornalista da TV Brasil.. hahahahaha

Brincadeira. Vou colocar esse seu posto no meu twitter, tudo que alguém que quer morar em outro país precisa saber..

Parabéns!

Diário da África disse...

Thiago,
Eu acho que também conheço esse sujeito.
Bota mala nisso!

LUCAS RODRIGUES disse...

júnior, parabéns pelo Blog... tenho lido algumas coias e gostei muito... tá nos meus favoritos... quando volta na tv pra matar saudade da galera??? Abraços Lucas Rodrigues

Diário da África disse...

Lucas,
Valeu!
Devo aparecer por aí entre o final de fevereiro e o começo de março.
abs

Helder disse...

Formidável!!!
Muito elucidativo e sem rodeios.
Parabéns pelo excelente blog, e muito mais pelo assunto abordado neste post.
Para os angolanos na diáspora fica apenas o sentimento de "perda". Perda dos ideiais que alimentávamos, dos slogans que nos embalaram ao longo dos 16 anos anteriores aos acordos de paz de Lusaka, e uma série de promessas que a revolução não foi capaz de cumprir.
Ficamos com o gosto e a sensação de filhos abandonados e traídos.
Voltar é um sentimento que não nos abandona. Mas como encarar esta dura realidade? Bolhas imobiliárias, custo de vida altíssimo, falta de recursos para reiniciar a vida numa Luanda a cada dia mais descaracterizada. Bonita para poucos, e por demais realista para tantos, tal como você meu caro Diário.
Triste dilema e triste sina a dos que amam Angola profundamente, e que receiam encarar a vida dura deste país amado e mal administrado.
Penso que há riquezas para todos, mas falta garantir o básico. Quem sabe se a busca pelo básico não leva os próprios nacionais a encarar a vida como uma selva? Nessa ânsia, perdem-se valores e princípios, porque aquele que deveria garantir o direito de todos, o Estado, busca em primeiro lugar os seus próprios direitos e interesses, abandonando os angolanos à sua própria sorte, e que sorte!
Claro que o angolano não deve usar tais argumentos para justificar os meios utilizados para alcançar certos fins.
Desculpe o meu desabafo.

Abraços. O Mengão está chegando!!!

Filipe Santos disse...

tenho 26 anos e sou de portugal.
tenho em maos uma oferta de trabalho em angola.

que ajuda me podem dar em termos de condiçoes a exegir no contrato para conseguir me aguentar la..

quem puder ajudar mande mail..
obrigado:

xzibit_18@msn.com

Anônimo disse...

esse relato está um tanto quanto exagerado. eu vivo em luanda e sei a realidade daqui, realmente obter casa em luanda não é facil, mas vc encontra casas com frequencia (para comprar) a 80- a 150 mil dolares, em condominios fechados com condiçoes adequadas para se viver. para alugar um apartamento com no minimo 3 quartos pode custasr entre 2000- 3500 dolares. a pessoa pode encontar uma empregada q peça como salario 200-400 usd. no q concerne a escolas internacionais no país é q o preço é bastante elevado. por ano um pai pode pagar até 23 mil dolares anual. a escola com um dos preços menos caros entre as outras é o colegio portugues( a propina mensalmente ronda os 1400 dolares.)