Reportagem da TV Brasil sobre a Tunísia.
sábado, 31 de janeiro de 2009
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
HEDI JOUNI
quarta-feira, 28 de janeiro de 2009
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
OS EXÍMIOS MARTELINHOS DE OURO E AS GAROTAS DE PROGRAMA ACIMA DO PESO DE UM HOTEL EM ARGEL
Muito trabalho, muito sono.
Vou só contar dois episódios no hotel Sheraton, em Argel, onde estamos “confinados” (depois também detalharei).
Episódio 1: um grupo de brasileiros está hospedado no hotel 5 estrelas. O grupo veio trabalhar para a Renault. Uma chuva de granizo amassou uma centena de carros 0km que estavam estacionados no pátio da empresa em Argel.
Os brasileiros, exímios martelinhos de ouro, estão aqui para desamassar os carros.
Não é sensacional?
Episódio 2: as garotas de programa que fazem ponto no hotel. Atuam ostensivamente no bar da recepção e numa espécie de boate que funciona no primeiro andar. Caminham para lá e para cá, encarando os homens no fundo dos olhos, com sorrisos convidativos.
São jovens e estão, com uma exceção ou outra, acima do peso.
Uma delas está sentada na mesa ao lado da do nosso grupo. Está acompanhada de um homem mais velho, na casa dos 50 anos.
Magro, de bigode, relógio de ouro, anelão com rubi no dedo. Fisicamente me lembra o deputado Aldo Rebelo.
Ele toma o mesmo copo de cerveja há duas horas. Sobre a mesa, quatro aparelhos de celular.
A moça que o acompanha lança olhares gulosos aos homens. Arqueia as sobrancelhas, pisca os olhos.
A cada 10 minutos deixa o companheiro e dirige-se para o lado de fora da boate, que funciona, lembrem-se, dentro do hotel.
O homem que a acompanha é, obviamente, o cafetão.
É impassível em relação aos olhares que a fauna masculina do local lança sobre sua propriedade.
Ele não precisa se alterar. Controla tudo com seu olhar frio, como se fosse desembainhar uma cimitarra e decapitar qualquer um que ameace seu negócio.
Os colegas que foram ao banheiro dizem que ela os encarou e piscou o olho na ida e na volta.
Eu, como tenho medo dessas coisas, nem olho para a moça.
Um dos colegas resolve perguntar o preço. Espera a moça sair e vai atrás.
Volta cinco minutos depois.
Segundo ele, ela cobra US$ 200 por pessoa e faz uma fila. Dois quartos em uma hora e meia. Também aceita ménage à trois. Mas aí o preço sobe para US$ 400 por pessoa.
Subo para o quarto.
O governo argelino finalmente concedeu autorização de trabalho.
Amanhã tem trabalho.
domingo, 25 de janeiro de 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
PARECE QUE TRAÍRAM O GENERAL REBELDE LAURENT NKUNDA

Segundo leio nas agências internacionais, a prisão aconteceu “na seqüência de uma ofensiva militar” dos exércitos da República Democrática do Congo (RDC) e de Ruanda contra milícias da etnia hutu que atuam no leste da RDC.
As milícias hutus são as mesmas que fugiram de Ruanda depois do genocídio de 1994 e até hoje aterrorizam moradores da região, em especial os da etnia tutsi, a mesma de Nkunda e do presidente de Ruanda, Paul Kagame.
A história ainda carece de mais detalhes, mas parece que, no meio da confusão, Nkunda e os soldados que o protegiam tiveram de fugir para Ruanda, onde acabaram presos.
A RDC pede a extradição de Nkunda, considerado pelo governo do presidente Joseph Kabila um criminoso de guerra.
Em novembro estive em Goma, capital da província de Kivu Norte.
Nkunda controlava a parte norte da província e seu Congresso Nacional do Povo (CNDP) ficava baseado na cidade de Rutshuru, a 85km de Goma.
Nas estradas, soldados com fusis AK-47 e lança-foguetes.
As tropas de Nkunda estavam com moral alta naquele momento. Duas semanas antes, haviam feito uma ofensiva contra o exército congolês e chegado a cerca de 10km de Goma, cidade ocupada pelas tropas da ONU.
Vi Nkunda de perto, numa manifestação organizada no estádio municipal de Rutshuru. Depois, numa entrevista coletiva, consegui fazer duas perguntas para ele.
Nkunda é alto e magro. Destaca-se em relação aos demais militares do CNDP. Usa uma bengala com uma águia de aço na ponta.
Aos 41 anos, é formado em psicologia e justificava sua luta como a única forma de proteger a população tutsi dos ataques das milícias hutus. Acusava o governo do Congo de corrupção e desrespeito à Constituição.
Nos dois últimos meses, sua influência no CNPD diminuiu e Nkunda passou a ter sua autoridade questionada.
Um grupo de militares, liderado pelo chefe do Estado-Maior do CNPD, Bosco Ntaganda, também segundo leio nas agências internacionais, teria assinado um acordo com o governo congolês e sido integrado ao exército regular – ou algo parecido.
Tudo isso, na verdade, só me levar a crer que Nkunda foi traído pelos antigos companheiros, cansados de manter uma guerra sem qualquer expectativa de vitória.
Kinshasa, a capital da RDC, fica a 2,5 mil quilômetros de Goma. Não há acesso por terra. Imagine quanto tempo essa confusão ia durar.
Ainda é cedo para saber o que houve de fato e faço aqui minhas especulações.
Nkunda foi traído. É possível que as altas patentes que o abandonaram negociaram cargos no governo, eventual reconhecimento do CNPF como força política, áreas ricas em minerais etc.
Laurent Nkunda, aparentemente, não tinha apoio internacional.
Havia acusações de que o governo de Ruanda dava apoio logístico e financeiro ao rebelde Nkunda. Todos os lados sempre negaram tais afirmações.
O fato é que os governos da região precisavam fazer uma opção: ou permitiam a existência de Nkunda, prolongando um conflito que só levaria mais sofrimento a milhares de inocentes, ou iam atrás do general rebelde.
Parece que fizeram uma escolha.
LADYSMITH BLACK MAMBAZO
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
A CAMINHO DE TRÍPOLI
Não gastei mais de 15 minutos no ritual check-in-aparelho de raios-X-imigração.
Em Luanda, a operação toda leva de três a quatro horas.
O destino final do meu vôo é Abdijan, com escala em Acra, onde desço para fazer a conexão para Trípoli.
No ckeck-in, a moça GARANTIU que não preciso pegar minha mala em Acra e que ela ESTARÁ no aeroporto de Trípoli.
Como sabem, nunca gostei de viver perigosamente.
Nessa passagem pela África do sul, comprei dois livros.
Uma biografia de Jacob Zuma (Zuma), provável futuro presidente da África do Sul; outra de Thabo Mbeki (Thabo Mbeki and the battle for the soul of the ANC), ex-presidente do Congresso Nacional Africano e ex-presidente sul-africano, defenestrado dos cargos pelos ardis de Zuma, seu antigo vice-presidente.
As eleições gerais na África do Sul devem acontecer entre abril e maio.
Zuma continua como o favorito na disputa contra o candidato do Congresso do Povo (Cope, na sigla em inglês), partido recém-criado por ex-integrantes do CNA depois de brigas internas desencadeadas com a saída de Mbeki da presidência do país.
Acho que devo voltar aqui no final de abril.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
UM VISTO NA MÃO, UM VISTO PERDIDO E UM MANDELA GIGANTE. INSHALÁ
Tudo escrito em árabe
Não entendi uma palavra.
Tomara que seja mesmo um visto e não alguma ordem de detenção assim que eu desembarcar no aeroporto em Trípoli.
Achei curioso que, no formulário que preenchi na embaixada, eles perguntam a religião da pessoa.
Fomos orientados a não levar bebidas alcoólicas e nem revistas pornográficas nas malas.
Bom, essa história está resolvida. É o visto na mão.
Agora, o visto perdido.
Mais uma vez, não consegui contato telefônico, mediúnico nem de fumaça com a embaixada de Angola em Pretória.
Os telefones só davam sinal de ocupado. TODOS.
Vou embora sem o visto no passaporte ordinário. Voltarei a Angola com meu passaporte secreto.
Ou talvez não volte. Sabe-se lá o que o norte da África me reserva.
Hoje acordei, de novo, às 6h da manhã. Seis e quinze, para ser mais honesto.
Sempre coloco vários alarmes para me acordar. O primeiro, às 5h50. O segundo, às 5h50. O terceiro, às 6h.
Não tinha como enrolar. Eu precisava confirmar se o passaporte com o visto estava certo. Se não tivesse, eu teria de voltar à embaixada da Líbia.
E o motorista que me levaria a Joanesburgo para mais um dia de trabalho chegaria às 7h.
A estadia em Pretória, por causa da proximidade com as embaixadas, acabou me sacrificando.
Por causa do trânsito, duas horas para chegar a Joanesburgo.
O dia foi bem produtivo, mas não consegui entrevistar o Joel Santana, técnico da seleção sul-africana. Ele deu uma coletiva pela manhã, para falar sobre a próxima partida.
A idéia era uma reportagem sobre a Copa do Mundo do ano que vem. Na segunda-feira faltarão 500 dias para a partida de estréia.
Havíamos acabado de chegar à sede da Associação Sul-Africana de Futebol quando nos informaram que o local da entrevista havia sido transferido. Não dava tempo de chegar. Nem fomos. A história da copa vai ficar para a próxima.
Mas vi o estádio de Soccer City em obras. Vão ampliar a capacidade de 80 mil para 95.700 pessoas.
Esse estádio será um dos 10 que abrigarão os jogos das seleções e foi o primeiro do país estruturado para receber partidas internacionais.
Além disso, o Soccer City faz parte da história do país. Foi lá, em 1990, que Nelson Mandela fez seu primeiro comício depois de ter sido libertado da prisão, após 27 anos atrás das grades.
Pela manhã, também passamos em frente à casa do Mandela. Fica numa rua tranqüila, muros altos e quatro carros de polícia permanentemente estacionados na porta.
É proibido estacionar o carro na rua. É cana certa.
Num dos shoppings da cidade, vi uma estátua gigante do Mandela. Sorriso aberto, simulando um passo de dança, como puderam ver na foto de abertura do post.
Vi o Mandela ao vivo duas vezes. A primeira foi em Brasília, em 1998. Ele estava terminando o mandato de presidente e foi fazer uma visita de estado ao Fernando Henrique Cardoso.
Eu estava na cola dele. Um dia antes da entrevista coletiva que deu no hotel, eu estava na recepção quando a comitiva, liderada pelo próprio Mandela, chegou de um dos compromissos oficiais.
A polícia fechou tudo e impediu o acesso da imprensa. Mas como eu já estava dentro do hotel, acabei ficando ao lado de alguns sul-africanos residentes no Brasil.
Mandela cumprimentou um por um. Quando chegou minha vez, perguntou quem eu era e o que estava fazendo ali.
Eu, em toda minha mulatice, disse que estava ali por causa dele.
Mandela é alto. Mais alto do que eu, que tenho, dependendo do dia, 1,84m e, dependendo de outros dias, 1,85m. Mas tem dias que tenho 1,50m. E alguns poucos em que fico com mais de 2m. Esses são mais raros.
No dia seguinte, na coletiva, a imprensa toda o aguardava numa sala do hotel. Ele chegou com uma camisa estampada com motivos africanos.
Foi a primeira vez que fiquei impressionado com a presença de uma pessoa.
Mandela emanava uma nobreza impressionante.
Quando se sentou na cadeira para começar a entrevista, parecia mesmo um rei africano.
É difícil explicar. Nem sei se conseguirei, mas ele tem uma superioridade. Fiquei com a sensação de que estava diante de uma pessoa que nasceu com uma missão a ser cumprida.
Depois de ficar 27 anos preso, tornou-se presidente da África do Sul e, após cumprir o mandato de quatro anos, decidiu não concorrer mais.
Tivesse tendências tirânicas, estaria até hoje no poder.
É o que vemos na África. Gente há 10, 20, 30 anos no cargo.
A segunda vez que vi Mandela foi em outubro do ano passado, em Maputo.
Ele estava em Moçambique, hospedado na casa da sua esposa, Graça Machel (viúva do ex-presidente moçambicano Samora Machel, morto num acidente aéreo em 1986).
Recebeu a visita do presidente Lula. Depois do encontro reservado, apareceu e posou para algumas fotos.
Com dificuldades para andar, chegou de braços dados com Lula. Na não livre, uma bengala. Usava aparelhos para surdez, mas vinha com o mesmo sorriso contagiante que eu vira na vez anterior, há 11 anos, em Brasília.
Fez piadas com os jornalistas e disse que, naquela idade, 90 anos, ele não deveria mais estar recebendo autoridades, e sim cavando a própria cova.
Deixo encaminhado um pedido para entrevistar Mandela. Tomara que ele aceite.
Amanhã embarco para a Líbia. De carro até Joanesburgo. Depois, um vôo até Acra. De lá, troco de avião e amanheço em Trípoli.
Inshalá.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
UM VISTO QUASE NA MÃO, OUTRO VISTO QUASE PERDIDO E UMA PRETÓRIA DESCONHECIDA
Estou em Centurion, um bairro afastado da cidade.
O trabalho fica em Joanesburgo.
A primeira entrevista estava marcada para às 10h.
O motorista veio me pegar às 7h. São cerca de 60km, mas por causa do trânsito, levamos mais de duas horas para chegar.
Joanesburgo, pelo menos a parte em que estive, é uma cidade intramuros. Muros altos, arames farpados e enormes placas alertando os meliantes sobre possíveis reações armadas aos invasores.
Restaurantes fecham cedo. Fui jantar com Pedro e Isabel. Quando terminamos, às 22h30, éramos os últimos e os garçons só esperavam nossa saída para fechar as portas.
Comparado com Luanda, tudo é muito organizado e pacato. Mas deve cansar depois do terceiro dia.
Parece que o meu visto para a Líbia foi finalmente conseguido. Só conseguirei saber amanhã.
O visto para voltar a Angola parece que vai ficar para a próxima.
Simplesmente é impossível estabelecer qualquer contato telefônico, mediúnico ou de fumaça com a embaixada angolana em Pretória.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
LOST AND ALONE IN PRETORIA
Jantei sozinho numa mesa de quatro lugares no restaurante do hotel.
Cerveja sul-africana.
De entrada, carpaccio feito com carne de avestruz e orix.
Como prato principal, carne, arroz e uns legumes.
Estou no lobby porque a internet não funciona no quarto.
O dia foi um cipoal.
Pela manhã, fui ao shopping ao lado do hotel comprar um telefone local e tirar cópias do passaporte para apresentar na embaixada da Líbia.
Em seguida, me desloquei 40 minutos até um dos extremos de Pretória (ainda não entendi a cidade direito, mas me parece formada por pequenas aglomerações espalhadas, bem espalhadas) para deixar o passaporte para ser traduzido para o árabe pelo Mr. Ali, tradutor juramentado indicado pela embaixada líbia.
Mr. Ali é líbio radicado em Pretória. Promete me entregar o passaporte às 14h. Pergunto se posso pegar às 15h. Ele diz 14h30. Como bom árabe, não perde a chance negociar. Nem mesmo no horário.
Ligo para a embaixada da Líbia para perguntar se a carta-convite chegou. Não chegou.
A moça do serviço consular pede meu número de passaporte. Depois de alguns segundos de esperança, ela diz que há vários pedidos de vistos, mas não para mim.
Ela diz para eu ligar em uma hora e falar com o chefe dela, Mr. XPTO (não consegui entender o nome dele).
Preciso entrar em contato com o Brasil, mas estou quatro horas na frente.
Aproveito para passar na embaixada de Angola e checar se a carta do Centro de Imprensa pedindo que me seja concedido visto de retorno chegou.
Não consigo passar do portão. Na portaria envidraçada, um sujeito diz pelo interfone que o adido de imprensa não chegou.
Pergunto se posso falar com alguém do consulado, uma vez que já estou ali mesmo.
Em inglês, o sujeito diz que não posso. Pede para eu anotar os telefones da embaixada que estão num papel afixado no vidro. Alguma palavra dita pelo sujeito do outro lado do vidro denuncia sua angolanidade.
O porteiro é angolano.
Começamos a falar em português.
EU – Mas eu estou ligando para estes números desde manhã cedo. Só dá ocupado ou ninguém atende.
ANGOLANO – Mas os números são esses mesmos.
EU – Mas ninguém atende. Já que estou aqui, não posso falar com alguém sobre o visto?
ANGOLANO – Não, a pessoa mesmo responsável pela imprensa é o Dr. X. Ele ainda não chegou, mas vai chegar. Tente ligar para a embaixada e pedir o telemóvel dele.
EU – Mas eu já estou aqui, me deixe falar com alguém.
ANGOLANO – Não, quem cuida mesmo da imprensa é ele. Tem de ligar.
OK, desisto.
Estou na porta da embaixada de Angola e preciso ligar para a embaixada para conseguir falar com alguém.
Em África, Deus não é pai, é padrasto.
Volto para o hotel e ligo 37 vezes para cada um dos cinco números da embaixada que anotei. Todos ocupados. O único que atende é o fax...
Meia hora de tentativas depois, consigo falar com a secretária. Ela me diz que o adido de imprensa está de férias.
EU – E quem está no lugar dele.
SECRETÁRIA – Ninguém.
EU – Então com quem posso falar para resolver a questão do visto?
SECRETÁRIA – Ligue para o senhor xxxx. Ele vai orientar.
O senhor xxx não gostou que liguei no telemóvel dele.
SENHOR XXX – Quem lhe passou este número?
EU – A secretária da embaixada.
SENHOR XXX - Escuta, estou numa reunião. Ligue de novo para a embaixada e peça o telemóvel do adido de imprensa. Fale com ele. Ele está de férias, mas ainda está na África do Sul. Não é má-vontade, mas estou numa reunião. Se ele não conseguir resolver, me ligue de volta.
Ligo para a embaixada e consigo o telemóvel do adido de imprensa.
ADIDO DE IMPRENSA – Estou de férias.
EU – Sim, eu sei. Mas o senhor xxx disse para eu lhe telefonar para saber sobre o comunicado do centro de imprensa.
ADIDO DE IMPRENSA – Vou ligar para a embaixada. Se o fax tiver caído, te encaminho para o setor consular.
EU – O senhor quer o meu número ou eu ligo depois.
ADIDO DE IMPRENSA – Me ligue daqui a uma hora.
Mando um e-mail para o Brasil comunicando que a embaixada da Líbia não recebeu o pedido de visto.
Como tenho de voltar para pegar o passaporte traduzido para o árabe às 14h, volto ao shopping ao lado do hotel e peço um sanduíche. Enquanto espero, toca o telefone.
É alguém do Centro de Imprensa, em Angola.
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Já viajou?
EU – Sim, estou em Pretória. O adido de imprensa está de férias, mas me disse que ainda não recebeu o fax aí do centro de imprensa.
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Você tem o telefone da embaixada?
EU – Sim, tenho...
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – Isso aí é muito complicado. Estamos tentando mandar o fax, mas dizem que não chegou.
Passo todos os números que anotei na portaria da embaixada.
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – E qual é o número do fax?
EU – É o xxxxx.
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – É só este?
EU – Sim.
ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA EM ANGOLA – É, dizem que não receberam...
Estão a perceber a surrealidade da coisa?
O centro de imprensa me liga em Pretória para saber se eu tenho os números de telefone e do fax da embaixada de Angola em Pretória e para se queixar que não estão conseguindo enviar o fax que me garantirá o visto de retorno a Angola.
Termino o sanduíche a tempo de pegar o carro às 14h, para chegar a casa do Mr. Ali, que está traduzindo meu passaporte para o árabe.
Chego às 14h35. Toco o interfone. Mr. Ali não responde. Ligo. Mr. Ali atende e diz algo incompreensível. Entendo apenas que ele já vai chegar.
Ligo para o adido de imprensa da embaixada de Angola.
ADIDO DE IMPRENSA ANGOLANO – O comunicado do centro de imprensa não chegou. Sem ele não posso fazer nada.
Espero meia hora. Ligo de novo. Mr. Ali ainda está a caminho. Só chega às 15h30 e ainda vai traduzir o passaporte.
Nisso, ligo para a embaixada da Líbia. Falo com a funcionária do setor consular, que me passa para o chefe, Mr. XPTO.
Mr. XPTO confirma que recebeu o fax da embaixada da Líbia no Brasil pedindo para me conceder o visto.
Mas...
Mas eu também preciso apresentar, além do passaporte traduzido para o árabe e de um convite do próprio governo líbio, uma carta da embaixada do Brasil na África do Sul confirmando que vou à Líbia em missão oficial.
EU – Desculpe, só para eu entender: a carta da embaixada da Líbia no Brasil não é suficiente?
MR. XPTO – Sim, é, mas também precisamos da carta da embaixada do Brasil aqui. É só uma formalidade...
EU – OK. Não tem problema. Posso deixar o passaporte aí amanhã?
MR. XPTO – Sim. Vai trazer pessoalmente ou via courrier?
EU – Posso pedir para entregarem?
MR. XPTO – Sim, mas precisa preencher o formulário antes.
EU – Vocês ficam abertos até que horas?
MR. XPTO – Até as 16h.
EU – OK, estou indo agora.
MR. XPTO – Não chegue depois das 16h, hein!
EU – Qual o endereço de vocês?
MR. XPTO – diwoeiuj xkkksooiea.
EU – Sorry, could you repeat it?
MR. XPTO – xoosiduelwl ssididie oiuqlw.
EU – Sorry, I didn´t understand.
MR. XPTO – Fale com o Mr. Ali, ele sabe onde fica.
São 15h40. Estou na calçada, em frente ao condomínio do Mr. Ali, que está trancado em casa terminando de traduzir o passaporte.
Ligo para ele. Minha idéia é perguntar onde fica a embaixada. Enquanto ele termina de traduzir, vou lá e volto.
EU – Mr. Ali, preciso buscar o formulário na embaixada da Líbia...
MR. ALI – Sim, sim, sim, já estou terminando, já vou.
E desliga o telefone.
15h45. Ligo de novo para o Mr. Ali.
EU – Mr. Ali, preciso buscar o formulário e...
MR. ALI (que sabe ser persuasivo) – Só um minuto. Um minuto. Um minuto. Já vou.
E desliga.
15h50. Mr. Ali chega com o passaporte e o recibo. Vou pagar, mas ele corre para dentro de casa para atender o telefone.
Volta às 15h52, explica ao motorista onde é a embaixada. Chegamos às 15h56, a tempo de pegar o formulário.
Por que nunca me contaram sobre essas coisas na faculdade?
Amanhã tem mais.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
PRETÓRIA
Fiquei quatro horas em pé na fila da South African no aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda.
Mais de duzentas pessoas para fazer o check-in e apenas dois guichês abertos para o atendimento.
Consegui entrar no avião às 15h20. O vôo deveria ter saído às 14h05.
Na fila, milhares de chineses e uma centena de angolanos furadores de fila.
Um angolano na minha frente sai da fila. Fala com um sujeito engravatado funcionário do aeroporto. Volta, pega a mala e passa na frente de todo mundo.
Atrás de mim, um sul-africano branco comenta com outro.
SUL-AFRICANO BRANCO – That´s the guy you have to pay to get in...
Às 14h30, consigo chegar à fila do pré-check-in.
Quatro angolanas passam na minha frente. Um funcionário da imigração sai lá de dentro e reclama com elas.
FUNCIONÁRIO DA IMIGRAÇÃO – Vocês deveriam estar aqui, fora da fila.
Entenderam? Era um esquema para entrar sem enfrentar fila. Elas bobearam e só conseguiram furar a fila.
O funcionário da imigração que confere os passaportes pega o meu bilhete e o passaporte. Folheia.
FUNCIONÁRIO DA IMIGRAÇÃO - Onde está o cartão de estrangeiro preenchido?
Tiro do bolso e entrego pra ele.
FUNCIONÁRIO DA IMIGRAÇÃO (colocando o cartão dentro do passaporte) – O cartão tem de ficar aqui dentro do passaporte, junto com a passagem, entendeu?
Entendi.
Entro na fila da imigração.
É uma fila sui-generis. Em vez de andar para a frente, anda para trás.
Os angolanos furadores de fila surgem do nada.
Passo pelo aparelho de raios-X. Somos encaminhados para a sala da alfândega para dizer quanto estamos levando de dólares e se estamos levando kwanzas.
Entramos no avião. O avião decola.
O campo magnético que existe embaixo de Luanda e dificulta a vida de qualquer pessoa que tente se afastar dali começa a ficar para trás.
Vou ao lado de um chinês que mora no Namibe. É o responsável pela logística da chegada do material importado da China para construção de prédios, estradas e tudo o mais que os chineses estão fazendo em Angola e no resto da África.
Não lembro o nome dele, mas deixo meu cartão e ele diz que vai me mandar uma mensagem. De Joanesburgo, ele vai para Dubai. De lá, pega outro vôo para a China.
Cheguei à noite a Pretória. Não deu para ver nada.
Amanhã conto mais.
domingo, 18 de janeiro de 2009
ENTRANDO EM FORMA
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
.2009. OU O SERTANEJO UGO BRAGA
Veio de jegue desde São José do Egito.
A cidade pernambucana talvez não seja referência para muitos, mas vão logo se lembrar quando se derem conta de que o balneário de Recife fica na periferia da grande São José do Egito.
Coisas de conurbações.
Com o advento das modernidades, Ugo Braga também aderiu à modernidade.
Deixou as almas sebosas para trás, apeou do jegue e adentrou na blogosfera.
A partir de hoje, .2009. faz parte dos sítios que valem a pena.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
DINHEIRO PRA LÁ, DINHEIRO PRA CÁ
Pouca gente tem conta em banco.
A maioria, quando tem dinheiro, guarda mesmo em casa.
Quem tem muito, deixa no exterior.
Quem não tem, não tem mesmo.
São poucos os lugares que aceitam cartão de crédito.
Aceitam mais o cartão de débito. Mas é comum o sistema estar fora do ar.
Os caixas automáticos também estão constantemente com defeito ou seu dinheiro.
As transferências bancárias são complicadas.
Em geral, uma das partes envolvida na transação não tem conta bancária.
Em outras vezes, a empresa que aceita pagamento via transferência bancária exige que o cliente apresente o comprovante de que a transação foi feita.
A TV Cabo, operadora de tv a cabo, por exemplo, é uma delas. O cliente pode depositar a mensalidade na conta da empresa, mas depois tem de comprovar o pagamento enviando o recibo via fax ou entregando pessoalmente numa das lojas para que seja dado baixa no sistema.
As transferências via internet funcionam, mas se for entre dois bancos, a situação se complica.
Tenho uma conta em dólares. Há pouco tempo tive de pagar por um serviço. O cliente tinha conta em outro banco.
Como a transferência é para outra instituição financeira, o sistema de home banking não permite transferência em dólar, apenas em kwanzas.
Resultado: tive de ir ao banco para fazer um saque e levar o dinheiro pessoalmente.
Com a viagem para o norte da África, a mesma coisa.
A agência de viagem não aceita cartão de débito. Tive de sacar o dinheiro das passagens e dos hotéis no banco e levar tudo pessoalmente.
Por causa do trânsito e das filas, levei uma manhã inteira para sacar o dinheiro. E uma tarde inteira para fazer o pagamento.
Foi-se um dia inteiro de trabalho.
Só quem sabe onde é Luanda saberá me dar valor.
KAFKA MORRERIA DE INVEJA
Em Genebra, José recebe a seguinte informação da representante da Afriqiyah Airways: como o trecho entre Acra e Trípoli já está reservado, a empresa não pode receber o pagamento.
Como assim?
Em seguida, alegou que não poderia receber o pagamento pois a reserva havia sido feita por outra empresa.
Como assim?
Se a empresa que fez a reserva (no caso, a agência de viagem em Angola) alega que não tem como comprar o bilhete pela falta de escritórios da companhia aérea em Luanda, não consigo entender a dificuldade.
Até o fim do dia saberei.
Consulto minha bola de cristal e prevejo que, provavelmente, terei de ignorar a reserva feita e comprar outro bilhete em Genebra.
É o nosso mundo moderno.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
KAFKA NÃO CONHECEU A ÁFRICA
Como a que vivo no momento.
Como sabem, estou de partida para uma missão secreta no norte da África.
Já me preparei psicologicamente para mostrar o passaporte sete vezes no aeroporto de Luanda.
Desta vez não voarei de TAAG (algo que pretendo não voltar a fazer enquanto a empresa não entrar nos eixos), mas fico na expectativa para saber se minha mala será violada em Joanesburgo.
Quando voltei de Ruanda, a mala chegou com o cadeado arrebentado. Acho que não se animaram com os livros e as 14 cuecas sujas.
Mas o que me preocupa no momento é, além do visto para a Líbia, que só obterei em Pretória, o trecho da viagem entre Acra e Trípoli.
A empresa aérea que faz o trajeto, a Afriqiyah Airways, não tem escritório em Angola. Tampouco na África do Sul.
A agência de viagens com quem costumo trabalhar simplesmente lavou as mãos. Disse que não tem como emitir o bilhete e me mandou o endereço do sítio da Afriqiyah.
Mandei e-mails para todos os contatos possíveis da empresa. ´
Liguei para o escritório em Trípoli, uma ligação básica across the continent. O sujeito que atendeu não entendia inglês nem francês. Apenas árabe.
Ligo para o escritório em Bruxelas. O sujeito diz que posso fazer o pagamento no balcão da Afriqiyah em Acra, sem problemas.
Isso é o que ele acha. Minha parada em Acra é por apenas algumas horas. Saio de Joanesburgo em direção a Gana e terei um intervalo de pouco mais de duas horas entre o desembarque e a conexão para a Líbia.
Primeiro, nunca vi empresa aérea fazer reserva e deixar o passageiro pagar a passagem duas horas antes do embarque.
Não posso correr o risco de ficar retido em Acra.
Nesse meio tempo, recebo e-mails de representantes da empresa em dois países.
O primeiro é Marwane Rouas, da Bélgica. Mandou a seguinte mensagem.
“Afriquiyah have a desk at the airport of Accra and if you want to buy the ticket on our office there no problem BUT we don’t accept credit card, only bank transfer.
Thank you for your comprehension
Best regards
Marwane Rouas”.
Viram só: posso pagar em Acra, mas eles NÃO aceitam cartão de crédito. Apenas transferência bancária.
Não aceitam cartão de crédito.
Algo que torna minha vida aqui em Luanda ainda mais fácil.
O segundo e-mail veio sem assinatura do funcionário e com a última frase cortada.
“You have to contact to pay where you booked your reservation.
Even you can buy on internet.
In Paris, we couldn’t make any reservation, &you couldn(t buy the” .
Mas deu para entender que o sujeito sugere que eu devo pagar para a pessoa que fez a reserva.
Só que a agência de viagens já lavou às mãos.
Por sorte, tenho contatos em vários países do mundo e meu amigo José vai salvar minha vida fazendo o pagamento e a confirmação do vôo na loja da Afriqiyah em algum lugar da Europa.
Como Kafka sairia dessa?
A DEMOCRACIA ANGOLANA
Angola melhorou, mas ainda mantém seu estilo de Estado-policial.
Abaixo, um texto publicado pela Agência Lusa.
Quem se interessar pela íntegra do relatório, com referências a outros países, clique aqui.
ANGOLA MELHORA, MAS MANTÉM-SE O MENOS LIVRE DOS PAÍSES LUSÓFONOS PARA FREEDOM HOUSE
Lisboa, 12 Jan (Lusa) - Angola continua a ser o país lusófono onde são menores os direitos políticos e liberdade cívica dos cidadãos, apesar das eleições legislativas de 2008 terem criado uma tendência positiva, afirma a organização não-governamental Freedom House.
No ranking "Liberdade no Mundo em 2009", Angola é o único país lusófono enquadrado na categoria dos "não livres", onde estão 42 dos 193 países incluídos no estudo sobre as liberdades cívicas a nível global, hoje divulgado.
As categorias que incluem mais países lusófonos são as de "parcialmente livres" - Guiné-Bissau, Timor-Leste e Moçambique - e livres - Portugal, Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
"Angola recebeu uma seta de tendência de subida por ter realizado as eleições legislativas há muito adiadas, que foram consideradas credíveis apesar de algumas irregularidades", refere a Freedom House, uma organização com sede em Washington.
A evolução angolana contrariou a tendência de declínio na região da África subsariana, onde se destacaram pela negativa Senegal e Mauritânia, mas também Burundi, Camarões, República Democrática do Congo, Guiné Equatorial, Gabão, Gambia, Guiné-Conakri, Namíbia, Nigéria, Zimbabué e o território da Somalilândia.
"Depois de vários anos de ganhos modestos, a África subsariana registou um ano de revezes substanciais para a democracia. O declínio afectou alguns dos maiores e mais influentes países do continente e resultou em parte de golpes militares, conflitos étnicos e tentativas violentas de suprimir a sociedade civil", lê-se no estudo.
Ao todo, foram doze os países africanos, um quarto do total, que inverteram a marcha democrática nos seus países, e no resto do mundo o cenário não foi diferente, segundo a Freedom House.
"A melhoria das liberdades na Ásia foi um raro ponto positivo num ano que foi marcado por revezes e estagnação", afirma o director de pesquisa da organização não-governamental, Arch Puddington.
"Numa altura em que os antagonistas das democracias são crescentemente assertivos e os apoiantes democráticos estão em debandada, a nova administração [norte-americana, de Barack Obama] tem de concentrar-se na necessidade de proteger liberdades fundamentais e suportar os defensores de primeira linha e apoiantes", refere Jennifer Windsor, directora-executiva da Freedom House.
Criada em 1972, a Freedom House dedica-se a actividades de apoio à expansão das liberdades a nível mundial, e monitoriza a evolução dos direitos políticos e liberdades cívicas.
A pontuação é atribuída através de um processo de análise e avaliação conduzido por especialistas da ONG, consultores regionais e académicos.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
O DIA EM QUE FIZ MINHA PRIMEIRA CAMINHADA PELAS RUAS DE LUANDA
A cidade ganha outra dimensão quando se está a pé.
As poucas calçadas ou estão esburacadas, ou com vazamento de água e esgoto, ou ocupadas por automóveis.
As ruas ou estão esburacadas, ou com vazamento de água e esgoto, ou ocupadas por automóveis.
Nas poucas calçadas em condições de se caminhar, temos a passagem bloqueada por grupos de seguranças ou seguranças desacompanhados refastelados em suas cadeiras de plástico branco.
Fiz a caminhada por opção. Ou melhor, por falta dela.
Precisava ir a determinado lugar, mas Domingos já havia ido embora.
Deparei-me com o impasse: ou vou de carro, e corro o risco de me atrasar por causa do engarrafamento e da falta de lugar para estacionar, ou vou a pé.
Fui a pé. Cerca de 10 minutos de caminhada.
A pé também podemos perceber melhor a fachada das casas. Muitas ainda mantêm o estilo colonial. A maioria está caindo aos pedaços.
As ruas estreitas não combinam com os 4X4 que as habitam e avançam sobre as calçadas.
Ou melhor, os 4X4 é que não combinam com as ruas estreitas e suas calçadas mais estreitas ainda.
Nas ruas de sentido único, temos de olhar para trás o tempo todo por causa das motos que circulam pela contramão.
Os motociclistas em Luanda não respeitam mão, contramão, calçadas, sinais fechados, conversões à esquerda, à direita.
Os automóveis param nos sinais. As motos continuam, complicando ainda mais o trânsito infernal de Luanda.
A polícia nada faz.
Ou melhor, faz. Do jeito dela.
Luanda não é uma cidade muito grande. Daria para fazer muita coisa a pé. Mas caminhar por alguns sítios é impraticável por diversas razões.
Mas a cidade chega lá.
Um dia.
DO CÂNCER DE PRÓSTATA
Foge aos temas gerais do diário, mas como sou o ditador absoluto e vitalício e o responsável pelas regras do blog, decidi divulgá-la.
Não sei onde foi publicada, mas a reproduzo abaixo sem autorização (assumindo os riscos de ser processado na corte internacional de Justiça) pela relevância do assunto.
É longa, mas muito interessante.
ENTREVISTA COM O UROLOGISTA MIGUEL SROUGI
O urologista, que cuida da saúde do "PIB" brasileiro, fala sobre os principais temores masculinos, como problemas na próstata, disfunções sexuais e decadência física.
Não tem nem o que questionar: quando se fala em urologia, e principalmente em saúde masculina, primeiro nome da agenda e da confiança dos principais políticos, empresários e brasileiros em geral é o do médico Miguel Srougi.
Considerado o número 1 do Brasil em cirurgias de câncer de próstata ( já realizou 2.900), atende em seu consultório gente como o presidente Lula, José Alencar, José Serra , Geraldo Alckmin, Joseph Safra, Lázaro Brandão, Abílio Diniz e Antônio Ermírio de Moraes, entre outros pesos pesados.
Professor titular de urologia da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado pela Harvard Medical School, em Boston, nos Estados Unidos, 35 anos de carreira, uma dezena de livros publicados e outra centena de artigos espalhados mundo afora, Srougi tem a simplicidade daqueles que muito sabem, pouco ostentam e continuam lutando.
Ele se dedica integralmente ao que faz - trabalha todos os dias, das 7 da manhã às 10 da noite -, abriu mão da vida pessoal - é casado, pai de dois filhos – e não tem receio de dizer que se envolve demais com seus pacientes. "Sofro muito e esse sofrimento é um dos fatores de sucesso da minha carreira, porque acabo me entregando mais aos doentes."
Embora viva intensamente entre os limites das dores da perda e alegrias dos resgates da vida, Srougi, aos 60 anos, se abastece lecionando na Faculdade de Medicina, "uma de minhas razões existenciais". No ano passado inaugurou um moderno centro de ensino e pesquisa para seus alunos, garimpando verbas junto aos seus pacientes poderosos.
A sala ganhou o nome de Vicky Safra, mulher de Joseph Safra - em homenagem ao banqueiro que doou a maior parte dos recursos. Nesta entrevista, o maior especialista em câncer de próstata do país afirma que "todo homem nasce programado para ter a doença" e que, se viver até os 100 anos, inevitavelmente vai contraí-la.
Fala ainda sobre medos, fantasmas masculinos, impotência, novos tratamentos e seus sonhos pessoais. E conta por que trocou o Hospital Sírio-Libanês pelo Oswaldo Cruz depois de 30 anos.
A seguir, os principais trechos.
ASSOMBROS MASCULINOS
Os homens têm uma certa sensação de invulnerabilidade - isso faz parte da cabeça deles. Passam boa parte da sua vida livre de todos os incômodos que a mulher tem, fazendo com que relaxem mais com a sua saúde. Com o passar dos anos, começam a perceber a sua vulnerabilidade e passam a dar um pouco mais de valor aos cuidados médicos. O que mais os atemoriza hoje? Problemas com a próstata, disfunções sexuais e a decadência física, que mexe muito com a cabeça das mulheres, mas também com a deles. As mulheres pautam muito a vida em função da beleza e os homens, da força, da virilidade, da capacidade de agir, raciocinar. E na hora em que surgem falhas nessas áreas, ele percebe que, talvez, não seja aquele ser imortal que achava que fosse.
ENVELHECIMENTO
Há dois profundos temores hoje nos homens: o primeiro é o crescimento benigno da próstata, um fenômeno que ocorre em praticamente todos eles: ela aumenta de tamanho depois dos 40 anos e, dessa forma, o canal da uretra fica ocluído. Isso faz com que o homem comece a urinar sucessivas vezes, a não ficar em uma reunião prolongada, tem de levantar à noite, prejudica o sono, acorda mal, pode ter descontroles de urina. O crescimento benigno é quase inexorável: todos os homens vão ter em maior ou menor grau - felizmente, apenas um terço, 30%, tem sintomas mais significativos que exigem apoio médico. Nesses casos, há medicações que desobstruem parcialmente a uretra e fazem o indivíduo urinar e viver melhor; apenas de 4% a 5% dos homens têm de fazer uma cirurgia para desobstruir a uretra por causa desse crescimento benigno. Essa é uma cirurgia, que se faz com segurança e sem os inconvenientes de uma cirurgia maior nos casos de câncer. Ela remove apenas o fator obstrutivo, o homem passa a viver melhor e sem nenhuma seqüela. Esse crescimento não tem causa conhecida, surge por um desequilíbrio hormonal no homem maduro, ou seja, as células da próstata passam a se proliferar em decorrência dos hormônios. Não tem como prevenir. Existem algumas medidas, mas nenhuma consistente.
OBESOS E FUMANTES
Existe a idéia de que o obeso e os fumantes teriam menos crescimento benigno da próstata. O que é interessante é que a próstata seria o único lugar no organismo que eles deixam de ter todas as desvantagens, mas a realidade é meio dura: recentemente se apurou que eles são menos operados da próstata, mas não porque ela não cresce, mas pelo receio dos médicos de operá-los porque complicam mais e também porque muitas vezes não vivem o suficiente para ser operados - morrem antes. É uma realidade perversa.
REALIDADE NUA E CRUA
O câncer na próstata adquire maior relevância porque tem uma grande prevalência: 18% dos homens - um em cada seis - manifestarão a doença. E também porque o tumor, que ocorre com muita freqüência dentro da próstata, é eliminado com sucesso em 80%, 90% dos homens. Se esse tumor não é identificado no momento certo e se expande, saindo para fora da próstata, as chances de cura caem para 30%. É um tumor muito comum e se for detectado a tempo, tem como resgatar esse paciente. Dos 18%, somente 3% morrem – a medicina consegue curar 15% dos homens, ou seja, a maioria. Mas vale dizer que todo homem nasce programado para ter câncer de próstata. Ou seja, nós temos, nas nossas células, genes que as estimulam a virar cancerosas e eles ficam bloqueados durante a nossa existência. Quando o indivíduo envelhece, esses mecanismos de bloqueio deixam de exercer o seu papel e o câncer começa a se manifestar. Com isso vai aumentando a freqüência da doença e todo homem que chegar aos 100 anos vai ter câncer de próstata.
SEM FANTASIA
O exame de toque - um dos meios de se detectar a doença - gera na cabeça dos homens fantasias negativas e receios, mas, na verdade, eles tem muito medo da dor. Tanto é que os que fazem pela primeira vez, no ano seguinte perdem o medo. Leva três ou quatro segundos e não dói. Então, um dos fatores de resistência é eliminado. Existe um segundo sentimento, que é muito forte: expressar, exteriorizar uma fraqueza se a doença for descoberta. O homem tem pavor disso porque, de acordo com todas as idéias evolucionistas, só vão sobreviver aqueles que forem fortes. É comum você descobrir um câncer no indivíduo, e ele entrar em pânico, não pela doença, mas porque as pessoas vão descobri-la. Porque o câncer é muito relacionado com morte, decadência física, perda da independência, dependência dos outros. O homem não aceita essa idéia, e prefere fechar os olhos e enfiar a cabeça debaixo da terra a enfrentar, mostrando para o mundo e às pessoas que ele é um ser mais fraco. Isso vai afetar a imagem dele, acha que vai perder poder sobre outras pessoas, porque ninguém obedece a um fraco, alguém que vai morrer. Isso vai contra a idéia que temos de ser mais fortes para sobreviver.
A PERFORMANCE DO ROBÔ
Estamos fazendo cirurgias com robô, que permite uma visão muito mais precisa do campo cirúrgico, elimina os tremores mão do cirurgião, permite incisões pequenas, uma operação muito mais perfeita porque os movimentos dele são muito suaves. Isso é muito novo no Brasil. Fiz o primeiro caso há dois meses, no Sírio-Libanês. E agora, o Albert Einstein tem e o Oswaldo Cruz está adquirindo. Nos Estados Unidos se faz cirurgia robótica em larga escala. Lá, o robô ganha em performance do cirurgião médio, mas ele ainda perde do habilitado. Tenho mais de 2.900 pacientes operados de câncer de próstata pessoalmente. Eu sou o terceiro cirurgião do mundo nesse quesito - só perco para dois americanos e eles estão parando de trabalhar. Apesar de ter essa grande experiência, quando comecei a operar, 35% ficavam com incontinência urinária grave. Agora são só 3%. Impotentes, todos também ficavam. Hoje, se o homem tem menos de 55 anos, a incidência é de 20% - antes era 100%. Há também enxertos de nervos, porque a impotência se deve à remoção de dois nervos que passam perto da próstata. e nós estamos fazendo esse enxerto quando somos obrigados a retirá-los nos casos em que o tumor fica grudado. Entre os pacientes que fizeram os enxertos, metade voltou a ter ereções com o tempo.
IMPOTÊNCIA, O QUE FAZER?
Esses novos remédios para tratar a disfunção sexual contornam 1/3 da impotência, tanto após a cirurgia quanto depois da radioterapia. Se os comprimidos não atuarem, existem injeções. Há ainda próteses penianas que são muito desenvolvidas e produzem uma ereção que quase não tem nenhuma diferença em relação à normal. Isso permite que o homem reassuma a vida sexual plenamente e que as mulheres tenham muita satisfação. Os homens ficam extremamente felizes - são hastes colocadas dentro do pênis. Não fica marca, nem cicatriz. Nos Estados Unidos, entrevistaram as mulheres sobre os homens que tinham prótese e as respostas foram positivas. Ela funciona muito bem.
ENTRE A VIDA E A MORTE
Minha vida é complexa porque eu ando um caminho muito estreito que, de um lado tem a morte e, de outro, a vida. E as minhas ações podem, com uma certa freqüência, resgatar alguém para a vida. Trilhar esse caminho é muito difícil porque, quando você se identifica com o paciente, compreende o sofrimento humano, isso cria um estado de impotência que lhe faz sofrer. Mas, por outro lado, traz momentos de alegria incontida, principalmente quando você resgata um ser para a vida, que não tem nada parecido.
ESCUTANDO MAIS, OUVINDO MENOS
Se eu listar uma série de qualidades, como, por exemplo, humildade, conhecimento técnico, dedicação ao doente, presença, coerência, sentido humanístico, desprendimento material e comunicação e perguntar qual é melhor, só tem uma resposta: comunicação. Todas as outras são importantes. O médico precisa ser humano, ter desprendimento material. A relação médico-doente não é tipo supermercado, que você dá e recebe, é algo muito superior. Ele precisa ter conhecimento técnico, precisa estar presente, gerar esperança, mas ele tem de se comunicar. É comunicação superior, não apenas saber falar. É tão significativo que explica por que há médicos brilhantes aqui no Hospital das Clínicas que conhecem tudo, e não conseguem atender a um doente porque falam bobagem na hora de se expressar. São inibidos, tímidos, não sabem dar para o doente o substrato humanístico. Ele lista 450 tabelas de números e cálculos e não sabe o que se passa pelo seu coração. Isso explica também porque tem tanto charlatão por aí – médicos mal-intencionados e não-médicos - que conseguem atender a muitos pacientes. Eles têm a comunicação. Comunicação envolve inicialmente gerar empatia no doente. É errado cumprimentar um doente e falar "como vai?". Você deve cumprimentar alguém que está com uma doença grave e falar "eu lamento que você esteja nessa situação, imagino o que está sentindo". Saber ouvir, que é diferente de escutar. A hora que você passa a ouvir, entende quais as apreensões que ele tem, elimina um pouco do sentimento de culpa, entende por que está lhe procurando e conquista a confiança. É preciso ser coerente e falar com realismo. É ilusão achar que se engana as pessoas. Falar numa dimensão maior significa gerar esperança, estimular a espiritualidade, porque um dos maiores medos é morrer e não saber o que vai acontecer depois; explicar o que vai ser a evolução dele. Também assegurar presença - ele não será abandonado.
O PAPEL DAS MULHERES
Os homens são resistentes: eles relutam muito em ir ao médico fazer um exame de próstata e só vão quando a mulher os empurra: dois terços dos pacientes no consultório de Miguel Srougi são trazidos por elas. "Ligam para marcar a consulta, os acompanham. A gente não vê mulheres jovens trazendo homens jovens para fazer exames. A gente vê mulheres maduras. Claro que o jovem não está na faixa de risco. Mas existe um outro significado da importância da mulher. Primeiro, que ela é pragmática e incentiva o marido." Mas, por que ela quer isso? "Porque quem ficou vivendo bem 30 anos e conseguiu superar todos os embates da vida conjugal é um casal que o tempo consolidou. E aí a mulher tem um sentido de preservação da família muito mais forte que o do homem. Passadas as tempestades e oscilações do relacionamento, ela não quer que o marido morra. É real. Toda vez que tenho um paciente e ofereço dois tratamentos: um que aumente a existência dele, mas vai, por exemplo, causar alguma deficiência na área sexual. E ofereço um outro tratamento, que cura menos, mas preserva melhor a parte sexual, o homem balança na decisão. A mulher nunca hesita. Ela prefere aquele que aumenta a existência, mesmo ocorrendo o risco de comprometer a vida sexual dele e do casal. Poucas vezes vi uma mulher aconselhar um tratamento que dê menos chance de vida e aumente a possibilidade de ele ficar potente. Dá para contar nos dedos. Ela quer o companheiro, quer preservar aquela pirâmide que foi construída, que é rica."
GERANDO ESPERANÇAS
O ser humano precisa ter alguma esperança, nem que sejam vislumbres. Os médicos americanos acham que são fantásticos e verdadeiros quando dizem que não tem jeito o seu caso, mas isso é não conhecer a natureza humana. É preciso mostrar que ele tem alguma chance, sim.
SOFRIMENTOS E PRIVILÉGIOS
Eu me envolvo muito com meus pacientes. Sofro muito. E esse sofrimento é um dos fatores do sucesso da minha carreira, de 35 anos. Nesse sofrimento eu acabo me entregando mais e mais aos doentes. Isso é ruim, porque não tenho vida pessoal, minha vida familiar é feita nos intervalos. Felizmente, os momentos bons prevalecem sobre os ruins. É por isso que eu sobrevivo. Um doente que coloca a cabeça no meu ombro e agradece por ter feito algo por ele, ou deixa correr uma lágrima na minha frente, me faz deletar, superar aqueles momentos em que me senti totalmente impotente. Uma das coisas importantes é o médico saber e demonstrar que a medicina não é infalível e ele não se sentir onipotente. O urologista tem um privilégio. O oncologista mexe com câncer avançado, já no fim do caminho - eu lido com o inicial, eu consigo salvar muita gente. É um privilégio para mim.
MEDO DA SEPARAÇÃO
Nós não queremos morrer. Primeiro, pela incerteza do porvir. segundo, porque a morte implica extinção e o ser humano não aceita a aniquilação. A nossa cabeça nasceu para ser imortal. A morte está relacionada com dor, sofrimento, à decadência física, à desfiguração, à perda do papel social, desamparo da família, perdas dos prazeres materiais, da independência. Mas a causa verdadeira é o nosso horror de nos separar das pessoas que amamos. Bem material não deixa ninguém feliz. Há tanta gente rica se suicidando, tomando droga para sair da realidade. Os médicos não compreendem isso. Se as pessoas têm medo de se afastar das pessoas do seu entorno, você precisa tratar o entorno também. Não é o médico que apóia o doente nas fases difíceis - é a família. Eles reagem raivosamente contra a família, querem afastá-la do processo, sem perceber que um doente só vai ter paz, tendo a morte pela frente ou não, se a família estiver ao lado.
VIVENDO NOS LIMITES
Eu sou católico, não praticante, acredito em alguma coisa depois da vida e isso me dá muita paz. Eu continuo numa luta incessante. Vivo nos limites. Nos limites do sofrimento, porque estou do lado das pessoas que sofrem. Nos limites das minhas energias, porque começo a trabalhar às 7 da manhã e vou até as 10 da noite. Trabalho na faculdade de Medicina. Tenho várias razões existenciais, uma delas é a faculdade. Aqui é a única forma de deixar marcas e mostrar que a minha passagem pela Terra não foi em vão. Aqui você planta as coisas. Cada aluno que receber esses conhecimentos, vai multiplicar o feito. Em vez de ajudar 20 pessoas que ajudo num mês, para cada aluno que eu fizer isso, serão 40, 60, 80, 320... Se eu saísse da faculdade, não iria agüentar essa carga toda de emoções, sentimentos, morte e vida. Aqui a gente conhece o que é o ser humano. Lá fora as pessoas estão todas maquiadas.
REABASTECENDO ENERGIAS
Eu simplesmente acabei com a minha vida pessoal, os meus grandes amigos mal vejo. O meu melhor amigo médico, o oncologista Sergio Simon, não encontro há quase três anos. Sábado à noite vou para uma casa de campo que tenho e fico 24 horas ouvindo música, fazendo minhas leituras, pesquisas, um pouco no computador. E controlo muito bem a alimentação, o sono e a atividade física para poder agüentar. Faço ginástica de quatro a cinco vezes por semana, tenho uma alimentação equilibrada e durmo bem. Deixo de sair com os amigos para dormir. Não gosto de dormir, mas preciso me recompor.
A SAÍDA DO SÍRIO-LIBANÊS
Os verdadeiros templos na Terra são os hospitais - não as igrejas. Nas igrejas tem muito ouro, riqueza. Aqui não, você conhece o sofrimento, o valor da existência humana. Os orgulhosos e os soberbos ficam humildes, ricos e pobres são iguais; os ruins, os autoritários e os maldosos se tornam condescendentes: eles ficam despidos, tiram a máscara; é aqui que você conhece o que é viver, que resgata para a vida, não em uma igreja qualquer,que o sujeito entra lá, reza dez minutos e sai. Ele pode até sarar, cicatrizar a sua alma. Mas aqui nós curamos a alma e o corpo. Esse é o verdadeiro templo, onde o ouro é a vida. Você entende o impacto que a desigualdade social tem sobre o ser humano, a pobreza, a falta de instrução causa doenças. Depois de 30 anos no Sirio-Libanês eu mudei para o Oswaldo Cruz. Achar que eu vou ter novas salas, três enfermeiras a mais, é brutalizar o que passou pela minha cabeça. Mudei porque não estava vendo esse lugar como um templo. Eu vivo intensamente, por isso tenho esses sentimentos.
NAS ASAS DA LIBERDADE
Você só é livre quando tem boa saúde. Ninguém fala isso. Dar saúde para uma pessoa é um pré-requisito para ela ser livre. Nesse templo, que é o hospital, nós tornamos as pessoas livres.
UM POUCO DE FILOSOFIA
A melhor forma de se transmitir as virtudes é pelo exemplo, pela coerência. Certa vez perguntaram para Sócrates como a virtude poderia ser transmitida - se pelas palavras ou conquistada pela prática. ele não soube responder. Então, Aristóteles, depois de uns anos, respondeu: "A virtude só pode ser transmitida pela prática e por meio do exemplo". Aqui, eu posso tentar ser o exemplo. Mudando o cotidiano das pessoas, transformando a sociedade e construindo um novo mundo.
CINCO MEDIDAS PREVENTIVAS
Segundo Miguel Srougi, a prevenção ao câncer de próstata é feita de forma um pouco precária, porque não existem soluções para impedi-lo.Na prática, há o licopeno, que é o pigmento que dá cor ao tomate, à melancia e à goiaba vermelha. "Talvez diminua em 30% a chance, mas esse dado é controvertido, por causa disso a gente incentiva os homens a comerem muito tomate, só que deve ser ingerido pós-fervura, ou seja, precisa ser molho de tomate. Não pode ser seco ou cru."A vitamina E também reduz teoricamente os riscos em 30%, 40%. Mas, se for ingerida em grandes quantidades, produz problemas cardiovasculares. Na verdade, se o homem quiser se proteger, deve tomar uma cápsula de vitamina E por dia. Acima disso, não é recomendável. O terceiro elemento é o Selenio, um mineral que existe na natureza e é importante para manter a estabilidade das células, impedindo que elas se degenerem, que é encontrado em grande quantidade na castanha-do-Pará. "Qualquer homem pode ingerir em cápsulas, mas se ele comer duas castanhas por dia, recebe uma certa proteção", diz o especialista. Uma quarta medida é comer peixe, três porções por semana - rico em ômega 3 e tem uma ação anticancerígena provável. E, uma quinta, tomar sol. "O homem que toma muito sol sintetiza na pele vitamina D, que tem forte ação anticancerígena. É por isso que os homens da Califórnia desenvolvem muito menos a doença do que os de Boston", afirma Srougi.
PACIENTES ILUSTRES
Trato todos os meus pacientes de forma igual. Se começo a tratar os mais importantes de um jeito diferente, eles dão mais trabalho. Se tratar igual, não. Até se sentem melhor com isso.
PODER vs TRANSFORMAÇÃO
O poder é a única forma de passar pela existência deixando marcas. Só com ele você consegue fazer isso. E nenhum de nós terá vivido de forma digna se não deixá-las. A minha definição de felicidade é estarmos alegres com o que somos, o que representa um continuum de bem-estar físico, mental e afetivo. É fantástica essa definição. E a gente só é feliz se estivermos circundados por pessoas felizes. E o poder nos dá um pouco dessa felicidade. Mas o grande problema é você dá-lo ao ser humano, que é altamente imperfeito - ele tem defeitos incompreensíveis para qualquer espécie - aí vira uma arma de destruição. Mas, quando se dá poder às pessoas de bem, ele se torna algo transformador.
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
O NORTE DA ÁFRICA, SEGUNDO O MEU AMIGO MATHIAS
Depois, mandou um e-mail mais detalhado com observações sobre suas passagens pela região e mais outras dicas sensacionais.
Gostamos tanto que pedimos autorização dele para publicar o e-mail aqui no diário.
Ele deixou.
Aproveitem, pois, as dicas do Mathias.
“Boas,
Antes de mais um ótimo ano novo.
Vi no blog que, depois da Namíbia, vcs estão preparando uma incursão no médio oriente. Deixei um comentário com algumas sugestões e não resisti e deixar umas outras aqui.
Como já disse antes, Tanger é um must-see em Marrocos. É uma cidade misteriosa, verdadeira fronteira de dois mundos, cheia de tentações. Se puderem, fiquem no Hotel Continental, bem em frente do porto (podem ver os clandestinos a tentar entrar na europa pela janela do quarto).
A comida é fabulosa e eles têm o quarto do Churchill intacto, com a decoração que tinha quando ele estava lá. É muito refinado e cheio de história, naquela mesma rua a beatnik generation desfilou durante anos e muitos (pseudos) intelectuais franceses continuam a passar por lá, assim como o todo o tráfico de marijuana para a europa (não sei se os dois estão ligados).
Procurem o Fils du Détroit, um lugar um pouco perdido, com uma média de idade de 70 anos, onde é só sentar e esperar o próximo concerto improvisado de músico arabo-andaluz. E, claro, beber vinho no bar do hotel Minzah, acompanhado por um dos muitos actores que costumam ficar lá....ou pelas fotos deles espalhadas orgulhosamente por todo o hotel.
E o café Hafa, que apesar de bem sujo, tem a melhor vista para a Espanha. Aproveitem Marrocos, é muito seguro para os turistas e excelente para se acostumar com os hábitos maghrebinos.....
Casablanca tem mais personalidade do que Rabat, e uma Medina bem conservada e muito animada. Se tiverem algum tempo, podem ver Marrakech, uma disneyland oriental, lugar ideal para encher as malas de souvenirs.
Quanto a Argélia, só fui a Oran, que é lindo, mas lembro que o país é um pouco barra pesada. Se estiverem procurando algo em particular avisem. Os meus colegas orientais aqui de Paris dizem que Tunísia é bem mais tranquilo mas meio careta e Líbia.... uma aventura.
Música e livros deixei as sugestões no blog. Segue o link dos éthiopiques que, apesar ter pouco a ver com a região, vale mesmo muito a pena.
Se vcs viram o Broken Flowers do Jim Jarmush, grande parte da banda sonora é deles.
Fiquei com vontade de aconselhar um dos meus livros favoritos, Os Danados da Terra, do Frantz Fanon; Ele foi um dos líders do movimento de indepêndencia argelino e um dos instigadores da revolta dos UPA de 1961 em Angola. Também influenciou muito o Miguel Arraes durante o seu exílio na argélia....é uma maneira de conectar as histórias.... segue o link.
Em todo o caso, a temporada é excelente, menos turistas, mais barato.....
abs, até breve !
Mathias,”
SIMENTERA

Conheci o grupo por acaso. A música Raiz é a faixa número 8 da coletânea Spirit of Cape Verde, que comprei também por acaso na semana passada.
Meu primeiro contato com a música de Cabo Verde foi por meio da Cesaria Évora, de quem imediatamente me tornei fã.
Faço uma busca rápida na internet e descubro que o Simentera tem mais de uma década de estrada e vários discos na praça.
Por enquanto, só poderei curtir essa Raiz.
Queria uma imagem de Cabo Verde para acompanhar a música. Como não tenho nenhuma, uso a da praia dos surfistas, em Cabo Ledo, Angola.
sábado, 10 de janeiro de 2009
NORTE DA ÁFRICA
Líbia, Argélia, Tunísia e Marrocos.
Antes, terei de ir a Pretória. Não há embaixada da Líbia em Angola, por isso terei de ir à África do Sul para obter o visto.
Antes de obter o visto, e por exigência do governo líbio, terei de conseguir um tradutor juramentado para traduzir minhas informações pessoais do passaporte para o árabe.
Alguém tem dicas de músicas e livros desses paises?
Toda vez que saio de Angola, aquelas vozes na minha cabeça que me mandam fazer coisas começam a se manifestar.
Principalmente quando me aproximo de livrarias.
Como sabem, há duas ou três livrarias em Luanda. Com pouquíssimos títulos. E os livros saem por volta de US 50, US$ 80 o exemplar.
As vozes na minha cabeça sempre me dizem para não comprar livros em Angola.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
CONFIRMADO: A NAMÍBIA NÃO EXISTE
Depois de cruzar a pé a fronteira de Angola rumo ao que se convencionou chamar de Namíbia e de passar uma semana em viagem exploratória ao suposto país, cabe-me comunicar que, de fato, tal lugar não existe.Sei que muitos ficarão chocados com a revelação. Afinal, passaram férias com a família, viram bichos fantásticos e tiveram os saldos de suas contas bancárias razoavelmente diminuídos com o também suposto pagamento de diárias de hotéis, aluguéis de carros, restaurantes e souvenirs diversos.
Há relatos alucinógenos de que teriam avistado leões, girafas, elefantes, springbocks, wildebeests, zebras, javalis e até um mico-leão-dourado bebendo água do mesmo poço, em perfeita harmonia.
Em post anterior, depois de contatos com diversas pessoas que garantiam ter ido ao país que não existe, eu já havia alertado sobre a não-existência da Namíbia. Tudo não passava, pois, de uma orquestração internacional.
Vamos aos fatos.
Ante a suspeita de que os viajantes que chegam ao suposto país são mantidos em sono induzido depois de respirar o conteúdo do spray disparado pelos comissários de bordo da Air Namibia (empresa que aceita cartão de crédito...), achamos por bem entrar no país que não existe por via terrestre.
Imediatamente depois de deixar a fronteira de Angola para trás, somos transportados para um mundo mágico.
Todos falam inglês, alemão e uma meia dúzia de idiomas nacionais. As ruas são limpas. As estradas asfaltadas e sinalizadas. Os sinais de trânsito funcionam.
Os preços são baratíssimos. Uma refeição com vinho não sai por mais de US$ 15 por pessoa.
Logo no primeiro dia de viagem, cruzamos com girafas, um rinoceronte, springboks, kudus, avestruzes e orixes pela estrada.
No segundo dia, caí num buraco. Quilômetros depois, o pneu estava o chão.
Lembrem-se que a expedição exploratória do Diário da África foi feita em parceria com a Casa de Luanda, que prorrogou as investigações e só deve retornar hoje a Angola.
Vimo-nos naquela situação surreal de ter um pneu furado numa estrada desértica no meio do nada, com supostos rinocerontes, zebras, babuínos e girafas a nos espreitar.
Enquanto começávamos a tentativa de trocar o pneu, surgem dois supostos namibianos.
Isso mesmo, surgem do nada. Num determinado momento não estavam ali. No momento seguinte, estavam. Quando olhei melhor ao redor, vi uma casa distante e um lodge cuja existência eu não havia percebido.
Um dos supostos namibianos toma a iniciativa.
SUPOSTO NAMIBIANO – We want to help.
Não é estranho?
EU – We are OK.
Os supostos namibianos continuam ali, parados. Querem mesmo ajudar.
Como devemos ter colocado o macaco no lugar errado, não conseguimos levantar o carro o suficiente para retirar o pneu avariado.
Um dos supostos namibianos entra embaixo do carro e encaixa o macaco no lugar certo. Os dois assumem a operação e, em questão de minutos, o pneu está trocado. Porém, vazio.
O segundo suposto namibiano diz que, junto com o kit do macaco, há um compressor de ar. Checamos e, de fato, há um compressor de ar que, conectado ao acendedor de cigarros, enche o pneu e estamos prontos para partir.
Agradecemos a ajuda e os supostos namibianos começam a ir embora.
Quem descobrir o que há de estranho nisso ganha uma semana de férias no país que não existe.
Os supostos namibianos não pedem nada. Surgem do nada, trocam o pneu e vão embora sem pedir dinheiro.
Dou 100 dólares namibianos aos dois, o equivalente a US$ 10. Eles não escondem a felicidade.
Depois descobri o porquê. Quando paramos numa oficina para consertar o pneu, o borracheiro cobrou 60 dólares namibianos. Ou seja, os dois supostos namibianos receberam muito mais do que poderiam imaginar.
Nos hotéis, alemães, alemães e mais alemães. A Namíbia deve ser o lugar com mais alemães fora da Alemanha. Provavelmente pelo fato de o país que não existe ter sido colônia dos germânicos até o fim da primeira guerra mundial, quando passou para o controle da África do Sul até a independência, em 1990.
Nossa viagem exploratória percorreu o seguinte trajeto: posto fronteiriço de Oshikango. Depois, Ondangwa, Opuwo, Palmwag, Khorixas, Outjo, Tsumeb e Namutoni (dentro do Parque Nacional de Etosha).
A prova cabal de que a Namíbia não existe foi apresentada ao fim da viagem, no momento em que cruzamos a fronteira de volta para Angola.
O caos angolano nos resgatou para o mundo real.
Mais algumas horas e estaríamos para sempre encarcerados no torpor namibiano.
O mais curioso é que, ao chegar a Luanda, fui verificar a máquina fotográfica. Para nossa surpresa, havia uma série de fotos da suposta Namíbia. Tento imaginar como aquelas imagens teriam ido parar ali.
Aí me lembro do dia em que fomos jantar e deixamos a câmera no quarto.
Tudo se encaixa. Trocaram o cartão de memória. Tiraram o nosso e colocaram outro, com imagens da suposta Namíbia.
Esses supostos namibianos não são fáceis.
Com vocês, algumas imagens do país que não existe. As supostas fotos são da F.
Primeiro, o suposto grande Kudu.

Supostos springboks
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
SARA TAVARES

Sara Tavares faz sucesso desde 1993.
Mas eu nunca havia ouvido falar em Sara Tavares.
Em algum momento do ano passado, quando mudei para Angola, escutei uma música muito legal no rádio. Falava de amor e misturava português, inglês e algum outro idioma que fui incapaz de identificar. Era cantada por uma mulher.
Seria angolana, moçambicana, caboverdiana, são-tomense? Diante da minha incapacidade de diferenciar os sotaques da África lusófona, minha tendência foi acreditar que se tratava de uma cantora angolana.
Pois bem. A cantora é a Sara Tavares. A moça nasceu em Lisboa a 1 de fevereiro de 1978 e tem ascendência cabo-verdiana.
A música chama-se One Love e é uma belezura. É a faixa 5 do CD Balancê, lançado em 2005 (onde é que eu estava?).
quarta-feira, 7 de janeiro de 2009
ME CONVENCERAM DE QUE EU PRECISAVA DISSO
A partir de hoje, Me convenceram de que eu precisava disso entra na relação de sítios que valem a pena.
AS DUAS VEZES EM QUE CRUZEI A FRONTEIRA DE ANGOLA COM A NAMÍBIA A PÉ - PARTE II
Antes de embarcar, temos de identificar as malas colocadas ao lado do avião.
Apesar de as malas já terem sido etiquetadas, os passageiros, um a um, têm de apontá-las aos carregadores. Como o vôo terá uma escala antes (Catumbela) e outra depois (Huambo) de Ondjiva, é preciso ter certeza que a bagagem chegará ao mesmo destino do dono.
Um funcionário da SonAir, a empresa aérea da Sonangol, a estatal do petróleo angolana, explica ao carregador o procedimento.
FUNCIONÁRIO DA SONAIR – Você pergunta ao passageiro para onde ele vai. As malas de quem vai para Ondjiva entram primeiro. As malas de quem vai para Catumbela entram depois, pois serão desembarcadas antes. Entendeu?
CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim, chefe.
FUNCIONÁRIO DA SONAIR (dirigindo-se a mim) – O senhor vai para onde?
EU – Ondjiva.
FUNCIONÁRIO DA SONAIR (dirigindo-se ao carregador) – Ele vai para Ondjiva. Já sabes o que fazer, não?
CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim chefe. A mala dele vai depois.
FUNCIONÁRIO DA SONAIR (aos berros) – NÃO, NÃO!!! Ele vai para Ondjiva. As malas de quem vai para Ondjiva entram PRIMEIRO.
CARREGADOR DA SONAIR – Sim, sim, chefe!
Luanda fica para trás.
Bom, as malas chegaram a Ondjiva.
Decidimos cruzar a fronteira com a Namíbia por via terrestre porque não havia vôos da capital Windhoek na data que queríamos voltar para Luanda.
No desembarque, temos de entregar os passaportes. Uma funcionária do governo os leva para uma sala e anota os dados.
Enquanto aguardamos as malas, somos abordados por um motorista de táxi que se oferece para nos levar até a fronteira. Daniel é o nome dele. Cobra 500 kwanzas por pessoa. Como somos quatro, ganha 2 mil kwanzas (US$ 26,6) por uma corrida de 40km até o posto de imigração.
Os passaportes voltam.
Arrastamos as malas até o táxi de Daniel, estacionado do lado de fora do aeroporto. É um carro azul, velho. Vou no banco da frente. O vidro da janela do meu lado não abaixa e o ar-condicionado não funciona. O sol está do meu lado. Torro durante os 40 minutos de viagem até a fronteira.
Ou melhor. Até quase a fronteira.
Quando nos aproximamos do posto de imigração, Daniel reduz a velocidade do carro.
Imediatamente somos cercados por angolanos se oferecendo para carregar a bagagem, querendo comprar kwanzas (como sabem, é proibido sair do país com kwanzas) e oferecendo dólares namibianos.
Daniel se irrita.
DANIEL – Saiam daqui. Não estão vendo que não querem fazer câmbio?
Nisso, somos abordados por um policial numa moto.
POLICIAL NA MOTO (dirigindo-se ao Daniel) – O que você está a fazer aqui? Não sabe que não pode vir até aqui de táxi?
DANIEL – Não é serviço de táxi, chefe. São meus bosses.
POLICIAL NA MOTO – Não pode. Você não pode vir aqui de táxi.
Os táxis não podem levar passageiros até a fronteira.
Daniel é obrigado a encostar num terreno vazio.
Descemos do carro e somos novamente cercados por um enxame de angolanos que se oferecem para carregar a bagagem, comprar kwanzas e vender dólares namibianos.
Agradecemos. Mas eles insistem.
ANGOLANO – Aqui não tem gatuno, chefe. Pode confiar.
EU – Ninguém disse isso. Só que não queremos fazer câmbio. Obrigado.
Depois de um tempo, os angolanos acabam se afastando.
Pagamos Daniel e arrastamos as malas pela poeira por uns 200 metros até o posto da fronteira.
No guichê, angolanos e namibianos que vivem na região da fronteira e fazem uma espécie de comércio-formiga durante todo o dia se espremem diante da janelinha do oficial da imigração para obter o carimbo de saída de Angola.
O carimbo é dado numa folha tamanho A4. É carimbado tanto na saída de um país como na entrada em outro. Muitos dos papéis estão rasgados, amassados, dobrados em dezenas de pedaços, alguns sem espaço para novos carimbos.
O oficial de imigração, com um anelão no dedo, bate o carimbo na almofada e bate no papel. Reclama com algumas pessoas que já não há espaço para novos registros.
Interrompe o trabalho e dá duas mordidas numa banana já pela metade que ele pega em cima do balcão. Carimba alguns passaportes e come duas uvas num pratinho em cima do balcão. Carimba mais uns passaportes e dá outra dentada na banana.
Finalmente conseguimos sair.
Uma semana depois, no retorno, bastou sairmos do carro para começar o assédio de angolanos do lado namibiano da fronteira querendo fazer câmbio, pedindo para levar a bagagem e pedindo dinheiro.
Recebemos o carimbo de saída e rumamos para o lado angolano da fronteira.
No caminho, angolanos insistem em “ajudar”. Pedem 200 kwanzas para levar a bagagem.
Mas vamos para o guichê errado, o da saída de Angola.
Os angolanos continuam a nos chamar. Ignoramos. Quando descobrimos que estávamos no lugar errado, fazemos o caminho de volta.
Um policial angolano enfezado vem ao nosso encontro.
POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Vocês são surdos? Vocês são surdos?
NÓS – Não!
POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Não ouviram eu dizer que a entrada era do outro lado. Até mandei o menino chamar vocês.
NÓS – Não percebemos que era o senhor. Pensamos que fossem os garotos pedindo para carregar a bagagem.
POLICIAL ENFEZADO (aos gritos) – Eu falei que aquele era o lado errado.
EU – Desculpe. Não percebemos.
POLICIAL ENFEZADO – Da próxima vez vou tomar providência.
Fico imaginando que providência ele tomaria pelo fato de termos ido para o lado errado.
O comportamento do policial que nos abordou é o maior exemplo do servidor público despreparado para exercer uma função pública.
Enfiado num uniforme e investido do poder do Estado, o servidor de baixo escalão despreparado torna-se um pequeno ditador. Delicia-se na humilhação das pessoas, a forma mais baixa de exercício do poder.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
PRÉMIO DARDOS

Com muita honra recebi a indicação ao Prémio Dardos, feita pelo Afonso Loureiro, criador do Aerograma, um dos blogs mais criativos que surgiram nos últimos tempos.
O Diário da África começou em julho de 2008.
Foi uma evolução dos e-mails que eu mandava aos amigos no Brasil.
Aos poucos, comecei a receber mensagens de amigos com quem eu havia perdido contato havia muitos anos por conta dos descaminhos da vida.
Mensagens de apoio, de carinho.
Muitas me emocionaram.
Teve até dois portugueses que vieram para Luanda ainda adolescentes, com os pais, no fim dos anos 60. Aqui se conheceram, namoraram, se separaram, perderam contato depois da independência e se reencontraram aqui no blog, 40 anos depois.
Gente desconhecida escreve para dizer que acha os textos engraçados, que sentem prazer na leitura.
Claro que, para mim e para qualquer pessoa que escreve, é o melhor comentário que se pode receber.
Nos últimos meses, o diário tem sido uma terapia que me ajuda a exorcizar meus demônios.
É uma fonte de prazer.
Tenho grande prazer em escrever as histórias.
E aquilo que se escreve com prazer também é lido com prazer.
Não conheço o Afonso pessoalmente, apenas de algumas trocas de e-mails.
Mas o texto dele tem uma força e uma delicadeza tão grandes que virei fã desde que li o primeiro post.
Ao Afonso, muito obrigado.
Aos que folheiam as páginas deste diário, continuem por aqui.
A seguir, o texto que explica o Prémio Dardos.
"Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogger emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os bloggers, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Este prémio obedece a algumas regras:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blog pelo qual se recebeu a indicação;
3) Escolher outros blogs a quem entregar o Prémio Dardos."
E agora, os escolhidos:
1) Casa de Luanda;
2) Branquela D´Angola;
3) Pé na África;
4) Angola em Fotos;
5) Nos Cus de Judas;
6) As Aventuras de uma Brasileira no Egito;
7) Um Pezinho na África;
8) Seguindo Adiante;
9) Paletó de Linho;
10) Diadema de Angola;
11) ...Em Angola...
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
AS DUAS VEZES EM QUE CRUZEI A FRONTEIRA DE ANGOLA COM A NAMÍBIA A PÉ (PARTE I – AINDA EM LUANDA)
Os passageiros dos vôos internacionais são submetidos a insinuações de achaques, assédios de malandros, funcionários despreparados para exercer suas funções e a surreal exigência de se apresentar o passaporte sete vezes até conseguir entrar no avião.
No terminal doméstico, a situação não é muito diferente.
A estrutura para os passageiros é até um pouco melhor do que a disponível no terminal internacional. Mas os acompanhantes são proibidos de entrar. São obrigados a ficar no pátio do estacionamento. Ali, só passa pelo guarda quem mostrar documento e passagem.
O check-in foi até tranqüilo. Não havia fila.
A selvageria começa no momento da entrada na sala de embarque.
Forma-se uma longa fila para que os passageiros passem a bagagem de mão por um único aparelho de raios-X.
Quem já esteve por aqui sabe da dificuldade dos angolanos não apenas em fazer fila, mas de respeitar a fila depois que ela se organiza.
A fila avança. Lá na frente, começamos a ouvir uma gritaria. São angolanos se estapeando e trocando empurrões.
Motivo: os angolanos que estavam na fila não queriam deixar outros angolanos furarem a fila.
De nada adianta.
Os angolanos que não respeitam filas não querem saber de nada. Passam na frente, colocam suas bagagens na esteira do aparelho de raios-X e entram.
Começa uma gritaria. Os policiais e seguranças de plantão nada fazem.
Vai chegando nossa vez de entrar.
Mais angolanos chegam para furar a fila.
Só para lembrar, a Casa de Luanda e o Diário da África estavam juntos na viagem à Namíbia.
A Casa de Luanda informa a um senhor angolano que tentava se infiltrar na nossa frente que não apenas havia uma fila, mas que ela começava lá atrás.
ANGOLANO QUE NÃO RESPEITA FILA – Ai, é?
CASA DE LUANDA – Ai, é.
O angolano furão foi para o fim da fila.
Mas os angolanos furões surgem em profusão.
Tentam passar na minha frente.
EU – Meu senhor, a fila é lá atrás.
O angolano furão nem liga. Finge que não ouve e continua ali, avançando.
EU (em mais um momento de valentia) – O senhor não vai passar na minha frente. A fila é lá atrás.
E avanço para impedir que ele entre na minha frente.
Nisso, surge um dos seguranças que manda o angolano furador de fila ir lá para trás. O angolano furador de fila não vai. Continua a tentar entrar. O segurança o empurra para trás.
Nada.
O angolano continua ali e acaba entrando depois de nós.
É inacreditável.
E a solução para isso seria simples. Bastava colocar um daqueles cordões que formam aquelas filas únicas nas agências bancárias no início do aparelho de raios-X. Seria suficiente para impedir que os angolanos espertalhões furassem a fila.
Angola ainda tem muitos desafios pela frente.
Ensinar as pessoas a respeitar as filas é um deles.










