domingo, 31 de maio de 2009

VADO NÃO SABE PINTAR

Vado, o pintor que contratamos para pintar o quarto depois que o Sebas reconstruiu o reboco do teto disse que faria o serviço em um dia.

Indicado pelo Sebas, Vado começou o trabalho na terça-feira. Hoje é domingo e o serviço ainda não acabou.

Na terça-feira, Vado saiu com o Cláudio para comprar tinta, massa, pincéis, lixas etc. Levaram mais de quatro horas para conseguir comprar tudo.

Além do trânsito de Luanda, enfrentaram a escassez de produtos nas lojas.

Numa loja havia tinta mas não havia pincel. Na outra havia pincel mas não havia o rolo. Na outra havia rolo mas não havia lixa. E nisso foi a terça-feira.

Quando Vado voltou, conseguiu apenas lixar e passar a massa no teto. Disse que no dia seguinte terminaria o trabalho.

No quarta-feira, constatou que a massa no teto ainda estava molhada e não seria possível pintar.

Vado foi, então, pintar o portão, cuja tinta foi descascada pelos jovens angolanos da vizinhança que ficam na rua à espera que as maçãs-da-índia caiam dos galhos das árvores. Enquanto as maçãs não caem, eles passam o tempo a destruir o portão.

Na quinta-feira, Vado diz que vai chegar às 7h da manhã. Só aparece às 8h30. Antes de começar a pintar, Vado me chama.

VADO – A tinta não é branca.

EU – Como não é branca? Está escrito aqui na lata que é branca.

VADO – Mas não é. É creme. Colocaram o nome errado na lata.

EU – Vado, isso não poderia acontecer. Você foi lá para comprar tinta branca, tinha de ter conferido.

VADO - ...

EU – Vado, pinte o quarto com essa tinta mesmo.

Vado começa a pintar o teto.

Depois, as paredes.

No fim do dia, constato que o teto e as paredes continuam com manchas escuras sob a tinta, provocadas pelos respingos de reboco deixados por Sebas e o auxiliar.

EU – Vado, e essas manchas escuras?

Vado estranha a pergunta, dando a entender que a mão de tinta que ele passou no teto e nas paredes fosse suficiente.

EU – Vado, essas manchas têm que sair. O quarto inteiro tem que ficar da mesma cor.

VADO – O cimento é chinês?

EU – Não sei, Vado. Mas essas manchas têm de desaparecer.

VADO – É que a tinta está molhada. Depois vai sair. E não adianta mais passar agora.

EU – Então vamos encerrar por hoje. Se não adianta continuar a pintar, é melhor retomar amanhã. E tem de passas outra mão de tinta.

VADO – Mas a tinta não vai dar.

EU – Mas, Vado, então você calculou mal a quantidade de tinta. Você me disse que uma lata era suficiente para pintar o quarto todo?

VADO – Não percebo.

EU – Você disse que uma lata de tinta dava para pintar o quarto inteiro. Você calculou mal.

VADO – Até nem calculei mal.

EU – Como não, Vado? Se você está me dizendo que a tinta não vai dar.

VADO - ...

EU – Amanhã vamos comprar mais tinta para terminar o serviço. Você consegue terminar amanhã?

VADO – Sim, sim.

Vado me pede 5 mil kwanzas adiantado. Dou os 5 mil. Como ele ainda tem 20 mil para receber, sei que ele vai voltar no dia seguinte.

Combino com o Cláudio para que ele encontro o Vado na loja de tintas, comprem mais uma lata e venham terminar o serviço.

EU – Por favor, peguem os números de telefone um do outro para amanhã cedo vocês se encontrarem.

Na sexta, ligo para o Vado.

EU – Vado, já está na loja?

VADO – Sim, sim.

EU – O Cláudio já está chegando.

Ligo para o Cláudio.

CLÁUDIO – O pintor não está aqui.

EU – Mas acabei de falar com ele. Por favor, ligue pra ele.

CLÁUDIO – Não tenho o número.

EU – Cláudio, eu pedi para vocês pegarem o telefone um do outro.

CLÁUDIO – Sim, ele pegou o meu.

EU – Cláudio, mas ele não tem saldo para te ligar.

CLÁUDIO – Eu também não tenho saldo. Mas vou pedir um favor para a moça da loja e usar o telemóvel dela.

Meia hora depois, ligo para saber se está tudo bem.

VADO – Não tem a mesma cor de tinta.

EU – Mas vocês estão aí esse tempo todo. Por que não me avisaram?

VADO – Não tem a referência da tinta.

EU – Então vão para outra loja procurar a tinta.

Desligo o telefone e sou iluminado por forças superiores. Não, não adianta percorrer Luanda atrás de lojas de tinta. Se eles deixarem a loja, só vão reaparecer aqui em casa em 2015. Ligo de novo para o Vado.

EU – Vado, compra a tinta branca que tiver.

VADO – Branca?

EU – Sim, Vado, branca. Uma lata é suficiente?

VADO – Pode ser.

EU – Vado, sim ou não. Ok. Compra duas latas de tinta.

VADO – Duas latas?

EU – Sim, Vado, duas latas. Precisa de pincel novo ou o que tem aqui ainda está bom?

VADO – Pode ser.

EU – Então compra pincel. Deixa eu falar com o Cláudio. Cláudio, ajuda o Vado a comprar os pincéis que ele precisa. Veja se precisa de mais alguma coisa.

Uma hora depois, ligo para saber se já estão chegando. Descubro que os dois estão percorrendo lojas de Luanda atrás de pincel. Não há pincel para vender em Luanda.

EU – Vado, o pincel que está aqui dá para usar?

VADO – Sim.

EU – Por favor, Vado. Então voltem para cá e comece a trabalhar.

Vado passa a sexta-feira pintando. Quando escurece, o quarto continua com as tais manchas escuras.

EU – Vado, por que essas manchas escuras continuam?

VADO - ...

EU – Vado, você calculou tudo errado. Disse que conseguiria pintar o quarto num dia...

VADO – Sim, dá para pintar num dia.

EU – Não, Vado, não dá para pintar num dia. Você começou na terça-feira. Hoje é sexta e você ainda não terminou.

VADO – É que eu comecei por esse lado aqui, que ainda está molhado.

EU – Então você deveria ter dito que não dava para pintar num dia. Vamos fazer o seguinte. Pode ir embora. Vamos deixar a tinta secar e você volta na segunda-feira para terminar.

Amanhã é segunda-feira. Vado vai completar uma semana tentando pintar o quarto.

Alguns posts abaixo fiz uma lista com nomes de angolanos que trabalham bem. Vado está nela. Por favor, ignorem o Vado.

O Vado não sabe pintar.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

QUE VENHAM AS PEDRAS

Acho curioso os que se irritam com quem se irrita com o caos.

Como se o caos fosse algo etéreo, e não o resultado das ações das pessoas.

Acho curioso quem adota o discurso do “isso é Angola”, “Angola é assim mesmo”, “você tem que entender que eles estavam em guerra” e outras frases feitas como se todos fossem obrigados a se submeter ao caos sem reagir.

É um raciocínio típico de quem vive nas tais bolhas de expatriados.

Em geral, funcionários de multinacionais que vivem em outra Luanda.

Na Luanda onde os motoristas angolanos são pagos para se estressar no lugar deles.

Na Luanda em que as bagagens são despachadas no aeroporto por angolanos.

Na Luanda em que as bagagens são retiradas das esteiras no desembarque por angolanos que vivem na Luanda real.

Esses habitantes das bolhas se irritam com quem se irrita com as dificuldades da Luanda real, pois para eles é impossível entendê-la, uma vez que nela nunca estiveram.

Já a viram de longe, por trás dos vidros escurecidos dos carros 4X4 que têm à disposição.

Se não são funcionários das bolhas multinacionais, são funcionários das bolhas dos organismos internacionais, das bolhas construídas pelo governo angolano para assessores, consultores e afins.

São os que não precisam trocar uma lâmpada nem encontrar um eletricista, um pedreiro. Ligam para a empresa e em algum momento alguém aparece para resolver o problema.

Cada um cria a sua bolha. Vivemos em nossas próprias bolhas em nossos próprios países.

O fato de estar em Angola não significa que sou obrigado a achar tudo normal.

E o fato de reclamar não significa que tenho um “ódio visceral” por Angola.

Reclamo das coisas daqui como reclamaria em Portugal ou no Brasil.

Os idiotas continuam a nascer e não escolhem pátria. Estão entre nós.

Os relatos feitos aqui no Diário são reais. Não há histórias inventadas. Não há exageros. E nem há racismo ou preconceito.

Quem mora em Luanda se identifica nas situações.

Quem já precisou contratar um serviço qualquer em qualquer país do mundo terá pelo menos meia dúzia de histórias terríveis para contar de incompetência, má-vontade e falta de caráter.

Só que não vivo no Brasil nem em Portugal e nem escrevo sobre os problemas de lá.

É claro que os relatos do Diário são parciais. E não poderia ser diferente, pois são resultado da experiência num lugar que não funciona.

Luanda não funciona.

Mas poderia funcionar.

São inúmeros os exemplos cotidianos de situações que poderiam ser resolvidas facilmente pelo bom senso das pessoas.

E não falo dos miseráveis que perambulam pelas ruas da cidade. Falo dos angolanos ricos, a classe média emergente que só quer saber de um telemóvel novo e de um carro importado.

São os mesmos que se comportam quando estão no exterior. Respeitam faixa de pedestres, não bloqueiam cruzamento e não furam fila. Mas bastou voltar para cá e é como se estivessem possuídos por um santo da anarquia.

E isso também não é racismo nem preconceito.

Apenas uma constatação.

Que venham as pedras!

quinta-feira, 28 de maio de 2009

quarta-feira, 27 de maio de 2009

É A CRISE, É A CRISE

Desde novembro, as reservas internacionais de Angola caíram de US$ 20 bilhões para US$ 11 bilhões.

O governo angolano está restringindo a remessa de recursos para fora do país.

Multinacionais estão recebendo com atraso e muitas começaram a demitir.

Empresas que alugam casas e apartamentos em Luanda Sul para os funcionários começaram a devolver os imóveis para as imobiliárias.

Estão preferindo esperar um pouco antes de manter a importação de expatriados.

ANGOLANOS QUE TRABALHAM BEM

Em qualquer lugar do mundo, contratar pedreiro, pintor, encanador, eletricista e outros istas é uma desgraça.

Em geral, o serviço é caro e deixa a desejar.

Depois de um ano em Angola e prejuízos e explorações aqui e acolá consegui reunir alguns telefones úteis e essenciais de profissionais que trabalham bem.

Cobram caro, mas eu recomendo.

Aí vão:

Oficina mecânica: Fernando (912 207 307)

Pedreiro: Sebas (923 084 655)

Pintor: Vado (914 387 390)

Gerador: Semba (923 634 055)

Encanador e eletrobomba: Zola (923 853 653)

Comércio de carros usados: Michel (923 246 325). Neste caso, leiam o post Confiança, chefe, confiança. E levem alguém que entenda de mecânica.

Como sabem, vendedor de carro é igual no mundo todo.

CENAS NAMIBIANAS


Himbas fazem compras na Namíbia.

ELEIÇÕES EM ANGOLA

Os anteprojetos que os partidos políticos angolanos entregaram ontem à Assembleia Nacional para mudar a Constituição preveem eleições diretas para presidente da República.

Mas não se sabe quando.

CARTOONS

Sim, valem a pena!

Clique aqui.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

SERÁ? - 2

Na segunda-feira, publiquei o seguinte post:

"Será que um dia vou olhar para trás e dizer que houve momentos de felicidade em Angola? "

Acho que foi o post que mais provocou comentários.: 15, no total.

Comentários que foram chegando ao longo da semana.

Recebi o último hoje.

Diz o seguinte:

"será? É óbvio que não. Vc tem um ódio visceral por Angola. Sente-se em cada palavra sua. É uma pena.
Sou portuguesa, vivo em Luanda há oito anos e gosto muito de cá estar.
Mas a diferença, é que eu não me fechei no meu mundinho e parti à descoberta deste País e deste Povo. E que coisas tão maravilhosas fui descobrindo.
Todo o planeta sabe que Angola tem muitos pbs por resolver, mas tb tem um sorriso lindo e muito verdadeiro.Pena que vc não viu nada disso.
Bom retorno ao Brasil
Maria Lúcia"

Acho que a Maria Lúcia tem um ódio visceral de mim.

É O QUE DIZEM...

No aeroporto 4 de Fevereiro, em Luanda, a polícia está revistando, com cada vez mais frequência, os passageiros que deixam o país.

Depois de passar pela imigração, todo passageiro é obrigado a entrar na sala da aduana.

Ali, policiais perguntam quanto a pessoa está levando.

Se desconfiarem que o passageiro está omitindo valores, mandam abrir a carteira e revistam os passageiros em busca de dinheiro espalhado nos bolsos das calças, camisa, paletó e até naquelas bolsas que se usa junto ao corpo, por baixo da calça.

Uma verdadeira caça às bruxas.

ANGOLA RESTRINGE REMESSAS PARA O EXTERIOR

É fato.

O governo de Angola começou a restringir transferências para o exterior.

Quem quiser enviar dinheiro para fora do país precisa ir ao banco e apresentar uma carta com a justificativa.

Mas o cliente só descobre isso depois de uma semana, quando os prazos para a remessa não são cumpridos.

Ao fazer contato com o banco, o cliente é informado da nova norma.

É a crise financeira internacional atingindo em cheio o país do petróleo.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

MEU PROJETO DE REFORMA DO AEROPORTO 4 DE FEVEREIRO

Não, não se trata de reforma física. Isso é com os arquitetos e engenheiros.

Meu projeto é mais amplo.

Trata de uma reforma moral no glorioso aeroporto 4 de fevereiro.

Quem já esteve em Angola sabe o drama que é desembarcar aqui.

O drama, aliás, começa antes, no embarque.

Especialmente se o vôo for da TAAG.

A empresa aérea angolana, como sabem, é proibida de voar para a Europa por causa do desrespeito às normas internacionais de aviação.

Isso na parte técnica.

Tem também o desrespeito aos passageiros. Vôos atrasados, vôos cancelados, a exigência de se confirmar o embarque com 72 horas de antecedência.

Depois de tudo isso, não se tem garantia de que vai viajar.

Em Angola, gente do governo, do partido, amigos de gente do governo e de gente do partido têm assento garantido nos vôos da estatal da aviação.

Não importa se a passagem foi comprada de última hora.

A TAAG sempre dá um jeito de arranjar um lugar. Lugar de alguém, que fica para permitir o embarque das autoridades.

Mas a história da TAAG é outra história.

Quero me concentrar no aeroporto 4 de fevereiro.

O aeroporto é a principal porta de entrada do país.

Por causa da situação especial de Angola, país que ainda vive um pós-guerra complicado, está em reconstrução e em amplo crescimento (se a crise econômica internacional e os preços do petróleo deixarem), exige mão-de-obra qualificada. Mão-de-obra essa inexistente no mercado local.

Por isso as quantidades de gente de tudo quanto é lugar desembarca aqui todos os dias.

Estrangeiros que levam a imagem de Angola pelo mundo.

Como começam a ser maltratados ainda nos consulados de Angola ao redor do mundo, projetam uma imagem sempre negativa do país.

Mas a história dos consulados também é outra história. Exige outros posts.

E também tenho cá minhas idéias mirabolantes, meus planos perfeitos para resolver os problemas dos consulados, da guerra no Oriente Médio e da crise financeira internacional.

Mas, por ora, vou me concentrar apenas no aeroporto 4 de Fevereiro, cujo se refere ao dia que marca o início do levante contra o domínio colonial português. Em 4 de fevereiro de 1961, angolanos invadiram uma cadeia para soltar os presos. Mataram soldados portugueses. Em represália, os portugueses mataram um número desproporcional de angolanos.

Mas isso também é outra história.

Eis minhas propostas para o 4 de fevereiro:

1) Que os formulários de imigração sejam distribuídos durante os vôos, para acabar com a quase luta campal no desembarque para se conseguir a ficha. Não faz sentido criar uma outra fila (que nunca é respeitada) para se conseguir o formulário mediante a apresentação do cartão de vacina comprovando que o estrangeiro está imunizado contra a febre amarela. Em qualquer país, o funcionário da imigração verifica o cartão de vacina antes de carimbar o visto de entrada. Já seria uma fila a menos.

2) Colocar na imigração funcionários que conheçam os vários tipos de passaporte: ordinários, de serviço, diplomáticos, de organismos internacionais etc. E que conheçam os vários tipos de visto. E colocar na imigração funcionários que não sejam corruptos nem peçam dinheiro dos passageiros antes de dar o visto. Sim, isso acontece diariamente. E sim, há milhões de angolanos honestos e trabalhadores. A pergunta é: por que o governo angolano permite que funcionários corruptos fiquem em lugares tão importantes, ajudando a denegrir a imagem do país. Todo mundo está sujeito a golpes, mas deixe pelo menos o gringo chegar em paz no país, ter um desembarque tranquilo e depois se meter nas roubadas que quiser. O que acontece no aeroporto é a corrupção institucionalizada na mais pura essência.

3) Retirar o funcionário ou policial que fica atrás da imigração exigindo que os passageiros mostrem o visto no passaporte que acabou de ser carimbado pelo oficial da imigração. Por que é preciso um funcionário para conferir o passaporte que acabou de ser carimbado? Por que os passageiros precisam mostrar de novo o passaporte carimbado cinco segundos depois de sair da imigração? É mais uma forma de permitir a pequena corrupção.

4) Acabar com os pedidos de gasosa que malandros travestidos de funcionários do aeroporto fazem aos passageiros que aguardam a bagagem. Usando jalecos, esses sujeitos abordam os passageiros que têm mais bagagem e pedem dinheiro para facilitar a saída e os eventuais embaraços aduaneiros.

5) Praticamente não adianta entrar na saída de “nada a declarar”. Policiais sebosos bloqueiam a saída de todos os passageiros com mais de uma mala que se atrevem a sair pelo canal verde.

6) Retirar os malandros que ficam na parte de fora do desembarque e perseguem os passageiros até os carros querendo dinheiro e/ou de olho numa oportunidade para furtar.

São medidas simples que ofereço graciosamente ao governo angolano.

AH, OS RUMORES

Nas últimas semanas, são diversos os rumores sobre a complicada situação da economia angolana.

Com o preço do petróleo lá embaixo, fala-se que o PIB do país vai encolher entre 3% e 7% este ano.

Nos últimos cinco ou seis anos, o crescimento médio foi de 16%.

Ouço aqui e ali que:

1) o governo angolano está atrasando os salários dos funcionários públicos;

2) o governo angolano está atrasando o pagamento dos contratos;

3) o governo angolano está restringindo a remessa de dólares para o exterior.

E outras coisas mais.

Se com crescimento acelerado a vida em Angola era complicada, com crise imagine-se o que virá.

A insatisfação e a paciência do povo têm limites.

A eleição para presidente, que no ano passado se contava como certa para o mês de setembro, é cada vez menos falada.

Dizem que agora a nova Constituição precisa ficar pronta, e que é a Constituição que dirá se a eleição é direta ou indireta.

Com 82% do parlamento, o MPLA não precisa de ninguém para nada.

Resta saber se serão capazes de salvar a si próprios.

NO OLHO DA RUA

Conheci um brasileiro que passou a semana trabalhando em Luanda.

Reserva no Hotel Alvalade confirmada e paga com antecedência.

Na primeira noite, chegou uma autoridade qualquer e o governo de Angola exigiu 40 quartos.

Os hóspedes foram expulsos.

Receberam o dinheiro de volta e um volte sempre.

TUDO POR FAZER

Notícia publicada hoje na Angop, a agência de notícias oficial do governo angolano:

Governo apresenta Lei do Protocolo do Estado

Luanda – O Governo apresentou hoje, quinta-feira, à Assembleia Nacional, a proposta de Lei do Protocolo do Estado Angolano, cujo escopo é regular as normas afins, a ordem de precedências nas cerimónias oficiais e as regras a observar nos principais actos estatais públicos.

A proposta, apresentada pela vice-ministra das Relações Exteriores, Exalgina Gambôa, considera cerimónias oficiais do Estado, sujeitas à regras protocolares, as de tomada de posse de presidentes da República, da Assembleia Nacional e do Tribunal Supremo, bem assim de primeiro-ministro.

Igualmente, figuram os actos de empossamento de membros do Governo e outras entidades nomeadas pelo Presidente da República. Nas cerimónias de apresentação de cumprimentos de ano novo ao Chefe de Estado, despedida e regresso, quando de suas deslocações ao interior e exterior do país, em outras realizações oficiais nas quais tome parte, além de visitas de estadistas e chefes de Governo estrangeiro a Angola.

Na ordem de precedências das entidades que participam em cerimónias oficiais, destacam-se em primeira linha o Presidente da República, seguido do presidente da Assembleia Nacional e dos juízes presidentes dos tribunais Supremo e Constitucional.

De acordo com o diploma, que ainda será apreciado nas comissões de especialidade da Assembleia Nacional, o primeiro-ministro aparece em quinto lugar na ordem de precedências protocolares, seguido de antigos chefes de Estado, do juiz conselheiro do Tribunal de Contas, do procurador geral da República, dos vices-presidentes da Assembleia Nacional, deputados e de ministros e secretários de Estado.

As autoridades tradicionais ocupam o último lugar na ordem de precedências, sendo antecedidas dos presidentes de Conselhos de Administração de empresas Públicas, de directores gerais de institutos públicos, presidentes de confederações sindicais e empresariais, professores e titulares associados das universidades públicas.

O diploma estabelece ainda uma arrumação de precedências por grupos de entidades, nomeadamente entre parlamentares, órgãos do poder judicial, membros do Governo, serviços de apoio ao Presidente da República, nas províncias, entre militares, nas Universidades públicas, missões diplomáticas e ante chefes de Estado estrangeiro.

Estabelece a mesma arrumação em relação a representantes oficiais, membros do corpo diplomático acreditado no país, chefes das representações de organizações internacionais e quando haja entidades estrangeiras ou concorrência de estatutos, entidades fora do activo, entre outras.

A sessão de hoje, orientada pelo presidente da Assembleia Nacional, Fernando da Piedade Dias dos Santos, aprovou ainda a resolução sobre a adesão de Angola à Carta Africana da Juventude e o relatório do Provedor de Justiça referente aos anos de 2005, 2006 e 2007.

Mereceram também a atenção dos deputados, o Orçamento da Comissão Constitucional, o Regulamento das visitas de fiscalização e controlo à actividade governativa e o regulamento sobre o uso do crachá de deputado.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

NÃO TEM PLÁSTICO PRETO EM LUANDA

A obra não começou hoje.

Não existem aqueles plásticos pretos usados para cobrir móveis e afins e evitar os respingos de tinta, massa e cimento no chão e nos móveis.

Cláudio e Sebas passaram o dia percorrendo lojas de material de construção e mercados populares de Luanda atrás do material.

Numa loja, o dono disse que só vendo no atacado. O rolo inteiro. Cem metros. Seiscentos dólares.

Voltaram há pouco com três metros que conseguiram comprar não sei aonde.

A obra só deve começar amanhã.

DA ALMA ANGOLANA

Em algum momento do dia deve começar a obra no teto do quarto, que desabou quando estávamos fora.

Nas fotos abaixo, épossível ter uma idéia da surpresa que tive ao voltar da África do Sul, na semana passada.

O chão...

... e o teto.

Chamei a dona da casa, que também é nossa vizinha, para que ela pudesse constatar o estrago.

Fez caras e bocas e me autorizou a fazer uns orçamentos para a obra. Esse tipo de obra, como se sabe, é de responsabilidade do proprietário.

Só quem já precisou de algum reparo, colntratar pedreiro, encanador ou eletricista em Luanda poderá entender a dimensão do drama.

Fiz uns telefonemas. Consegui uma pessoa para vir aqui no dia seguinte.

Sebas é o nome dele. Sebas, de Sebastião.

Ele veio, olhou o teto. Basicamente tem de tirar o resto do reboco do teto e fazer um novo reboco.

EU – Em quanto tempo dá para consertar isso?
Perguntei o preço.

EU – Mas pense bem antes de dizer. Cobre um preço justo para que eu possa te contratar outras vezes e te indicar para os amigos.

SEBAS (com um sorriso verde da cor das notas de dólar) – Dez folhas de 100.

EU – Como?

SEBAS – Dez folhas de 100. Mil dólares

EU – Como? Mil dólares??? Você está brincando.

SEBAS – Fora o material. Isso é só a mão-de-obra.

Levo Sebas para falar com a dona da casa.

SEBAS – Mil dólares.

DONA DA CASA – O quê?

SEBAS – Mil dólares. Fora o material.

DONA DA CASA – Mas isso é muito caro.

SEBAS (tentando explicar o que precisa ser feito) – É assim: vou ter de...

DONA DA CASA (interrompendo Sebas) – Eu não entendo do seu ofício. Mas eu sei o quanto me custa ganhar mil dólares. Muito obrigada, mas vou ver outras pessoas e depois fazemos contato.

A dona da casa, angolana, constata o que os brancos estrangeiros enfrentam por aqui.

Depois que Sebas vai embora, ela diz que teve problema parecido na casa dela e que um amigo da neta fez o serviço por US$ 150.

Depois, num telefonema posterior, Sebas reduziu o preço para US$ 700, mas a dona da casa continuou achando caro demais.

Era uma sexta-feira e ela me pediu até segunda para fazer os contatos e iniciar o trabalho.

Hoje é quarta-feira e a dona da casa, que também é nossa vizinha, desapareceu.

No ano passado, num dos vários problemas hidráulicos da casa, contratamos uma empresa que cobrou US$ 1,5 mil para trocar uns canos e achar o vazamento. Pagamos e apresentamos a conta a ela. Ela pagou US$ 500 um mês depois, outros US$ 500 três meses depois e nunca mais pagou os US$ 500 restantes.

Como sabem, os aluguéis em Angola são caríssimos. Nossa casa de dois quartos custa US$ 7,5 mil por mês. Valor que é pago um ano adiantado. Ou seja: no ano passado, a dona da casa recebeu US$ 90 mil.

Como hoje já é quarta-feira decidi ligar para o Sebas. Vou pagar os US$ 700 e mais os US$ 300 do material. Se for esperar pela dona da casa, vamos embora de Angola no ano que vem e o problema não terá sido resolvido.

Para mim, esse episódio é altamente revelador da alma angolana.

E aqui não vai qualquer juízo de valor.

Não quero julgar ninguém.

É apenas uma constatação.

A falta de profissionais qualificados cria situações como essa, em que contratar um pedreiro com algum grau de competência torna-se um problema sério.

Como são poucos, os preços vão lá para cima.

Se o cliente é estrangeiro, o preço é ainda mais alto.

E o comportamento dos donos da casa é padrão por aqui. Até o Yanick, líder do grupo Afroman, tem uma música sobre isso. Já postei aqui no blog.

Basta fazer uma pesquisa e escutar.

A música é ótima.

Uma crítica feita por quem vive o país, e não por estrangeiros que só vieram aqui para ganhar dinheiro e reclamar da falta de estrutura de Angola.

terça-feira, 19 de maio de 2009

SOBRE O COMEÇO

Um ano depois de ter chegado a Angola, reli minhas primeiras impressões postadas aqui no blog. A data dos posts é de julho, quando comecei o blog, mas os fatos são de maio do ano passado.

A quem interessar possa, aqui vão os links do começo dessa nossa vida em Luanda:

Luanda, dia 1;

Luanda, dia 2;

Luanda, dia 3;

Confiança, chefe, confiança;

segunda-feira, 18 de maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

O MONSTRO DAS MAÇÃS-DA-ÍNDIA

Sou eu.

Dizem que crianças são crianças no mundo todo.

Começo a ter cá minhas dúvidas.

Como sabem, na casa do vizinho da direita tem um pé de maçã-da-índia, uma pequena fruta massuda que os angolanos simplesmente adoram.

Boa parte dos galhos estão sobre a nossa garagem, cujo chão vive cheio dessas maçãs.

A criançada da rua vive enlouquecida catando toda e qualquer maçã que encontra. Quando o vizinho da esquerda deixa o portão aberto (o que acontece todos os dias), a garotada pula o muro para pegar as frutas na garagem aqui de casa.

Flagrados, saem em debandada.

Como o muro tem umas grades com pontas, sempre há o risco de um acidente. Para evitar que continuassem pulando o muro, tentei fazer um acordo com eles. Se parassem de pular o muro, eu abriria o portão e os deixaria pegarem as maçãs-da-índia.

O acordo funcionou temporariamente. Era até divertido ver a farra que a garotada fazia quando eu abria o portão para eles entrarem.

Garotos entre seis e 12 anos.

A notícia se espalhou pela vizinhança e a molecada passou a se revezar em grupos, ao longo do dia, para bater no portão querendo entrar para pegar as maçãs.

Muitas vezes, quando eu voltava para casa, encontrava um pequeno grupo no portão, aguardando a minha chegada.

GAROTOS - Esperamos bwé (leia-se bué, que significa muito em kimbundu) !!!

Depois, passaram a bater no portão às oito da manhã do sábado e do domingo querendo entrar para pegar as frutas. Alguns reclamavam que não há campainha na casa.

Virei refém em minha própria casa, obrigado a estar disponível para abrir o portão várias vezes ao longo do dia.

Só que muitos continuaram (e continuam) a pular o muro.

E aí começa a se revelar um pouco da jovem alma angolana.

Os garotos dizem sim para tudo. Aceitam o acordo, mas no momento seguinte, continuam a fazer o que sempre fizeram.

Flagrados em cima do muro, fogem. Minutos depois, batem no portão pedindo para pegar as maçãs.

Confrontados com o fato de terem quebrado o acordo e estarem pulando o muro, negam que estivessem pulando o muro.

Só faltam dizer “eu não sou eu”.

Como eles quebraram o acordo, o acesso à garagem para recolher as maçãs está temporariamente suspenso.

Mesmo assim, continuam a bater no portão e a fazer tudo o que sempre fizeram. Jogam pedaços de pau nos galhos para derrubar mais maçãs. A madeira, em geral, cai na garagem.

Enchem garrafas plásticas com areia e jogam nos galhos. Todos os dias há três ou quatro garrafas na garagem.

Passam pedaços de madeira, de ferro e de canos por baixo do portão da garagem na esperança de capturar alguma maçã mais próxima.

Durante a nossa viagem, o Cláudio veio colocar o carro para funcionar, para evitar problemas com a bateria. Disse que, quando chegou aqui, um dos moleques estava em cima do teto do carro, jogando paus nos galhos das árvores.

Não sei se as crianças mudaram, se as crianças angolanas são diferentes ou se eu mudei.

No meu tempo de criança, não se pulava sistematicamente o muro dos vizinhos sabendo que eles estavam em casa.

Havia uma regra não escrita sobre limites, até onde se podia ir.

Já ouvi de diversas pessoas que roubos e furtos entre os angolanos são um problema apenas se o autor for pego em flagrante delito. Se ninguém ver, não tem problema.

Aparentemente, não haveria um problema moral em dar uma de amigo do alheio e subtrair os bens de outrem.

Dizem que esse comportamente é consequência da guerra. A guerra explica tudo e justifica qualquer coisa.

Até urinar na rua.

Outro dia estava fazendo uma gravação no fim da ilha de Luanda. Um lavador de carros olhava de longe a montagem do tripé e minha preparação para a filmagem.

De repente, ele interrompe a lavagem do carro e começa a caminhar na minha direção. Coloca o pênis para fora e começa a urinar. Vem caminhando na minha direção e urinando. Na frente de várias pessoas que se aglomeravam atrás da câmera. O mijão pára a uns 20 metros de onde estou gravando. Observa o que estou fazendo. Termina de urinar, coloca o pênis para dentro dos shorts e retorna para a lavagem do carro.

E eu me tornei o vilão das maçãs-da-índia. Tornei-me aquele adulto que existe na vida de toda criança, em toda rua, em todo bairro, ranzinza e ranheta, que não deixa as crianças entrarem no quintal para pegar as frutas.

Com o agravante de ser estrangeiro. Certamente sou o branco de merda ou brasileiro de merda, como alguns costumam se referir aos brasileiros nos momentos de irritação, ou outro calão angolano que desconheço.

Em Angola, sou o mostro das maçãs-da-índia.

sábado, 16 de maio de 2009

UM ANO

É o que falta para o fim da saga angolana.

Será que sofrerei de banzo?

O visto de trabalho ainda não saiu.

Provavelmente irei embora sem ele, apesar de eu ter entregado toda a documentação no ano passado.

Algumas coisas que acontecem por aqui são incompreensíveis e a guerra, que está sete anos para trás, cada vez menos poderá ser usada como argumento.

Mas continuará a ser usada como desculpa pelos incompetentes.

Fico imaginando como será este país daqui a 20 anos.

Com tanta riqueza, tantos recursos. Há petróleo, diamantes, água, terra fértil, gente jovem.

Conheço um angolano que mora num musseque, mas vai passar férias na Inglaterra.

Mora num musseque, e vai gastar em libras.

Não tem luz em casa, mas vai olhar as modas no velho mundo.

Algumas coisas são incompreensíveis.

Rica Angola, pobre Angola.

COMO ANGOLA SABOTA O ESFORÇO MUNDIAL PARA COMBATER A GRIPE SUÍNA

Ainda na África do Sul, leio na Angop, a agência de notícias angolana, que o glorioso Aeroporto 4 de Fevereiro está preparado para enfrentar a gripe suína.

No voo, os passageiros recebem o formulário da autoridade sanitária de Angola.

Um questionário em português, inglês e francês sobre lugares onde esteve nos últimos 15 dias, se está com tosse, gripe, febre etc.

Fico impressionado com a ligeireza angolana em identificar possíveis infectados pelo vírus da gripe suína e tentar impedir a entrada do vírus no continente pelo glorioso 4 de Fevereiro.

Na grande balbúrdia que é a sala de imigração do aeroporto 4 de Fevereiro, mais uma vez os passageiros se engalfinham para mostrar o cartão com a comprovação de que estão vacinados contra a febre amarela e, só então, receber o formulário de imigração.

O funcionário que distribui o formulário, usando jaleco branco e provavelmente funcionário da defesa sanitária, apenas carimba no verso do formulário e não pede o outro questionário, sobre a gripe suína.

Imagino que o formulário será pedido pelo funcionário que carimba os vistos.

Mais uma fila. Entrego os dois formulários, o da imigração e o da gripe suína.

A funcionária, completamente perdida, olha com estranheza e pergunta para o colega do lado.

COLEGA DO LADO - Não, esse é o velho. O que vale é este (apontando para o formulário da imigração).

A funcionária completamente perdida me devolve o formulário da gripe suína.

EU - Mas a senhora não vai ficar com o formulário?

FUNCIONÁRIA COMPLETAMENTE PERDIDA - Não, só precisa este (mostrando o da imigração).

EU - Mas este é o formulário da autoridade sanitária para ajudar no controle da gripe suína.

FUNCIONÁRIA COMPLETAMENTE PERDIDA (dirigindo-se ao colega do lado) - É da autoridade sanitária, para controle da gripe suína.

COLEGA DO LADO (com a típica cara de enfado de alguns angolanos) - É assim: este (da vigilância sanitária) é o velho. O que vale é este (o da imigração).

A funcionária completamente perdida me devolve o formulário de controle da gripe suína.

Coloco no bolso e vou embora.

Não vi nenhum passageiro entregando o formulário da gripe suína.

Ontem dei uns três espirros aqui em casa.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O QUE VEM A SEGUIR?

O que determina o comportamento de uma pessoa?

O que determina o comportamento de um povo?

O que leva ao sucesso ou ao fracasso?

Já disseram que o sucesso é solitário.

E o fracasso? Será também solitário ou o conjunto de fracassos individuais?

No último ano, percorri 11 países africanos.

Deu para ter uma idéia rasa, rasteira, ridícula do que é esta parte do mundo.

Na verdade, não deu para nada. O que se pode entender com visitas de alguns dias, nos piores casos, e de algumas semanas, nos melhores casos?

Serviu apenas para dar cores, cheiros e rostos aos fatos, histórias e coisas que li nos livros, na internet, nas revistas, nos jornais.

Há pessoas incríveis por aí. Por um breve momento, jornalistas chegam, contam as histórias dessas pessoas. Elas se sentem (?) importantes.

Sentem?

Ou essas pessoas têm a importância que atribuímos a elas?


São importantes pelo tempo e dimensão que quisermos.

Somos os senhores da importância. Elegemos quem será importante até a próxima edição, até a próxima vítima.

E, quando partimos, elas já não são mais importantes. Cumpriram seu papel.

Estariam condenadas às suas maravilhosas vidas medíocres?

Enquanto nas cidades pensamos no novo computador, no novo carro, no novo filme do Batman e na origem de Wolverine, nas selvas do Congo mulheres e crianças tentam passar um dia sem serem vítimas de abuso sexual.

O que terá acontecido com aquela garota de 17 anos que conheci em Goma? Aos 10 anos ela foi brutalmente estuprada por quatro homens. Precisou de cirurgias de reparação no ânus e a na vagina. A bexiga rompeu. Ela não tinha controle sobre a urina.

Fui embora num avião e ela continua no Congo.

Por que ela nasceu no Congo e vive uma vida desgraçada?

Afinal, é uma vida desgraçada? Para quem? Qual a referência de desgraça para ela? É a mesma para mim?

O telescópio Hubble viu coisas que ninguém mais viu. O homem envia foguetes, robôs, telescópios ao espaço. Recebe sinais estranhos do espaço sideral.

Enquanto parte da humanidade está na iminência do próximo salto, a outra parte está voltada para trás.

Em 2001, uma Odisséia no Espaço, o monolito negro simbolizava o que vinha a seguir. O próximo passo, o próximo salto.

Quando os homens das cavernas fizeram dos ossos uma arma de matar, o monolito negro estava lá para jogar a humanidade na era espacial. Quando o computador Hall perdeu o controle, lá estava o monolito negro para jogar o homem numa miscelânia espaço-temporal.

O que vem a seguir?

quinta-feira, 14 de maio de 2009

BREVE RELATO DE UM RETORNO A ANGOLA

Nathanael, o motorista com quem trabalhei nas últimas quatro semanas, me pegou no hotel em Johanesburgo às 06h30. No caminho para o aeroporto, ele conta que a neta recém-nascida, de apenas dois dias, morreu.

O vôo foi tranquilo. Pela primeira vez na vida voei de classe executiva. Sim, vivi a vida por detrás da cortina que isola a plebe na classe econômica.

Para a própria segurança de vocês, não direi os motivos pelos quais eu estava do outro lado da cortina.

Cadeira espaçosa, águas, vinhos, espumantes, refrigerantes, entradas, carnes. A classe executiva é praticamente um restaurante voador.

Meia hora antes de o avião pousar, as aeromoças distribuem formulários do serviço sanitário de Angola para serem preenchidos. Em português, inglês e francês, o questionário foi obviamente desenvolvido por conta da gripe suína.

Muito bem, controle sanitário eficaz.

Pelo fato de estar na classe executiva, consegui desembarcar antes da plebe.

Isso significa que não ficarei uma hora na fila da imigração. Mas como sempre acontece, as outras filas sempre andam mais rápido.

A funcionária que cuida da minha fila parece estar em treinamento. Faz perguntas ao colega do lado a cada passaporte.

Na minha vez, ela passa um longo tempo preenchendo informações no terminal de computador. Quando termina, percebe que o passaporte é diplomático e ela deveria ter preenchido outra tela.

Também para a proteção de vocês, não direi as razões pelas quais tenho um passaporte diplomático.

Depois de receber o carimbo da imigração, todo passageiros tem de mostrar o passaporte para outro funcionário do governo antes de ter acesso às esteiras de bagagem.

Como sabem, os angolanos adoram pedir um documento, um passaporte, um papel qualquer para dizer que falta um carimbo.

Entrego o meu passaporte. Ele olha de trás para a frente, da frente para a trás.

FUNCIONÁRIO DO GOVERNO – Onde está o visto?

EU – O passaporte é diplomático. Não precisa de visto.

FUNCIONÁRIO DO GOVERNO – É diplomático?

EU – Sim.

Sou liberado.

Estranhamente, as malas estão na esteira. Despachei três bagagens. Uma está caída entre as esteiras. Sou obrigado a pular a esteira para resgatá-la. A segunda chega logo depois. Quando percebo a terceira, ela está distante, no outro lado da sala. Tenho de esperar que dê a volta na esteira. Mas vou monitorando de longe.

Eis que a mala é retirada da esteira por um funcionário do aeroporto. Vou lá do outro lado recuperar a mala.

EU – Por que você tirou a mala da esteira?

FUNCIONÁRIO DO AEROPORTO – Ela já rodou aqui duas vezes.

EU – Mas eu acabei de sair da imigração. Se você ficar tirando as malas que estão na esteira, quem estiver lá do outro lado não vai ver e vai ficar horas esperando a mala.

FUNCIONÁRIO DO AEROPORTO – Mas ela já rodou muito.

EU – Mas você tem que deixar mais tempo.

O funcionário continua a tirar as malas da esteira.

Vou em direção à saída. Um funcionário com jaleco salta na minha frente e pede os comprovantes das bagagens. Entrego e sigo.

Vou para o canal verde, do nada a declarar. Três policiais (duas mulheres e um homem) dizem que tenho de abrir a bagagem.

EU – Passaporte diplomático.

Uma delas pega o passaporte. Abre numa página aleatória e, em seguida, vai conferir a etiqueta de uma das malas. Não faz nenhum sentido, mas fico com a impressão de que eles precisam mostrar que estão conferindo algo para justificar a própria existência.

Saio naquela multidão. Não vejo o Cláudio. Ligo para o Cláudio. A ligação é ruim e não, não falamos a mesma língua. O português do Brasil e o de Angola não são iguais. Isso é ficção. Não nos entendemos pessoalmente. Por telefone é pior ainda.

EU – Cláudio, cadê você?

CLÁUDIO - Estou aqui.

EU – Aqui onde, Cláudio?

CLÁUDIO – Na saída.

EU – Não estou te vendo. Por favor, venha para o desembarque. Estou cheio de bagagens e preciso da sua ajuda.

Cláudio aparece. Vou na direção dele.

Antes de alcançá-lo, tenho de furar um bloqueio angolano interessado em levar minhas malas. Digo que não precisa. Cláudio fica ao meu lado e vamos empurrando o carrinho.

Nisso, um angolano do outro lado da rua (sim, o desembarque termina na rua) vem em minha direção. Paro o carrinho de supetão e olho para ele, que usa camiseta, bermuda e chinelo.

ANGOLANO – No problem, my friend.

O angolano acha que sou gringo. De fato, sou gringo.

CLÁUDIO – Não precisa.

Seguimos em direção ao carro. O angolano nos segue. Chegamos ao carro. Cláudio abre o porta-malas. O angolano se aproxima e segura o carrinho. Outro angolano chega.

EU (em tom exaltado, quase gritando) - O que foi? Qual o problema? O que vocês querem?

ANGOLANO – Agora sim...

O angolano não esperava que eu fosse brasileiro ou que falasse português.

Sem dizer nada, ele se afasta e fala para o outro angolano.

ANGOLANO – Tás a ver, você veio me seguir...

Momentos depois, vejo o angolano seguindo um chinês que empurra o carrinho de bagagem no estacionamento. Outros momentos depois, vejo o angolano empurrando o carrinho de bagagem do chinês em direção a um carro.

Chegamos em casa.

Uma moto está estacionada na porta da garagem. É a moto do vizinho. Os vizinhos, como sabem, adoram estacionar na porta da garagem aqui de casa. Não estacionam na deles. Estacionam na nossa.

Abro o portão. A garagem está imunda com folhas, maçãs da índia que caem da árvore do vizinho, latas de Cuca amassadas, garrafas plásticas de água vazias, pedaços de ferro, de madeira. Coisas deixadas pelas crianças da rua que pulam o muro para pegar as maçãs da índia que caem na nossa garagem.

Cláudio me diz que teve de deixar o carro em outro lugar porque um dia chegou aqui e os garotos estavam em cima do carro.

Entro em casa e encontro dois cadáveres de barata. Um na sala e outro no corredor.

Subo para o andar de cima. Tento acender a luz. Não há luz. Desde que cheguei, há sete horas, não há luz na região. O gerador funciona a todo vapor, fazendo um barulho infernal.

Quando chego no quarto, a grande surpresa. Parte da laje do teto desabou sobre parte da cama. Um pedaço grande, de uns 40cmX30cm, teria feito um belo estrago se estivéssemos ali no momento em que ele caiu. Há sujeira pelo quarto todo e outros pedaços da laje podem cair a qualquer momento. Terei de dormir no quarto de hóspedes.

A laje desabou, provavelmente, por causa de infiltrações antigas e serviços mal-feitos.

Agora tenho de achar um pedreiro para consertar o teto. Retirar toda a camada de laje que está para cair, lixar, corrigir, pintar etc.
Como é bom estar em casa.

BACK TO ANGOLA...

No comments!

terça-feira, 12 de maio de 2009

AS VEZES EM QUE ENCONTREI O CORONEL MUAMMAR KADAFI E ROBERT MUGABE NA ÁFRICA DO SUL

A primeira vez foi no sábado, durante a posse de Jacob Zuma.

Eu estava no anfiteatro do Union Building, a sede do governo sul-africano, espremido entre uma centena de jornalistas do mundo inteiro que acompanhavam a cerimônia.

O Union Building é um prédio elegante que fica na parte alta da região central de Pretória. Possui belos jardins que ficam na parte baixa. Para chegar ao Union Building é necessário subir algumas escadarias. Mas lá de baixo tem-se uma visão magnífica do prédio do governo.

Bem em frente ao palco em que Zuma fez o juramento e assinou o termo de posse ficava o cercadinho da platéia super vip.

Ali, só entravam presidentes, primeiros-ministros, ministros de relações exteriores, ministros em geral, reis, príncipes e ditadores.

O ritual era o seguinte: as autoridades super vips chegavam em seus carrões. Por dois telões imensos a platéia podia assistir os dignatários descendo dos carros e subindo as escadas forradas com tapete vermelho até a lateral do palco onde Zuma ficaria.

Assim que terminavam de subir as escadas, eram encaminhados para o cercadinho vip, bem em frente ao palco.

Algumas autoridades provocavam reação do público.

Mas nada comparado ao coronel Muammar Kadafi, presidente/ditador/dono da Líbia, e a Robert Mugabe, presidente/ditador/dono do Zimbábue.

Mugabe chegou primeiro.

Assim que a imagem dele piscou no telão, os convidados no anfiteatro comemoraram. Muitos aplaudiram. Mas a reação mais entusiasmada foi a da plebe, que estava distante, nos gramados do Union Building, assistindo a tudo por outros telões.

Nas fotos sem qualidade nem apuro técnico aí abaixo (que fiz lá de longe, com o zoom da minha maquininha no máximo) dá para ver o Mugabe chegando com a patroa.

E depois cumprimentando alguém que não sei quem é. Mas deve ser importante.

De onde eu estava, dava para ver e escutar a mutidão lá embaixo.

Uma espécie de delírio coletivo. Aplausos, gritos.

Vejam aí abaixo a visão que eu tinha de parte da ala dos convidados vips e da plebe lá embaixo.

Mugabe foi o libertador do Zimbábue, antiga Rodésia.
Ao longo dos anos, a situação degringolou.
Não vou entrar em detalhes nem fazer análise política do caso.
Quem quiser saber um pouco mais, clique aqui e leia no sítio da CIA. Mas lembre-se: quem escreveu tudo isso foi a CIA.
Há uma biografia do Mugabe. Chama-se Mugabe, escrita pelo Martin Meredith, autor de vários livros sobre a África.
Antes que perguntem, sim, também comprei esse.
Antes que perguntem de novo, sim, foi por orientação expressa das vozes que falam na minha cabeça toda vez que venho para a África do Sul. Depois chegou o coronel Muammar Kadafi.

Depois chegou o coronel Muammar Kadafi.
Na hora, fiquei em dúvida se era o Cauby Peixoto.
Mas a reação da platéia me deu a certeza de que era o Kadafi.
Gritos e aplausos.
Kadafi caminha como um rei, punho em riste, como podem ver aí abaixo.
Esta foi a primeira vez que vi o Kadafi ao vivo. De (bem) longe, mas ao vivo.

A segunda vez foi no dia seguinte, no domingo.

Estava almoçando sozinho na Mandela Square, bem ao lado da estátua gigante do Mandela, quando uma multidão passa na minha frente. Achei estranho, pois não era uma movimentação típica de turistas naquele lugar.

De repente, olha o Kadafi aí (embaixo).

Ele passou bem na minha frente, cercado por seguranças.

Eu estava com o garfo na mão, saboreando um filé.

O Kadafi se dirige para a estátua gigante do Mandela e fica ali, tirando fotos com algumas pessoas que me pareciam do governo sul-africano. Em questão de segundos, uma multidão se junta no local.

Os seguranças do Kadafi enlouquecem tentando impedir a aproximação dos turistas que passam a tirar fotos do homem desesperadamente.

De onde estou, só vejo o piscar de flashes.

Tudo o que não quero é levar um tiro de um guarda-costas líbio enquanto almoço na Mandela Square.

Depois de uns cinco minutos, Kadafi começa a se movimentar. Sai acenando para os turistas. Só faltou mandar beijinhos.

Veja abaixo a foto mais perto que consegui fazer dele.

Ele entra num restaurante na outra extremidade da Mandela Square. Aos poucos os turistas se dispersam.

Mas permanece a dúvida se Kadafi e Cauby são a mesma pessoa.

É possível.

Afinal, eles nunca foram vistos juntos.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A REVOLTA DAS MÁQUINAS E A VITÓRIA DAS VOZES NA MINHA CABEÇA

No momento, sou vítima delas. Da revolta das máquinas e das vozes na minha cabeça que me mandam fazer coisas.

Primeiro, a revolta das máquinas.

O programa que uso para capturar as imagens da câmera, transformá-las em um formato mais leve para serem transmitidas ao Brasil não reconhece a câmera.

Em Angola seria impossível resolver o problema.

Tive de adiar o retorno para quinta-feira, única data com vôo disponível.

Estou convencido de que filmes como o “Exterminador do Futuro” e “Matrix” cada vez mais se afastam da categoria de ficção científica e se aproximam da de documentário.

Assim como dizem que a maior vitória do demônio é fazer as pessoas acreditarem que ele não existe, a das máquinas é nos fazer crer que elas não estão no controle.

Se conseguir resolver o problema do computador, tentarei produzir algo em Johanesburgo até quarta à noite.

No meio de madrugadas insones, terminei Disgrace, do J. M. Coetzee (que recomendo fortemente a leitura).

Agora, as vozes na minha cabeça que me mandam fazer coisas.

Como sabem, quanto mais tempo passo na África do Sul, mais as vozes que me mandam comprar livros se manifestam na minha cabeça.

Ontem, por exemplo, fui almoçar num dos restaurantes da Mandela Square. Fica a cerca de 500 metros do hotel. Eu caminhava pelos corredores do shopping quando, ao dobrar uma esquina, dou de cara com a Exclusive Books.

As vozes se manifestam.

Foi tudo muito rápido e não me lembro de muita coisa. Apenas flashes rápidos.

Imagens borradas, desfocadas, como se eu estivesse fora do meu corpo, vendo a mim mesmo lendo os títulos nas lombadas dos livros. Mas isso eu só estou lembrando agora, no momento em que escrevo sobre o assunto.

Ontem, posso dizer que tive de fato uma ausência. Tenho apenas duas lembranças nítidas: quando avistei a fachada da Exclusive Books e quando deixei a livraria. Não tenho idéia de quanto tempo passou entre um momento e outro.

Sei que, quando me dei conta, estava com uma sacola cheia de livros numa das mãos e uma fatura do cartão de crédito na outra...

Na sacola, encontrei “The conservationist”, da Nadime Gordimer; “Cry, the beloved country”, do Alan Paton; “19 with a bullet”, do Granger Korff (imagino que as vozes tenham me mandado comprar este por causa da relação com Angola); um guia de viagens da Namíbia; e “Q&A”, do Vikas Swarup, que originou o Slumdog Millionaire e que comecei a ler ontem.

As máquinas e as vozes venceram mais uma vez.

domingo, 10 de maio de 2009

UM GUARDA-CHUVA PARA JACOB ZUMA

Convidados vips para a posse de Jacob Zuma como presidente da África do Sul protegem-se da chuva antes da cerimônia de posse.

QUASE ESQUECERAM DO ZÉDU NA POSSE DO ZUMA

Entre as dezenas de chefes de Estado e de governo, reis, príncipes e ditadores presentes à posse de Jacob Zuma, eis que surge o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos.

Durante a cerimônia, uma voz anunciava a chegada dos dignatários.

Os presentes podiam ver a imagem das pessoas descendo dos carros e caminhando para o anfiteatro num telão montado ao lado do palco onde Zuma fez o juramento como presidente.

Eis que Zédu surge no telão. Mas a voz silencia. Nenhuma menção ao presidente angolano.

Ele desce do carro, sobe as escadas e caminha pelo tapete vermelho em direção ao local reservado às autoridades.

Dois presidentes depois, a voz anuncia.

VOZ QUE ANUNCIA AUTORIDADES - Please, ladies and gentlmen, let´s welcome the president of Angola, José Eduardo dos Santos, who is already here...

sábado, 9 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

ZUMA E AS MADRUGADAS SUL-AFRICANAS

Acabo de receber a informação de que os jornalistas credenciados precisam estar em Pretória amanhã, às 5h da madrugada, para pegar os ônibus que os levarão aos locais definidos para a cobertura da posse de Jacob Zuma, nas dependências do Union Building, a sede do governo sul-africano.

Soube disso por acaso, agora há pouco, ao falar com o Edu Bernardes, cinegrafista da TV Globo que faz dupla com o Renato Ribeiro aqui na África do Sul.

Ia combinar uma pizza quando ele falou que não dava por causa do horário de amanhã.

Estivemos de manhã em Pretória para o credenciamento. Apesar das filas enormes, Allana, nossa produtora, conseguiu resolver nossa vida em uma hora.

Mais de 900 jornalistas estrangeiros estão credenciados para a cobertura.

Os organizadores foram incapazes de nos passar a informação. Tenho de admitir: meu santo africano é forte mesmo. Estávamos programados para sair daqui às 7h. Se não ligo para o Edu, ia ser uma desgraça.

Como estou hospedado em Johanesburgo, isso significa que terei de acordar às 3h30, pegar o carro às 4h, chegar em Pretória por volta das 5h, pegar o ônibus da imprensa às 6h para tentar conseguir uma boa posição.

Nunca me falaram sobre essas coisas no curso de jornalismo.

O presidente Lula não vem.

Será representado pelo ministro da Igualdade Racial, Edson Santos.

Segundo a programação oficial, divulgada apenas ontem à noite, os convidados começam a chegar às 7h da manhã.

Entre 9h30 e 10h30, é a vez dos chefes de Estado e de governo.

Entre 11h e 12h, Zuma é empossado.

Às 12h, ele faz o grande discurso à nação.

E o mundo volta ao normal.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

SOBRE ORÂNIA, AS OUTRAS COISAS E OS OUTROS LUGARES

Acabei de chegar de Orânia.

Na verdade, de Kimberley, onde eu e Zee, o cinegrafista sul-africano, pegamos o avião para Johanesburgo depois de horas e horas de atraso.

Mas só vou contar as coisas depois.

Sobre Orânia e as outras coisas e lugares.

Informações demais acumuladas desde que desembarquei na África do Sul, no último dia 17.

Coisa demais para processar e ordenar de forma inteligível.

Além disso, as jornadas de trabalho têm sido prolongadas e exaustivas. E em alguns dias tive de levantar antes das quatro da manhã por causa dos deslocamentos para cá e para lá.

Estou quase no fim de Disgrace, que me acompanhou durante a viagem e tem me deixado um tanto quanto angustiado.

O livro virou filme (não sei se já foi lançado) com o John Malkovich no papel principal.

Cada uma dessas viagens pela África me traz um certo grau de perturbação.

Cada país africano é perturbador a seu modo.

Quem viaja pela África do Sul tem a imagem de país moderno, desenvolvido. As estradas são asfaltadas, as ruas são limpas. O turismo é forte. Todos voltam encantados

Mas tenho a impressão de que as feridas estão abertas.

Um pequeno toque e a frágil casca que ensaia uma cicatrização se romperá com facilidade.

E o livro do Coetzee é de uma angústia só.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

DISGRACE, J.M. COETZEE, ROBBEN ISLAND E MARY BURTON

Comecei a ler Disgrace, do J.M. Coetzee, no café da Exclusive Books, em Cape Town.

A primeira frase é assim: “For a man of his age, fifty-two, divorced, he has, to his mind, solved the problem of sex rather well.”

Coetzee nasceu e viveu boa parte da vida em Cape Town. Foi professor universitário, ganhou o prêmio Nobel de Literatura em 2003.

Segundo me contam novos amigos de Cape Town, Coetzee costumava ter caso com as alunas. Hoje, mora em Londres.

É bom ler um livro que menciona ruas e lugares por onde passei.

Fez frio em Cape Town. Nuvens carregadas esconderam a Table Mountain durante boa parte da semana.

Fui a Robben Island. O guia era um ex-preso político. Passou sete anos lá, alguns com Nelson Mandela.

Passei pela cela do Mandela. Não havia banheiro. Os presos recebiam um balde para fazer as necessidades. Pela manhã, iam ao banheiro coletivo despejar fezes e urina. Lavavam o balde com as próprias mãos.

Não há nomes nos livros, mas relata-se que os presos políticos eram colocados nas celas com presos comuns para, deliberadamente, sofrerem abusos sexuais que serviam para “quebrar-lhes o espírito”. Abusos sexuais de outros presos e dos guardas.

Entrevistei Mary Burton, argentina que morou no Brasil, vive em Cape Town há mais de 40 anos e integrou a Comissão de Reconciliação e Justiça. Ela fala sobre a frustração das vítimas com o fato de pouca gente ter sido punida. E da frustração com a anistia concedida a todos. No meio da conversa, ela diz:

MARY BURTON – A anistia foi o preço a ser pago pela paz.

MANDELA VOTA NA ÁFRICA DO SUL

video
Reportagem da TV Brasil sobre as eleições na África do Sul.