terça-feira, 31 de março de 2009

ANGOLA PREOCUPADA COM EXPANSÃO DO ISLAMISMO

Depois da visita do papa Bento XVI, o governo de Angola dá o recado.

Leia abaixo, ou no sítio da Angop, a notícia publicada hoje:


Governo preocupado com expansão do islamismo

Luanda - O Governo angolano está preocupado com a expansão do islamismo e suas consequências na organização e estrutura da sociedade angolana, afirmou hoje, em Luanda, a ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva.

Dirigindo-se aos deputados da sexta comissão da Assembleia Nacional, que visitaram as instalações do Instituto Nacional de Estudos Religiosos (INAR), Rosa Cruz e Silva manifestou a sua preocupação face ao crescimento e aumento de seguidores desta religião em Angola.

"A nossa preocupação prende-se com a expansão do islamismo e as consequências que podem provocar na organização e estrutura da sociedade angolana", disse.

Por seu turno, a directora do Instituto Nacional para Assuntos Religiosos (INAR), Fátima Viegas, adiantou estar em perspectiva um estudo para se determinar até que ponto o islamismo está enraizado na sociedade angolana.

"O islão é uma situação que está a preocupar na medida que temos recebido da população algumas lamentações e queixas relativas a muitas jovens que se têm tornado escravas depois de casadas com pessoas que professam esta doutrina. As informações que recebemos avançam que estas jovens não são companheiras, mas sim escravas, sendo obrigadas a sujeitarem-se a hábitos que em nada têm a ver com os costumes do povo angolano”, asseverou Fátima Viegas.

Como sabemos, acrescentou a responsável, uma das preocupações do Estado é a protecção do cidadão, sendo, portanto, uma das razões que leva o INAR, em particular, a juntar meios e esforços para um estudo profundo sobre o fenómeno em causa.

Segundo disse, o que se passa não é a hostilização do islão como doutrina, mas somente a prática de actos nada benéficos para a sociedade angolana.

“Embora professada por diversas pessoas, maioritariamente oriundas de países árabes, o Islão é um fenómeno estranho à cultura angolana e não tem raízes históricas na tradição do país, embora seja uma realidade actual. Se as pessoas estão a sentir-se lesadas é preciso uma resposta e é isto que o Ministério da Cultura, através do INAR vai fazer”, pontualizou.

O que se pretende com tal estudo, adiantou Fátima Viegas, é saber "in loco" o que se passa, quais são as ligações e dar uma resposta.

Depois da visita ao INAR e às instalações do Ministério da Cultura, os deputados mantiveram um encontro com os seus responsáveis, encabeçado pela ministra Rosa Cruz e Silva, de quem receberam informações detalhadas sobre a vida cultural do país.

NÃO É PROIBIDO FOTOGRAFAR EM ANGOLA

Quase não é.

Muitos lugares ainda são restritos ou proibidos.

Quem já veio a Angola com uma máquina fotográfica deve ter sofrido alguma tentativa de extorsão feita por policiais e civis contra estrangeiros que tiram fotos da paisagem, da baía de Luanda, de prédios históricos etc.

Ainda hoje, tirar fotos do palácio presidencial, prédios da polícia e alguns outros edifícios governamentais pode dar cadeia. Ou um longo aborrecimento.

Consegui hoje a cópia do documento abaixo. Clique neles para ler melhor. Depois, imprima e carregue consigo. Se algum policial ou qualquer pessoa disser que é proibido tirar fotografias, mostre o documento.

Nele, o diretor nacional do Comando Geral da Polícia Nacional de Angola, Isaías Celestino Chingufo Chiyaneke, envia a circular número 11/06/05.05/DNOP/003 “a todas direcções provinciais da ordem pública do comando provincial da polícia nacional” com o seguinte comunicado:

“ASSUNTO: TIRAGEM DE FOTOGRAFIAS NA VIA PÚBLICA

Constatando-se o afluxo de cidadãos Nacionais e estrangeiros que têm vindo a utilizar o meio Público ou as diversas artérias desta cidade capital “Luanda”, e nas demais cidades do nosso País, tirando fotografias para fins técnico-científico, académico, comercial e recordações das paisagens deste belo país “Angola”.

Considerando que esta prática não constitui nenhum crime, salvo as áreas onde se situam as infra-estruturas dos órgãos de soberanis e das Forças de Defesa, Segurança e Ordem Interna;

Em cumprimento do consignado no ponto nº2 das Orientações baixadas na reunião do Grupo Operativo/CGPN, realizada no dia 16OUT03;

Orienta-se o seguinte:
1 – Todas Direcções Provinciais da Ordem Pública dos Comandos Provinciais da Polícia Nacional deverão trabalhar no sentido de sensibilizar o efectivo da PN para que não se criem obstáculos às pessoas que tirem fotografias nas vias públicas, uma vez que esta conduta não constitui crime;

2 – Esta Circular é de carácter permanente, cabendo as DPOP/CGPN o cumprimento imediato da mesma, a partir da data da sua recepção.

PELA ORDEM E PELA PAZ AO SERVIÇO DA NAÇÃO

DIRECÇÃO NACIONAL DE ORDEM PÚBLICA /CGPN em Luanda, aos 05 de novembro de 2003

O DIRECTOR NACIONAL

ISAÍAS CELESTINO CHINGUFO CHIYANEKE
SUBCOMISSÁRIO”


Boas fotos!






segunda-feira, 30 de março de 2009

SEMANA AFROMAN

O grupo Afroman, liderado pelo Yannick, é bom demais. Ao longo da semana, colocarei as músicas do CD "Mentalidade" no blog. A faixa de hoje é a número dois e a que dá nome ao disco.

O SISTEMA PÚBLICO DE SAÚDE ANGOLANO É PRIVADO

Paga-se tudo.

Para entrar no hospital, para conseguir uma senha, para colocar o nome na lista, para ser atendido pelo médico, pelos exames, para conseguir pegar o exame. Se um parente estiver internado, visita só entra se pagar.

No fim do dia, claro, há um rateio.

Todo mundo leva o seu.

AS DICAS DA EDINALDA*

Salve, diqueiros!

No domingo passado falei sobre palavras 'nossas' ( campistês) e ambiguidades. Pois bem: minha amiga Lolô Crespo reenviou para nosso confrade e imortal da Academia Campista de Letras, Jorge Renato Pereira Pinto, e ele me mandou o texto abaixo.


“Para você e Edinalda : " estou esbodegado"
Jornalistas em Campos e Rio usam estadia ao invés de estada. Quando eu aprendi, estadia é o navio atracado no porto. Os jornalistas sempre usam " fulano veio ... fazer uma estadia em...”

Ele tem razão: 'esbodegado' quer dizer cansado, e vem de bodega= bar, taberna. Há pessoas que quando saem de um bar, uma taberna, ou lugar semelhante saem... esbodegadas!

Em relação a estada e estadia - nossa!- o erro é muito comum e já ouvi, até, que as palavras têm o mesmo significado. Não têm! Lá vai a dica:
Estada = “permanência”, “ato de estar em um lugar”. Ex.: Minha estada em Vitória foi curta.”
Estadia = "tempo de permanência de um navio no porto, ou do avião no hangar". Ex.: Durante sua estadia no porto de Santos, o ‘Paratii’ foi inspecionado por Amyr Klink.”

MAS, já há professores que aceitam uma pela outra , porque entendem que a permanência em algum lugar não deve se restringir ao navio ou ao avião. Portanto, admitem que uma pessoa possa ter "a estadia em um hotel paga pela empresa...".
É importante ressaltar que o AURÉLIO e o BRASILEIRO já registram a possibilidade.
Façam suas escolhas, mas preparem-se para explicá-las, ok?

abçs da
Edinalda


*Edinalda é professora em Campos dos Goytacazes (RJ) e publica dicas de português aqui no diário uma vez por semana.

domingo, 29 de março de 2009

POR QUE NÃO VOLTEI A ESCREVER SOBRE A REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO

O diário recebeu o seguinte comentário de um leitor anônimo:

“Prezado Diário da África,

As partes mais brilhantes de seu blog são aquelas de quando você descreveu a Guerra Civil no Congo. Se passaram muitos posts e você não retornou ao tema (talvez para evitar o horror do tema).
Porém, eu (certamente muitos outros leitores assíduos também) gostaria de ter um "retrospecto" daquela extraodinária cobertura sobre a guerra civil, as mulheres violadas, as crianças desoladas.
Talvez um retorno, um pequeno post sobre a situação política naquele país.
Um abraço e parabéns pelo blog, cujos posts memoráveis não se reduzem apenas aos do Congo.”

Várias vezes pensei em escrever outra vez sobre a situação na República Democrática do Congo.

Acompanho pela internet a situação no país. Tudo continua muito ruim.

O general rebelde Laurent Nkunda foi capturado e está em prisão domiciliar em Ruanda.

Os exércitos do Congo e de Ruanda realizaram operações conjuntas na região para prender milícias hutus que aterrorizam as pessoas.

O que terá acontecido com Kibundila Baronani, que encontrei em tratamento médico num hospital em Goma? Ela tem 17 anos. Aos 10, foi violentada por quatro soldados. Passou por diversas cirurgias de reconstituição anal e vaginal.

O que terá acontecido com Ela, que passou três semanas e meia como escrava sexual nas selvas do Congo?

O que terá acontecido com as crianças no campo de deslocados que sorriam o tempo todo e me chamavam de Muzungu?

E James, para quem a vida é Hakuna Matata? Sobre este posso dizer. De vez em quando nos falamos por telefone. Ele continua lá em Goma, no seu trabalho de fixer e de motorista. Antes de eu vir embora, deixei com ele, de presente, um livro sobre Angola. O título era “Angola: promisses and lies”. Ele demonstrou grande interesse na história de Angola e, como o livro era escrito em inglês e ele queria melhorar o vocabulário no idioma, dei o livro para ele. Não sei se ele leu.

O que terá acontecido com tantos outros que conheci por lá?

Não sei. Precisaria voltar a Goma. E isso explica o motivo pelo qual não voltei a escrever sobre o Congo.

Tenho grandes dificuldades de escrever sobre coisas que não vivencio. Eu poderia, sim, escrever longos posts sobre a complexa situação política do Congo (ou de qualquer outra país da África ou do mundo), como a miséria continua, como a exploração ilegal de diamantes ainda mantém a população na pobreza, como a corrupção dos generais que controlam as áreas diamantíferas perpetuará a desgraça daquele povo por tanto tempo.

Bastaria fazer uma pesquisa rápida na internet, ler as notícias das agências internacionais e, pronto. Teria eu farto material para trabalhar. Mas seria mera tradução. É claro que eu poderia acrescentar minhas lembranças, fazer um comentário específico com base na experiência que tive por lá.

Mas acho que não seria justo. Em vez de apenas traduzir as agências internacionais e os relatos dos repórteres que lá estão, prefiro indicar os sítios para que cada um leia as matérias e tire suas conclusões.

Por isso não voltei ao assunto com a profundidade que o tema merece. Vez ou outra reproduzo uma notícia que acho mais interessante e até faço um pequeno comentário. Mas não consigo ir além. Para produzir algo melhor, precisaria voltar lá, mergulhar de novo naquelas histórias. Gostaria muito, mas não sei se e quando isso vai acontecer.

As experiências que tive por lá ainda me atormentam. Quando lembro dos olhos da Ela se encherem de lágrimas ao narrar que pensou em abortar a filha que, em novembro do ano passado, tinha cinco meses porque a garota é fruto de um estupro e só não o fez porque não sabia, ainda me emociono.

A mesma coisa com o relato de Kibundila, que mantinha no rosto um sorriso ao contar como foi violentada seguidas vezes por quatro adultos quando tinha apenas dez anos de idade.

A mesma coisa com o médico da ONG Médicos Sem Fronteiras, que me explicou, emocionado, por que há tanto estupro contra garotas (não sabem se defender, não têm força para se defender, têm as vaginas estreitas e os violadores chegam rapidamente ao orgasmo).
A mesma coisa com as crianças que me seguiam no campo de deslocados me chamando de “muzungu”. Em especial um garotinho que passou o dedo no meu braço para ver se eu era coberto com uma tinta branca e depois encostou seu bracinho no meu para comparar as cores.

Para contar tudo isso, preciso voltar. Por isso não voltei ao assunto.

sábado, 28 de março de 2009

SOBRE GARAGENS E VIZINHOS

Acho que o assunto fará parte do diário até o nosso último dia em Luanda.

O tema é polêmico. Complexo. É necessário prescrustar o fundo da alma angolana para conseguir entender.

Quase todos os dias alguém estaciona o carro na porta da nossa garagem. Algumas vezes são motoristas que, na ausência de uma vaga para deixar o veículo, param-no em qualquer lugar. Tal lugar, em geral, é a porta da nossa garagem.

Na maioria das vezes, no entanto, são os vizinhos. O da direita, o da esquerda, o de duas casas à direita, o de duas casas à esquerda, o da frente. Resumindo, quase a rua toda.

O curioso é que eles nunca estacionam na frente das próprias garagens.

Será que vale a pena, de teste, estacionar na porta da garagem deles algum dia? Só para ver a reação?

E se vierem reclamar, sempre poderei dizer:

EU - Desculpaláááá!!!!

quarta-feira, 25 de março de 2009

EPISÓDIO REVELADOR DA ALMA DE ALGUMAS GENTES DO LADO DE CÁ DO ATLÂNTICO

Para a cobertura do papa, tive de contratar um cinegrafista. Vamos chamá-lo Wilson. Como ele tem outro emprego e não poderia trabalhar durante os quatro dias da visita de Bento XVI, pedi que indicasse outra pessoa.

Ele me indicou o Pytú.

Cada um trabalharia dois dias e receberia 700 dinheiros pelo trabalho.

Eis que, por problemas burocráticos, Wilson não conseguiu fazer o credenciamento. Ou seja: o único credenciado foi o Pytú, que teria de trabalhar os quatro dias.

No primeiro dia de trabalho, Wilson veio me dizer:

WILSON – O Pitý está a trabalhar como meu funcionário, na minha firma, yá?

EU – OK. Então eu te pago e depois você acerta com ele.

Eis que, ao longo da cobertura, descubro que Wilson só pagaria 500 dinheiros ao Pytú. Sim, isso mesmo: Pytú, que receberia 700 dinheiros por dois dias de trabalho na negociação comigo, receberia 500 dinheiros por quatro dias no suposto acerto com Wilson.

Quando soube, decidi não pagar nada a Wilson. Entreguei os 1.400 dinheiros ao Pytú.

Wilson não gostou. Disse que eu faltei com a palavra pois o acerto era entregar o dinheiro para ele.

EU – Sim, estava combinado, mas eu não sabia que você ia pagar menos do que a diária combinada. Como é que o Pytú vai trabalhar o dobro e receber menos?

WILSON – Mas o combinado é que ele estava pela minha empresa, e você tinha de pagar para mim.

EU – Mas eu não concordo com o que você fez. Não é justo.

WILSON – Yá, senhor Diário. Foi um prazer trabalhar contigo.

E desligou o telefone na minha cara.

Paguei os 1.400 dinheiros ao Pytú e disse que ele não deveria entregar nada ao Wilson.

Depois liguei para o Pytú, que acabou entregando 600 dinheiros para o Wilson e ficando com 800 dinheiros.

EU – Pytú, o dinheiro é seu e você faz o que quiser, mas não é justo. Você deu dinheiro demais. Não deveria ter dado nada.

PYTÚ – Yá. Ele queria ficar com a maior parte do dinheiro. Eu disse que não, que trabalhei os quatro dias enquanto ele ficou sentado em casa. Ele disse que a gente não podia brigar. Eu disse que éramos colegas de trabalho. Se ele não quisesse mais ter contato, também não tinha problema.

Pytú acabou entregando quase a metade do dinheiro para o picareta do Wilson.
E assim seguem as relações humanas.

ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA


Palestra do escritor angolano Pepetela na Universidade Agostinho Neto, em Luanda:

"Permitam-me em primeiro lugar agradecer a honra conferida pela Reitoria da Universidade Agostinho Neto, ao me fazer o convite para proferir esta palestra que eu gostaria bem de merecer o nome de “Oração de Sapiência”, mas temo ser demasiado modesta e ligeira para tal epígrafe.

Aproveitarei o facto de hoje a minha profissão ser unicamente a de escritor para me escudar nessa cómoda desculpa em relação a um tratamento de texto que talvez não se coadune inteiramente com a solenidade do momento.

Será porventura norma nesta nossa casa que a Oração de Sapiência exija alguma reflexão teórica e respectiva linguagem sobre assuntos relevantes para uma ciência em particular.

Balançando-me entre o facto de ter estudado, praticado e ensinado Sociologia, o que indicaria uma comunicação nessa área, e a minha propensão natural de ficcionista em distorcer por vezes factos escrevendo estórias, peço pois a vossa compreensão para a ligeireza e alguma falta de rigor teórico que possivelmente encontrem no meu discurso. Difícil seria acontecer o contrário e acertar imediatamente no tom mais conveniente para uma intervenção estritamente académica.

Entrando no sujeito, decidi, depois de alguma hesitação, falar sobre palavras. As palavras são afinal o instrumento por excelência do escritor, mas acabam por ser também de profissionais de outras áreas, em particular nas ciências sociais. O tema que me propus tratar, à volta das palavras, tem e não tem relação directa com as ciências sociais, sendo proveniente de
observações feitas recentemente e outras intuições bem mais antigas que tenho reiteradamente repetido em público, apenas de forma diferente.

Falemos pois sobre palavras.

Se me permitem um começo muito terra-a-terra, vou salientar a forma dominadora, quase tirânica, como algumas palavras se apossam rapidamente da sociabilidade, em determinado tempo e espaço. O exemplo mais claro é o da palavra engarrafamento ou trânsito caótico em Luanda, o que vem dar ao mesmo. Actualmente, surge no relacionamento entre pessoas de largo extracto social como uma continuação lógica da habitual saudação. Se perdemos trinta segundos para cumprimentar e saber da saúde do outro, gastamos seguramente mais tempo para nos queixarmos dos engarrafamentos e do trânsito caótico.

Esta situação urbana passou a ser uma introdução à conversa, uma muleta para quem tem pouco a comunicar, como já foi antes o estado do tempo, com as referências sobre a chuva ou o calor. O engarrafamento se tornou uma palavra extremamente útil no relacionamento social corrente, cumprindo o papel de gatilho da interação verbal. Tem outras conveniências.

Também serve a estratégia pessoal da desculpabilização, pois a nossa proverbial falta de pontualidade encontra agora uma justificação imbatível, com provas possíveis de encontrar
mesmo na imprensa internacional. É também razão apontada para cansaço persistente provocando pouca produtividade no trabalho, e mesmo desentendimentos familiares pelo afastamento material criado entre os respectivos membros.

Por outro lado, se tornou ocasião privilegiada para assaltos nas ruas à vista de toda a gente e portanto para a criação da psicose da insegurança, enfim, fonte de males e perturbações psicológicas. Não nego razão a muitas destas queixas, mas a opinião pessoal do observador
está fora de causa.

A palavra engarrafamento, tornada uma das mais usadas na nossa sociedade no dia a dia, explica como uma situação urbana tem reflexos sociais incontestáveis. E, se estudos fossem feitos para traduzir em kwanzas o tremendo prejuízo à economia nacional gerado pelo tempo perdido nos meios de transporte, a palavra ganharia outra dimensão à medida das nossas desgraças.

Nos dias que correm, outra palavra hiper usada é crise. Está evidentemente relacionada com a crise global financeira, originada ou apenas agravada pela especulação e apetite desenfreado de alguns magnatas do ocidente, que acabou por transbordar fronteiras e tocar toda a gente,
embora alguns economistas e acríticos pensadores angolanos tenham negado a sua existência, ou mesmo a possibilidade de ela se manifestar entre nós, quando os primeiros sintomas já pairavam no horizonte e a palavra tomava incessantemente conta dos órgãos de comunicação estrangeiros.

Alguns entre nós consideraram erradamente que as notícias se referiam apenas às economias mais avançadas, com forte pendor financeiro, enquanto Angola escaparia aos seus efeitos, esquecendo ou não querendo ver que se tratava de uma crise do sistema financeiro mundial e
portanto afectando forçosamente todas as economias se regendo pelos princípios do capitalismo neoliberal, como é o nosso envergonhado caso, para não caracterizar o sistema económico-social que aqui se vai fazendo com um adjectivo mais contundente, mas menos digno desta venerável
cerimónia.

Crise tornou-se pois a palavra das conversas, em determinado grupo social ao qual acabamos todos por pertencer, depois dos iniciais desabafos sobre o trânsito. No entanto, é palavra que merece sem dúvida maior tratamento, deixando o problema dos engarrafamentos para os políticos e técnicos que os devem resolver.

Há três meses participei no Brasil num painel cujo título, curioso, era precisamente “O escritor e a crise”.

Evidentemente nenhum autor falou da crise económica e da possível acção dos escritores sobre ela, objectivo provável dos inventores do painel. Pela minha parte, limitei-me a dizer que já o título trazia equívocos, pois, por definição, um escritor é um ser em crise, pelo menos no momento de criação. A arte está indissoluvelmente ligada à procura de rupturas, inovações, correspondendo a momentos de forte tensão de grupos sociais em mudança ou à procura dela, numa palavra, crise.

E depois desenvolvi a ideia já conhecida entre nós que toda a literatura angolana, desde os remotos anos do século XIX, se tem alimentado de uma sociedade em crise permanente, seja por causa da colonização e resistência a ela, seja da guerra depois da Independência, seja da situação de reestruturação social actual. E que estávamos de tal maneira habituados a crises de toda a ordem, que esta seria mais uma, apenas diferente, e não seríamos certamente chamados a
resolvê-la, apenas a sofrê-la.

Acrescento que a actual crise mundial não vai obviamente encontrar solução aqui, dependentes que estamos da ordem internacional. Somos conhecidos pelo orgulho exacerbado com que nos defrontamos com o outro e a tendência a considerarmos tudo o que nos toca como sendo
fundamental, único e de importância vital.

Desta vez, porém, nem os mais nacionalistas ousarão colocar Angola numa das premissas essenciais de solução do problema criado pelos outros. Infelizmente para o nosso grande ego, sempre pronto a nos ver como cavaleiros andantes em busca de aventura. Devemos por isso ser humildes e prudentes ao tratar com ela, evitando gestos demasiado audaciosos que só podem neste momento ter más consequências.

De qualquer maneira, mesmo se a crise não depende de nós, falamos constantemente dela e vamos usá-la como justificação para muita coisa, como se vai já adivinhando por algumas posições e intervenções públicas. Apesar de tudo de negativo que comporta, se trata de
uma bela palavra, forte, rápida de pronunciar, um tiro sonoro no deserto.

Querendo, também podemos prolongar a vogal forte, criiiiise, dando um indubitável peso à nossa preocupação com o futuro.

Um único aspecto quero ressaltar neste facto, é que a crise pode ser útil para o futuro. Não serei original, mais uma vez. Outros já tocaram no assunto de a situação com a qual o mundo se defronta ser capaz de estabelecer novos parâmetros para alguns apetites e exageros, obrigando a
reformular o sistema capitalista vigente, pois a vertente ultraliberal está totalmente desacreditada. Talvez estes eternos optimistas tenham razão.

Embora não haja de facto nada de novo, pois há mais de um século tinha sido claramente diagnosticada pelo hoje politicamente pouco correcto pensador, Karl Marx, o qual sustentava que o capitalismo vivia das crises que periodicamente criava. Assim tem sido, com maior ou menor intensidade, desde os seus primeiros escritos.

No entanto, o homem é um ser de memória curta e está sempre a desaprender os ensinamentos do passado, talvez para dar mais razão de ser aos professores, os quais têm por tarefa relembrá-los.

No que nos diz respeito, pode a situação levar a repensar muita da teoria que está por baixo de numerosos actos de governantes e governados, embora normalmente essa teoria se tenha deixado de reconhecer publicamente: refiro-me à ideia, trazida dos tempos coloniais, de que
Angola é um país rico.

Mesmo se a maior parte de nós não o diz claramente, por já ter vergonha de aparentar uma presunção tão combatida pela própria realidade, pensa-o nas suas conversas secretas com o
travesseiro. O convencimento voltou com a euforia dos últimos anos, ao se observar um crescimento anormal do Produto Interno Bruto, apesar de alguns gritos isolados de alerta.

Porém, a ideia escondida e falsa acaba sempre por contaminar o processo de traçar planos para o país. A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto
Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém de julgarmos o país incomensuravelmente rico.

Os colonizadores, nos anos sessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, que ela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agora é difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar
numa clara política de desenvolvimento sustentado.

Mas a crise veio para nos mostrar quanta debilidade afinal apresentamos. E ainda bem. Talvez, se nos mentalizarmos efectiva e definitivamente que país rico é aquele que pode alimentar os seus filhos e prover às suas necessidades básicas sem precisar constantemente de recorrer ao exterior, então estaremos a dar o primeiro passo para sair da situação de subdesenvolvimento em que estamos mergulhados há séculos, situação ultimamente disfarçada, mas mal, pelos arranha-céus de vidros espelhados e planos mirabolantes de viadutos esplendorosos sobre o mar.

Infelizmente, essas brilhantes obras de engenharia e arquitectura ainda não saíram das cabeças e competências dos nossos profissionais, sendo sempre de inventiva estrangeira. Além do mais,
o que é triste, as grandes obras estão baseadas sobre lixo e miséria, ou convivem paradoxalmente com eles. Por isso insisto nesta matéria de forma cansativa, somos mesmo subdesenvolvidos e dependentes.

Só sairemos dessa situação de dependência quando resolvermos os nossos problemas com as nossas cabeças e quando aprendermos a olhar apenas para o espelho em busca de reconhecimento e não a procurar nas televisões ou jornais estrangeiros um magro elogio aos nossos feitos.

Ao mesmo tempo que somos orgulhosos nalgumas ocasiões, diga-se de passagem por vezes com
razão, também ficamos ansiosamente complexados à espera de um qualquer veredicto exterior, numa contradição patológica.

Voltando ao malabarismo com as palavras, crise é pois a que se segue a engarrafamento na frequência de uso actual, podendo vir a liderar em breve, se de facto o mundo não encontrar rápidas soluções para reformular o capitalismo, na falta de alternativa de momento, ou se nós não tivermos a capacidade de minorar os seus nefastos efeitos com os nossos próprios meios.

Mas há, por outro lado, palavras importantes e que não são suficientemente ditas. Vou pois referir-me a elas em seguida, as que deviam aparecer mais vezes nas conversas e na comunicação social mas, talvez por vergonha (ainda a vergonha!) usamos muito pouco.

A primeira é uma das mais expressivas que conheço na língua portuguesa: ganância. Sonora, vibrante e profunda, por utilizar três vezes a mesma vogal, provavelmente a mais estática das vogais, o “a”.

Tem sido ultimamente utilizada nos meios internacionais, não a palavra portuguesa mas o seu correspondente em línguas estrangeiras, como um facto vindo a agravar ou mesmo a originar a actual crise financeira e económica mundial. No entanto, acho que esta palavra está na base do próprio sistema capitalista e a ele estará sempre associada. E a sociedade moderna, chamada muito propriamente de consumo galopante, tem vindo a agravar a sua importância social, transmitindo-a cada vez mais às novas gerações.

Hoje em dia já não é raro ver crianças gananciosas, tentando acumular bens ganhos de presente no supermercado ou na loja de esquina, exigindo dos pais compras incompatíveis com os orçamentos familiares. Fenómeno relativamente novo pela sua extensão, se já toca crianças porém, imaginemos então a devastação provocada no imaginário dos adultos.

Nas sociedades tradicionais africanas, a ganância tem sido apontada como uma das causas do recurso ao feitiço, sobretudo contra elementos da própria família, pois esse excesso de avidez pela riqueza se associa imediatamente ao sentimento negativo da inveja, por se não atingir o que se deseja e outros conseguirem.

Muitos dos casos que a literatura antropológica nos apresenta como motivo para as práticas de feiticismo tem a ver com estes sentimentos de competição social provocados pela ganância, tentando o invejoso por actos sobrenaturais castigar os que têm algum sucesso económico destoando com a situação do resto da família ou da aldeia.

Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vez mais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros são na heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter, açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando grupos
económicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia.

As notícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vai aparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associações entre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíram do nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dê lucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduo sôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez, deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno.

Se a ganância se tornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer, então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por dar cabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior.

A mesma propensão à acumulação meteórica de riquezas não se coaduna com medidas filantrópicas. Dir-se-á e eu concordo que, na nossa sociedade, ainda é cedo para uma filantropia consistente. A ideia de com o dinheiro ganho se reservar uma parte para melhorar o nível de vida dos outros ou para apoiar a actividade cultural ou científica da sociedade ainda tardará a se tornar numa filosofia de vida.

Esperemos que seja apenas uma questão de tempo para que na nossa sociedade se instaure a cultura existente nos países anglo-saxónicos, por exemplo, onde é muito comum pessoas fazerem doações a instituições científicas, culturais ou de apoio social, não para terem os rostos em revistas cor-de-rosa mas por reconhecerem deveres em relação à sociedade que os beneficiou.

E este pensamento leva-nos a outra palavra muito pouco utilizada entre nós, mas que devia merecer uma atenção particular: a palavra ética. Suave, aparentando gentileza, plena de promessas. Infelizmente tão esquecida.

Por contraposição, esta nova palavra sugere-nos um outro lado do que descrevemos anteriormente. De facto a economia de mercado, digamos assim para evitar a carregada palavra capitalismo, cria nos seus casos extremos enormes diferenciações sociais. Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema
social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62.

Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns a enriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldar estrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo.

Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. O estado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar com a necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis, de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram as leis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética.

Algumas igrejas têm tido a preocupação de transmitir certos valores, assim como outras
organizações voluntárias de grande mérito, o que leva cidadãos a cumprirem as normas sociais e a fazerem outros cumprir. No entanto, não podem ser só estas instituições a ditar regras de conduta imbuídas do respeito pelo outro e da solidariedade necessária. Temos de ser todos nós.

A instituição que é chave para a socialização do indivíduo e à qual incumbe em primeiro lugar portanto a aprendizagem das normas e da ética é a família.

Infelizmente, muitos se têm pronunciado pela falta de valores que as famílias transmitem aos seus membros, estando a instituição mesma de família num processo perigoso de degeneração, com as mudanças sociais bruscas introduzidas pela urbanização desregrada e a mercantilização da sociedade, pela destruição brutal dos agrupamentos e lideranças tradicionais, com a fraqueza das instituições criadas depois da independência, e com os resultados morais negativos das prolongadas guerras que o país viveu.

Tudo isso, além dos fenómenos mais modernos, como a globalização dos meios de comunicação, os novos interesses, e tecnologias em transformação permanente, faz com que as famílias se
tornem débeis, e particularmente a camada dos mais velhos tenha perdido prestígio para educar os mais novos. Esta perda de estatuto social pelos mais velhos nas novas sociedades urbanas não foi compensada pela aquisição de outros valores ou pelo surgimento de instituições vigorosas.

Daí se notar uma juventude um pouco perdida, vogando sem rumo pelas ruas, à espera que uma oportunidade caia do céu. Muitas vezes é a oportunidade para o crime a única coisa que surge à sua frente.

Nesse sentido, pertencemos a uma instituição que tem deveres imensos à sua frente na promoção da ética, uma nova ética. A universidade. E será esta a última palavra importante que vou esquadrinhar.

Universidade, universalidade. Não me atreverei a dizer que é o último bastião da ética ou que deveria sê-lo. Felizmente restam vários bastiões. A universidade pode ser um deles, apenas. Pela sua missão de abrir horizontes ao desejo de conhecimento, muito mais até que transmitir conhecimentos, pela propalada vocação de ensinar a estudar, e de aliar essa busca do conhecimento à pesquisa científica, a universidade é um factor por excelência do desenvolvimento.

Este é o espaço ideal para se reflectir e debater a sociedade, o tipo de sociedade que procuramos, e os meios necessários para o atingir. Num estudo sereno e profícuo. Já é altura de nós reforçarmos a ética social, primeiro com o exemplo de seriedade e profundidade que tem de vir de cima, do corpo docente e dos responsáveis.

Traumatizada por todas as vicissitudes por que passou, a sociedade olha com alguma desconfiança para as instituições e até para a nossa. Não quer dizer que seja verdade, mas é voz corrente que também na universidade se compram favores, acessos e oportunidades.

É um sindroma do mal que afecta a sociedade, céptica em relação aos valores defendidos por outros, mas temos, não só de negar tais preconceitos, o que se vai fazendo no dia a dia, mas demonstrar pela prática que nem tudo está perdido, que existem baluartes onde a palavra honra é estimada, onde a honestidade é recompensada, onde o esforço abnegado tem prestígio.

Todos nós, professores, nos queixamos de haver por parte dos estudantes, na sua maioria, a única ambição de obterem um título, sem a preocupação de ficarem realmente preparados para a vida activa.

No entanto, se os estudantes têm tal percepção do que é a universidade e os seus mestres, cabe-nos demonstrar que os títulos que se adquirem sem esforço pouco valem e acabam por se esfarelar com um sopro de vento.

Por outro lado, temos de levar ao conhecimento da sociedade os trabalhos aqui elaborados e que podem contribuir para a melhoria das condições de vida das pessoas e para o engrandecimento do país. Mas engrandecimento sem megalomania, engrandecimento com ética, respeito pela Natureza e, sobretudo, contribuindo para gerar as mesmas oportunidades para todos os cidadãos.

Se a procura de uma sociedade ideal é quimera do género humano, não faz mal ser um pouco utópico e esperar progresso quando ele é possível. Sobretudo na ética da sociedade, com um ser humano que não queira acumular em si tudo aquilo que os outros não podem possuir, guardando um pouco daquele espírito que nos primeiros anos da independência se concretizava na busca do homem novo.

Dizemos hoje que era uma utopia, assim como o socialismo que pretendíamos construir. Ao
menos era uma utopia generosa, em que cada um queria ser irmão do outro e não seu adversário. Havia uma tentativa de ética e de universalismo, e havia fraternidade.

Universalidade, universidade. Palavras longas como o tempo, feitas para durar e para servirem de exemplo. Sejamos, na Universidade Agostinho Neto, esse exemplo de trabalho, abnegação e humildade."

Pepetela
Luanda, 13 de Março de 2009

ÁGUA E ENVELHECIMENTO

Recebi o texto abaixo do José, por e-mail.

O autor é o médico Arnaldo Lichtenstein, 46 anos, clínico-geral do Hospital das Clínicas e professor colaborador do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Muito interessante.

"Sempre que dou aula de Clínica Médica a estudantes do quarto ano de Medicina, lanço a pergunta:

Quais as causas que mais fazem o vovô ou a vovó terem confusão mental?

Alguns arriscam: "Tumor na cabeça".

Eu digo: "Não".

Outros apostam: "Mal de Alzheimer".

Respondo, novamente: "Não".

A cada negativa a turma espanta-se. E fica ainda mais boquiaberta quando enumero os três responsáveis mais comuns:
(1) diabetes descontrolado;
(2) infecção urinária;
(3) desidratação.

Parece brincadeira, mas não é.

Constantemente vovô e vovó, sem sentir sede, deixam de tomar líquidos. Quando falta gente em casa para lembrá-los, desidratam-se com rapidez. A desidratação tende a ser grave e afeta todo o organismo. Pode causar confusão mental abrupta, queda de pressão arterial, aumento dos batimentos cardíacos ("batedeira"), angina (dor no peito), coma e até morte.

Insisto: não é brincadeira.

Ao nascermos, 90% do nosso corpo é constituído de água. Na adolescência, isso cai para 70%. Na fase adulta, para 60%. Na terceira idade, que começa aos 60 anos, temos pouco mais de 50% de água. Isso faz parte do processo natural de envelhecimento.

Portanto, de saída, os idosos têm menor reserva hídrica.

Mas há outro complicador: mesmo desidratados, eles não sentem vontade de tomar água, pois os seus mecanismos de equilíbrio interno não funcionam muito bem.

Explico: nós temos sensores de água em várias partes do organismo. São eles que verificam a adequação do nível. Quando ele cai, aciona-se automaticamente um "alarme". Pouca água significa menor quantidade de sangue, de oxigênio e de sais minerais em nossas artérias e veias.

Por isso, o corpo "pede" água.

A informação é passada ao cérebro, a gente sente sede e sai em busca de líquidos.

Nos idosos, porém, esses mecanismos são menos eficientes. A detecção de falta de água corporal e a percepção da sede ficam prejudicadas.

Alguns, ainda, devido a certas doenças, como a dolorosa artrose, evitam movimentar-se até para ir tomar água.

Conclusão: idosos desidratam-se facilmente não apenas porque possuem reserva hídrica menor, mas também porque percebem menos a falta de água em seu corpo.

Além disso, para a desidratação ser grave, eles não precisam de grandes perdas, como diarréias, vômitos ou exposição intensa ao sol. Basta o dia estar quente - e o verão já vem aí - ou a umidade do ar baixar muito - como tem sido comum nos últimos meses.

Nessas situações, perde-se mais água pela respiração e pelo suor. Se não houver reposição adequada, é desidratação na certa. Mesmo que o idoso seja saudável, fica prejudicado o desempenho das reações químicas e funções de todo o seu organismo.

Por isso, aqui vão dois alertas.

O primeiro é para vovós e vovôs: tornem voluntário o hábito de beber líquidos. Bebam toda vez que houver uma oportunidade. Por líquido entenda-se água, sucos, chás, água-de-coco, leite.

Sopa, gelatina e frutas ricas em água, como melão, melancia, abacaxi, laranja e tangerina, também funcionam. O importante é, a cada duas horas, botar algum líquido para dentro.

Lembrem-se disso!

Meu segundo alerta é para os familiares: ofereçam constantemente líquidos aos idosos. Lembrem-lhes de que isso é vital. Ao mesmo tempo, fiquem atentos. Ao perceberem que estão rejeitando líquidos e, de um dia para o outro, ficam confusos, irritadiços, fora do ar, atenção.

É quase certo que esses sintomas sejam decorrentes de desidratação.

Líquido neles e rápido para um serviço médico."

AS DICAS DA EDINALDA*

Como puderam observar não enviei a dica do último domingo. Por isso, lá vão duas, ok?

DICA 1: as ambiguidades ( ai , que saudade do trema!) são responsáveis pelo duplo sentido que se quer dar às palavras e frases ou o que elas denotam porque o falante/produtor de texto não percebe ou não conhece a armadilha em que se meteu.

Não sei se vão se lembrar, mas uma das mais originais que ouvi, veio do presidente Lula. Quando, no primeiro debate do segundo turno das eleições presidenciais de 1989, Lula disse a Collor “ Eu sabia que você era collorido por fora, mas caiado por dentro”, o que os brasileiros entenderam? Collor apresentava um discurso moderno, de centro-esquerda, mas era reacionário.

Quem se lembra de Ronaldo Caiado, candidato mais à direita que defendia a manutenção do statu quo, há de compreender a ambiguidade proposital e concordar com o Presidente.

Outras ambiguidades:

1 - O navio chegou ao cais vazio. ( o que estava vazio, afinal?)
2 - O gerente encontro o diretor em sua sala ( de quem era a sala?)
3 -Sultan, Salomão saiu com sua namorada. ( de quem é a namorada?)
4 - O problema foi a discussão entre a secretária e a funcionária que chocou a todos. ( o que chocou a todos: o bate-boca ou a secretária?)


DICA 2: em Campos, como em outras regiões, criamos palavras para designar pessoas, estados de espírito, situações, etc.

Faz alguns dias , ouvi um mineiro, com ótima formação intelectual, falando "DISGRAMADA". Achei um barato, mas confesso que, na minha avalaiação, o registro era nordestino e campista ( temos muito em comum, principalmete as regiões do Nordeste que cultivam cana).

Ô gente, ó dó! Os mineiro também falam esse trem de DISGRAMADA!

Também enriqueci meu campistês com duas outras contribuições:CHOCHADA ( VEM DE CHOCHO = FROUXO, SEM GRAÇA, DESANIMADO ) e GRAFUNHENTA ( ENJOADA, IMPLICANTE, EXIGENTE)

*Edinalda é professora em Campos dos Goytacazes (RJ) e publica dicas de português aqui no diário uma vez por semana.

terça-feira, 24 de março de 2009

AFROMAN

Leio sempre sobre o Afroman nos jornais.

Mas nunca havia escutado nada. Outro dia, no trânsito, Domingos me chama a atenção.

DOMINGOS – Aquele ali é um cantor. O Afroman.

EU (olhando para o carro ao lado, um Rav-4 meio detonado, também preso no engarrafamento) – O Yannik, cantor de rap?

Afroman estava ao telefone. Percebeu que estávamos olhando para ele. Fiz um sinal de positivo. Ele respondeu com outro sinal de positivo.

Hoje comprei o disco dele “Mentalidade”.

Comecei a escutar agora há pouco. Rap angolano da nobre estirpe.

Gostei demais. E, para quem nunca ouviu, dá para conhecer o sotaque e algumas expressões muito usadas pelos angolanos.

A música é “Amanhã mais”.

É pra escutar prestando atenção.

O PAPA É POP. MESMO

A enquete aí ao lado com a pergunta "O papa é pop?" encerrou com 80% de "não, o papa não é pop.

Pois digo-vos. Depois de ver o que vi em Angola, não há dúvidas de que o papa é mesmo pop.

Claro que há todo o simbolismo da Igreja, o marketing e um super-herói chamado Jesus Cristo moldado pela Bíblia, livros e filmes a arrastar multidões.

Esqueçam a questão religiosa. Se Jesus não tivesse existido, mas idealizado por Hollywood, ainda assim seria, provavelmente, um dos personagens mais incríveis da história.

Na Esplanada da Cimangola, um enorme terreno do tamanho de vários campos de futebol na periferia de Luanda, a 14km do centro da capital, para onde as autoridades dizem ter atraído mais de um milhão de pessoas, foi possível testemunhar a força da Igreja Católica.

Uma boa parte do povo, claro, não estava ali pela religião, mas pelo papa, pelo espetáculo que é a chegada de um papa, um ser quase etéreo que as pessoas passam a vida a ouvir falar, a ver na televisão e, de repente, têm uma oportunidade de confirmar que ele realmente existe.

Imagine a situação (quem já viu um papa de perto sabe como é): centenas de milhares de pessoas passam meses recebendo a informação de que o papa vai chegar. Jornais, rádio, televisão bombardeiam diariamente as pessoas com notícias da visita.

Os padres das menores paróquias das mais miseráveis e distantes províncias começam a mobilizar o rebanho. Quem vai fazer parte do coro? Quem vai entregar a flor ao Santo Padre? Qual a vítima de mina terrestre mais representativa daquela região terá a honra de ficar no altar ao lado do papa, dele receber uma mensagem de fé e de esperança?

Como chegar a Luanda? Candongas? Ônibus fretados? Onde ficarão todos? Os colégios católicos suspendem as aulas e as salas são transformadas em dormitórios. Grupos jovens passam os dias a ensaiar os cânticos, ao som de violões e pandeiros.

De fato, um clima especial, quase mágico toma conta do país.

Chegam camisetas, bonés, bottons. Numa conferência de imprensa, os bispos explicam aos jornalistas os termos corretos, como devem se referir às autoridades da Igreja. Pedem que divulguem que o termo não é Santo Papa, como as pessoas estão a dizer nas ruas. É Santo Padre. Não, não há necessidade de pagar nem de levar documentos para assistir aos eventos ao ar livre com o papa. Os aproveitadores da fé alheia campeiam em Luanda.

Chega o dia. Feriado em Angola. Governo e Igreja organizam a presença de milhares de fiéis com camisetas brancas com a foto do papa e a expressão “Abenço a Nossa Terra” ao longo do trajeto a ser percorrido pelo papamóvel.

De repente o homem chega.

No aeroporto, critica a corrupção ao lado do presidente José Eduardo dos Santos, que está há 30 anos no poder. Fala dos milhares de angolanos que vivem abaixo da linha da pobreza e não têm seus direitos respeitados, solidariza-se com os mortos nas enchentes no sul de Angola, fala da guerra, condena o aborto, as seitas religiosas que infestam o país. São mais de 900 em Angola.
Pais sem informação responsabilizam os filhos pelos males da família e os acusam de feiticeiros. Entregam os filhos às seitas para que os espíritos malignos saiam de seus pequenos corpos. Mantidos em cárcere privado por meses, anos, sofrem violência física e abusos sexuais. Muitos chegam a morrer. Vez por outra, os jornais relatam que a polícia libertou uma dezena de jovens de uma dessas seitas. A última no fim do ano passado, quando 70 adolescentes foram encontrados acorrentados numa dessas igrejas no bairro de Sambizanga, um dos mais pobres e violentos de Luanda.

O papa critica a violência doméstica. As mulheres angolanas, assim como outras mundo afora, são vítimas dos companheiros, sofrem abusos sexuais e violência física em casa.
O presidente José Eduardo dos Santos ouve tudo. Critica a corrupção, reconhece os problemas de Angola, que mais de 50% da população não têm habitação digna, mais de 60% não têm água e esgoto. Pede a ajuda do papa para guiar corações e mentes da juventude angolana.

O papa veio para isso. Ninguém deve se surpreender com os discursos do papa. Tudo estava negociado. Um sabia o que o outro ia dizer. Quando flagradas, as elites ou se enfurecem ou se comportam como garotos que se permitem um puxão de orelhas seguido de um carinho na cabeça.

O papa finalmente sai do aeroporto. Ele vem no papamóvel branco, imaculado, acenando para a multidão, com seu sorriso papal. Em questão de marketing, a Igreja é imbatível.

Isso entra na cabeça das pessoas de uma forma inimaginável. É quase um mantra. Ou melhor, é um mantra. Estou com a musiquinha na cabeça até agora. Milhares de pessoas cantando “Papa, amigo, Angola está contigo”. Repita a frase. Admita: não é irresistível?

Uma tragédia marcou a passagem do papa por Angola. No Estádio dos Coqueiros, onde Bento XVI teve um encontro com a juventude angolana, duas garotas morreram esmagadas.

Eu só soube disso à noite. Por volta do meio-dia, quando abriram os portões, foram imprensadas e pisoteadas.

Quando cheguei ao estádio, por volta das 15h, tive idéia do que é ser envolvido por uma massa em fúria. Ao tentar entrar no gramado onde estava montado o palco do papa, as pessoas começaram a empurrar o portão na tentativa de entrar. Vivi alguns segundos de perda de controle do meu corpo, que se movimentava para a frente e para trás ao sabor da inércia da multidão. Quase pisei em cima de uma garota. Não há o que fazer. É como estar envolvido pela força de uma onda, sem ter onde se segurar.

Os jornais, as emissoras de rádio e a televisão controlada pelo governo não deram a notícia. Só o fizeram no dia seguinte, domingo, quando o papa, antes da missa na Cimangola, lamentou a morte das duas moças que haviam ido ao estádio para vê-lo.

Encontrei pessoas na Cimangola (o nome vem de uma fábrica de cimento que funciona ao lado do terreno – Cimentos de Angola) que chegaram na véspera, às quatro da tarde. Passaram a noite ao relento, entoando cânticos. Às seis e meia da manhã, a temperatura já estava por volta dos 30 graus. Dezenas de pessoas passaram mal.

Mas o papa chega e as pessoas sentem-se novamente revigoradas. “Papa, amigo, Angola está contigo”.

Depois da missa, eu e Pytú, o cinegrafista angolano que contratei para trabalhar comigo, tentamos sair do local da missa. Misturamo-nos aos 1 milhão de fiéis que tentavam sair ao mesmo tempo.

Ficamos duas horas na estrada poeirenta esperando o carro chegar. O motorista ficou preso num engarrafamento provocado pela quantidade de carros e pessoas que tentavam ir embora. A polícia deu prioridade aos carros oficiais, aos carros com livre trânsito. Bloqueou a passagem e a situação ficou ainda pior.

Fico imaginando se as pessoas entendem a mensagem do papa. Bento XVI não é um bom orador. Tem a voz cansada. Lê os textos em português, mas muitas vezes eu mesmo tinha dificuldade para entendê-lo. As mensagens me pareciam herméticas. Misturam passagens bíblicas, referências ao amor de Jesus, à segurança proporcionada pela Igreja. No meio do texto, vem a crítica, as referências aos problemas, dificuldades, mazelas e desgovernos do país visitado.

A Igreja Católica tem aumentado o número de fiéis na África. É o segundo continente onde mais cresce, atrás apenas da Oceania. O número de pessoas batizadas subiu de 12% em 1978 para 18% em 2006. Angola é um dos países mais católicos da África. Entre 55% e 60% das pessoas se dizem católicas.

Fico imaginando se aqueles fiéis na Cimangola, sob um sol de 40 graus, conseguiram ouvir o que papa disse. E, se ouviram, se entenderam. E, se entenderam, o que acham? A visita do papa mudará o comportamento das pessoas, estimulará novas posturas? Terão elas discernimento suficiente para compreender o significado daquelas palavras?

Amém!

PAPA TERMINA VISITA A ANGOLA

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Reportagem da TV Brasil sobre o último dia do papa Bento XVI em Angola.

domingo, 22 de março de 2009

BENTO É POP

O papa adora um discurso. Faz de dois a três por dia.
O estilo é sempre o mesmo: passagens bíblicas, a igreja é o lar, o amor.
Depois, entre o meio e o fim, vem a tal porrada.

Em Angola, o papa falou de corrupção, da ganância que leva à corrupção e rouba o futuro dos países, condenou o aborto, defendeu o casamento, pediu reconciliação às nações africanas, defendeu os direitos da mulher.

E qualquer passagem de Bento XVI é um espetáculo.

O Vaticano entende de coreografia.

sexta-feira, 20 de março de 2009

FALTA-ME O DECORO

Fui barrado pelos porteiros do palácio presidencial em Luanda.

Depois de passar a manhã torrando no sol no aeroporto, fui ao palácio do governo para cobrir o segundo evento do papa do dia.

Como estava sem paletó, não me deixaram entrar.

PORTEIRO – Não tem um fato? Um paletó?

EU – Não, estávamos no sol, na cobertura no aeroporto.

PORTEIRO – Não pode entrar. Tem de estar arrumado. É preciso decoro para entrar aqui.

BENTO E ZÉDU


O papa Bento XVI é recebido no aeroporto de Luanda pelo presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.

O PAPA EM CAMARÕES E ANGOLA

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Reportagem da TV Brasil sobre o último dia da visita do papa a Camarões e os preparativos em Angola.

quinta-feira, 19 de março de 2009

DEUS EXISTE, MAS EM ÁFRICA ELE NÃO É PAI. É PADRASTO

Consegui a credencial. A minha e a de um dos cinegrafistas. Saiu às 21h30.

Ao redor da mesa da secretária da diretoria do centro de imprensa, uma dezena de jornalistas de diversas nacionalidades se amontoavam e, por cima dos ombros das secretárias que passavam e repassavam as credenciais, tentavam identificar os próprios crachás.

Uns conseguiram; o de muita gente ainda não ficou pronto.

Os ônibus para o transporte dos jornalistas também são um mistério. Uns dizem que há; outros que são como discos voadores: todos sabem que existem mas ninguém nunca viu.

Enfim, amanhã cedo estaremos a caminho do glorioso aeroporto 4 de Fevereiro.

Será que o papa vai levar um baculejo na chegada?

O DIA EM QUE A VISITA DO PAPA À ÁFRICA TRANSFORMOU A VIDA DOS JORNALISTAS EM ANGOLA NUM INFERNO

Foi hoje, literalmente, o inferno na terra. Mas ainda não acabou.

Explico.

Depois do vaivém de cartas, formulários e fotos para o credenciamento (clique aqui para se inteirar antes de prosseguir no texto), hoje à tarde liguei para alguém do centro de imprensa.

EU – As credenciais já estão liberadas?

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA – Parece que nem todos terão credenciais...

EU – Como assim?

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA – Não temos certeza. Tens de ir lá no Seminário Maior, ali, perto do largo dos colégios, para saber como está.

EU – Mas não são vocês que vão nos entregar as credenciais?

ALGUÉM DO CENTRO DE IMPRENSA – Sim, mas não vão chegar. Tens mesmo de ir lá para ver se consegues pegar a sua.

Como já sei que não adianta argumentar, fui ao Seminário Maior.

É um seminário, como diz o nome. Na cantina, montaram uma estrutura para tirar fotos digitais das pessoas que trabalharão no evento. Olha-se para aquelas minúsculas câmeras redondas e a foto é impressa num papel especial da credencial, com todas as informações.

Tudo certo? Não. Apesar de a credencial ficar pronta na hora, ela não poderia ser entregue ao proprietário.

Todas seriam devolvidas para o centro de imprensa, este sim encarregado de fazer a distribuição aos jornalistas.

Mas não é só isso. Para conseguir entrar na sala e fazer a foto, era preciso disputar espaço com outros 200 angolanos, voluntários na visita do papa, que também precisam ser credenciados. Fila, como se sabe, ainda é um conceito abstrato por aqui.

De repente, chegam 50 soldados. Furam a fila para fazer foto.

Chegam autoridades engravatadas, com anelões nos dedos e bottons do MPLA na lapela. Também furam a fila.

Encontro um fotógrafo português radicado em Angola há muitos e muitos anos.

EU - Já tirou foto?

FOTÓGRAFO PORTUGUÊS RADICADO AQUI HÁ MUITOS ANOS - Já estou com a credencial.

EU - Como conseguiu?

FOTÓGRAFO PORTUGUÊS RADICADO AQUI HÁ MUITOS ANOS - Dei um dinheiro para um gajo lá na presidência...

Uma jornalista inglesa baseada em Angola me contou, ao sair da sala da foto.

JORNALISTA INGLESA – The guy asked me if I speak English. I said yes. He asked me if I was British. I said yes. He said: “você é muito bonita”. I tried to get the badge that was done there, but he didn´t allow me.

EU – Imagine if you were not “muito bonita”...

Bom, a surrealidade angolana se impõe mais uma vez.

A menos de 24 horas da chegada do papa, exige-se um novo credenciamento.

Até agora, 19h15, o centro de imprensa não consegue informar se entregará as credenciais ainda hoje.

Será que os jornalistas conseguirão cobrir a visita do papa a Angola?

Vou para lá descobrir.

O PAPA, O CELIBATO, A MISÉRIA E A AIDS

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Reportagem da TV Brasil sobre a visita do papa Bento XVI à República de Camarões.

A IMPRENSA CONSEGUIRÁ FAZER A COBERTURA DO PAPA EM ANGOLA?

Eis o grande mistério da Santíssima Trindade ainda não revelado.

Faltam menos de 24 horas para o papa desembarcar em Angola.

Até agora o governo angolano não distribuiu as credenciais para a imprensa.

Dezenas de jornalistas passam o dia indo e voltando do centro de imprensa, na esperança de conseguir o documento. Em vão.

Os jornalistas alemães não conseguem entender como as credenciais não foram entregues a eles, na Alemanha, há duas semanas.

Esse alemães precisam conhecer um pouco mais da vida.

quarta-feira, 18 de março de 2009

O PAPA, A CAMISINHA E A ÁFRICA

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Reportagem da TV Brasil sobre a visita do papa Bento XVI à República de Camarões.

O CARDEAL RATZINGER É DE BRIGA

O papa veio com tudo para a África.

Camisinha, não! Fidelidade, castidade e abstinência!

Eis a fórmula do elixir da vida.

Enquanto isso, em África: 25 milhões de pessoas morreram de Aids desde o início dos anos 80. Na Suazilândia, minúsculo país com pouco mais de 1 milhão de habitantes no sul do continente, praticamente um enclave entre a África do Sul e Moçambique, 40% da população está contaminada pelo vírus HIV.

Cada um na sua.

terça-feira, 17 de março de 2009

ORAÇÃO DE SAPIÊNCIA DO PEPETELA

Eu já havia escutado comentários sobre o discurso do Pepetela. Eis que, hoje, descubro um trecho no Morro da Maianga, que fica aí ao lado, na relação de sítios que valem a pena. Não pensei duas vezes. Surrupiei e reproduzo abaixo, dando crédito ao companheiro do morro.

Extractos da Oração de Sapiência proferida na Universidade Agostinho Neto por Artur Pestana (Pepetela) na abertura do novo ano académico do ensino superior (13/03/09)]

1-"A nossa megalomania nacional, verdadeiro traço de carácter, ou, segundo o vetusto Kardiner, um marcador da nossa personalidade de base, provém dejulgarmos o país incomensuravelmente rico. Os colonizadores, nos anossessenta e setenta do século passado, repetiram tantas vezes esta lenda, queela passou a fazer parte do nosso código genético, por assim dizer, e agoraé difícil voltar atrás e admitir o contrário, que somos de facto e por enquanto, apesar de algumas indubitáveis vitórias, um país miserável, incapaz de alimentar suficientemente os seus filhos, incapaz até agora de matar no ovo as diferentes epidemias que nos assolam, incapaz de avançar numa clara política de desenvolvimento sustentado."
(...)
2-"Mantida em relativo silêncio, a ganância no entanto pauta cada vezmais as nossas vidas. Há pessoas que são tão viciadas nela como outros sãona heroína ou na liamba. Quanto mais riqueza têm mais querem ter,açambarcando verdadeiros latifúndios agrários ou amamentando gruposeconómicos tentaculares, os chamados polvos da nossa economia. Asnotícias publicadas sobre o assunto pecam por defeito, mas o que vaiaparecendo é suficiente para se detectarem as ramificações e associaçõesentre os diferentes centros desses poderosos predadores que um dia saíramdo nada para a fortuna, abocanhando tudo o que seja tragável, isto é, que dêlucros, de preferência imediatos. Porque a ganância torna o indivíduosôfrego e apressado, treinado na arte de somar mentalmente com rapidez,deixando poucos traços ou pistas evidentes no terreno. Se a ganância setornou num traço característico da humanidade, o que receio acontecer,então não há alternativa e estamos votados à catástrofe, terminando por darcabo do planeta Terra e de toda a vida no seu interior."
(...)
3-"Um marcador que serve para comparar os países em função das diferenças entre as partes do sistema social é o chamado índice de Gini, que em Angola, segundo um estudo, atingiu em 2005 a taxa de 0,62. Este número revela uma das mais fortes diferenciações sociais do mundo. Quer dizer, os ricos são muito ricos e os pobres muitíssimo pobres. É resultado da tal ganância que leva alguns aenriquecerem a qualquer custo. Para esses, a ética é o mesmo que moldarestrelas em galáxias distantes, algo de absolutamente estranho e absurdo.Quer dizer, precisamos de imprimir ética no mercado e nos mercadores. Oestado e todas as instituições criadas para o efeito têm de se preocupar coma necessidade de os processos sociais seguirem normas, expressas por leis,de alto rigor. E que os cidadãos, quaisquer que sejam, não só cumpram asleis mas se sintam honrados por as cumprir. Isso é ética."

SERÁ QUE A IMPRENSA VAI CONSEGUIR REGISTRAR A VISITA DO PAPA A ANGOLA?

A visita do papa a Angola está marcada desde o fim do ano passado.

Hoje é terça. O papa chega a Luanda na sexta.

O governo angolano ainda não conseguiu distribuir as credenciais para a imprensa cobrir a chegada de Bento XVI.

O PAPA NA ÁFRICA

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Reportagem da TV Brasil sobre a viagem do papa à ÁFrica

segunda-feira, 16 de março de 2009

PEQUENAS SURREALIDADES ANGOLANAS

A visita do Papa a Angola está anunciada desde o ano passado.

Há pouco mais de um mês iniciei os contatos para saber como fazer o credenciamento para a cobertura.

Recebi as seguintes informações:

1) Nada. O centro de imprensa enviará as informações dos jornalistas estrangeiros em Angola para a presidência da República.

2) Há duas semanas, liguei para confirmar se estava tudo certo. Sim, estava tudo certo.

3) Na semana passada, ligo para saber se estava tudo certo. Como resposta, recebo uma pergunta:

PERGUNTA - Já enviaste a carta com o pedido?

EU – Que carta?

PERGUNTA – Tens de enviar uma carta com os seus dados pedindo o credenciamento. Já deveria estar aqui.

EU – Mas eu tenho perguntado há um mês sobre a documentação necessária e vocês me disseram que não precisava de nada.

Tudo bem. Fiz a carta.

Na sexta-feira, após conferência de imprensa com representante da igreja para falar sobre a visita, encontro pessoas do centro de imprensa.

EU – Tudo certo com o credenciamento? Já entreguei a carta.

PESSOAS DO CENTRO DE IMPRENSA – Já preencheu o formulário e trouxe as duas fotos?

EU – Que formulário?

PESSOAS DO CENTRO DE IMPRENSA – Sim, tens de preencher um formulário e trazer duas fotos. Exigência da presidência da República. Já deverias ter feito...

EU - ...

Ligo para os cinegrafistas que trabalharão comigo e peço para irem ao centro de imprensa na segunda-feira (hoje) logo cedo preencher os formulários e levar as fotos.

Hoje cedo, desço para abrir o portão para Nely e Domingos. São 8h da manhã. Só Nely está lá fora.

EU – Domingos não chegou?

NELY – Não. Ele disse que está a chover muito lá em Viana.

EU – Como assim? Você ligou pra ele?

NELY – Não, ele me ligou.

Ligo para Domingos.

EU – Domingos, você já está aqui perto?

DOMINGOS – Não, ainda estou em Viana. Estou aqui na rua. Não estão a passar táxis.

Táxis, como sabem, é como também chamam as candongas. Ou seja: Domingos, que às 8h já deveria ter chegado, ainda está em Viana, um lugar muito longe. E por que Domingos não me ligou para avisar que chegaria atrasado? Nem perguntei porque já sei a resposta. Ele não pensou em avisar ou não tinha saldo. Ou as duas coisas. Não necessariamente nessa ordem.

Ligo para a locadora para tentar alugar um carro com motorista de última hora. Não tem. Ligo para o Cláudio, com quem faço trabalhos eventuais. Ele está disponível.

Vamos ao centro de imprensa. Entrego o formulário preenchido, as duas fotos. Enquanto aguardo o cinegrafista, novas notícias das pessoas do centro de imprensa.

PESSOAS DO CENTRO DE IMPRENSA – O formulário mudou.

EU – Como assim?

PESSOAS DO CENTRO DE IMPRENSA – Vai ser outro, só para a imprensa estrangeira.

domingo, 15 de março de 2009

O TRÂNSITO DE LUANDA

Na última semana, várias faixas de pedestres foram pintadas nas ruas de Luanda. Também notei que foram pintadas no asfalto aquelas marcações para indicar aos motoristas que eles não podem bloquear os cruzamentos. O motorista só avança o carro se houver espaço suficiente para não impedir a passagem.

Torço para que funcione.

Desde que cheguei aqui, há quase um ano, também passei a observar que ônibus estão circulando pela cidade. Nas principais ruas, nas mais largas, pelo menos.

À medida que algumas obras vão terminando, é possível colocar os ônibus nas ruas.

Os angolanos começam a ter uma opção às candongas. Nas candongas, os preços da passagem variam de acordo com trânsito, com a chuva e a ganância do motorista e do cobrador. Os passageiros costumam ser surpreendidos, no meio da viagem, com o aviso de que, quem quiser continuar a partir daquele ponto terá de pagar mais 50 ou 100 kwanzas.

Nos ônibus, as passagens têm preço fixo, como em qualquer lugar do mundo.

O plano para o trânsito de Luanda, segundo soube, também prevê que as ruas terão mão única. Nada mais de vias de mão dupla, algo improdutivo para uma cidade feita de ruas estreitas e com carros cada vez maiores. Luanda, como sabem, é a capital mundial dos 4X4.

Há duas semanas, quando caiu uma chuvarada na cidade, fiquei quatro horas preso no trânsito, para percorrer uma distância pouco inferior a cinco quilômetros. E fiquei uma hora e meia parado em frente à Casa dos Frescos. Parado, parado, parado.

Aos poucos, as coisas vão mudando.

Mas a mudança radical mesmo, essa não depende do governo. Depende de cada um.

O PAPA VEM AÍ

O papamóvel já chegou.

O comércio de camisetas, broches, bonés e panos está nas ruas.

As obras estão a pleno vapor para o papa ficar com uma boa impressão de Luanda.

Calçadas refeitas, casas pintadas, asfalto. Mas só onde o papa vai passar.

Na missa do próximo domingo, espera-se 500 mil pessoas.

Vamos ser se esse papa é mesmo pop.

quinta-feira, 12 de março de 2009

O MINISTRO SEM PASTA E O PAPA BENTO XVI

Matéria publicada na Angop. Vale a pena ler, ou abaixo:

Ministro sem pasta considera privilégio visita do Papa a Angola

Luanda – O ministro sem pasta, António Bento Bembe, considerou hoje, quarta-feira, em Luanda, um privilégio para Angola e para os angolanos receberem o Papa Bento XVI, de 20 a 23 do corrente mês, nesta sua primeira deslocação para o continente africano.


Segundo o governante, que falava à Angop, no aeroporto internacional 4 de Fevereiro, devemos receber de forma condigna esta grande figura espiritual e líder da Igreja Católica, exigindo-se de todos um momento de concentração e alegria neste momento.

“Devemos nos preparar também espiritualmente, pois é um momento de arrependimento e de mudança dos nossos comportamentos “diabólicos”, sublinhou o ministro.

Continuou dizendo que eis uma oportunidade para todos os angolanos reflectirem sobre as suas condutas e melhorarem a sua relação com Deus.


Apelou à criação de “atmosfera favorável” para a recepção do Papa, de modo a que ele se possa sentir contagiado pela alegria e fé próprias do povo angolano.


Relativamente à organização pelo país do Campeonato Africano das Nações em futebol (CAN), em 2010, apelou aos treinadores a apostarem sempre na vitória. “Somos os anfitriões e como tal os nossos bravos atletas, equipa técnica, dirigentes desportivos e população em geral devem estar unidos para que possamos ganhar a competição, pois nenhuma outra selecção africana é superior a nossa”, enfatizou.


Acrescentou que o país está a fazer grandes gastos e por isso devemos dar provas que também entendemos de futebol e que só a vitória nos interessa, exortando que caso não ganhemos a competição devemos arregaçar as mangas e continuar a trabalhar tendo em conta compromissos vindouros dos Palancas Negras.

Não obstante alguns problemas organizativos, que têm a ver com a diminuição do número de jogos de controlo que a nossa selecção deveria efectuar, passando agora para a metade (sete), o ministro mostrou-se confiante no sucesso da nossa equipa durante o CAN 2010, avançando que “todos aprendemos errando e isso deve nos fortalecer ainda mais”.

ZUMA E AS MULHERES

Estou lendo a biografia de Jacob Zuma, provável futuro presidente da África do Sul.

Zuma, como sabem, é um sujeito controverso. É investigado por suspeita de ter recebido propina numa operação de venda de armas para o reaparelhamento das Forças Armadas sul-africanas quando era vice-presidente; foi absolvido num processo por estupro (disse que tinha certeza da vontade da moça em transar com ele pelo fato de ela estar usando shorts...); é adepto da poligamia e está a caminho do sexto casamento (salvo engano).

Num dos trechos, o livro cita uma entrevista concedida por Zuma em 2007, na qual ele diz o seguinte sobre suas várias mulheres:

"Há muitos políticos que têm várias amantes e filhos que eles escondem para darem a impressão de que são monogâmicos. Eu prefiro ser aberto. Eu amo minhas mulheres e tenho orgulho dos meus filhos".

O FMI E A ÁFRICA

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Reportagem da TV Brasil sobre o impacto da crise econômica mundial na África.

quarta-feira, 11 de março de 2009

ENQUANTO ISSO, EM PORTUGAL...

O jornal da noite da TPA é uma diversão. Hoje, 90% do tempo foi gasto com reportagens sobre a visita do presidente José Eduardo dos Santos a Portugal. As falas do presidente angolano, do primeiro-ministro português, do presidente português.

As assinaturas dos acordos, da criação de um banco luso-angolano, com capital de US$ 1 bilhão, dividido meio a meio.

Nos minutos restantes, matérias sobre criminalidade. O aumento da violência num bairro de Luanda. Bandidos aterrorizam uma rua. Invadem as casas à noite e estupram as mulheres.

Depois, o repórter foi a uma cadeia. Entrevistou vários jovens. Todos com o rosto borrado para não serem identificados. O repórter pergunta a um dos estupradores:

REPÓRTER – Como você teve coragem de fazer isso?

PRESO – Eu acredito que tive coragem porque eu estava drogado.

UMA DÚVIDA

É sabido que muitas pessoas têm o hábito de estacionar o carro na porta da garagem do vizinho.

Depois de muito sofrer com tal hábito alheio, comecei a reparar: os vizinhos nunca estacionam nas portas das próprias garagens.

Quando chego ou vou sair de casa e encontro um carro estacionado na minha garagem, saio batendo à porta dos vizinhos para descobrir de quem é a viatura. Em geral encontro. Às vezes o carro não é de nenhum vizinho, e sim de alguém que largou o veículo ali pelo fato de ser o único lugar disponível para estacionar e foi embora resolver a vida.

Mas o que me intriga é isso. Eles não estacionam nas portas das próprias garagens, e sim na dos outros.

Haveria explicação para isso?

Por favor, enviem hipóteses.

OS IMPACTOS DA CRISE FINANCEIRA MUNDIAL NA ÁFRICA

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Reportagem da TV Brasil sobre reunião do FMI, na Tanzânia, para discutir os impactos da crise financeira no continente africano.

terça-feira, 10 de março de 2009

O APOSTOLADO

É o jornal da Igreja Católica em Angola.

Desce o sarrafo no governo angolano.

Confira aqui.

A MOÇA DA MOVICEL

Fui à Movicel renovar o Movinet, a tal internet via celular.

Ao contrário de toda loja que vende celular e afins em Angola, esta que costumo freqüentar nunca está muito cheia. Acho que é por causa da localização, perto do porto. Como não há muito comércio por ali, o povo não tem muito o que fazer naquela região.

A internet em Angola é lentíssima. Carregar um foto, abrir um arquivo de texto que chegou anexado ao e-mail pode ser programa de uma tarde inteira.

Tenho a internet via cabo, da TV Cabo, e essa via celular. Já contratei o serviço mais veloz da TV Cabo, a US$ 450 por mês. Não funcionava. Saía do ar a todo momento, demorava para carregar etc. No mês seguinte, pedi para trocar por um plano mais barato. Pago US$ 200 a menos e a velocidade continua a mesma: lenta.

Hoje de manhã, ao renovar o Movinet, perguntei à vendedora qual o plano com velocidade acima do meu (300kb).

MOÇA DA MOVICEL – Não, não tem. É só este mesmo.

EU – Mas quando eu contratei o plano me disseram que havia um mais veloz.

MOÇA DA MOVICEL (procurando folhetos sobre a mesa e na gaveta) – Onde está? Deixe-me ver. Os planos são só o de 150 kapa. O de 300 kapa não estamos mais a fazer. Só a renovar o dos clientes que já possuem.

Ela levanta e fala com um colega na mesa ao lado. Pergunta pelos planos, pergunta pelos folhetos informativos. Retorna.

MOÇA DA MOVICEL – São só mesmo o de 150 kapa e o de 300 kapa.

Ela abre a gaveta e acha um xerox de um folheto. Lá está. Há um plano de 1 giga. Ela não sabia.

EU – Quanto é o de 1 giga?

MOÇA DA MOVICEL – Não sei. Mas não estamos a fazer no momento. Só o de 150 kapa e o seu, de 300, porque é para renovar.

Ok, renovemos.

A moça não conhece os planos da empresa e não sabe os preços.

E a minha internet continua lenta.

segunda-feira, 9 de março de 2009

FREDERICK FORSYTH E O ASSASSINATO DE NINO VIEIRA

Na madrugada do assassinato do presidente de Guiné Bissau, João Bernardo “Nino” Vieira, o escritor inglês Frederick Forsyth estava em Bissau.

Forsyth havia ido ao país recolher informações para o próximo livro. Tentava dormir no hotel, na madrugada de domingo (1 de março) para segunda, quando foi acordado pelo barulho de bombas.

Em entrevista à BBC, Forsyth diz que conversou com o médico legista que examinou o corpo de Nino Vieira, baleado e esquartejado a golpes de facão.

Forsyth costuma viajar a diversos países para pesquisar antes de escrever um livro. Autor de obras como “Os Cães de Guerra” e “O Dia do Chacal”, não tem a qualidade literária de John Le Carré, por exemplo.

Numa entrevista bem-humorada à BBC, Forsyth negou qualquer envolvimento com o assassinato de Nino Vieira e disse que o episódio seria “mais um confeito no bolo” que poderia entrar no próximo livro.

Para ler a entrevista na BBC, clique aqui.