No vôo entre Joanesburgo e Luanda, boa parte dos assentos é ocupada por trabalhadores chineses.
Eles só falam chinês.
A impressão é de que entraram num avião pela primeira vez.
Um casal de chineses senta ao meu lado.
O serviço de vídeo do avião começa a funcionar.
A chinesa gruda os olhos na tela do meu monitor.
O dela não está funcionando.
Ela aperta os botões.
Nada.
E conversa com o chinês ao lado dela.
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Os dois passam a apertar os botões na tela do monitor e no aparelho de controle remoto.
Sem sucesso.
A chinesa resolve pedir minha ajuda.
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EU – ...
Por meio de sinais tento explicar o funcionamento do monitor de vídeo, mas parece que o aparelho está mesmo quebrado.
Ficamos nisso um bom tempo.
A chinesa insiste em falar comigo.
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Chega a refeição.
A aeromoça pergunta se queremos frango ou carne.
Sem entender nada, os chineses apontam para uma das bandejas.
Recebem frango com arroz, uma salada de macarrão fria e uma fatia de bolo de chocolate.
A chinesa abre todos os potinhos.
Prova o macarrão e faz cara de quem estranhou o sabor.
Prova o bolo de chocolate e faz cara de quem estranhou o sabor.
Prova o frango e faz cara de que estranhou o sabor.
Os dois passam a me observar enquanto como e soltam risinhos chineses.
Meia hora antes de o avião pousar, a tripulação começa a distribuir os formulários da vigilância sanitária para o controle da gripe suína.
Os chineses enlouquecem.
Imagino a sensação deles.
A mesma que eu teria se recebesse um formulário em chinês para preencher.
Primeiro, por meio de gestos, a chinesa me pede uma caneta emprestada.
Depois, pede a minha ajuda para preencher.
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Peço o passaporte dela, que vem escrito em chinês e em alfabeto romano.
Preencho o nome, sobrenome, local de emissão do passaporte.
Aí chegamos ao momento delicado.
O questionário em si, com perguntas sobre os países visitados nos últimos 15 dias, se a pessoa está com tosse, febre, dor nos olhos etc.
A chinesa insiste para eu preencher o formulário.
Digo que não, que a partir de agora é com ela.
Mostro que ela tem de assinar no final do documento.
Ela não entende.
Mostro o meu formulário, em que meu nome está escrito em letra de forma no começo e assinado no final.
Ela parece entender.
E pede para eu assinar o documento dela.
Por meio de sinais, tento explicar que não posso. É ela quem tem de fazer isso.
Aparentemente, ela não sabe escrever no alfabeto romano.
Tento explicar que ela, então, precisa copiar as letras que formam o nome e o sobrenome para a última linha do formulário.
Ela insiste para eu assinar.
Digo que não.
Ela e o chinês se levantam e vão ao encontro dos demais chineses a bordo.
A tripulação está enlouquecida tentando ajudar os outros 97 chineses a preencher os formulários.
Meia hora depois, a chinesa volta com outra chinesa trazendo um formulário preenchido e assinado.
Ela me pede para verificar se está tudo ok.
De fato, a parte com as perguntas sobre eventuais sintomas de doença também está preenchida.
Teve febre nos últimos 15 dias? Não.
Tosse? Não.
E por aí vai.
Temos, pois, a situação em que uma centena de chineses chega a Angola e entrega na imigração formulários assinados garantindo que estão em perfeitas condições físicas e mentais.
Rés-do-chão
2 horas atrás



